Quando Kyouya se juntou ao grupo, Anny perguntou novamente onde estava Hana. O rapaz apenas disse que a namorada estava cansada e ficaria descansando, com um tom de voz que deixava claro que a conversa não seria estendida. A estudante de enfermagem franziu o cenho, mas aceitou deixar o assunto de lado. Fosse como fosse, ela sabia que a amiga tinha sido avisada. Kyouya não seria capaz de sair sem avisar. Não depois de tudo que tinha acontecido ao longo do último ano.
- E então, onde vamos comer? – a pergunta veio de Jenna, que parecia faminta.
- Ah, nós estávamos dando uma olhada ontem e elencamos alguns lugares. – Catarina sorriu e tirou um papel do bolso – Escolhemos lugares próximos para ser mais fácil caso vocês queiram olhar todos. Ninguém merece atravessar a cidade com fome.
O grupo se entreolhou brevemente e logo a ideia tinha sido aceita. Começaram por um que ficava a três quadras do hotel, olhando os outros lugares de acordo com a distância. Por fim, decidiram comer em um que não era nem muito grande nem muito pequeno e que ficava a uma distância média dentre todos da lista. Era um lugar com ar aconchegante e empregados animados, o que era basicamente sinônimo de muito barulho. De forma geral, aquilo dava uma sensação de casa para o grupo.
Precisaram esperar algum tempo até conseguirem uma mesa suficientemente grande, mas não foi um problema, porque significava que boa parte dos clientes já tinha saído. Levaria certo tempo para que a nova onda de famintos viesse, o que lhes dava um pouco de paz. Um garçom de pele morena, que se apresentou como Diego, se aproximou após alguns minutos, trazendo cardápios na mão e perguntando o que cada um iria beber. Foi necessário que Anastácia traduzisse para os amigos que não entendiam italiano antes de poderem dar a resposta. O homem rapidamente anotou e se retirou, deixando o grupo sozinho para escolher.
Enquanto os amigos iniciavam a aventura culinária, Hana dormia no quarto do hotel. Seu sono, que tinha sido tranquilo por boa parte do tempo, estava começando a se agitar. As imagens começaram pouco antes de Kyouya sair, embora ela não tivesse como saber disso. E, por mais estranhas que fossem as cenas, por mais que seu coração acelerasse, ela não conseguia acordar. Ela se revirava na cama em intervalos irregulares, bagunçando as cobertas e suando frio.
Tudo tinha começado com um martelo e uma casa de vidro. Por algum motivo não importante no momento, Hana estava no centro da sala de estar, olhando a ferramenta flutuar a poucos passos de distância. Embaixo, uma fraca luz reluzia. Não havia qualquer som. Não havia o barulho de sua respiração, de seus passos ou de seus movimentos. Não havia o som de seu sangue correndo, de seu coração batendo. Não havia pássaros cantando. Não havia vento passando assobiante por frestas em portas ou janelas.
O silêncio era verdadeiramente absoluto.
Com cuidado, ela estendeu a mão esquerda para o martelo, segurando seu cabo como se tivesse sido atraída para ele. A luz se intensificou e cresceu, ofuscando a vista da morena. De repente, desapareceu. O primeiro som se fez ouvir, assustando-a. Era o barulho de algo se quebrando em algum ponto próximo.
Vidro.
Sob seus pés.
A queda começou no momento em que Hana tentou olhar para baixo. O martelo estava firme em sua mão e ela não parecia capaz de soltá-lo. A velocidade parecia anormalmente alta para o quanto ela estimava ter caído já. E aumentava mais rapidamente do que deveria. O ar escapava de seus pulmões. Então, tão de repente quanto tinha começado, a queda foi interrompida.
Hana estava suspensa.
No nada.
Dessa vez não havia luz. Ela só conseguia ver aquilo em que tocava e a si mesma. E, independentemente de seus esforços, não conseguia tocar o chão. Não havia gravidade. Com um leve movimento de braços, ela se impulsionou para onde supunha ser a frente do lugar. Estava com a planta da casa na cabeça. Ao menos, da parte que tinha conseguido ver da casa. Continuou seguindo dessa mesma forma, indo devagar para o caso de encontrar alguma coisa.
Então sentiu a mão roçar em algo.
Madeira.
