O tempo até o avião pousar pareceu eterno para Hikaru, mas já estavam em Milão e ele tinha esperanças de poder descobrir logo o motivo por trás de tudo aquilo. Para melhorar, Catarina não estava recebendo as mensagens que ele enviava e Anastácia parecia estar simplesmente o ignorando. Tinha decidido falar com a morena porque acreditava que ela saberia o que Kaoru estava tramando. Infelizmente, não tinha dado certo.

- Hikaru, pare de encarar o celular como se pudesse explodi-lo e ande logo. – Kaoru parecia impaciente ao chamar o irmão.

O mais velho se assustou ao ser chamado, reparando apenas naquele momento que tinha parado no meio do caminho e estava atrapalhando as pessoas ao redor. Soltando o ar pesadamente, ele foi até o gêmeo e logo os dois tinham se juntado ao restante do grupo. Não muito longe dali, sob as mesmas estrelas e o mesmo céu escuro, outro grupo se reunia com empolgação e o mesmo sentimento de confusão.


Anastácia estava sentada ao lado de John no balcão do bar, olhando para o amigo com o cenho franzido. Ele segurava uma garrafa de cerveja – e ela duvidava que fosse a primeira da noite – e olhava para a prateleira do outro lado sem grande interesse. O grupo estava todo reunido ali até quase uma hora antes, mas aos poucos os outros foram se retirando pelos mais diversos motivos e acabaram sobrando apenas os dois.

- Sabe, Anny… – a voz de John fez a garota voltar à realidade, deixando suas conjecturas de lado por um instante – A gente falta de vocês. Todas vocês. – ele suspirou e virou mais um gole da garrafa.

A garota não respondeu, imaginando o motivo por trás daquilo tudo. O rapaz, por outro lado, apenas continuou bebendo. Já tinha perdido a conta de quantas garrafas tinha bebido, quantos drinks tinha pedido e quantas coisas tinha tirado do frigobar naquele dia, mas não conseguia se importar. A pouca tranquilidade que eles tinham estava prestes a acabar e ele se sentia enjoado só de pensar no motivo.

- Mas é bom ver que vocês estão felizes. – ele continuou a falar assim que abaixou a garrafa, agora com metade do conteúdo que tinha alguns goles antes.

Anastácia sorriu por reflexo. Apesar do estado do amigo, as palavras pareciam sinceras e não apenas lamuriosas. Não havia um tom amargo. Se John quisesse, ele podia muito bem fingir achar aquilo enquanto a alfinetava por debaixo das palavras. Mas ele estava apenas lamentando o afastamento entre as duas partes do grupo. Entre eles dois.

- Eu espero que ele seja mesmo muito bom para você. – o rapaz bebeu mais um longo gole da bebida e estava prestes a continuar seu discurso quando uma Hana sorridente apareceu.

- Anny! Eu preciso que você vá para a recepção do hotel, pode ser? – ela sorria largamente para a amiga ao falar – Agora. Anda, anda, anda. – ela gesticulava com a mão para indicar que a outra se levantasse e saísse.

Anastácia riu, logo concordando e se retirando. Quando os dois ficaram sozinhos, Hana se virou com o cenho franzido para John e lhe tomou a garrafa. O rapaz pensou em protestar, mas o olhar gélido da morena o fez escolher pelo silêncio. A garota analisou a garrafa por um instante, suspirou e se virou para o amigo, estendendo-lhe a mão com um sorriso de canto. Havia um ar de compreensão ali, apesar de ela ainda não parecer satisfeita com o que ele havia feito.

- Vamos, você precisa de um banho. Eles estão quase chegando e você não quer dar ao Kaoru a satisfação de te ver assim, não é?

John franziu o cenho com a pergunta, dizendo que era verdade aquilo e aceitando a ajuda da amiga. Logo os dois tinham subido para o quarto e Hana o ajudava a se despir até ficar apenas de cueca quando alguém bateu na porta. O rapaz estava bêbado demais para se importar com a situação e Hana tinha decidido ver tudo aquilo como ação de seu instinto maternal. Caso contrário, sentiria um enorme desconforto ao ajudar o amigo. Apesar de toda a intimidade que tinham, ela não achava que tinham chegado ao nível de se verem despidos sem qualquer problema.

