Quando o dia do encontro com Alexei finalmente chegou, os mais diversos sentimentos rondavam os integrantes do grupo. Não era possível dizer quem se encontrava mais tenso entre as cinco garotas que iriam até o parque e os que ficariam na escola esperando até que elas voltassem. Tamaki e os gêmeos tinham tentado os mais diversos protestos contra elas irem sozinhas, mas não conseguiram nenhum resultado satisfatório. Elas sabiam que deviam ir sem os demais e não queriam arriscar.

- Ora, ora. Sempre tão pontuais. – a voz de Alexei soou das sombras quando o quinteto se pôs no centro da clareira. Antes que ele se mostrasse, no entanto, uma caixinha plástica foi jogada aos pés das garotas. Foi Anny quem se abaixou para recolher – Vejam. São as gravações de vocês. – ele parecia sorrir pelo tom de voz.

- Deixe de ser covarde e apareça. – Hana tinha a voz dura, elevada apenas o suficiente para que ele a escutasse.

O loiro caminhou até elas, parando de frente para o grupo. Logo atrás, um rapaz ruivo apareceu, ficando a alguns passos de distância. Catarina o reconheceu e as outras supuseram sua identidade como sendo Arthur, mas ele não chegou a se apresentar ou ser apresentado. O silêncio tomou conta do lugar por alguns longos minutos até que mais um rapaz se aproximasse. Hana franziu o cenho ao vê-lo, mas o outro apenas encarava o chão. Alexei se virou e indicou que se aproximasse. Arthur e as garotas apenas acompanhavam tudo com o olhar.

- Olhe para a sua querida colega de classe e tenha modos. – o tom do loiro era calmo e ele sorria ao falar.

Os orbes dos estudantes de Moda se cruzaram.

- Eu… – ele respirou fundo. Ela podia ver como aquilo estava sendo difícil para ele, o que a agradava de um jeito sádico e inesperado – Eu sinto muito por tê-la atacado covardemente no outro dia. – ele quase cuspia as palavras e seu olhar endureceu quando ela sorriu.

- Lógico que sente. – ela riu em deboche – Creio que você já recebeu o devido… Castigo. – olhou brevemente para Alexei, que assentiu de forma quase imperceptível – Mas eu adoraria socar a sua cara de novo.

O rapaz ameaçou avançar sobre a colega de sala, mas Arthur, sem que ninguém tivesse notado, tinha se posto atrás dele e o impediu ao puxar seus pulsos para as costas e segurá-los com uma força que seu corpo não aparentava ter. Alexei fez um sinal com a cabeça para que os dois se afastassem e tornou a olhar para as garotas. Catarina era a que parecia mais receosa, enquanto Hana estava perceptivelmente distraída com Arthur afastando seu colega de turma para as árvores.

- Creio que o que vocês mais querem saber é… A razão de tudo isso. – o loiro falava com o mesmo tom de antes.

Nenhuma delas respondeu.

- Ora, não sejam assim. – ele estava visivelmente se divertindo – Podemos todos ser amigos. – seu sorriso se alargou e ele abriu os braços ao continuar – Uma proposta de paz. O que acham?

- Acho que alguém te drogou de manhã se você realmente acha que vamos cair nessa. – a resposta ácida veio de Jenna.

O rapaz piscou em confusão.

- Mas não era isso que vocês tanto queriam?

- E você acha que vai nos enganar? Tudo o que você fez até agora ia pelo caminho contrário de uma proposta de paz, Alexei. Nós não somos idiotas. – Anastácia franziu o cenho e, sem perceber, fechou as mãos com mais força, o que fez a caixinha plástica estalar baixo.

- Não falem assim. – ele colocou as mãos nos bolsos e voltou ao sorriso mais contido de antes – Eu estou falando sério. – fez uma pausa a espera de uma resposta que não veio, de forma que continuou – O que eu fiz nesses últimos dias, e que vocês podem ver no DVD que entreguei, foi testá-las. Se perdessem, teriam de se juntar a mim. Mas, se ganhassem… – ele não terminou a frase. Queria saber se elas concluiriam sozinhas.

- Nós poderíamos escolher. – foi Hana quem respondeu. O rapaz riu com satisfação – Você já sabe a nossa escolha, Alexei. Por que nos trouxe aqui?

- Porque, Hana, minha querida, eu preferia ter essa conversa em um lugar agradável e longe dos ouvidos curiosos de nossos colegas. – ele então as olhou uma a uma – Se apenas uma de vocês tivesse perdido, o grupo inteiro teria desmoronado. Seria tão lindo de assistir. Uma pena que não aconteceu…

Naquele momento, Arthur voltou para seu lugar inicial.

- Alexei. – sua voz era contida, mas as garotas puderam perceber a leve censura que carregava.

