Hana estava sentada sobre a cama de Kyouya, olhando o rapaz arrumando suas coisas. Ela e o moreno tinham trocado poucas palavras naquele dia, mas nenhum dos dois parecia se importar. Era quase como se tivessem feito um pacto silencioso de que não tocariam naquele assunto. Não por eles, mas pelos amigos. A mestiça não conseguia pensar sobre aquilo sem se lembrar do clima pesado que se instalara no apartamento e no carro delas enquanto iam até o prédio dos alunos estrangeiros.

- Sabe… Você não precisa ficar com essa cara de quem está a ponto de chorar. – Kyouya se virou para ela com alguns CDs na mão e levantou brevemente os orbes escuros para fitá-la.

- Eu sei, mas… – ela suspirou – Eu fico pensando em como seria se nós estivéssemos no lugar deles e… E dói, sabe?

Kyouya não respondeu, apenas deixando tudo que tinha em mãos sobre a escrivaninha e indo até a garota. Sentou-se ao seu lado e a abraçou com um gesto suave. Hana não hesitou ao passar os braços ao redor dele de volta e afundar o rosto em seu peito. Ela realmente não saberia o que faria se Kyouya tivesse que ir embora. Parecia tão natural tê-lo por perto, como se ele tivesse estado lá desde sempre, que ela não conseguia imaginar uma situação diferente.

- Você não devia pensar sobre isso. Nós não estamos no lugar deles. – ele disse por fim.

Hana suspirou.

- Eu sei…


Anastácia, depois de ter chorado por um tempo considerável e ter sido acompanhada por Kaoru, tinha decidido ser prática. Não havia nada que eles pudessem fazer naquele momento sobre a situação, e tinham conversado muito a respeito antes de concluir que estavam mesmo de mãos atadas, de forma que ela decidiu que faria tudo que pudesse. Para que, ela não sabia ainda, mas estava pensando a respeito. Para que ele não tivesse problemas na volta? Sim, aquilo estava na lista. Para que ele não se sentisse mal quando tivessem que realmente se separar porque ele precisava embarcar? Sim, aquilo também estava na lista.

- Que droga, por que eu não consigo…?! – Kaoru bufou e jogou a calça que segurava para o outro lado do quarto. Ele ainda tinha os olhos vermelhos e parecia a ponto de começar a chorar de novo.

A garota suspirou e foi pegar a peça de roupa.

- Você não precisa dobrar perfeitamente, é só não deixar de qualquer jeito. – ela tinha começado a arrumar a calça enquanto falava.

- Não é disso que eu estou falando, Anny. – ele olhou para ela com o cenho franzido.

- Eu sei. – ela não levantou o olhar ao responder – Mas pensar sobre isso não vai mudar nada, então estava tentando mudar seu foco de atenção. – ela terminou o que fazia e deixou a peça sobre a cama – Quer que eu faça um rolinho?

- Quê? – ele piscou algumas vezes – Rolinho?

- É, para economizar espaço na mala. – ela parecia se divertir com o desconhecimento do ruivo.

- Ah… Sei lá… – ele piscou algumas vezes – Pode ser. – ele deu de ombros.

Ela arqueou uma sobrancelha, segurando-se para não rir. Imaginou quantas vezes ele teria se deparado com um problema de espaço e decidido apenas pegar outra mala ou então uma que fosse maior. "Provavelmente, sempre", ela sorriu de canto e começou a enrolar a calça dobrada. Quando acabou, foi ajeitá-la junto do resto. "Mas o que…?", ela encarou o trabalho do ruivo. Apesar de estar tudo dobrado direito, as coisas pareciam ter sido postas sem grandes planejamentos. Ela suspirou. Aquilo ia dar trabalho.

- Quantas vezes você fez uma mala?

- Eu sempre tinha alguém para arrumar para mim. – ele parecia um tanto envergonhado de dizer aquilo – Eu só precisava separar o que queria.

Anny riu levemente, fazendo com que Kaoru se virasse com um protesto murcho.

- Desculpe, desculpe. É só que eu não achei que existissem criados para esse tipo de coisa.

Ele não respondeu, apenas observando enquanto a morena ajeitava suas coisas na mala. Vê-la ali, se esforçando para ajudá-lo apesar de tudo que aquilo significava, o fazia querer menos ainda ir embora. Não que não sentisse saudade de casa, mas não queria se separar dela. Da vida que tinha conhecido nos Estados Unidos também, mas principalmente da garota. Queria poder simplesmente levá-la consigo, mas sabia que não era tão simples.

- Anny. – ele se abaixou ao seu lado e esperou que ela se virasse – Eu amo você.

