Quando Frederick emergiu na região do desembarque do aeroporto, Hana foi a primeira coisa que seus olhos captaram. Ela estava sentada ao lado de Jenna e as duas pareciam conversar animadamente. As duas pareciam estar sozinhas, ou foi o que ele achou até conseguir passar pela massa de gente que havia no caminho, sendo seguido por John e Benjamin, e ver os dois acompanhantes.
O loiro estacou, encarando com desconforto o japonês a poucos passos de distância. Não que ele não soubesse que Kyouya tinha ficado nos Estados Unidos, mas não imaginava que fosse vê-lo ali, tão logo desembarcasse. Os amigos, ao seguirem seu olhar, apenas suspiraram e um deles lhe deu dois tapas suaves no ombro.
- Você vai precisar aguentar.
Quando o trio se aproximou, as garotas pararam imediatamente a conversa, levantando-se para cumprimentá-los com empolgação. O grupo ficou ali ainda por mais algum tempo, conversando com animação, até que John sugeriu que fossem comer em algum lugar bom e, preferencialmente, barato. Os outros logo concordaram.
Depois do almoço, o grupo foi para o hotel em que os rapazes ficariam para poder deixar a bagagem e então para o apartamento de Kyouya. Era estranho para as garotas passar ali e não encontrar os amigos, não ouvir as vozes animadas através das portas ou qualquer uma das coisas com que tinham se acostumado. O silêncio era desconfortável e só foi quebrado quando todos estavam dentro da residência de Kyouya, que logo foi buscar algo para servir.
Hana colocava os papeis com as anotações sobre a mesa enquanto Jenna explicava o que já estava decidido e o que precisavam decidir. Expôs também o cronograma pensado e o papel de cada um naquilo tudo. Nesse meio tempo, Kyouya voltou com uma bandeja com xícaras de chá, que deixou no centro da mesa antes de olhar brevemente para Frederick e então ir se sentar ao lado de Hana.
- Nós queremos que seja uma surpresa para as outras. Por isso não vamos para o Japão. – a mestiça começou, ajeitando-se na cadeira antes de continuar – Eu tenho falado com Kaoru, que não comentou com mais ninguém a respeito de tudo isso, e ele andou olhando alguns lugares que podem ser interessantes.
- Algum lugar viável? – a pergunta veio de John, que parecia se divertir com alguma coisa.
- Não se preocupe, querido, ele tem noção das coisas. – Jenna foi quem respondeu, procurando a lista que o ruivo tinha mandado – Ele sugeriu lugares, mas não hotéis, de forma que podemos escolher o que acharmos melhor.
Benjamin pegou a lista quando a amiga a estendeu.
- A Itália me parece uma boa opção. – foi o que ele disse após uma olhada rápida.
Quase metade das férias já tinha passado quando Hana e Jenna decidiram que era a hora de dar a notícia às amigas. Reunidas na sala do apartamento, elas sentiam os olhares ansiosos das outras voltados para si de forma inquisitória. Kyouya chegaria em pouco tempo, mas parecia que levava bem mais do que o necessário. O relógio discordava, girando seus ponteiros lentamente. Quando a campainha finalmente soou, Jenna quase pulou do sofá para abrir a porta.
- Finalmente! – foi tudo que ela disse quando viu os quatro rapazes parados no corredor. Então deu espaço para que eles entrassem antes de fechar a porta atrás de si.
Anastácia foi a primeira a se manifestar ao ver quem tinha chegado.
- O que vocês fazem aqui? – seu tom era de incredulidade e alegria e ela se levantou para cumprimentar Frederick, John e Benjamin. Catarina e Mei logo fizeram o mesmo.
Enquanto isso, Kyouya tinha ido até Hana e lhe entregado uma pasta preta. Dentro, todos os papéis necessários, incluindo passagens e listas de documentos, tinham sido organizados de acordo com a quem se referiam. Quando as coisas se acalmaram, a mestiça se pôs em pé e começou a distribuir as folhas para as amigas enquanto Jenna começava a contar a novidade.
- Pensando em fazer com que essas férias compensassem o final de ano que tivemos da faculdade – a coreana começou –, nós decidimos organizar uma viagem para todos nós. Incluindo esses três. – ela apontou para os rapazes ao seu lado. Kyouya, do outro lado do cômodo, observava o caminhar das coisas – Por ser um presente, vocês não precisam se preocupar em como fazer nada. Só, claro, o visto, se for o caso.
