As três horas de espera no aeroporto pareceram intermináveis para Kaoru, que não podia conversar com ninguém a respeito sem estragar a surpresa. Hikaru, sentado ainda com um ar emburrado ao seu lado, tinha desistido de descobrir o que acontecia e mexia no celular sem grande interesse. O mais novo imaginou se ele esperava uma resposta de Anny para qualquer mensagem que tivesse mandado.
- Kao-chan. – a voz de Hani soou ao lado do rapaz, que se virou para o loiro – Nós já podemos embarcar.
O ruivo, que estava perdido demais em seus pensamentos para ouvir a chamada, pareceu se iluminar com a notícia. Cutucou o irmão com mais empolgação do que devia, recebendo um olhar torto em resposta. Sem responder, o gêmeo mais novo se levantou e pegou a bagagem de mão, indo com os amigos. Hikaru, sem opção, acabou indo atrás. Seu estômago roncava, o que o deixava ainda mais irritado, mas só percebeu quando já estavam no ar e a tripulação passou servindo a comida.
Apesar de serem três horas da manhã, Hana não conseguia dormir. Ao seu lado na cama, Kyouya estava adormecido, mas não parecia totalmente entregue ao sono. Ela tinha medo de acordá-lo com um mero respirar errado. Com cuidado, levantou da cama e foi até a janela. O celular estava quieto sobre o criado-mudo, indicando que seu correspondente já estava fora de seu alcance. Um tanto relutante, ela vestiu um casaco longo, calçou o par de sapatos que estava mais fácil e saiu.
No corredor, acabou encontrando com Frederick, vestido no mesmo ar de quem não se importa. A morena sorriu para o amigo, que retribuiu ao gesto com um ar de cansaço e rendição. "Assim tudo fica tão difícil…", ele afundou as mãos nos bolsos e evitou olhar para a garota andando ao seu lado, mesmo quando a ouvia falando alguma coisa. O tom da conversa era levemente animado, apesar do sono que ambos sentiam. "Só queria que o cansaço fosse maior… Evitaria tudo isso…", ele precisou se conter para não suspirar.
- Enfim… Não vou ficar enchendo você com tudo isso. É só ansiedade. Sei lá, medo de que não dê certo. – ela envolveu o próprio corpo com os braços.
- Vai dar tudo certo. – ele sorriu e se virou para a outra – Tente não se preocupar muito.
- É difícil. – ela deu os ombros e sorriu com certo ar de cumplicidade – Sabe como é…
Por impulso, ele acariciou brevemente a cabeça da amiga, arrependendo-se no instante em que percebeu o que fazia. Rapidamente colocou as mãos de volta nos bolsos e virou o rosto para frente. Ela não disse nada, gesto pelo qual ele agradeceu internamente. A última coisa que ele podia dizer naquela situação era que ela não entendia o que se passava dentro dele.
- Vamos mudar de assunto. – ele retomou a conversa assim que entraram no elevador – Aonde estava pensando em ir?
Hana deu de ombros. Não tinha pensado naquele detalhe. Não se importava com o destino. Ela só sabia que não conseguia dormir e que ia acabar enlouquecendo se ficasse no quarto sem fazer nada. Olhou para Fred como se esperasse uma resposta do loiro, que pareceu pensar por alguns segundos antes de sugerir que eles fossem até o bar, já que ficava aberto o dia todo e eles podiam pedir alguma porção qualquer para comer se quisessem.
- São três da manhã e você está pensando na possibilidade de comer uma porção de fritas? – ela riu – Mas tudo bem, vamos lá.
- Não precisam ser fritas. – ele fez um muxoxo fraco em protesto, mas logo sorriu de canto. Sentia uma falta desesperadora daquilo. De Hana. Daquela tranquilidade que costumava vir quando estava com ela, especialmente se estivessem sozinhos.
O resto do percurso, que não foi muito longo, se passou em um silêncio agradável. A conversa só foi retomada depois de os dois estarem acomodados em uma mesa no fundo do bar, olhando despreocupadamente um cardápio entregue por um garçom não muito feliz com a aparição dos hóspedes. Hana apenas revirou os olhos quando o funcionário deu as costas.
- Mas e aí. – ela se debruçou sobre a mesa e olhou para o amigo, que respondeu com um "hm" distraído enquanto pensava no que podia pedir para beber – Como estão as coisas no trabalho?
- Bom, vamos ter que trabalhar que nem condenados quando voltarmos para pagarmos nossos pais. – ele sorriu – Vou pedir algo para beber. Quer alguma coisa?
