- Sabe… – Kaoru começou depois de alguns segundos de silêncio – Acho que nenhum de nós teve a coragem de falar sobre isso até agora. Pelo menos não até esse ponto.

- De fato. – Kyouya ajeitou os óculos e se sentou em uma das poltronas, enquanto o ruivo foi para o sofá.

- Você já falou com a Hana? – ele tinha uma curiosidade sincera na voz e parecia preocupado. Do jeito que o moreno era, poderia simplesmente jogar a informação sobre ela sem se importar com o impacto que aquilo causaria. "Não por não se importar… Mas ele adiaria ao máximo e eu não ficaria surpreso se ela só descobrisse no último dia…", ele suspirou.

- Não preciso. – a voz de Kyouya era calma.

- Como? – o gêmeo mais novo engasgou ao ouvir aquela resposta – Como não precisa? Vocês já falaram sobre isso? – sua voz saía incrédula.

- Não. Mas eu pretendo terminar meus estudos aqui, então não preciso me preocupar com isso agora. – o moreno falava como se aquilo fosse a coisa mais óbvia, o que deixou Kaoru sem reação.

- Ah… Certo… É, faz sentido.

Ficaram em silêncio por mais alguns segundos. Descobrir que Kyouya não teria de passar por aquela situação de alguma forma piorava tudo. Kaoru não sabia o que fazer e, aparentemente, nem Kyouya. Quando o ruivo estava prestes a dizer algo, no entanto, Hikaru saiu do quarto e eles conseguiram ouvir seus passos se arrastando pelo corredor até a sala. Quando o gêmeo mais novo viu o amigo mais velho na poltrona, seu cenho se franziu.

- Eu o chamei aqui porque não conseguia pensar no que fazer. – Kaoru se adiantou, falando antes que o irmão perguntasse.

- Fazer sobre…? – Hikaru olhava para Kyouya com um ar de poucos amigos. Não esperava vê-lo lá. Na verdade, não esperava ver mais ninguém além do irmão e aquilo o incomodava.

- Sobre você. – o moreno soava indiferente – Kaoru estava realmente preocupado sobre sua condição.

As palavras soavam tão frias que Hikaru franziu ainda mais o cenho e pressionou os lábios, sentindo um incômodo profundo. Aquilo não estava certo. Não podia estar. Não era daquilo que ele precisava, como Kaoru podia achar que era? Estava prestes a voltar para o quarto quando o irmão o deteve pelo pulso. Os orbes dourados se encontraram por alguns segundos e foi o suficiente para Hikaru decidir mudar de ideia.

- Pelo que pude entender – Kyouya começou –, o problema foi como vocês lidaram com a situação e não a situação em si. – ele ajeitou os óculos.

- A Cat não quer nem tentar! – Hikaru bufou.

- Ela quer, Hikaru. Ela só não sabe se pode. – Kaoru colocou uma mão sobre a perna do irmão e olhou para ele – Você precisa entender…

- Eu entendo! Mas como ela não poderia?! – havia dor em sua voz.

- Acho que você está se esquecendo de um detalhe muito importante. – Kyouya se projetou para frente, apoiando os braços nas pernas e enlaçando os dedos – Elas podem estar em uma das faculdades mais renomadas, mas elas são bolsistas, Hikaru. Quanto você acha que sobra no fim do mês para que a Catarina tenha condições de viajar até o Japão com frequência? Considerando que ela tem materiais da faculdade para comprar quase sempre, quantas vezes você acha que ela conseguiria ir?

Hikaru engoliu em seco. Já tinha sido confrontado com aquela pergunta antes e ainda não sabia responder. Kyouya percebeu, assim como Kaoru, de forma que decidiu aguardar em silêncio enquanto o outro pensava a respeito e, talvez, bolava uma resposta. Os segundos pareceram minutos e o silêncio era opressor. Ouviam-se apenas os ruídos baixos das respirações. Enfim, o gêmeo mais velho abriu a boca para falar.

- Eu sei que é difícil para ela… – ele suspirou – Eu sei, droga… Eu não espero que ela vá para o Japão logo de cara nem que vá todo mês…

- Mas? – Kyouya fez a pergunta logo em seguida, recebendo um olhar atravessado de Kaoru que foi ignorado.

- Mas… Droga, a gente não pode tentar? Ela falou como se nem quisesse tentar! Como se fosse impossível dar certo ter um relacionamento assim!