As batidas soaram novamente na porta, fazendo a morena suspirar. John se encaminhou, com certa dificuldade, para o banheiro e logo a água escorrendo se fez ouvir. Hana então foi ver quem estaria do outro lado, encontrando uma Mei surpresa. As duas se fitaram por um instante antes de a estudante de Moda pegar um dos cartões magnéticos e sair para o corredor, fechando a porta atrás de si.

- Diga, Mei. – Hana sorriu para a amiga.

- Ah, estão todos lá embaixo já, então Kyouya me pediu para procurá-la e também para achar John. Não esperava ver você no quarto dele. – a estudante de Odontologia piscou algumas vezes em confusão.

- É, bom, sobre isso, o John teve uns problemas e eu estou ajudando, só isso. Ele está no banho agora e, como você pode ver, está tudo bem. Nós já vamos descer.

- Tudo bem. – Mei retribuiu o sorriso que a outra mantinha no rosto e se retirou. Hana sabia que, se o recado fosse passado do jeito errado, as pessoas não entenderiam direito a situação, mas, naquele momento, ela não tinha tempo para garantir o bom entendimento alheio. Ela tinha um amigo bêbado sob o chuveiro e tinha medo do que podia acontecer.

Para sua surpresa e satisfação, o banho transcorreu sem problemas e John parecia outra pessoa quando saiu. Renovado, sem o cheiro do álcool ou efeitos visíveis da bebida. Ela sorriu ao vê-lo sair do banheiro com uma toalha na cintura e outra para esfregar o cabelo e recebeu um sorriso constrangido de volta. Ele tinha demorado um pouco, mas acabou processando a situação e agora parecia desconfortável. Era estranha a ideia de ter ficado praticamente nu na frente de Hana.

- Eu sei que você ia preferir estar sozinho – ela se controlou para não dizer "estar com outra pessoa" ou "estar com a Anny" –, mas eu precisava garantir que ia ficar tudo bem.

Ele assentiu. Entendia aquilo e agradecia a escolha de palavras da amiga. Mas não havia como negar que a situação era estranha e desconfortável mesmo assim. Evitando olhar para a estudante de Moda esparramada em uma das camas, ele foi pegar o que vestir. Se tivesse olhado, ia perceber que ela fitava o teto e não estava efetivamente interessada em vê-lo se trocar. Era uma situação estranha e desconfortável para ela também e não queria piorar as coisas.


Kaoru conferiu o papel que tinha na mão uma última vez antes de entrar no táxi. Hilkaru o seguiu e logo o carro deslizava pelas ruas da cidade em direção ao destino que o ruivo mais novo tinha passado ao motorista. Atrás deles, os carros com os outros integrantes do clube seguiam pelo mesmo caminho, mas com instruções levemente diferentes. Não havia um endereço, apenas a instrução para seguir o táxi com os gêmeos. Aquela era uma viagem surpresa para praticamente todos e Kaoru não ia contar aos amigos o que tinha contado a Hikaru. Afinal, só seu irmão cabeça-dura decidiu não confiar nele.

Quando desembarcaram, o silêncio era total. O gêmeo mais novo se sentiu levemente decepcionado. Esperava que a recepção fosse feita logo na entrada, facilitaria bastante as coisas. Mas aparentemente ele era o único a pensar desse jeito. Segurando-se para não suspirar pesadamente, ele pegou as bagagens, pagou ao motorista e se dirigiu ao interior do hotel com os outros atrás de si.


Hana olhava impacientemente para a entrada do hotel. Apesar do atraso pelo estado de John, tinham conseguido se reunir antes do grand finale. Ela só queria que o final chegasse logo, porque as amigas pareciam suficientemente impacientes para irem embora a qualquer momento. Afinal, que motivo plausível elas tinham para continuar plantadas na recepção do hotel esperando algum milagre acontecer? Felizmente, Hana não teve que esperar muito mais.

O milagre tinha acabado de entrar pela porta.

Mei foi a primeira a notar a movimentação.

- Takashi…

Sua voz sussurrada fez o restante do grupo se virar para ver o que a tinha surpreendido e logo Anastácia e Catarina estavam igualmente surpresas. A loira tinha lágrimas nos olhos, mas se controlava para chorar. A estudante de Enfermagem, por sua vez, parecia não acreditar no que estava vendo. Ela tinha a boca aberta – que fechava por vez ou outra, mas logo tornava a abrir – como se não conseguisse articular uma simples sentença qualquer. Ou mesmo um nome. Seu cérebro simplesmente não processava a situação.


