Aquele devia ser mais um dia como outro qualquer de final de semestre. Um dia qualquer, tão patético como qualquer outro em qualquer semestre igualmente patético. Com colegas patéticos, com aulas intermináveis de matérias patéticas, ouvindo vozes patéticas discutindo assuntos patéticos, vivendo um período patético. Mas um período que prometia prepará-la para um futuro brilhante.
Naquele dia, que deveria ser, mas não era como qualquer outro, ela tinha decidido não ir à última aula para passar mais tempo com seu ruivo preferido. Estava no apartamento dos gêmeos, aninhada no peito de Hikaru. Era estranho e reconfortante ao mesmo tempo. Mesmo depois de terem passado dias incontáveis juntos, ela ainda não tinha se acostumado. Acreditava seriamente que nunca ia se acostumar.
- Eu estava pensando, Cat… – a voz do rapaz soou hesitante, fazendo-a afastar o rosto daquele peito morno e aconchegante para olhar os orbes dourados sem saber definir o que via neles – Tem algo que… Precisamos conversar.
Ela engoliu em seco. "Precisamos conversar" nunca era seguido de algo bom.
- Sim? – sua voz era mais firme do que ela achou que seria.
- O semestre está acabando. – ele evitava olhar para os orbes azuis que o encaravam.
Evitava olhá-la, mas seu braço tinha enrijecido ao seu redor como se para evitar que a garota fugisse. Não queria fitá-la, mas queria ter certeza de que ela continuaria ali. Que ela não o deixaria falando sozinho. Como se não a conhecesse suficientemente bem já para saber que ela não faria aquele tipo de coisa. A loira piscou, tentando entender a mensagem por trás daquelas poucas palavras.
- Sim, está… – sua voz era interrogativa e fez o outro engolir em seco.
- Está… – ele repetiu. Fez uma pausa – Isso… Você sabe o que isso significa, não sabe…?
Ele quase pedia que ela dissesse que sim.
Ela não disse.
- Hikaru, o fim do semestre significa muitas coisas. – ela franziu o cenho. Do que ele estava falando? – Você não pode… – mas o esclarecimento veio sozinho – Ah…
A dor.
A dor em seu peito de repente era alucinante.
O vazio.
A solidão.
- Cat, eu… Eu não quero… Eu sabia que… – ele não conseguia montar uma frase coerente e corou quando acabou fitando os orbes azuis, mas ela não saberia apontar o motivo – Desculpe. – foi o que ele disse por fim, quase como um suspiro.
- Não, você… Você não tem que se desculpar. – ela tentou sorrir, mas não conseguiu.
- Cat…
Ela se soltou e se levantou.
Sim, o semestre estava acabando.
O ano letivo estava acabando.
O período com Hikaru estava acabando.
"Ele precisa voltar ao Japão", ela o encarava com uma expressão indefinida e recebia um olhar machucado e preocupado de volta. Nenhum deles queria aquilo. Tinham se acostumado com a situação, sabiam que estavam apenas empurrando o fim com a barriga. Sabiam que não podiam fugir. "Eu não posso abandonar tudo e ir com ele", ela engoliu em seco. "Não posso ir…", piscou, girou sobre os calcanhares e foi para a cozinha.
Hikaru era puro silêncio.
Doía.
Aquilo doía em seu peito como nada tinha doído antes. Perder Haruhi para Tamaki não chegava aos pés daquilo. Daquela separação. Da sensação de possuir algo nas mãos e vê-lo escapar sem poder fazer qualquer coisa a respeito. Ou podia? "Não posso simplesmente dizer para ela ir comigo. Ela tem uma vida aqui. Ela tem tudo aqui…", ele suspirou pesadamente e apoiou a cabeça nas mãos, escondendo-a.
Não, ela não tinha tudo nos Estados Unidos. Mas era bastante coisa.
Ele não podia simplesmente esperar que ela deixasse tudo para trás.
- Temos de pensar em uma solução. – ela tinha voltado para a sala sem que ele percebesse e ouvir sua voz fez o ruivo se sobressaltar.
- Como? – ele piscou algumas vezes, sem assimilar o que tinha escutado.
- Pensar em uma solução. – ela repetiu, talvez mais impaciente do que deveria.
- Ah, é. Temos… Nós… Eu sei lá. – ele suspirou de novo – Eu não espero que você deixe tudo para trás… E eu não posso abandonar tudo que tenho no Japão assim…
- Eu sei. – ela parecia a ponto de chorar, mas estava controlando impressionantemente bem a vontade de se deixar cair no chão e se afogar em lágrimas – Eu sei. – ela disse mais uma vez, quase como se tentasse se convencer da verdade que aquelas palavras supostamente carregavam. Será que sabia mesmo?
- Nós podemos tentar algo à distância… – ele tinha um tom levemente derrotado – O Hani-senpai consegue… Não pode ser muito difícil, não é? – ele tentou sorrir, mas falhou.
- E se for? E se não conseguirmos? E se isso piorar tudo? – a respiração da loira se acelerou.
