Anastácia estava encolhida em um canto do sofá, sem responder quando os gêmeos ou Catarina a chamavam. Depois do jantar, o grupo tinha se separado, indo cada qual para seu apartamento. Jenna foi para a casa de Nathan, enquanto as outras ficaram por lá com os namorados. Como nada resolvia, Kaoru decidiu ligar para o apartamento de Kyouya pelo interfone. Os dois conversaram pouco, mas com um ar tenso. A morena continuava repassando as cenas em sua cabeça, procurando pelo que podia estar errado.

Até que finalmente percebeu.

A campainha a assustou, fazendo com que se encolhesse ainda mais no sofá. Kaoru foi até a garota, abraçando-a de forma protetora, enquanto Hikaru foi abrir a porta. Catarina estava apenas parada no meio da sala, olhando com preocupação para a amiga. Hana passou pela loira, colocando a mão sobre sua cabeça e sorrindo de canto como se dissesse para relaxar. Kyouya ficou um pouco mais atrás, observando sem muito interesse. Pelo menos era o que aparentava. Por dentro, sentia-se desgastado com aquela história toda e esperava que o ataque de Anastácia não significasse mais problemas.

- Anny? – Hana falava com um tom tranquilo e carinhoso e se abaixou diante da amiga – Sou eu.

- Hana… – ela quase suspirava em vez de falar.

- Oi. – a estudante de Moda sorriu de canto – Quer me contar o que houve?

- Hana, tem algo errado… Ele não devia estar aqui…

- Anny, eu não sei do que você…

- Ele…! Você sabe quem é…! – o desespero que marcava a voz, agora vários tons mais alta, de Anastácia fez a outra franzir o cenho.

- Eu consigo pensar em algumas pessoas, mas você precisa me ajudar aqui, meu amor. – ela acariciou a mão da amiga em uma tentativa não muito eficiente de acalmá-la – Quem é ele? Consegue descrevê-lo para mim?

- Ele voltou… Eu não sei o motivo, eu não sei como nos achou, eu não sei de nada… Mas ele estava lá… Quando saímos do restaurante… – a voz da outra tinha voltado a ficar baixa – Ele estava nos observando…

Hana suspirou. Aquilo não estava levando a lugar algum. Tinha que conseguir um nome ou, pelo menos, uma descrição. Quem, afinal, podia representar tanto perigo a ponto de deixar Anastácia naquele estado? "Vamos, Hana, pense… Pense, pense…", então seus orbes se arregalaram e ela deixou o corpo ceder, ficando sentada no chão. Aquilo não podia ser verdade. Se um estava lá, então os três podiam estar. Quem garantiria que não? E como ele, ou eles, tinha conseguido a informação de onde elas estavam? Até onde ela lembrava, nunca mais os dois grupos tinham se encontrado. Tudo tinha acontecido há tanto tempo… Era um outro lugar, uma outra fase.

- Anny, onde você o viu? – a voz da mestiça tinha endurecido.

Anastácia parecia aliviada por ter sido entendida, mas isso não diminuía seu pavor. Ela falou que não tinha certeza de que o vira, porque a aparência estava diferente do que ela se lembrava, mas algo dentro dela gritava que era a mesma pessoa. Que aquele homem no bar em frente ao restaurante era o mesmo homem de quem ela se lembrava. Por menos que ela quisesse admitir que, depois de todo aquele tempo, os dois grupos tinham voltado a se cruzar.

- Mas quem é ele…? – a voz de Catarina atraiu a atenção das duas.

- Ligue os pontos, Cat. Só três pessoas poderiam deixar a Anny nesse estado. – Hana segurava com firmeza a mão da amiga – Porque o passado nem sempre fica no passado. – ela trincou os dentes.

Anastácia continuava encolhida no canto do sofá, mas olhava para as amigas. Viu Kyouya se aproximar e cochichar alguma coisa para Hana, que respondeu da mesma forma. Ela não queria saber sobre o que eles conversavam. Ela queria estar errada sobre o que tinha visto. Apenas. Mas não estava e sabia disso. Em pouco tempo, os outros integrantes do grupo estariam no apartamento novamente. Ou talvez deixassem a reunião para outro dia. Afinal, por que ter pressa? Apesar do que ela tinha visto, não parecia que o homem planejava fazer alguma coisa logo.