Hesitante, estendeu o braço mais uma vez, vendo um armário grande se revelar a sua frente. Naquele momento, conseguiu soltar o martelo. Por alguma razão que ela não entendia, ele continuou visível, flutuando ao seu lado. Ela não se demorou tentando entender aquilo. Afinal, depois de tudo que tinha acontecido, aquele era o fenômeno menos estranho. Então voltou sua atenção para o armário e, sem ter certeza de que queria saber o que havia lá dentro, abriu as portas.
A primeira coisa a lhe atingir foi o cheiro de carne. Em seguida, veio o cheiro de metal, inundando suas narinas. Então o corpo pendeu para frente, enroscado nos cabides, fazendo-a recuar com o susto e o horror, e com a cabeça pendendo para frente. Hana precisou de alguns segundos para entender o que estava vendo. Ou melhor, o corpo de quem ela estava vendo.
Catarina.
Por reflexo, ela respirou fundo antes de prender o ar. Mas foi uma péssima ideia, como ela logo percebeu quando o cheiro de carne e sangue decompostos não apenas inundou seus pulmões como pareceu invadir sua boca, deixando um gosto estranho e nauseante em sua língua. Ela soltou o ar com força, lutando contra a vontade de vomitar. Por reflexo, estendeu a mão e pegou o martelo de volta, recuando assim que sentiu a madeira em sua pele.
A ferramenta pesava de um jeito estranhamente familiar, o que a acalmou.
Longe do cheiro de morte, do suor frio e do sono sem descanso, os outros esperavam pelos pratos que tinham pedido. A maioria tinha preferido não arriscar muito, pedindo espaguete com algum molho diferente. Quem tinha dado uma chance a um prato mais incrementado eram Anastácia, Catarina e, talvez nem tão surpreendentemente, Kyouya. Cada um tinha ido com uma massa caseira do lugar combinada com algum molho menos conhecido. Como Anny tinha dito, não estavam na Itália para não provar pratos regionais.
A demora não foi maior que a esperada e logo todos tinham sido servidos. Todos tinham começado a comer quando o comentário de Mei os interrompeu. Inocentemente, a garota perguntou se não devia haver uma colher junto dos talheres para facilitar na hora de pegar o macarrão. Catarina e Anastácia se entreolharam com espanto, sem imaginar que a amiga não soubesse daquilo. Foi a loira quem respondeu.
- Mei, não é educado usar uma colher para ajudar a enrolar o macarrão. - Ela tinha o tom de voz baixo e olhava com certo constrangimento para a outra.
Surpresa, a morena logo se desculpou e disse que não fazia ideia daquilo. A menor riu sem jeito e disse que não havia problema, internamente agradecida pela amiga não ter decidido fazer a pergunta diretamente ao garçom. Em silêncio, cada um voltou à própria refeição. Longos segundos se passaram antes de alguém reiniciar a conversa. Em parte porque não sabiam o que mais podia acontecer, mas, no geral, por estarem todos com fome e a comida estar boa. Guardaram aquela informação para possíveis referências futuras.
Hana tinha revirado tanto na cama que acabou parando no lado de Kyouya, vazio e esfriando devido à ausência do moreno. Mas sua mente estava por demais afundada no pesadelo para processar aquele detalhe, que seu subconsciente armazenou em algum canto escuro, talvez para jogá-lo de volta da forma mais inesperada que pudesse encontrar.
Hana flutuou para longe do armário onde tinha encontrado o corpo da amiga loira. Continuou tomando impulso para se afastar até sentir uma parede às costas. Olhou para cima com hesitação e suspirou aliviada ao ver que havia apenas a parede em tom azulado. Ela reluzia como se refletisse uma luz vinda de algum lugar desconhecido. Sem pressa, a morena se afastou da parede apenas o bastante para poder se virar e encará-la. Então esticou a mão até sentir o vidro sob seus dedos.
A parede tornou a aparecer, a imagem se revelando de forma radiada, partindo do ponto de contato. O vidro azulado parecia mais frio do que antes, mas a garota não se importou. Olhava encantada a parede se revelando, estendendo-se para cima e para os lados como se fosse interminável e iluminando fracamente tudo que estivesse próximo a ela. Então Hana viu uma sombra.
Alguma coisa no chão estava absorvendo a luz emitida da parede, formando alguma coisa disforme. Hana, sempre com uma mão no vidro para evitar que ele desaparecesse, decidiu se aproximar para ver o que era. Estava tão absorta em sua curiosidade que esqueceu que carregava o martelo. Só se lembrou ao senti-lo raspar em sua perna, deixando uma linha vermelha sobre sua pele.