- Uma água só é o bastante. – ela sorriu de volta e o viu se afastar, indo até o balcão para fazer os pedidos. "Eu falei para eles que ia ser muito pesado se nos ajudassem com as coisas em Boston…", ela suspirou.
Frederick se sentou antes de continuar a conversa.
- Minha mãe já me mandou uma lista de coisas que eu vou ter que fazer quando voltar inclusive. Não que eu ache ruim. Afinal, foi por um bom motivo. – ele deu um longo gole no suco de melão que tinha pedido e viu a morena abrir a garrafa de água e beber direto do gargalo, ignorando o copo – Vai valer ainda mais a pena quando eles chegarem.
- O que, se der tudo certo, vai ser amanhã de noite. – ela parou para pensar por um instante – Hoje de noite. O dia já virou. – ela franziu o cenho. Tinha o hábito de não considerar como um novo dia enquanto não tivesse dormido, mesmo que fosse mais de meia-noite.
O loiro riu.
- E como estão as coisas para você? Ele… – foi preciso uma pausa para que o rapaz conseguisse formular a frase inteira – Tem sido tudo bem entre vocês?
- Ah. – a garota piscou, processando o quanto aquele era um assunto delicado e escolhendo bem as palavras – Sabe como são essas coisas. Não tem como ser perfeito, mas estamos indo bem.
Ela viu o amigo sorrir. Um sorriso que não alcançou os olhos.
- Se algum dia você precisar de alguma coisa, qualquer coisa, Hana, pode me ligar. Você sabe disso, não é?
Ela assentiu sem dizer nada em resposta. Apesar de tudo, de toda a intimidade e amizade que tinham, ainda era estranho falar normalmente com o amigo. Tudo ainda era recente demais para ela saber como lidar. Era bom poder ter um momento tranquilo com ele, mas ela ainda se sentia hesitante em dizer algumas coisas, especialmente se envolvia a vida pessoal de qualquer um deles.
- Voltando ao assunto do trabalho de vocês… – Hana sabia que aquele não era o melhor assunto, mas sentia que precisava mudar o rumo da conversa e sua mente não estava em condições de produzir muita coisa – Eu sei que você e o Ben sempre trabalharam nas empresas dos pais, mas… – ela hesitou, de repente sem saber se devia continuar.
- O John? – o rapaz sorriu de canto e baixou os olhos para o copo com menos da metade de seu conteúdo original. Ouviu a breve confirmação da outra antes de voltar a falar – É, ele tinha saído e ido para outra empresa. Era uma com certo renome e os pais dele ficaram furiosos quando ele foi demitido. Acho que qualquer um ficaria.
- Ele teve mais... Incidentes? – ela não sabia se devia fazer aquela pergunta, mas a curiosidade a atormentava por vezes em relação aquilo. Talvez devesse perguntar diretamente a John, mas algo lhe dizia que ela não conseguiria uma resposta se o fizesse.
- Alguns. – ele franziu o cenho. Não tinha imaginado que a amiga soubesse sobre aquilo – Acho que foi especialmente por isso que os pais dele ficaram tão bravos. Decidiram colocá-lo em um programa de tratamento da raiva, mas eu acho que não vai resolver.
A morena também franziu o cenho, sentindo-se um tanto ofendida com a decisão dos pais de John. Por que todo mundo achava que aquilo era melhor do que praticar algum esporte ou qualquer outra coisa? Ela se sentia irritada só de se lembrar do próprio tratamento e a imagem de Ben em cirurgia tinha muito mais efeito na hora de pará-la que as palavras da "profissional" com que foi obrigada a se consultar.
- Nunca resolve. Ele tem um problema maior que o controle, ou a falta dele, da raiva.
- Bom, isso é. – ele suspirou – Mas o que nos podemos fazer, Hana? O cara quase não parou. Aliás, ele só parou porque alguém interveio.
A outra não respondeu. Estava absorta demais nos próprios pensamentos para continuar a conversa.
Kaoru tinha adormecido em sua poltrona e a cabeça pendia suavemente para o lado. Hikaru o encarava como se pudesse ler alguma coisa em seu subconsciente, tentando achar as respostas que não tinha conseguido obter ao conversar com o irmão. Os demais integrantes pareciam não se importar. O ruivo sentia como se todos soubessem o que estava acontecendo e tivessem escolhido deixá-lo de fora. Era uma sensação que ele sabia estar errada e que odiava, mas não podia evitar.