- Ele não estava bebendo. – ela soltou por fim.

Hana se virou, confusa.

- Quem, Anny?

- Ele… Você sabe… Ele bebia muito antes…

Hana suspirou.

- É bom que ele não beba mais como bebia antes, não é? – então deu um sorriso de canto e afagou a mão da amiga – Tente descansar, Anny. Nós vamos pensar em alguma coisa depois. Mas, agora, todos nós precisamos dormir. Tudo bem?

A outra assentiu, de forma que a mestiça se pôs em pé e ajeitou a roupa. Soltou o ar pesadamente e se despediu dos amigos. Não precisava dizer nada, Kaoru saberia o que fazer. E Catarina e Hikaru se esforçariam para ajudar. Era assim que funcionava. Ela e Kyouya se retiraram, indo para o apartamento do moreno. Nenhum dos dois ousava dizer uma única palavra. A tensão era grande demais. Mal tinham pisado no corredor, o moreno puxou a namorada para si, abraçando-a de forma protetora enquanto caminhavam. Ela não resistiu e acabou retribuindo o gesto.

- Tente descansar, está bem? – ele falava baixo, como se não quisesse que outras pessoas ouvissem, mesmo estando apenas os dois ali. Hana assentiu – E vamos falar novamente com eles amanhã antes de falar com o restante do grupo.

- Eu preciso saber qual dos três está aqui. – a garota passou a mão livre pelos cabelos – Apesar de não querer me encontrar com nenhum…

Kyouya não respondeu, apenas abrindo a porta para que Hana entrasse.


- Céus, a gente não pode ter uma folga? – Hana afundou o rosto no travesseiro. Tinha acabado de sair do banho e posto o pijama que deixava no apartamento do rapaz para situações como aquela.

- Pode ter sido apenas uma coincidência infeliz. – Kyouya tinha o tom indiferente de sempre, mas ela sabia que ele estava preocupado pela simples ausência da frieza que costumava marcar suas palavras.

- Você não acredita nisso. – ela se virou a tempo de vê-lo vestindo a calça e sorriu de canto – Você é muito branco, sabia?

Ele franziu o cenho ao se virar.

- Já discutimos a respeito, não?

- Eu sei. – ela se sentou e estendeu os braços para ele – Vem. Vamos dormir.

Kyouya suspirou e foi até a cama, deitando ao lado da garota. Estendeu um braço por sobre o colchão e a outra logo tinha se aninhado ali, apoiando a cabeça em seu peito. Ele então a abraçou, mantendo a mão quase em sua cintura. Hana o envolveu com o braço pouco acima do quadril em resposta. Ficaram em silêncio por algum tempo que nenhum deles saberia estimar, até que a voz da mestiça se fez ouvir em meio à escuridão.

- Kyouya…?

- Hm? – ele tinha começado a acariciá-la por sobre a roupa em um gesto tranquilo e ritmado sem perceber.

- Obrigada. – ela parecia sorrir.

- Não sei do que você está falando. – ele colocou o outro braço sobre o dela, sorrindo de canto ao acabar de falar. Apesar de tudo, era bom ter aquele momento tranquilo no fim do dia. Poder sentir o calor que emanava da garota contra seu corpo. Saber que ela estava ali, com ele. Segura.

- Não precisa saber. – então ela se ajeitou e logo acabou dormindo.

O rapaz ficou olhando o teto por algum tempo antes de conseguir adormecer também. Ficou imaginando quando tudo aquilo acabaria e o que ele podia fazer para ajudar. Era possível que não houvesse nada a seu alcance que pudesse ser providenciado, o que o frustrava. Pessoas como aquelas provavelmente não se deixariam dobrar tão facilmente. Mesmo que tivessem sede de poder, tinham um desejo ainda maior por sangue. E ele não podia resolver isso com alguma oferta generosa. "Mas isso é só o começo…", ele suspirou. Se pretendia terminar os estudos ali, tinha de se acostumar com aquela vida o quanto antes.