Ela olhou para baixo. Usava um short até pouco acima do meio das coxas, o que não era comum, mas não impossível. Ela viu a marca do arranhão e a acompanhou com a ponta do indicador da mão que segurava o martelo, tomando cuidado para não se acertar novamente. Ainda andava e se assustou ao tropeçar em algo. No entanto, não caiu. Hesitante, olhou para trás. Tinha tropeçado no vulto que tinha visto antes e agora era possível ver com clareza o que ele era.
Um segundo corpo, encolhido sobre si mesmo no chão.
Decomposto quase até os ossos.
Estranhamente, a face era o que menos tinha sofrido, apesar de não estar tão escondida.
Hana engoliu em seco e se aproximou um passo para ver melhor quem era.
As mechas brilharam quando a luz emitida pela parede se intensificou. O roxo inundou o lugar e Hana sentiu o estômago embrulhar. Estava olhando para o corpo de Jenna, abandonado sem qualquer consideração. Instintivamente, seguiu o braço esticado da outra, vendo um segundo corpo que não tinha notado até então. Ou um quase corpo, como logo ficou claro. Nathan estava presente, igualmente decomposto, apenas da cintura para cima.
A outra metade do corpo não existia.
A garota gritou, mas nenhum som se fez ouvir.
Quando o grupo acabou de comer e já tinha pagado a conta, era hora de decidir o que veriam. Podiam andar pelo centro da cidade, podiam explorar sorveterias e doçarias, podiam procurar por lojinhas esquecidas em cantos mais tranquilos da cidade. Podiam, como Catarina fez questão de ressaltar, apenas andar e apreciar a arquitetura do lugar. Afinal, estavam em Milão e as possibilidades eram infinitas.
- Podíamos dar uma caminhada no parque. – o comentário veio de John, que apenas deu de ombros quando os amigos olharam de forma questionadora para ele – Milão tem uma quantidade impressionante de parques e nós temos o dia todo pela frente.
- Um parque é uma ideia agradável. – Jenna pareceu pensar – Não temos muito contato com a natureza em geral, então pode ser bom. – ela sorriu para os amigos.
Os demais acabaram concordando. Um passeio tranquilo podia ser uma boa ideia.
Hana acordou gritando, o coração batendo forte no peito e uma sensação de enjoo que não parecia querer ir embora tão cedo. Sentia o suor frio cobrindo todo seu corpo e engoliu algumas vezes na vã tentativa de se acalmar. A garganta seca arranhava, mas ela duvidava que fosse conseguir por qualquer coisa para dentro tão cedo.
A última cena de seu pesadelo ainda estava bastante viva em sua mente.
Ao se afastar dos corpos de Jenna e Nathan, Hana começou a seguir sem direção pelo vazio. Agora a escuridão era absoluta e ela só enxergava a si mesma e ao martelo, como tinha sido no começo de tudo aquilo. Tinha decidido subir, já que a parede não parecia terminar em um teto. Provavelmente não havia um teto. Ela conseguiu subir um bom trecho – ou lhe pareceu assim – antes de encontrar um ponto luminoso.
Era um ponto aparentemente distante e ela não sabia dizer se era uma boa ideia se aproximar ou não, mas decidiu ir ver o que era. Parecia uma cena de luz no fim do túnel. A área iluminada foi aumentando conforme ela flutuava para mais perto e logo ela se viu sobre uma grama verde coberta de orvalho. Atrás de si restava o vazio. Pressionando o martelo contra o peito por instinto, ela deu as costas para o lugar de onde viera e seguiu pelo campo aberto.
O céu estava azul e ela conseguia sentir o contato da natureza pelos pés descalços. Ela não sabia quando tinha perdido os sapatos – ou se tinha estado com eles em algum momento –, mas não se importou. Nada era mais importante que a tranquilidade que ela tinha acabado de achar. Aos poucos, os braços relaxavam e logo o martelo tinha sido abaixado. Ali havia pássaros cantando, uma brisa suave passando e todo um universo de cores a ser explorado.
Cores rapidamente reduzidas a tons de vermelho.
Hana baixou o olhar do céu, fitando o vulto parado a poucos passos de distância. A pessoa estava de costas, mas ela reconheceria aquelas roupas em qualquer lugar. A jaqueta de couro combinando com os shorts. A meia-calça. O coturno. Para completar o quadro, as mechas castanhas que balançavam com o vento. Sem saber o que esperar, a garota decidiu permanecer onde estava.
