Quando soou o anúncio de que os passageiros do próximo voo para o Japão deviam se dirigir à área de embarque, o grupo soube que era a hora de se separar. As despedidas foram inicialmente um tanto hesitantes enquanto os olhos se enchiam de lágrimas e as vozes lutavam para passarem pelas gargantas. Catarina mantinha-se abraçada com tanta força a Hikaru que era quase possível ver o coração do ruivo se quebrando quando ele tentou se soltar sem muita convicção.
Havia um silêncio pesado os envolvendo.
Hana e Jenna, em uma sábia decisão, decidiram se manterem afastadas, junto de Hani, Tamaki, Haruhi e Kyouya, até que os casais terminassem de se despedir. Mei e Mori pareciam estranhamente confortáveis naquela situação. Pelo menos tanto quanto era possível. Mas Anny e Catarina estavam visivelmente perturbadas, assim como os gêmeos. Era mais difícil para eles. De forma quase milagrosa, Tamaki parecia ter entendido sem que ninguém lhe dissesse que o melhor a ser feito era ficar quieto no canto.
Os minutos pareceram longos demais até que todos tivessem terminado de se despedir. Por fim, os integrantes do Host Club, com exceção de Kyouya, se dirigiram à área de embarque. O restante do grupo os acompanhou com o olhar até onde foi possível, indo embora apenas depois de ter certeza de que não havia mais nada a ser feito. Dirigiram-se ao estacionamento em silêncio, que só foi interrompido quando Hana e Kyouya se despediram brevemente. O moreno entrou no próprio carro e saiu antes das garotas.
O silêncio dentro do veículo era quase sepulcral.
Até que o avião decolasse, nenhum do integrantes do Host Club ousou dizer uma única palavra. Eles estavam praticamente sozinhos na primeira classe, de forma que podiam conversar sem grandes preocupações com quem poderia ouvi-los. Tendo isso em mente, Kaoru se projetou levemente para frente em seu assento, chamando a atenção do irmão.
- Como você está, Hikaru? – sua voz era suave e tinha um tom discreto de preocupação.
- Ah… Eu sei lá… Nunca achei que seria tão difícil me despedir de alguém. – o gêmeo mais velho suspirou. Estava acostumado com pessoas entrando e saindo de sua vida, mas a convivência com os integrantes do Host Club tinha lhe mostrado que nem sempre seria fácil. O intercâmbio tinha servido para reforçar de forma dolorosa a ideia.
- É, eu sei como você se sente. – o mais novo sorriu de canto – Mas não é como se nunca mais fôssemos vê-las.
Hikaru tentou sorrir, mas não conseguiu. Sabia que Kaoru tinha razão, mas mesmo assim era doloroso demais. Era uma dor com a qual ele não tinha aprendido a lidar. A sensação de ter e não ter alguém ao mesmo tempo. O mais novo entendia isso, de forma que deu a conversa por encerrada. Tornou a se recostar na cadeira, olhando os amigos ao redor. Mori olhava distraído pela janela, Hani tinha dormido, Tamaki e Haruhi jogavam alguma coisa na televisão disponível. Todos pareciam tão bem quanto possível. Mas era um equilíbrio frágil.
Kyouya tinha ligado o rádio e o deixado com o volume baixo. Não prestava atenção na música que tocava, porque não era importante. Ele apenas não queria lidar com o silêncio enquanto sua mente processava o que tinha acontecido. Hana parecia estranhamente afetada pela volta dos amigos ao Japão e ele não conseguia entender o motivo. Ela tinha dito mais cedo que era por imaginar como seria se fossem eles. Mas não eram eles. Por que então ela continuava pensando sobre isso?
Mais relevante, o que ele podia fazer a respeito?
O ano letivo tinha acabado. As férias logo vieram, os raios do sol preguiçosamente se estendendo para dentro do apartamento em que as cinco garotas moravam. O silêncio preenchia todos os espaços que encontrava, mas não oprimia. Na verdade, ele parecia apenas querer embalar o quinteto ainda mais no sono profundo em que elas se encontravam. Era um silêncio tranquilo, quebrado apenas pelos sons dos pássaros do lado de fora e pelos poucos ruídos de fundo.
Até que um despertador tocou.