- Ela só tem medo, Hikaru… – Kaoru começou a falar, sem ter certeza de que o irmão realmente o ouvia – É mesmo uma coisa complicada… Eu sei que Hani-senpai consegue sem problemas, mas…

Quando o ruivo hesitou, Kyouya precisou completar o raciocínio.

- Você não pode compará-los ao que você e Catarina têm.

- Por que não? – havia amargura na voz do ruivo mais velho.

- Porque eles são pessoas completamente diferentes de tudo! – Kaoru soltou. Talvez tenha soado mais rude do que desejava, mas não se importou. Aquilo estava passando dos limites.

Hikaru engoliu em seco. Sabia que eles tinham razão.


- Cat, qual é… Supera isso. O Hikaru é um perfeito idiota, mas ele ama você. – Anny franziu o cenho.

Catarina continuava emburrada no quarto e se recusava a tudo. Depois que Anastácia e Hana tinham saído porque a loira queria um tempo sozinha, ninguém mais tinha conseguido falar com ela. E aquilo estava se tornando insustentável. Hana já tinha desistido, dizendo que, quando ela quisesse, sairia do quarto. "Da toca", como a estudante de Moda tinha definido. Mas a estudante de Enfermagem não achava certo deixar as coisas daquele jeito, então continuava insistindo.

- O que exatamente aconteceu? – a pergunta veio de Mei e, como sempre, tinha um tom inocente.

- Ah… – Hana desviou o olhar da televisão, abaixando o volume ao começar a responder – Ela e o Hikaru brigaram porque o ano ta chegando ao fim e isso significa que o pessoal tem que voltar ao Japão. Pelo que eu entendi, eles não conseguiram chegar a um acordo sobre o que fazer…

- Ah sim. – a estudante de Odontologia piscou algumas vezes – Eu e Takashi já conversamos sobre isso. – ela sorriu.

- Já? – nesse momento, Anny tinha voltado para a sala e tinha o cenho franzido.

- Sim. – Mei pareceu surpresa pela reação da outra – Decidimos que vamos manter a relação à distância e, sempre que for possível, vamos nos encontrar. Sem a obrigatoriedade de nos vermos em períodos definidos. E vamos tentar não deixar muito desequilibrado. Então, se ele quiser vir duas vezes para cá, eu tenho que ter ido pelo menos uma vez para lá. Vamos tentar intercalar.

As outras duas se entreolharam, surpresas pela simplicidade com que a amiga e o namorado tinham tratado o assunto. Jenna, que estava na cozinha, decidiu se intrometer. Debruçou sobre o balcão, a colher de pau empunhada e chacoalhando conforme ela falava. Felizmente não estava suja, porque a garota tinha acabado de pegá-la, de forma que não havia nada voando pela casa.

- Sério, vocês são… Sei lá, heroínas. Essa coisa de namorar sabendo que tem prazo e que tem pelo menos um oceano de distância entre aqui e lá… Não sei o que eu faria se isso acontecesse comigo e com Nathan.

- Jen, você não ta ajudando… – Hana suspirou – Mas é verdade. Eu e Kyouya ainda não conversamos… E acho que, se depender dele, nem vamos. Mas eu não tenho exatamente pressa em tratar disso. – ela franziu o cenho ao acabar de falar, imaginando como seria.

- Não seria melhor resolver logo? – Mei parecia confusa. Não fazia sentido, para ela, toda aquela dificuldade em acertar as coisas.

- Mei, querida, não é tão simples. Você e Takashi que foram… Anormalmente rápidos e eficientes em resolver. – Anastácia parecia achar certa graça da amiga.

- E você, Anny? – Hana se virou para a outra – Já conversou com o Kaoru?

- Ah… – Anastácia desviou o olhar para o balcão que dividia a sala e a cozinha, notando que Jenna tinha voltado a cuidar do jantar – Mais ou menos… Ele começou a falar sobre isso um dia, mas… – ela sentia o rosto esquentar, parecendo não acreditar no que tinha acontecido – Eu meio que entrei em pânico e… Bom, eu não queria que ele continuasse a falar disso, então eu o beijei. E desde então não temos conversado a respeito.

Hana riu.

- Isso foi fofo, mas também… Sei lá, errado. Imprudente, talvez?

A estudante de Enfermagem suspirou.

- Eu sei, eu sei. – ela se sentou no sofá e abraçou uma almofada – Mas eu não sabia mais o que fazer, eu só sabia que não queria falar daquilo. Foi um impulso.

- Mas vocês precisam falar sobre isso cedo ou tarde. – Mei comentou, olhando com certa confusão para a amiga.