A garota piscou algumas vezes, surpresa com aquilo. Então sorriu e passou a mão pelas mechas ruivas do outro em uma carícia rápida antes de responder.

- Eu também te amo. Mesmo você não sendo capaz de fazer sozinho a mala. – ela riu com um ar zombeteiro e Kaoru revirou os olhos, mas logo ria também.

- Você não precisa ficar me lembrando disso, ok? – ele se levantou e voltou a mexer em suas coisas – E não precisa se preocupar tanto com o espaço, tem mais uma mala.

"Eu sabia", Anastácia revirou os olhos.


Catarina jogou o travesseiro sobre Hikaru, rindo com divertimento. O rapaz suspirou com um ar de quem se rendia, mas logo tinha devolvido o ataque. A loira apenas se jogou para o lado na cama a fim de desviar, mas não conseguiu reagir a tempo e o travesseiro acabou pegando em seu rosto. Ela tornou a se sentar e mostrou a língua para o mais novo, que apenas riu.

- Quanta maturidade.

- Aprendi pela convivência. – ela sorriu com um ar zombeteiro.

Hikaru precisou de algum tempo para processar.

- Ei! – ele franziu o cenho, fitando a namorada com certo desconforto enquanto ela apenas ria sobre a cama e apoiava os braços sobre o travesseiro – Isso não é justo.

- Ah, não? Explique o motivo, por favor. – ela estava visivelmente se divertindo.

- Porque… Porque…

- Sim…?

- Porque sim. – Hikaru bufou. Tinha sido derrotado e não podia negar.

A loira riu mais uma vez antes de deixar o travesseiro de lado e se levantar.

- Nós devíamos descer as coisas. – ela apontou para as malas no canto do quarto.

Hikaru seguiu o dedo apontado com o olhar e suspirou mais uma vez. Não conseguia acreditar ainda que aquele dia tinha chegado, apesar da consciência de que não havia como fugir. O que ele ainda não sabia era que sua mente já começava a trabalhar em um plano para voltar aos Estados Unidos o quanto antes, mesmo que por pouco tempo, só para poder ver a garota. Foi então pegar uma das malas, enquanto a loira pegava a outra.

Em silêncio, eles saíram do apartamento.


Mei estava com Mori e Hani em uma doçaria próxima do prédio em que os dois moravam, conversando sobre os planos que tinham para o futuro. Falavam sobre a faculdade, sobre os futuros trabalhos. Os rapazes falavam dos negócios da família. Falaram também sobre os irmãos mais novos e o que achavam que eles fariam. Acabaram, consequentemente, falando de crianças, de ter uma família.

- Acho que eu gostaria de ter uma casa grande. – Mei pousou a ponta do garfo sobre o lábio inferior ao acabar de falar.

- Achei que Mei-chan ia preferir um apartamento. – Hani piscou, olhando para a amiga com curiosidade. Então decidiu que o bolo era mais interessante e enfiou um grande punhado na boca, comendo com alegria.

- Ah, pode ser. – ela deu de ombros – Mas acho que uma casa seria melhor para criar uma criança. Ela teria mais liberdade. E, quando crescesse, daria para fazer uma área de treinamento. Ela poderia aprender alguma técnica marcial. Teria a liberdade que quisesse para treinar em casa.

Mori se lembrou da empolgação da morena quando viajaram ao Japão e ela viu a área de treinamento que os Morinozuka tinham. Será que a ideia tinha vindo naquela hora? Ou talvez a garota tivesse pensado a respeito depois e decidido que a ideia era interessante. Fosse como fosse, ele apoiava. Especialmente porque também gostava de ter onde treinar com privacidade.

- Mei-chan quer ter filhos? – Hani parecia gostar sinceramente da ideia.

- Ah, sim! – ela sorriu – Três, eu acho. Parece ser um bom número.

Hani riu, concordando. Ele e Reiko não tinham conversado sobre esse assunto ainda, ele não sabia se seria adequado. Mas imaginava que a garota iria gostar de ter pelo menos uma criança na casa. Ele, pelo menos, gostaria. Gostava da ideia de ter alguém a quem passar seus conhecimentos e suas técnicas marciais. Os dois continuaram conversando, com Mori apenas acompanhando em silêncio. De vez em quando fazia algum comentário, mas geralmente era quando algum dos outros se dirigia a ele. Não que o moreno se importasse.


Jenna estava no apartamento de Tamaki e Haruhi, fazendo uso da cozinha enquanto o casal terminava de arrumar as próprias coisas. Ela tinha decidido fazer um almoço especial para os amigos como um presente de despedida. De tempos em tempos, Haruhi aparecia para perguntar se estava tudo bem e se tinha algo de que a amiga precisava. Tamaki, por outro lado, aparecia por mera curiosidade. Queria saber o que Jenna cozinhava, instigado pelo cheiro atraente que se espalhava pelo apartamento.