Hana socou o aparelho até parar de ouvir aquele som estridente que parecia rasgar seu cérebro ao meio. O relógio caiu no chão com um baque surdo e foi recolhido poucos segundos depois, quando a morena conseguiu se levantar e processar a cena a sua volta. Colocando o objeto de volta ao seu lugar de direito ao lado da cama, a garota se arrastou até o banheiro. Precisaria de longos minutos para conseguir se parecer efetivamente com uma pessoa consciente.
Kyouya estava sentado à mesa da cozinha, com uma revista em mãos e uma xícara cujo conteúdo fumegava na outra. Um prato de torradas parcialmente comidas estava a sua frente sobre a toalha. Seus orbes negros percorriam rapidamente a matéria que tinha lhe atraído a atenção e o rapaz só voltou a comer depois de terminada a leitura. Com isso, a bebida estava morna quando ele decidiu tomá-la, mas não importava.
A campainha tocou vários minutos depois de o moreno ter terminado de arrumar as coisas que tinham sido usadas no café da manhã. Sem olhar quem era, ele abriu a porta e deu espaço para a visita entrar. Hana emergiu no apartamento ainda com um ar de sono, mas estava suficientemente apresentável. Sentou-se no sofá e esperou até que o anfitrião estivesse ao seu lado para começar a falar.
- Eu sei que você ainda está relutante em relação a isso, mas já falei com o Fred, o John e o Ben. Eles devem chegar ao longo dessa semana. – ela se ajeitou de forma a ficar de frente para o moreno – Eles estão dispostos a ajudar.
- Tudo bem. – Kyouya se recostou entre o braço e o encosto do sofá – Só não tenho certeza de que levá-los conosco seja uma boa ideia.
- Por que não seria? Eu sei que a visita deles não foi de todo agradável, mas eles ainda são pessoas importantes para nós. – ela franziu o cenho – E eles prometeram se comportar. – "Eu espero que isso valha mais do que eu imagino também…", e suspirou.
Passaram-se alguns segundos de silêncio.
- Vamos ver com os outros dois primeiro. – o moreno ajeitou os óculos – Quando eles chegam?
- Devem vir mais tarde só. Sabe como é. – Hana deu de ombros – Provavelmente depois do almoço.
Kyouya suspirou. Apesar de ele não ser particularmente a favor de levantar cedo, era menos ainda a favor de demoras em tomadas de decisões. Especialmente as importantes. Hana colocou uma mão sobre seu colo, como se dissesse a ele que se acalmasse. O moreno apenas baixou o olhar e envolveu a mão da garota com a própria. Uma lembrança então piscou em sua mente, fazendo-o sorrir discretamente de canto.
- Isso me lembra de quando começamos. – ele levantou os olhos para a outra e o sorriso ainda estava em seu rosto. Hana mordeu o próprio lábio inferior e sorriu de volta.
Era impressionante como mesmo um sorriso tão discreto fazia com que o moreno parecesse tão mais bonito – não que ele normalmente não fosse – aos olhos dela. Ela se lembrou do dia em que tinha finalmente se acertado com Kyouya ao ouvir o comentário. O caos que acompanhava aquela lembrança não era importante naquele momento. Os dois ficaram daquele jeito, entreolhando-se em silêncio, por alguns segundos, sendo o telefone de Hana tocando o motivo da interrupção.
- Onde você se meteu? – a voz de Anny soava do outro lado antes mesmo que a estudante de Moda pudesse dizer "alô" e o tom não era de alguém feliz.
- Ah… Eu estou… – Hana olhou para Kyouya como se pedisse desesperadamente por ajuda – Com o Kyouya… Nós estamos…
Ele estendeu o próprio telefone para ela e indicou um nome.
- Vendo o trabalho da mãe dos gêmeos. É. Decidimos aproveitar as férias, sabe, para ver essas coisas com calma.
- Sei. – a outra não soava exatamente convencida e continuou após uma breve pausa – Bom, então podemos considerar que você não vai voltar tão cedo, certo? Só para saber. Enfim, divirtam-se "vendo o trabalho da mãe dos gêmeos". – o tom era de óbvia gozação e a ligação foi encerrada entre risos.
Kyouya apenas ergueu uma sobrancelha quando Hana se virou para ele.
- Estou dizendo, John, que isso é loucura. – Frederick terminou de dobrar uma camisa e a colocou na mala antes de virar para o amigo – Quais as chances de realmente dar certo? É aquele cara quem está organizando.
- E a Hana. – Benjamin levantou de onde estava e foi até os amigos – E você demora muito para arrumar a mala.
- Independentemente de quem esteja organizando, é por uma boa causa. – John deu de ombros.