- Nós vamos conseguir, Cat. Você precisa acreditar. – ele se levantou e foi até ela, pondo a mão em seus ombros e dessa vez conseguindo sorrir. Um sorriso tímido e não exatamente animado, mas era um sorriso.
E fez Catarina sorrir de canto.
- Você acredita?
- Acredito. – ele sorriu mais largamente e a abraçou – E nós podemos marcar viagens, programarmos para nos vermos.
Ah, sim. Aquilo. Com que dinheiro ela iria vê-lo? O que tinha sempre tinha dado para levar a vida na faculdade, mas não sobrava tanto no fim do mês. A economia tinha de ser muita para conseguir se dar algo além dos materiais do curso. E Hikaru não era o tipo de pessoa que aceitaria um deslocamento unilateral por muito tempo. Mesmo que nunca tivesse dito nada, ela conseguia ler aquilo no rosto do ruivo.
Não ia funcionar.
- Você sabe o quanto é difícil para mim fazer isso. – ela se afastou novamente, dessa vez indo para o sofá.
- O que quer dizer? – ele franziu o cenho, incrédulo.
Ela se sentiu quebrar.
- Viajar. Não é fácil como para vocês, riquinhos. – ela não queria falar daquele jeito, mas tinha escapado.
Ela estava estragando tudo.
Hikaru franziu ainda mais o cenho.
- Eu sei que não é tão simples, foi por isso que disse teríamos de nos programar.
- E se marcarmos e não der certo? E você com certeza vai conseguir se locomover por aí muito mais que eu. E quando você se cansar disso? – as palavras saíam antes que ela conseguisse processá-las.
- Cat, você não acha que está exagerando? – ele riu.
Era uma risada tensa, nervosa.
Ela não estava exagerando e ele sabia. No fundo, ele sabia.
- Não, não estou. – ela engoliu em seco. Conseguia ler nos orbes dourados o quando Hikaru estava se despedaçando.
- E o que você quer fazer então?
- Eu… Eu não sei… – ela soltou o ar com força ao confessar seu vazio de ideias.
- Por que não podemos tentar? – ele estava verdadeiramente chateado e a garota achou que fosse começar a chorar.
Se começasse, ele provavelmente a acompanharia logo e então não ia demorar muito para que os dois se afogassem em lágrimas e começassem a maldizer todo o universo. Porque era aquilo que eles tinham. Aquela conexão, aquela simpatia. Aquela atração, aquele relacionamento. Céus, o relacionamento. Significava tanta coisa para eles…
- Não estou dizendo que não podemos…
Ela não sabia se adiantaria discutir. Mas tentou. E ficaram por um bom tempo trocando ideias sobre o que fazer, trocando mágoas, recebendo bofetadas e mais bofetadas da realidade na cara. No final, mesmo com o tempo não se estendendo demais, os dois estavam extremamente desgastados emocionalmente. E não tinham conseguido chegar a um acordo que os agradasse. Sempre tinha algo errado, algo que não ia dar certo.
- Chega. Isso não vai nos levar a lugar algum. – Catarina, que agora estava sentada à mesa de jantar, se levantou – Eu devia ir para casa.
Hikaru abriu e fechou a boca. Como assim ela não ia passar a noite lá? Ele deveria digerir tudo aquilo sozinho? Não podia nem ao menos contar com a certeza da presença dela ao lado da sua? Era isso? Era assim que acabaria? Tinha estragado tudo ao levantar aquele assunto? Não queria acreditar nisso, mas era o que a situação lhe dizia. Mais uma vez, ele tinha posto tudo a perder.
Porque era o que fazia.
- Tudo bem. – disse por fim.
Ele se levantou e foi um tanto vagarosamente até a porta, que abriu sem muito interesse antes de fitar a loira tão próxima e, ao mesmo tempo, tão longe. Sentia seu coração rachando em tantos pedaços que ficou surpreso. E via a mesma dor naqueles orbes azuis. Ah, aqueles orbes. Se ele pudesse apenas se perder naquele olhar… Mas a dona daqueles olhos que ele achava estranhamente encantadores se virou e saiu pela porta. Mal se despediu.
De repente, era apenas uma lembrança em sua mente.
- Hikaru? – a voz de Kaoru soava distante. Preocupada.
O gêmeo mais velho abriu os olhos lentamente. Quando tinha ficado tão escuro? Que horas eram? Quando Kaoru tinha chegado? Há quanto tempo Catarina tinha saído? Ele tinha dormido? Se sim, por quanto tempo dormiu? Eram tantas perguntas que ele não sabia por onde começar. Era tanta coisa em sua mente que tudo que conseguiu fazer foi se ajeitar no sofá e dar espaço ao irmão.
- Você não parece bem, Hikaru.
O mais velho sentiu os braços do mais novo ao redor de seu corpo.
Ali havia uma intimidade e uma segurança que ninguém conseguiria substituir.
Eram coisas que apenas anos convivendo sob o mesmo teto, vivendo o mesmo descaso e a mesma solidão podiam construir. Pelo menos Kaoru não o abandonaria. Ou estava errado? E se Kaoru decidisse ficar ali, nos Estados Unidos, para ficar com Anastácia? Seu irmão seria capaz de deixá-lo daquele jeito?