- Espera um pouco. – Catarina se ajeitou no lugar – Você está dizendo que nós vamos com tudo pago?
- Quase. – Hana sorriu ao responder, voltando a se sentar no sofá – Só você, a Anny e a Mei.
- Isso não soa certo. – Mei franziu o cenho.
- É um presente. – Jenna revirou os olhos – Parem de reclamar tanto.
- E por que vocês decidiram fazer tudo isso? – Anastácia tinha um tom descrente na voz.
- Por motivos que não são relevantes agora. – Hana gesticulou brevemente com a mão.
A estudante de Enfermagem ia responder, mas foi impedida por Jenna.
- De qualquer forma, tenho certeza de que vocês vão gostar. Nós pensamos com muito amor e carinho sobre tudo isso. Tudo que fizemos foi seguindo um cronograma preciso para evitar ao máximo que algo desse errado. – ela sorriu com empolgação – Agora vem a melhor parte. Preparadas?
As outras três, que ainda não conseguiam digerir o que estavam ouvindo, assentiram.
- Nós vamos para a Itália! – a coreana levantou os braços em empolgação.
- Vai ser tão legal! – Hana acrescentou – E vamos estar todos juntos! – ela foi até onde Jenna estava e se virou para as amigas – Chamamos até o Nathan, porque ele estava louco para conhecer algum lugar da Europa.
- Certo… – Anny tinha um tom hesitante.
- As passagens já estão compradas. – Kyouya se intrometeu na conversa, fazendo os demais se virarem – O hotel também já está reservado. Vocês só precisam fazer as malas.
- Você ajudou a organizar? – Catarina não parecia por muita fé na ideia. Especialmente se aquilo envolvia tanta caridade, generosidade talvez, quanto as amigas pareciam se esforçar para demonstrar.
- Sim. Por quê? – ele não parecia entender o propósito da pergunta.
- Nada. – a loira franziu o cenho – Só… Estranhei.
O moreno ergueu uma sobrancelha em resposta. Hana e Jenna se entreolharam, visivelmente tentando controlar o riso. Benjamin aproveitou para se manifestar. Tinha um sorriso largo no rosto e parecia se divertir com tudo aquilo, especialmente a confusão das amigas presenteadas com a viagem. Era, de fato, algo inédito no grupo deles. Mas não era uma ideia ruim e, se precisasse, ele faria de novo, nem que tivesse de se desdobrar completamente para conseguir realizar.
- Nós viajamos daqui uma semana. Planejamos o horário do voo com base no fuso horário. Pareceu ser a melhor ideia. E, como vocês amam muito a gente e nós sabemos disso – nessa hora, tanto as garotas quanto Frederick e John riram –, pegamos assentos no meio de forma que conseguíssemos ficar todos juntos.
Ao voltarem para o hotel no final do dia, Frederick, John e Benjamin decidiram passar algum tempo no bar antes de irem para os respectivos quartos. Pediram bebidas fracas e uma porção de fritas, que tiveram de repetir porque seu tamanho não era suficiente. Conversaram sobre os mais diversos assuntos, inclusive como achavam que seria a viagem. Tinham pegado todos os dias de férias a que tinham direito de uma única vez justamente por causa daquilo. Estavam imaginando a reação das garotas quando descobrissem o resto da surpresa no momento em que um garçom se aproximou.
- Senhor Benjamin? – ele tinha um tom respeitoso e o rapaz logo se virou com visível confusão – Um recado para o senhor. – o homem estendeu um papel e se retirou com um breve aceno de cabeça quando o outro agradeceu.
- Isso é muito coisa de filme. – John ria e deu um longo gole em sua bebida antes de pedir mais uma para o barman.
Ben desdobrou a folha e analisou a caligrafia delicada que já lhe era familiar. Um sorriso discreto se desenhou em seus lábios e ele terminou de esvaziar o copo antes de pedir licença aos amigos e se retirar. Os outros dois se entreolharam, deram de ombros e riram antes de voltar à conversa. Não era raro o amigo receber alguma visita quando viajava. Isso quando não viajava acompanhado.
A noite era uma criança e eles se sentiam com todo o tempo do mundo.