- E vai melhorar sua imagem com a sua preciosa Hana. – Ben tinha um tom zombeteiro.
- Não a chame assim. – Fred franziu o cenho e se virou para mexer em seu guarda-roupa – E eu só demorei para começar porque tinha mais coisas a fazer que vocês.
- É, é. Como você quiser. – John olhou para a peça que o amigo tinha em mãos – Você não vai mesmo levar isso, não é?
- Na verdade – o loiro começou –, vou.
John não hesitou em pegar a roupa do outro e jogá-la longe.
- Não vai. Por favor, seu bom senso já esteve em melhor forma.
Benjamin ria enquanto observava os dois.
- Mas falando sério agora. – ele começou – Como vocês se sentem com essa ideia toda?
John e Frederick se entreolharam, sem saber exatamente como responder.
- É difícil. – foi a resposta do loiro.
- É… Complicado. – o moreno deu de ombros.
Ben ergueu uma sobrancelha. Aquilo tinha tudo para não terminar bem.
Quando Jenna chegou com Nathan ao apartamento de Kyouya, encontrou o moreno e a amiga no meio de uma maratona de filmes de ficção científica. No entanto, pela bagunça de livros que tinha dominado a sala, era perceptível que eles não estavam vendo pelo filme, mas por toda a ciência por trás. Ou pela falta de ciência, o que era mais provável.
- Vocês são loucos. – a coreana riu.
- Talvez. – a mestiça deu de ombros e sorriu – Querem se juntar a nós?
Kyouya lançou um olhar torto à namorada.
- É melhor começarmos logo o que temos de fazer. – ele fechou a porta e se dirigiu ao sofá, começando a recolher as coisas espalhadas. A estudante de Moda logo tinha se juntado a ele, enquanto os outros tinham sido encarregados de separar algo para comerem.
Na mesa de jantar, diversos papeis rabiscados com o que tinha sido discutido nos dias anteriores estavam dispostos. Algumas anotações novas estavam presentes, além de várias folhas em branco. Canetas de diversas cores estavam espalhadas e Jenna conseguiu reconhecer o estojo da amiga em um canto. "Não me surpreende", ela sorriu. Com a ajuda de Nathan, conseguiu um espaço bom para colocar as coisas que tinham separado para beliscarem.
Kyouya e Hana se juntaram aos amigos em pouco tempo.
- Bom, como decidimos antes, eu falei com John e companhia. Eles estão dispostos a ajudar, mas o Ben me pareceu um tanto receoso. – a mestiça pegou alguns dos papeis e começou a olhá-los antes de continuar – Por causa da última visita deles, provavelmente. Enfim. Eles devem chegar ao longo dessa semana.
- Não acredito que eles realmente vão vir só por isso. Podíamos acertar por e-mail. – Jenna parecia se divertir com a situação, o que fez a amiga e Kyouya se entreolharem.
- De fato. – Nathan coçou a nuca – Bom, deixando isso de lado… E a ideia de eles irem conosco?
- Sobre isso – Kyouya começou –, nós precisamos conversar. Eu particularmente não acho que seja uma boa ideia.
- Bom, talvez as coisas acabem um pouco tensas, mas eu realmente acho que eles conseguiriam se dar bem com o restante se não fosse… Bom, se não fosse pelos hormônios atacados. – Jenna suspirou – E eu sei que não parece, mas eles têm bom senso. – pausa – Algum, pelo menos.
Hana riu.
- Espero. Até porque eles prometeram se comportar. De qualquer forma – ela colocou uma das folhas no meio do grupo –, esse é o cronograma que temos planejado. Precisamos revê-lo e garantir que esteja tudo comprado até a data limite.
Os quatro pares de olhos percorriam o conteúdo do papel, revisando-o. A parte financeira era o maior problema. Era por isso que precisavam de toda a ajuda possível. Não surpreendentemente, Kyouya não tinha se oferecido para pagar tudo. Ele e Hana já tinham discutido tantas vezes a respeito dessa questão que o moreno tinha aprendido a primeiro considerar todas as outras sugestões. Além disso, seu lado mais sovina definitivamente não se incomodava, apesar da pouca praticidade que cercava as ideias.
Se tudo desse certo, as férias não seriam tão desanimadas quanto pareciam prometer naquele momento.
N/A: um capítulo típico de... Encheção de linguiça, hahahaha. Coisas da vida, fazer o que?
