Quando o dia da viagem chegou, Hana e Jenna se encontravam estranhamente ansiosas. As outras três, por outro lado, pareciam apenas descontraídas e aliviadas. Há uma semana, elas não tinham mais que se preocupar com Alexei ressurgindo a qualquer momento, com uma justificativa qualquer para tornar a infernizá-las. Tudo porque Benjamin coincidentemente conhecia uma prima de Arthur.
- Hana. – a voz de Kyouya soou próxima ao ouvido da garota, que se virou sem entender o motivo de ele estar sussurrando.
- Por favor, não me diga que são problemas. – ela franziu o cenho ao fitar os orbes do moreno.
O rapaz apenas estendeu o celular para ela, que logo baixou os olhos para a mensagem que era exibida. O remetente era Kaoru e o conteúdo não a deixou contente. Aparentemente, o grupo tinha tido alguns inconvenientes e ainda não tinha chegado ao hotel. Não tinham previsão do horário de chegada também, o que atrapalhava os planos. "Vai dar tudo certo no final. Preciso acreditar nisso", ela suspirou e devolveu o aparelho.
- Diga para ele nos manter informados. – então ela tornou a se virar para os amigos.
Kyouya logo tinha feito o que lhe tinha sido pedido e não gostou da resposta que o ruivo enviou. Os planos teriam de ser adiados por alguns dias, mas ele decidiu não incomodar a namorada com aquilo no momento. Se ela ficasse ainda mais tensa e agitada, as outras desconfiariam. "Cada coisa em seu tempo", ele guardou o aparelho e passou a prestar atenção na conversa.
A viagem de avião e o pequeno percurso até o hotel foram relativamente tranquilos. Relativamente porque Hana não conseguia deixar de pensar que algo estava prestes a dar muito errado. As amigas pareciam não perceber, mas ela e Kyouya duvidavam que ao menos Anny não tivesse alguma suspeita. Jenna talvez também tivesse, já que sabia o que estava acontecendo. Mas aquilo não podia ser menos importante.
"Por favor, dê tudo certo… Por favor, por favor, por favor", a mestiça olhou para fora do quarto pela janela, deixando a calça que ia guardar apoiada sobre o braço. Tinham feito a reserva em um hotel mediano, mas suficiente. Não podiam bancar muito mais que aquilo sem que as outras desconfiassem. Ou sem serem afetadas no orçamento do restante do ano. Kyouya saiu do banheiro no momento em que a garota tinha voltado a desfazer as malas e pareceu estranhar o ritmo em que as coisas aconteciam.
- Pare de se preocupar tanto. – a voz dele tinha um ar indiferente, mas não era distante.
- Falar é fácil. Daria tudo certo se conseguíssemos manter o plano original. Quer dizer, Ben, John e Fred precisaram de tanto tempo para nos ajudar. E não foi fácil cuidar das coisas sem que as outras percebessem. Sabe, eles não vão poder pegar mais férias pelo resto do ano. – ela apenas deixava as palavras saírem, sem se preocupar se as frases faziam muito sentido entre si – E não é como se nós tivéssemos dinheiro sobrando para poder prolongar a nossa estada aqui. Foi mesmo muito difícil conseguir chegar até aqui, eu não quero ver tudo indo por água abaixo.
- Respire. – o moreno foi até o frigobar e pegou uma latinha de refrigerante sem olhar o que era – Beba, você precisa se acalmar.
Hana franziu o cenho.
- Eu sei que costumo comer doces quando fico alterada, mas, se você quer colaborar, ao menos escolha a coisa certa.
O moreno pareceu confuso por um instante e então percebeu que estendia um dos poucos refrigerantes de que a outra não gostava. Com um ar levemente contrariado, ele rapidamente trocou a bebida e a deixou sobre o balcão. A mestiça tentava não pensar em quanto aquilo custaria no final ao abrir a lata e despejar o conteúdo no copo. "Eu não devia pensar nisso… Afinal, isso não é nada comparado com o quanto eles precisaram investir para nos ajudar", ela tomou um grande gole e então suspirou.
- Sente-se melhor? – Kyouya tinha voltado a arrumar as próprias coisas e pareceu sorrir quando viu a namorada assentir.
- Eu sei que precisávamos economizar, mas… Vocês têm certeza de que três marmanjos dividindo o quarto é uma boa ideia? – John riu ao terminar de falar. Estava sentado na cama, folheando uma revista qualquer que tinha achado no quarto.
Frederick, que estava arrumando as roupas que tinha levado, apenas suspirou em resposta. Benjamin, por sua vez, concordou que aquela era uma ideia horrível. Mas era o melhor que podiam fazer. Tinham sobrevivido por alguns dias em Boston naquele esquema, podiam sobreviver alguns dias na Itália.
- Você diz isso porque, com certeza, já tem algum plano para as suas noites. – Fred tinha um ar zombeteiro – Onde pretende achar a nova mulher da sua vida?
- A noite é sempre uma criança, meu caro Frederick. E as opções são infinitas. – Ben deu um sorriso levemente satisfeito, como se dissesse que estava em melhor posição que o amigo. Não era uma completa mentira, mas nenhum deles tocou nesse assunto.
- E você, John? Tem alguma ideia de como aguentar toda essa testosterona? – o loiro se virou para o outro, erguendo uma sobrancelha de forma questionadora ao ver a revista que ele folheava – Isso aí é uma revista feminina?
- Estava por aí e eu sempre quis saber o que as mulheres leem. – ele deu de ombros e então deixou a revista de lado quando chegou à última página – Um monte de besteira, para ser bem sincero. Isso explica porque nunca vi as nossas garotas lendo isso. – então riu e foi cuidar da própria bagagem.