As cores agora tinham se tornado parte de um estranho passado e tudo era vermelho. Vermelho sangue. Mas Anastácia parecia estranhamente intocada. Na verdade, a estudante de Enfermagem parecia estática. Sem vida. Como uma escultura feita para mimetizar a realidade. Mas Hana sabia que não era uma escultura e por isso sentia-se assustada e temerosa. O que poderia estar por vir?
Quando Anny começou a se virar, a estudante de Moda conseguiu ver o filete vermelho que escorria pelo pescoço da amiga. O sangue saía devagar, como se já não tivesse forças ou como se não houvesse muito espaço para passar. Logo via o perfil da outra. Estavam quase se encarando quando a cabeça se desprendeu e rolou.
O corpo decapitado continuou a virar até estar totalmente voltado para Hana.
A cabeça, do chão, sorriu diabolicamente.
- Por que você fez isso conosco, Hana? – a voz de Anastácia parecia misturada a chiados, como se houvesse algo interferindo em sua "transmissão".
Não houve resposta. Instintivamente, Hana tinha tornado a pressionar o martelo contra o peito.
- Por que você fez isso conosco…? – uma risada demoníaca soou em seguida, com um som ao fundo que mais pareciam guinchos.
Um movimento ao longe fez a outra erguer os olhos.
Hana estava se encarando. Uma, agarrada ao martelo, estava assustada e confusa. A outra, com um machado na mão, estava coberta em sague, os olhos frios e duros, com uma obstinação que ninguém seria capaz de vencer. Iguais, porém diferentes. A Hana do martelo recuou um passo quando viu a do machado se aproximar. No entanto, seu alvo não era sua outra imagem.
Sem hesitar, a segunda Hana desceu o machado sobre o corpo de Anastácia, que tinha caído no chão quando a estudante de Enfermagem tinha terminado de falar. Um guincho se fez ouvir e, sem precisar olhar, as duas Hana sabiam de onde vinha. Com um movimento rápido, o machado logo dividiu a cabeça arrancada em duas.
O silêncio se tornou absoluto.
Hana tremia ao se apoiar na pia. Não confiava que seus braços fossem capazes de sustentar seu corpo projetado sobre o mármore, de forma que ela logo escorregou para o chão e se arrastou até a privada. Levantou o tampo com certa dificuldade, mas a tempo suficiente para vomitar dentro da estrutura de cerâmica. Seu corpo tremeu um tanto violentamente com o ato.
Ela fitou o teto enquanto passava papel ao redor da boca. Odiava se sentir fraca daquele jeito. Não sabia dizer o que tinha sido aquele pesadelo ou o motivo para ter sonhado com algo daquele tipo, mas não queria saber. Só queria conseguir apagar as imagens de sua mente agitada. Toda vez que fechava os olhos, conseguia rever claramente os corpos e o rosto de Anastácia se contorcendo em uma expressão demoníaca. De repente, sentia uma urgência enorme de ver a amiga e abraçá-la como se nunca mais fosse soltar.
Ficou alguns minutos daquele jeito, a cabeça pendendo para trás sobre a banheira, as pernas esticadas no chão, os olhos fechados e as mãos abandonadas ao lado do corpo. Estava conseguindo se acalmar quando seu subconsciente resgatou uma informação que ela ainda não tinha processado. O quarto estava estranhamente quieto. Não havia uma respiração extra. Havia espaço sobrando na cama.
Ela estava sozinha no quarto.
A morena se levantou depressa, maldizendo-se ao sentir a visão escurecer com a mudança súbita de pressão. Então cambaleou para o quarto e olhou ao redor. Sobre a mesa no canto, havia um bilhete com a caligrafia de Kyouya. Não surpreendentemente, estava escrito em japonês. O grupo tinha ido almoçar e o moreno achou melhor deixá-la descansando. Ela agradecia pela consideração, mas não podia dizer que tinha descansado.
Mesmo assim, um sorriso se desenhou em seus lábios. Ela pegou o telefone e mandou uma mensagem ao namorado dizendo que já tinha acordado e que iria almoçar no hotel. Poderia encontrar o grupo depois de comer. Não demorou muito para que a resposta chegasse e era um simples "ok", mas a garota não se importou. Sabia que ele não era de muitas palavras.