Quando Kaoru atravessou a porta do hotel, seu rosto se iluminou. Hana estava parada logo diante da entrada, apesar de estar a bons passos de distância, junto do restante do grupo. O ruivo sorriu largamente ao ver Anastácia e não teve de esperar muito para que ela o notasse. Hikaru, por sua vez, estava prestes a protestar novamente sobre o hotel quando viu o rosto iluminado do irmão. Seguindo seu olhar, logo entendeu o motivo. De repente, nada mais importava. De repente, ele nem mesmo estava carregando suas bagagens, tinha apenas se desvencilhado de tudo em seu caminho e ia em direção à Catarina, que correu para abraçá-lo.

Hani e Tamaki, não surpreendentemente, riram com satisfação quando viram o que se passava, quando perceberam o motivo daquele segredo todo. Era bom poder ver os amigos todos reunidos novamente. Apesar de não ter se passado tanto tempo desde que voltaram para o Japão, eles entendiam – Tamaki entendeu mais graças à Haruhi do que qualquer outra coisa – como o tempo tinha parecido se estender bem mais para os outros. Um tempo que tinha voltado a correr normalmente naquele momento.

Reiko e Haruhi se mantiveram afastadas, dando o espaço que os três casais precisavam naquele momento. Tiveram, com certo esforço, que puxar os respectivos namorados para o canto também. Mori, por sua vez, foi o que mais manteve a compostura. Kaoru tinha quase conseguido, mas largou tudo que levava no chão assim que Anastácia chegou minimamente perto e logo a tinha puxado para um abraço apertado. A morena não tinha nada do que reclamar e retribuía ao gesto da mesma forma.

Mei caminhou calmamente até o namorado e parou diante dele com um sorriso nos lábios. Mori sorriu de volta e passou o que carregava em um dos braços para o outro a fim de ter uma das mãos livres. Então acariciou as mechas da garota, que corou levemente com o gesto. Ela fitou o chão por um momento, mas logo tornou a fitar o rapaz, que se curvou para beijá-la. Como sempre, ela tinha sido surpreendida pelo gesto e sentiu o rosto ferver do início ao fim, mas não podia negar que se sentia feliz.

O silêncio na recepção do hotel era absoluto.

Hana, ao lado de Kyouya, observava a cena com Jenna, Nathan, John, Benjamin e Frederick. As garotas e Nathan sorriam com satisfação pela cena, enquanto o estudante de intercâmbio parecia indiferente. Já os outros três rapazes pareciam satisfeitos e incomodados ao mesmo tempo, apenas em proporções diferentes. Era estranho bancarem os ajudantes do Cupido – se é que poderiam chamar daquele jeito, considerando que os casais já estavam resolvidos – mais de uma vez, apesar de a primeira não ter sido totalmente intencional.

Quando todos conseguiram voltar ao normal, ou o mais próximo disso que era possível naquele momento, os recém-chegados decidiram que era melhor fazerem o check-in no hotel. Tinham acabado de se soltar de seus respectivos pares quando foram pegos de surpresa pela aclamação dos demais hóspedes e dos funcionários ali presentes. Não era todo dia que se via tamanha demonstração pública de amor, especialmente em um reencontro como aqueles. Houve certo constrangimento inicial, mas logo todos riam. Estavam juntos, estavam bem e ninguém estava perturbando, então por que não aproveitar?

Dali para frente, o futuro poderia lhes trazer o que quisesse. Eles se sentiam capazes de superar qualquer coisa. Sabiam que não poderiam contar com situações como aquela sempre, mas estavam dispostos a fazer o que fosse necessário para superar os obstáculos. Seria difícil, mas não havia, naquele momento, sacrifício que eles não estivessem dispostos a fazer. O importante era aproveitar a viagem, mais do que almejar pelo final. Porque, no fim das contas, não havia final. No fim do dia, tudo não passava e mais um trecho da viagem.

Uma viagem que eles nunca se viram tão dispostos a fazer como a partir daquele momento.


N/A: eeee acabou! (podem chorar, eu deixo hahaha) Mas há capítulos extras ainda! Eles se passam vários anos após este capítulo, então não estranhem. Espero que aproveitem! E mandem reviews, garanto que a mão não cai (a menos que você tenha uma condição médica que eu desconheça, mas aí não é minha culpa, veja bem). Beijinhos e bons capítulos extras, queridos!