O loiro apenas assentiu de forma discreta.

- Não se preocupem com aqueles que as enfrentaram. Quatro deles não estão mais sob meu comando, mas sabem que não terão paz se decidirem por uma vingança. Eu as asseguro disso.

- E você? Vai mesmo nos deixar em paz? – a pergunta veio de Catarina.

- Minha querida, eu sou um homem de palavra. Não me conhece? – ele riu – Apenas não me deem motivos para… Caçá-las. – então seu sorriso se contorceu em algo perverso, durando apenas por um instante. Mesmo assim, era algo de que elas não se esqueceriam tão facilmente – Não será tão fácil na próxima vez.

- Você nos usou como carrascas para condenados que não queria executar. – Anastácia avançou um passo e automaticamente as outras se aproximaram como se para formar uma barreira de proteção. Ela encarava o loiro com seriedade.

- Por que diz isso, senhorita Scanavini? – o russo estava visivelmente se divertindo.

- Você queria puni-los por algo que desconhecemos e se aproveitou de nossa situação. – foi Hana quem respondeu.

- Agora está dando uma desculpa qualquer achando que vai nos enganar. Nós não somos idiotas, Alexei. – Anastácia completou – Já disse isso.

- Não sejam tão céticas. – ele suspirou, parecendo cansado daquilo tudo – Eu apenas resolvi dois problemas de uma única vez. Qualquer um faria isso.

- Alexei. – Arthur falou por entre os dentes naquela vez e pareceu satisfeito quando o loiro respirou fundo.

- Vocês parecem com pressa. – dessa vez, foi Jenna quem falou.

- Há um lugar a que precisamos ir. – o ruivo respondeu com tranquilidade e a diferença para o tom de Alexei era tamanha que as pegou desprevenidas.

O loiro as encarou uma última vez antes de se virar e começar a sair. As cinco apenas continuaram onde estavam, observando enquanto o rapaz se afastava. O ruivo, no entanto, não foi atrás. Em vez disso, aproximou-se delas e apontou para o DVD ao falar que elas não precisavam ver. Que talvez fosse a escolha mais sensata. Nenhuma delas julgava aquilo importante. Então ele respirou fundo e completou.

- Vocês estão mesmo livres. Bom, tanto quanto possível. Sei que Alexei não tem planos de procurá-las mais, mas tomem cuidado mesmo assim. Ele pode ser… Volúvel. – então deu um sorriso cansado e se virou para ir embora. Alcançou o amigo com uma corrida breve e logo as cinco estavam sozinhas.

Silêncio.

- Eu nem consigo acreditar. – Mei foi a primeira a falar.

- Livres… – Catarina murmurou.

- Livres. – Jenna sorriu com satisfação.

Anastácia e Hana se entreolharam e acabaram falando em uníssono.

- Livres!

Elas sabiam que aquela situação podia mudar dependendo de como as coisas se desenvolvessem, mas, pelo menos pelo resto daquele ano, não tinham mais que se preocupar com ataques surpresa ou com provocações sem sentido. De repente, sentiam como se um peso enorme tivesse sido tirado de suas costas. Respiravam tranquilamente mais uma vez. Tinham vencido mais aquela batalha. Era quase impossível esconder o alívio e a satisfação que sentiam.


- Eu avisei. – Arthur sorria com certo divertimento enquanto acompanhava Alexei pelos corredores da escola.

- Cale-se, Arthur. – o loiro suspirou – Elas realmente não podem ser subestimadas. – então sorriu de canto com satisfação.

- Elas são tão interessantes assim para você decidir abrir mão? Tudo isso é vontade de ver como elas podem se desenvolver por conta própria? – o ruivo soava descrente.

O outro não respondeu. Pararam diante de uma porta e conferiram o nome na placa. Era a sala certa. Entraram sem cerimônia e a professora que se encontrava do lado de dentro parou imediatamente o que fazia ao reconhecer os visitantes. O loiro se sentou diante da mulher, enquanto o ruivo ficou parado logo atrás, com os braços dobrados, unidos logo acima de sua lombar. A conversa seria rápida se corresse como os planos.


A primeira coisa que Nathan fez quando os dois visitantes se retiraram de sua sala foi pegar o telefone e discar um número que já sabia de cor. Tinha percebido que a professora na sala vizinha a sua tinha recebido visitas e se sentiu intrigado para saber quem eram, mas não precisou sair de seu lugar. Os visitantes passaram em sua sala em seguida para lhe dar a notícia de que ele não teria mais a vigilância da colega sobre si. O alívio que aquilo tinha trazido era tão grande que ele precisou se controlar para não rir. Então alguém atendeu do outro lado da linha, puxando-o de volta para a realidade.