- Sabe – o loiro começou –, acho realmente maravilhoso que você tenha decidido fazer algo tão festivo para nossa despedida. Em vez de encarar isso como algo triste, você decidiu não se deixar abalar. Isso é realmente magnífico! – ele sorriu para a coreana e bateu as mãos diante do peito – Mas eu entenderei perfeitamente a tristeza que se abaterá sobre você, minha querida Jenna, quando nos vir voando pelo céu em direção ao outro lado do planeta…! – ele então fez uma pausa dramática, se encolhendo quando a garota bateu em sua mão com a colher de pau.

- Cuidado com o fogão, idiota. – ela suspirou – E seria difícil vocês voarem em qualquer outro lugar que não o céu. – ela olhou para ele com um ar divertido e zombeteiro – E tem mais. O Japão não é realmente tão longe. Só o caminho que todos os voos fazem que faz parecer que sim. Mas não esqueça que o mundo é redondo.

Tamaki piscou algumas vezes, parecendo digerir o que tinha escutado.

- Oh, sim, sim. – ele sorriu com empolgação quando a ficha caiu – Você tem toda a razão! Mas! – ele fez uma pausa dramática – Isso não dá a devida dramaticidade à situação. – ele parecia empolgado com o que falava, como geralmente acontecia.

- Tamaki. – Haruhi apareceu na porta e suspirou ao ver o estado do outro – Pare de atrapalhá-la e termine de arrumar as suas coisas…

- Sim, Haruhi! – ele sorriu como um cachorrinho que vê seu dono pela primeira vez no dia e então se retirou, despedindo-se dramática e empolgadamente de Jenna, que apenas riu.


Quando todos já tinham acabado de arrumar as próprias coisas e levado para os próprios carros, dirigiram-se para o apartamento de Haruhi e Tamaki para o almoço. Aquela era uma situação estranha. Ao mesmo tempo em que se sentiam tristes pela despedida, era agradável se reunirem para uma refeição informal como aquela. Conversas animadas e descontraídas logo tinham tomado o ambiente e não demorou muito para a coreana anunciar que podiam comer.

Todos evitavam falar a respeito da partida, que ocorreria em algumas horas. Apesar de duvidarem que a distância os separaria, sabiam que ainda assim seria doloroso. Mais para uns que para outros, mas ainda afetaria a todos. Comeram tão sem preocupações quanto lhes foi possível e, após uma pausa que eles desejavam ter sido maior, saíram para o aeroporto. Jenna foi com Hana no carro que elas tinham, enquanto Mei foi com Hani e Mori. Anastácia e Catarina foram com os gêmeos. Kyouya foi no próprio carro, de forma que Haruhi e Tamaki foram sozinhos no veículo do loiro.

A primeira coisa que fizeram foi devolver à locadora os carros alugados. Como Kyouya era o único que continuaria no país, ele preferiu acompanhar Hana enquanto ela andava um tanto a esmo pelo lugar. As demais garotas esperavam no ponto que o grupo tinha marcado de se encontrar. Apesar dos esforços, ficava cada vez mais difícil sufocar o desconforto que se alojava em seus peitos.

Hana parou diante de uma janela e suspirou.

- O que houve? – Kyouya parou ao seu lado.

- Você acha que eles vão ficar bem? – ela olhava para o lado de fora ao perguntar e sua voz saía baixa.

- Sim. Não é como se fosse o fim do mundo. – ele ajeitou os óculos discretamente. Apesar de acreditar no que dizia, tinha uma sensação desconfortável a respeito.

- É, eu sei…

O rapaz passou um dos braços ao redor dos ombros da garota sem responder.

- Nós devíamos ir para junto dos outros. – a voz de Hana saiu quase sem emoções quando ela tornou a falar – Eles devem estar esperando. – então ela se virou e começou a andar.

Kyouya franziu o cenho, indo atrás sem responder.


N/A: sim, queridos, a fic está acabando (aaaaah ;-;), mas não se deprimam. Eu tenho planos de fazer essa coisa chegar ao capítulo 100! Uhul! Tanto que tenho alguns capítulos finais já escritos (outros em processo de produção, porque tenho apenas o planejamento deles). E não se preocupem, o avião deles não vai cair, hahahaha. Até porque, se cair, não tem mais história, não é? Enfim, apesar de eu ter ficado com dó de escrever este arco, aqui está a inadiável e inevitável despedida deles. Espero não deprimir ninguém, hahahaha.