Quando o dia amanheceu, Anastácia já tinha voltado ao seu estado normal, o que deixou Kaoru bastante aliviado. Hana e Kyouya apareceram no apartamento dos gêmeos depois do almoço, aproveitando que não tinham aula naquele dia. De início, eles hesitaram em ter a conversa diante de Anny, mas ela insistiu que estava bem e que iria participar. Especialmente porque ela era quem tinha visto o rapaz. Os outros acabaram cedendo, cientes de que ela não desistiria.

- Tudo bem, então um dos idiotas do nosso tempo de banda está de volta. – Hana começou, batendo suavemente os dedos sobre o tampo da mesa de jantar – Como os três andavam sempre juntos, eu duvido que ele esteja sozinho.

- Mas eu só vi um deles ontem. – Anastácia completou.

- Como ele estava? – a pergunta veio de Catarina.

- O cabelo estava raspado… – a estudante de Enfermagem tinha o tom pensativo, tentando se lembrar de todos os detalhes – E tinha alguma coisa… Eu não sei… Parecia que ele estava deslocado, sabe? Como uma mancha escura de tinta em uma tela branca.

O grupo assentiu, apesar de os rapazes não terem muita ideia do que aquilo podia significar. Hana e Catarina se entreolharam. Aquela aura sombria sempre tinha rondado os três, não seria muito surpreendente se ela continuasse ali. Elas achariam estranho se eles tivessem virados os heróis de repente, na verdade. Anastácia suspirou. Não conseguia se lembrar de muita coisa além.

- Acho que ele estava nos observando quando saímos do restaurante. – ela fitou os amigos.

- Ele sabia que a gente estava lá? – Catarina soou aflita.

- Acho que ele estava procurando por nós, mas deu sorte de nos encontrar ali. – Hana franziu o cenho. Era a melhor hipótese que tinha. Se não fosse isso, alguém já as estava observando desde antes. Ou talvez… "Não pode ser verdade. Vocês têm um acordo de paz, lembra?", ela suspirou.

- Mas quando ele pode ter chegado aqui? Teria de ser muita sorte nos encontrar no restaurante aqui perto logo de primeira. – Anastácia estava visivelmente desconfortável e olhou para Hana. As duas tinham pensado a mesma coisa.

Kyouya e Kaoru se entreolharam. Conheciam aquele olhar. Elas estavam deixando alguma coisa de fora da conversa. Então fitaram Catarina, que parecia preocupada demais com a mera presença do antigo conhecido para ter notado alguma coisa. Hikaru… "Esse aí é outra história…", Kaoru coçou a nuca. O irmão conseguia ser bastante desligado. Mas o mais novo não podia negar que o irmão parecia preocupado enquanto acompanhava a conversa. O grupo continuou conversando a respeito por toda a tarde, sem, no entanto, conseguir chegar a alguma coisa conclusiva.


- Alexei? – Arthur chamou pela terceira vez ao telefone.

- Desculpe, Arthur, estava distraído. – o loiro tinha um tom indiferente que fez o ruivo suspirar.

- Ele as encontrou. Eu tentei falar com você ontem, mas…

- Ah, fantástico! – agora ele parecia sorrir – Peça para ele nos encontrar no endereço combinado, sim?

- Tudo bem. – Arthur começou a mexer em suas coisas no quarto atrás do papel que tinha recebido do amigo. Ouviu o outro comentar mais algumas coisas e então se despediram. Não demorou muito e logo tinha feito a ligação que precisava. Uma voz bem mais grossa atendeu do outro lado.

- O que você quer agora?

- Tenho um endereço e horário para você. – o ruivo não se deixou abalar pela pouca simpatia. Sabia que aquilo era mais da boca para fora quando se tratava dele e Alexei – Tem como anotar?

- Não podia ter mandado por mensagem? – o outro pareceu grunhir alguma coisa mais, mas não era importante.