Hikaru sentiu os olhos arderem com as lágrimas.
- Hikaru… O que houve…? – o tom do mais novo era acolhedor e o mais velho logo tinha se ajeitado de forma a esconder o rosto no ombro daquele igual a si.
Então começou a chorar.
Chorou como nunca imaginou que fosse capaz.
Kaoru, desesperado, só podia abraçá-lo e esperar que se acalmasse.
- Tudo bem, explica de novo. – Anastácia franziu o cenho. Não tinha certeza de que tinha entendido direito.
- O Hikaru é um idiota. – foi a resposta de Catarina.
Anny e Hana se entreolharam, precisando se controlar para não sorrir.
- Algo mais específico, meu amor. – a estudante de Moda olhou para a amiga loira com certo divertimento.
Catarina bufou.
- O Hikaru é um idiota. Ele acha que eu posso só jogar tudo para o alto e ir com ele para o Japão. Ele acha que eu não me importo ou que eu não quero tentar. Eu nem sei mais. Ele é um idiota que parece não estar realmente disposto e eu quero socá-lo, afundar o punho naquele rosto dele, quebrar os dentes daquele sorriso debochado que ele carrega por aí. E mesmo com tudo isso eu quero que ele só entre por aquela droga de porta, que ele me abrace e diga que vai ficar tudo bem.
A loira andava em círculos pelo quarto e só se deixou cair sobre a cama quando acabou de falar. Puxou o travesseiro para o colo e o abraçou, afundando o rosto no tecido macio. As duas morenas suspiraram, trocando olhares preocupados e, ao mesmo tempo, divertidos. Entendiam o que estava acontecendo, mas não podiam saber o quanto aquilo fazia mal à amiga, apenas imaginar.
Sendo Hikaru, era fácil concluir que ele tinha se esquecido da diferença de universos em que eles, os alunos do tão prestigiado colégio Ouran, e elas, as comuns alunas americanas, viviam. Se mesmo os outros – exceto, claro, Tamaki, que fazia aquilo com frequência – eram capazes de esquecer de vez em quando, o que impediria Hikaru de fazê-lo? Ele, que era o mais estabanado, despreocupado e inconsequente.
Ao mesmo tempo em que conversavam com Catarina, Anastácia e Hana tinham consciência da presença de Jenna e Mei do outro lado da porta, esperando, talvez ansiosas, por uma explicação para a chegada da menor à casa. Ela tinha apenas marchado até o próprio quarto, sem se preocupar com a porta aberta ruidosamente, sem se preocupar em trancá-la. Uma vez dentro de seu cômodo, não se preocupou ao bater a porta ou em pensar nos efeitos que seu grito angustiado poderia ter.
Hana trabalhava no escritório na hora e se assustou ao ouvir os barulhos enraivecidos. Anastácia estava na cozinha e quase queimou a mão com os ruídos inesperados. Jenna tirava um cochilo e caiu da cama na pressa de levantar e ver o que tinha acontecido. Apenas Mei parecia não ter se surpreendido, mas as outras três a encontraram estática na sala, o que delatava o susto que ela tinha tomado. O material largado sobre o sofá indicava que ela tinha parado o que fazia ao ver Catarina entrar no apartamento.
Era daquele jeito que o grupo entrava no que era o começo do fim.
- Ele não quer sair do quarto, não quer me ouvir. Não faz nada e eu estou ficando sem opção. – Kaoru suspirou e desviou os orbes dourados do corredor para o amigo em pé ao seu lado.
Kyouya levou uma mão ao queixo, pensativo. O ruivo mais novo o tinha telefonado logo depois de Hikaru parar de chorar e se fechar no próprio quarto. Contou brevemente o que aconteceu, sem saber dizer o que tinha precedido sua chegada. Não era a primeira vez que os dois se reuniam para discutir algum problema sem os outros e não seria a última. Ajudava o fato de os dois serem os que mais racionalizavam os acontecimentos dentre os integrantes do Host Club, apesar de o ruivo reconhecer que não podia ser comparado ao moreno nesse quesito.
Naquele momento, ele achava que sua capacidade de raciocínio era mínima.
E se aquilo tivesse acontecido com ele e Anastácia?
Ele seria capaz de lidar com a sensação de feri-la de novo?
Ele conseguiria olhar nos olhos de qualquer um e não pensar nos orbes castanhos dela? Na dor que eles exporiam? Nas vezes em que já viu aquele brilho de algo quebrado neles? Ele conseguiria ficar quieto? Conseguiria falar com alguém? Ou será que correria atrás dela? Lembrava-se de ter conversado, ou começado a conversar, sobre a questão da separação com ela uma vez. Lembrava-se de ela o interrompendo com um beijo que tinha sido tão intenso que ele achou que fosse perder o controle.
Sabia que ainda precisariam acertar aquilo ainda.
Ele não sabia o que fazer. Por ele, por Hikaru, por Anny. Por ninguém.