- Jenna! É tão bom poder finalmente ouvir a sua voz! – ele sorria largamente e concluiu que ela também sorria pelo tom de voz.


Naquela noite, o grupo saiu para comemorar. Estavam finalmente completos e, mais importante, livres de ameaças constantes, mesmo que de forma temporária. Era impressionante o que a mera presença de Nathan fazia no humor de todos, especialmente de Jenna. Tinham se acostumado a tê-lo por perto. Aquela seria uma noite inesquecível por diversos motivos e eles se permitiram relaxar como não faziam há um tempo longo demais. Anastácia, mais do que os demais, ficou impressionada com o fato de até mesmo Kyouya parecer mais descontraído e podia jurar que o viu sorrir mais do que já tinha visto até então.

"Você pode não gostar dele, Anny, mas admita que os dois combinam", ela sorriu de canto. Hana ficava mesmo mais feliz com o rapaz, apesar de todos os desentendimentos. "Mas não é assim com todas nós?", ela olhou em volta. Era inegável a felicidade nos rostos dos amigos e o brilho que surgia quando os parceiros se olhavam. "Só não se deixe levar tanto. Você sabe que não acabou", ela se enroscou no braço de Kaoru, que pareceu surpreso por um instante. Ela sabia que não tinha acabado. Que a paz era temporária. Mas não podia deixar o momento ser arruinado por aquilo. Estava segura agora, não precisava se preocupar.

Mas ela não sabia quão breve aquele sentimento podia ser.


- Conseguiu, Arthur? – Alexei soava impaciente.

- Eu não posso acelerar o trem, Alexei. Já disse que ele está vindo para cá. – o ruivo suspirou. Tinham voltado para a casa do loiro depois da escola, ficando no quarto do rapaz – E eu achei que você tivesse oferecido um acordo de paz.

- Ora, ofereci. Mas ele vale apenas para o nosso grupo. – o russo sorriu com satisfação.

- Não imaginei que você fosse chegar tão baixo, Alexei…

O loiro não respondeu.


Quando o grupo saiu do restaurante, rindo e conversando despreocupadamente, ninguém notou o par de olhos predatórios escondido nas sombras do outro lado da rua. Os orbes escuros acompanhavam os movimentos dos jovens, analisando as garotas mais que os rapazes. Um brilho frio se fez notar, realçado pelo reflexo das luzes artificiais, ao ver o moreno de óculos passar um braço ao redor de uma morena de cabelos bem curtos. O observador só a reconheceu por conta dos trajes. Elas ainda mantinham o mesmo estilo de anos antes, quando se conheceram.

"Achei vocês…!", algo dentro dele pareceu se agitar. Para quem olhasse, a imagem daquele que observava poderia ser a de um predador paciente, mas faminto. Ele estava sentado do lado de fora de um bar relativamente limpo, com trajes bem diferentes do que costumava usar antes. Seu copo de bebida estava praticamente intocado. Os tempos eram outros, ele tinha percebido que não precisava mais do álcool para aliviar a dor. Porque era um sentimento que nunca desapareceria.

As mãos foram passadas pelo cabelo raspado bem rente e então pegaram o celular. Não houve perda de tempo em discar um número e logo o aparelho tinha sido levado à orelha. Os toques enquanto a outra pessoa não atendia pareciam durar uma eternidade. Então a voz soou do outro lado da linha com um ar entre irritação e o cansaço. Poucas palavras foram trocadas e o tom ao final da conversa era de satisfação, se não de deleite. Então a ligação foi encerrada e os olhos voltaram a focar o grupo, que entrava nos carros grandes, mas não tão chamativos quanto o esperado.


Anastácia sentia que algo estava errado, mas não sabia dizer quando a sensação se instalou. Talvez tivesse sido quando saíram do restaurante, mas podia muito bem ter sido quando estavam entrando nos carros. Ou depois disso. Ela simplesmente não sabia, o que a deixava ainda mais alarmada. Sentia-se tão em paz apenas pouco antes. "Agora meu estômago está se contorcendo como se o mundo pudesse acabar", ela suspirou. Kaoru a olhou de soslaio enquanto guiava o carro pelas ruas pouco movimentadas. Logo mais estariam de volta ao prédio, então ele preferiu não comentar nada. No banco de trás, Catarina e Hikaru tinham adormecido em tempo recorde. Ele sorriu de canto.

A morena tinha visto algo que a alarmara. Ela só não sabia o quê.


N/A: eu sei, eu sei. Pequeno. Superem! Hahahaha. Enfim... Quem será o observador misterioso? Por que Anny se sentiu tão incomodada? Será que ela o viu? (musiquinha de suspense) Não percam os próximos capítulos! (quê? Isso que nem ta tão tarde, mas ok, hahahah)