Arthur pigarreou.

- Não, não tinha. Tem como anotar ou não? Se não tiver, dê um jeito. – ele estava começando a perder a paciência. "Por que tínhamos de recorrer logo a ele…?", então se deixou cair sobre a cadeira, jogando o corpo contra o encosto.

- Pronto. Manda.

O ruivo passou as instruções de Alexei para o outro homem, fazendo-o repetir algumas vezes para ver se tudo tinha sido entendido corretamente. Quando se deu por satisfeito, despediram-se e logo o aparelho tinha sido jogado sobre a cama. Aquele seria um final de ano longo. "Muito longo…", ele suspirou. Foram as batidas na porta que o fizeram voltar para a realidade. A mãe o chamava para brincar um pouco com a irmã. Arthur sorriu de canto e saiu do cômodo. Sentia alívio como nunca antes pelas palavras de sua progenitora.


O celular de Hana tocou pouco depois de o dia ter escurecido e ela atendeu depois de conferir quem era. Não se sentia confortável com o contato, mas ao mesmo tempo tinha curiosidade em saber qual poderia ser o assunto. Indicou que os amigos fizessem silêncio e atendeu, colocando a chamada no viva-voz. Quando a outra pessoa se manifestou, ela quase conseguia apalpar a tensão que se instalou, tamanha a densidade que tinha tomado.

- Olá, Hana, minha querida. – ele estava perceptivelmente sorrindo e Kyouya se sentia desconfortável toda vez que escutava aquele tratamento.

- O que você quer, Alexei? – ela tinha o tom sério e não se sentia muito disposta a conversar com o rapaz naquela hora.

- Tenho novidades que certamente vão lhe interessar, minha querida, então tenha modos.

- Morra. Não me venha encher o saco, não devemos nada a você. – ela franziu o cenho.

- Não fale assim… – ele tinha um falso tom de repreensão – Mas vamos ao que interessa antes que você decida desligar, sim? – ele riu e Hana precisou se controlar para não soltar o ar com força – Um velho conhecido seu está na cidade… E ele adoraria vê-las.

As morenas se entreolharam. Não tinham pensado errado.

- E o que isso tem a ver com você, Alexei? – a mestiça perguntou para ganhar tempo.

- Comigo? Nada. Não fale como se eu o tivesse trazido para cá. – ele riu.

- Claro, sempre inocente. Esqueço que você é uma delicada flor do campo. – ela revirou os olhos e sorriu com satisfação quando os amigos precisaram conter o riso – Por que o trouxe, Alexei?

- Eu devia um favor a um velho conhecido… E decidi que era hora de pagar. Já que ele precisava de algo que eu podia oferecer.

Catarina olhou com desconforto para as amigas. Não podia ficar pior que aquilo.

- Temos um acordo de paz, Alexei. – a estudante de Moda tinha a voz dura.

- Ora, ainda temos! Mas o acordo abrange a mim e meus subordinados. Ele não tem nada a ver com isso. Quer saber onde podem encontrá-lo? – a satisfação do loiro era tão grande que era quase palpável mesmo através do aparelho.

Hana olhou para os outros presentes, sem saber o que escolher. Por um lado, queria muito aceitar a proposta. Era uma oportunidade de por um ponto final naquela história. Por outro, poderia ser arriscado e elas mereciam um descanso de todo o caos em que a vida do grupo tinha se transformado. A resposta veio de Anny, que assentiu quando seus olhares se cruzaram. A mestiça respirou fundo e perguntou qual era o endereço. Alexei riu em satisfação antes de responder. Passou também dia e horário.

- Vai ser uma linda reunião entre velhos conhecidos. – ele tinha um tom satisfeito que só fazia crescer a irritação de Hana.

- Com certeza. Olha, se você não quer mais nada, então acabamos aqui. – ela estava prestes a desligar quando a voz do outro soou na linha.

- Hana, minha querida, não se esqueça de ser educada com as pessoas. – então desligou.

A morena bufou e recolheu o celular. Seria um longo fim de ano.