Estava tão concentrado em sua tarefa de tentar ler as ondas cerebrais do irmão que se assustou quando Hani parou ao seu lado, apoiando as mãos no encosto do assento. Aquele era outro ponto que Hikaru não entendia. Por que estavam viajando em um voo comercial e não com um avião particular? O que Kaoru tinha planejado com aquilo tudo?
- Hika-chan, Hika-chan. – a voz infantil do loiro mais velho soou quando ele percebeu que o ruivo não ia se virar, apesar de ter notado sua presença. Ele tinha tremido levemente no lugar quando Hani se postou ao seu lado, não podia negar que tinha percebido o amigo.
- Diga, Hani-senpai. – o gêmeo mais velho se voltou para o outro, soando mais impaciente do que gostaria – Desculpe, eu…
- Tudo bem. – o menor sorriu, interrompendo o pedido de desculpas – Todos nós estamos ansiosos para chegar e descobrir o que o Kao-chan planejou. Então tente aproveitar a viagem!
Hikaru piscou. Não era novidade que nenhum deles soubesse o que estava acontecendo, mas ouvir aquilo da voz do amigo o tinha ajudado a se acalmar, pelo menos um pouco. Ele agradeceu e acompanhou o loiro voltando ao seu lugar com o olhar. Os orbes dourados cruzaram brevemente com os negros de Reiko e os dois trocaram um breve cumprimento silencioso. Era bom ver Hani junto de Reiko. Eles eram completamente opostos e justamente por isso pareciam se completar perfeitamente.
Kaoru se remexeu na poltrona, atraindo a atenção do irmão, mas não acordou. A viagem ainda estava na metade, de forma que o mais velho se perguntou se não devia fazer o mesmo. No entanto, sua ansiedade era grande demais para que ele conseguisse descansar. Queria saber por que estavam indo a Milão e por que tão repentinamente. Queria saber o que os aguardava quando eles pousassem e qual era o motivo de terem ficado em um hotel tão fora de seus padrões.
Aquelas eram respostas que ele não teria tão cedo e ter consciência disso o agoniava.
Passava do meio-dia quando Anastácia foi bater na porta do quarto de Hana e Kyouya. Conhecendo os dois, eles ainda estariam dormindo, de forma que ela foi preparada para insistir o quanto precisasse para fazê-los sair. Para sua surpresa, não precisou de muito. Logo o moreno tinha ido ver quem batia, não parecendo estranhar a presença de Anny no corredor. Ela espiou brevemente o quarto pelo vão que o rapaz deixou, vendo a cama desarrumada na penumbra. Aparentemente, Hana ainda estava dormindo, mas não era possível afirmar.
- Nós estávamos pensando em almoçar e dar uma volta pela cidade. – a estudante de Enfermagem olhou para o amigo japonês ao falar.
- Tudo bem. – ele indicou que ia voltar para dentro e fechar a porta. Antes que a outra pudesse reagir, no entanto, ele tornou a se virar para ela – Encontramos vocês na recepção.
Ela assentiu e se retirou. Kyouya não esperou que ela se afastasse para fechar a porta atrás de si e ir em direção à cama. Hana estava inconsciente sob as cobertas, em um sono aparentemente sem sonhos e com um ar de quem finalmente dormia depois de dias. Ele se sentou na beirada do colchão e fitou as mãos, lembrando-se do final da madrugada, quando a voz da garota no corredor soou logo depois de ele ter saído do banheiro. Não tinha notado sua ausência ainda até aquele momento.
- Deixe de ser idiota, Fred. – Hana ria, tentando manter o tom baixo e, do ponto de vista do aluno de intercâmbio, falhando o suficiente.
- Não vejo motivo para você me tratar assim, Hana, minha querida. – ele riu de volta e Kyouya conseguiu imaginá-lo passando o braço ao redor dos ombros da garota – Senti sua falta. – e era notável a falta de esforço do rapaz para manter a voz baixa.
- Shhh, fale baixo! Estão todos dormindo. – uma pausa seguida de um risinho – Não faça isso! – mas, apesar do protesto, ela se divertia.
O moreno se perguntou o que o loiro tinha feito e não gostou das possibilidades.
- Você devia ir logo para o quarto e parar de bobagens. – Hana tinha um falso tom de repreensão na voz.
- Não sinto muita vontade de voltar para um quarto onde tem dois marmanjos – ele parecia fazer questão de ressaltar esse detalhe – me esperando.