- É, bom… É, precisamos. – Anastácia suspirou – Eu só não sei se tenho pressa em fazer isso. Entende?

- Sim.

- Não.

Hana e Mei tinham respondido ao mesmo tempo, o que fez o grupo se entreolhar e logo começar a rir. Era óbvio que resposta tinha vindo de quem apesar da mistura de vozes. Quando o trio se acalmou, Jenna tornou a debruçar sobre o balcão, dizendo que logo o jantar estaria pronto e que alguém devia "arrancar Cat de seu esconderijo". Hana suspirou e se levantou de onde estava, indo bater à porta da loira mais uma vez.

- Cat, amor. A comida logo vai estar na mesa. – silêncio – Temos um prato especial para você. – mais silêncio – É o Hikaru em uma bandeja de prata.

A resposta foi alguma coisa sendo jogada contra a porta e Anny e Jenna precisavam controlar o riso, enquanto Mei parecia não entender o que era tão engraçado. Hana decidiu que entraria sem cerimônia no quarto e logo viu o que tinha sido jogado. O travesseiro de Catarina impedia que a porta fosse totalmente aberta. A morena suspirou, recolhendo o objeto e acendendo a luz. A loira grunhiu em resposta.

- Anda. – a mestiça jogou o travesseiro na cama, acertando as pernas pálidas da outra – Levanta, lava o rosto e sai desse quarto. Meu deus, você vai me deixar deprimida assim.

Catarina apenas grunhiu de novo.

- Larga de ser criança, Cat. Levante essa bunda magra daí agora. – Hana franziu o cenho ao falar e sua voz tinha endurecido um pouco.

- Eu não tenho a bunda magra…! – Catarina automaticamente levou uma das mãos aos quadris, parecendo desconfortável.

- Aham, e eu sou ruiva. – a morena franziu o cenho – Levanta ou eu te carrego para fora.

Seguiram-se alguns segundos de silêncio, que logos foram trocados pelo barulho de Catarina saindo da cama e indo até o banheiro. Ela ainda tinha a expressão emburrada, mas só o fato de ter saído do quarto era um avanço. Hana aproveitou para abrir um pouco a janela para o ar circular e apagou a luz ao sair. A porta continuou aberta, como se indicasse o fim do isolamento. Quando a morena foi para a sala novamente, Anny a olhou com o cenho franzido.

- Isso foi meio dramático.

- Ela está sendo dramática. Ela já sabia que o Hikaru é um perfeito idiota. Devia esperar por isso. – a mestiça soltou o ar com força e se deixou cair sobre a poltrona.

- Você está sendo muito dura com ela – Anastácia mordeu levemente o lábio inferior antes de continuar –, mas acho que concordo com você.

- Ok, chega de drama nessa casa. Meu deus! – Jenna surgiu na sala com uma panela em mãos e um suporte de madeira – Vamos falar de comida! Porque isso sempre alegra as pessoas. – ela sorriu e indicou que todos se sentassem à mesa.

Não demorou para que as cinco estivessem reunidas em volta da mesa, servindo-se do jantar que Jenna tinha preparado especialmente para levantar os ânimos e conversando sobre outras coisas mais leves e divertidas. Foi só consideravelmente depois que o telefone da casa tocou, com o identificador mostrando o número de Kyouya. Hana foi automaticamente encarregada de atender, já imaginando o assunto.

- Estou com o Kaoru e o Hikaru. Importam-se se passarmos aí?

- Agora? – ela franziu o cenho – Não acha um pouco tarde para isso? – ela não conseguia acreditar naquilo.

- Eu só gostaria de resolver tudo o quanto antes.

- Bom, a gente também, mas…

Ela parou de falar ao notar que Anny a chamava com um gesto de mão.

- Espera um pouco. – então cobriu o bocal do telefone e se virou para a amiga – Ele quer saber se pode vir para cá com os gêmeos agora.

As outras se entreolharam. Jenna deu de ombros e Mei disse que não se importava. Anny concordou, apesar da hesitação. Catarina, provavelmente para não ser a única contra, acabou aceitando. Tendo isso decidido, Hana destampou o telefone e chamou por Kyouya para conferir se ele continuava na linha. Quando o rapaz respondeu, ela deu continuidade à conversa.

- Tudo bem, vocês podem vir.

- Ótimo. Estaremos logo aí. – e então desligou.

Hana suspirou. Será que nunca se acostumaria com aquilo? Aquele jeito de ele terminar a conversa via telefone? Talvez. Mas não era o ponto central naquele momento.