Benjamin abriu a porta do quarto, encontrando uma mulher ruiva pouco mais velha deitada em sua cama e lendo algum livro qualquer que ele não soube identificar. Ao cumprimentá-la, já tirando os sapatos e as meias, viu o livro ser fechado e posto de lado antes de a ruiva se levantar e se sentar na cama. Ela tinha uma elegância que destoava quando em comparação a ele, o que possivelmente era o que o atraía tanto.
- Que surpresa vê-la aqui, Morgana. – ele se sentou na cama ao lado da mulher e esticou a mão para pegar o livro – E isso não parece fazer parte da sua leitura habitual.
- E não é, Benjamin. Achei na gaveta. – ela indicou o criado-mudo com um breve aceno de cabeça – Mas não é por isso que eu estou aqui.
- E suponho que não seja para me fazer companhia também. – ele a encarou com um ar sério – Lembro que você saiu um tanto quanto apressada no nosso último encontro.
- Aquilo… Eu tive meus motivos. – ela suspirou – Mas eu estou aqui porque gosto de você, Benjamin. Então, por favor, me escute.
- Sou todo ouvidos. – ele deu de ombros e se levantou, indo pegar uma garrafa de água no frigobar.
- Eu fiquei sabendo de algo que pode ser do seu interesse.
- E por que seria? – ele apoiou as costas contra o balcão ao lado do pequeno refrigerador e olhou a outra fixamente nos olhos. Era impressionante como alguma distância podia destruir uma atração tão intensa. A mulher continuava sendo bonita, ele não podia negar, mas não sentia mais toda a agitação que o invadia toda vez que se viam antes.
- Naquela vez, eu precisei sair apressada porque as suas… Amizades – ela hesitou ao dizer o termo – nos tornavam mais próximos do que eu gostaria.
- Sei. – ele deu um longo gole na bebida e continuou observando a outra.
- É verdade. Pergunte a elas. Pergunte sobre Arthur. – ela engoliu em seco – Posso falar disso agora porque são águas passadas, mas antes… Antes eu podia acabar soltando alguma coisa que as colocasse em perigo.
Benjamin franziu o cenho. Aquela era uma história que ele desconhecia.
- E por que agora está tudo bem?
- Benjamin, isso é sério. – ela suspirou – Arthur me contou o que houve. Alexei é um rapaz louco. Ele com certeza tem parafusos a menos. Arthur é o único que consegue, mesmo que minimamente, mantê-lo sob controle. Colocar alguma razão naquela cabeça insana. Por isso eu não podia procurá-lo mais.
- E por que procurou agora?
- Porque eu fiquei sabendo algo importante.
Benjamin bufou. Aquilo não estava levando a nada.
- Alexei vai se mudar. – Morgana soltou de repente – Meu priminho querido parecia quase aliviado ao me contar isso. Claro, ele sabe que não pode deixar o amigo sozinho, mas tem consciência do que isso representa para as suas amigas.
- Eu vou avisá-las, não se preocupe. – ele terminou de beber a água e deixou a garrafa apoiada no balcão – Mas você podia me contar tudo isso por telefone ou então via e-mail.
Morgana sorriu de canto com um ar cansado e vencido.
- Eu precisava mesmo vê-lo, Benjamin, meu querido.
Quando o celular de Hana apitou no meio da noite indicando que havia uma mensagem nova, a mestiça sentiu uma imensa vontade de queimar o remetente vivo. Essa vontade, no entanto, sumiu assim que ela viu quem era. Quando soube o que ele queria, a sensação era de alegria. Uma alegria profunda e imensurável. Uma alegria extremamente misturada com alívio. Apesar de o ano ter terminado tranquilo, era bom saber que aquela nuvem negra que as seguia para todos os lados não existiria mais.
Ao levantar da cama, a morena quase caiu por se enroscar nos lençóis, o que acabou por acordar Kyouya. O rapaz perguntou se estava tudo bem com uma voz arrastada de sono e sem se virar para a outra ao falar. Hana se ajeitou e firmou os pés no chão antes de responder que não havia nada com que ele precisasse se preocupar. Então saiu do quarto, indo até a cozinha para pegar uma bebida quente. A notícia do afastamento de Alexei a tinha deixado agitada e ela duvidava que fosse conseguir dormir tão facilmente.
Mandou um agradecimento como resposta para Benjamin e sentou-se para beber seu chocolate quente.