- Bom, fique rico e isso não vai mais precisar acontecer. Você vai poder desfrutar de todo o luxo e solitude que desejar. – ela riu e os passos pararam. Estavam na porta do quarto da garota e agora Kyouya podia ouvir sem qualquer esforço.
- Você fala como se fosse fácil. – Frederick provavelmente tinha rolado os olhos nessa hora – Eu não sou como ele. – Kyouya se perguntou se o loiro tinha gesticulado em direção ao quarto quando deu ênfase no pronome.
"De fato não" foi a primeira coisa que ocorreu ao moreno. "Senão vocês não estariam conversando no corredor" foi o que se seguiu. A imagem que sua mente gerou assim que a frase foi concluída, no entanto, era pior do que qualquer outra coisa. No escuro, sozinho e ouvindo as vozes vindas do corredor, ele conseguiu visualizar o relacionamento entre Hana e Frederick funcionando em vez do que ela tinha com o moreno. Conseguiu se ver em um quarto separado, enquanto os dois voltavam para o mesmo. Para a mesma cama. Por algum motivo que não sabia explicar, imaginou que o loiro dormisse apenas de cueca. Talvez para aumentar o contato com a garota. Quando a imaginou se pondo debaixo das cobertas ao lado do outro, decidiu que já tinha se torturado o bastante.
Em passos largos, foi até a cama e apenas deixou o corpo cair. Pouco depois a morena entrou no cômodo, vendo o namorado se ajeitar sob a coberta. De repente, ele estava desconfortável demais na própria pele. De repente, não queria mais estar ali. Tudo parecia fora do lugar e o sono tinha ido embora. Ele viu quando a garota tirou o casaco e deslizou para a cama, sorrindo ao vê-lo. Ele tentou não resistir ao impulso de sorrir de volta, mas tinha se tornado uma tarefa difícil.
- Onde você estava? – ele tentou não soar duro demais. Ela não tinha feito nada para prejudicá-lo até onde ele sabia. Sua irritação era fruto de sua mente fértil.
- Não conseguia dormir, então fui dar uma volta. – ela se aproximou dele na cama, encostando a cabeça em seu peito – Seu coração…
- Ouvi vozes no corredor. – ele a interrompeu antes que ela pudesse dizer mais alguma coisa. Sabia que seu coração estava acelerado e sabia o motivo. Mas não queria que ela soubesse. Era idiota e ele não queria compartilhar.
- Ah, encontrei o Fred no caminho. – ela sentiu o braço em sua cintura enrijecer – Ficamos conversando e bebendo alguma coisa. Ele pediu um suco de melão e eu fiquei bebendo água.
A resposta foi um grunhido qualquer que beirava o desinteresse. Hana se controlou para não suspirar. Ela sabia como o rapaz se sentia em relação ao loiro e às vezes achava realmente difícil lidar com isso. No entanto, como geralmente aquele era um problema ausente, o mais difícil era deixar de lado. Respirando fundo o mais discretamente possível, ela precisou de poucos segundos para se acalmar. Então afastou o rosto e fitou o moreno.
- Kyouya? – ela tinha um tom levemente hesitante e se sentiu como uma criança despreparada quando os orbes negros dele focaram os dela na escuridão.
Ele não respondeu, mas não parecia irritado com ela.
- Eu amo você. – ela levantou uma das mãos, tocando suavemente a pele logo abaixo do lábio inferior do rapaz. O contato permitiu que ela sentisse o calor que se espalhava pelo rosto do outro. Não conseguia se lembrar da última vez em que tinha dito aquilo ao moreno. Sabia muito menos se já tinha ouvido aquilo dele.
Kyouya respirou fundo, como se juntasse coragem para responder.
- Eu também amo você.
A resposta para a dúvida de Hana veio imediatamente. Seu rosto ferveu e ela tentou se esconder no peito do rapaz. Se estivesse acostumada a ouvir aquilo, não estaria tão sem jeito naquele momento. O moreno baixou o rosto e colocou a mão livre no queixo da namorada, levantando-o levemente de forma que ela fosse obrigada a encará-lo. Então pressionou suavemente os lábios nos dela, logo sendo retribuído. Naquele momento, tudo que o assombrava tinha sido empurrado para longe.
Levantando-se com cuidado para não acordar a garota, ele foi até a mesa que havia no canto do quarto e pegou o celular. Não precisou de muito para avisar Anastácia de que estava descendo, sem responder quando a outra perguntou de Hana. Rabiscou um bilhete para a estudante de Moda explicando onde estaria e então saiu do quarto, levando uma das cópias da chave eletrônica consigo.