Anastácia tinha ficado no quarto com Catarina e Mei, enquanto Jenna ia dividir o quarto com Nathan. Não era uma divisão surpreendente, mas, de alguma forma, a estudante de Enfermagem não podia deixar de se incomodar. Como poderia quando era constantemente lembrada que Kaoru estava do outro lado do planeta e ela não poderia aproveitar de sua companhia? "A vida é muito injusta e eu não gosto nada disso", ela franziu o cenho enquanto encarava o armário aberto. Foi uma toalha sendo arremessada em suas costas que a tirou dos devaneios.
- Ei, Anny, acorda. – a loira parecia achar graça de algo – Suas roupas não vão se guardar sozinhas, sabe?
Mei sorriu com divertimento com o comentário, enquanto a estudante de Enfermagem apenas revirou os olhos. Então, sem ter outra opção, começou a arrumar as coisas. A toalha caída aos seus pés foi dobrada e posta sobre a cama antes de a mala ser desfeita. Estavam as três já conversando descontraídas, Anastácia agora longe de suas preocupações anteriores, quando alguém bateu à porta. Foi a aluna de Arquitetura quem atendeu.
- Serviço de quarto. – a voz séria que veio do corredor fez as outras duas se virarem.
Um Frederick visivelmente prendendo o riso logo entrou no quarto e se sentou na cama, rindo em poucos segundos. As três se olharam confusas, mas esperaram enquanto o amigo se recuperava para poderem pedir explicações. Então o loiro respirou fundo e olhou para as amigas, sorrindo ao falar.
- Ficar no quarto com o Benjamin e o John estava me sufocando. Não estou mais acostumado a dividir o quarto com outros caras. – ele gesticulou com a mão no ar como se para indicar que aquilo não era importante – Mas e aí, querem ajuda para arrumar as coisas?
A muitos e muitos quilômetros dali, um Kaoru irritado apressava o motorista para chegar logo ao aeroporto. Hikaru, ao seu lado, não entendia o motivo de toda aquela inquietação ou aquela repentina viagem para a Itália. Entendia menos ainda o motivo de ficarem em um hotel mediano. Mas, na última vez em que perguntara, o gêmeo mais novo apenas gritou um "pare de criticar e faça as malas", de forma que ele tinha deixado o assunto de lado. Provavelmente teria as respostas logo.
Assim como eles, os demais integrantes do Host Club estavam a caminho do aeroporto, cada qual em seu carro e Haruhi naturalmente indo com Tamaki. A garota estava começando a se arrepender dessa decisão, porque o loiro estava inquieto e agitado, sendo mais irritante que o normal. Kaoru tinha ligado para todos eles e apenas dito que iam todos fazer uma viagem, que já estava tudo planejado e organizado, eles só deviam fazer as malas.
O que eles não sabiam era que o ruivo tinha secretamente falado com cada um dos pais para explicar a situação, já que não poderia simplesmente pedir para sua mãe bancar a viagem de todo mundo. Podiam ser ricos, mas isso não tornava sua família automaticamente responsável por bancar despesas alheias. A senhora Hitachiin deixou isso claro quando apoiou veemente que o filho mais novo fosse falar com as outras famílias.
Não surpreendentemente, os pais de Haruhi e Tamaki acharam lindo o plano do ruivo (Kaoru não comentou quem mais estava envolvido na organização para o caso de algum deles acabar deixando a história escapar por acidente) e concordaram rapidamente. O pai de Mori achou que era uma atitude louvável, mas perguntou se não seria melhor apenas contar aos outros e facilitar tudo. O ruivo admitiu que não foi ideia sua fazer daquele jeito e preferia não estragar a surpresa tão bem planejada, o que aparentemente foi o suficiente para o senhor Morinozuka deixar o assunto de lado.
Já o pai de Hani foi um pouco mais difícil de convencer, já que o loirinho não tinha motivo para não ser notificado. Afinal, a namorada do rapaz era do colégio Ouran também e eles se viam frequentemente. A conclusão do ruivo foi de que o homem estava insinuando que ele e os amigos estavam privando o herdeiro dos Haninozuka de ficar com sua parceira, de forma que Kaoru sugeriu levá-la junto na viagem. O homem sorriu largamente e disse que pagaria pela viagem dos dois.
Felizmente, nenhum deles sugeriu transferir as reservas para um "hotel mais adequado", como Hikaru tinha feito. Kaoru já se sentia suficientemente tenso para ter que explicar que aquilo não era da responsabilidade de nenhum deles e que as outras pessoas bancando a viagem não viviam na mesma condição social. "Se eu pudesse só dizer isso de uma vez, não precisava brigar com Hikaru…", ele olhou pela janela do carro. O cenho franzido estava começando a doer. "Mas ele vai superar assim que chegarmos. Eu espero", então se deixou afundar no banco.
Em um tempo menor que o previsto pelo motorista, o aeroporto logo se fez visível para os gêmeos, fazendo Kaoru se endireitar e olhar com expectativa para fora. Pegou o celular e mandou uma mensagem breve para o destinatário mais recente. A resposta que recebeu não era surpreendente, mas mesmo assim o fez revirar os olhos. Hikaru apenas não notou por estar distraído com alguma coisa do lado de fora.
- Kaoru. – o gêmeo mais velho se virou para o irmão – Agora você pode me contar o que está acontecendo?
- Não. – o mais novo sorriu e desceu assim que o veículo parou, deixando um ruivo incrédulo o encarando do assento estofado.
