- Acho muito legal que você tenha conseguido finalmente terminar os esboços da sua nova coleção, meu amor – Anastácia começou a falar, olhando com o cenho franzido para Kaoru –, mas me explique de novo porque você precisa que eu sirva de modelo para você poder costurá-las dessa vez.
Kaoru parou o que fazia, emergindo da pilha de tecidos que tinha deixado a um canto e olhando para a esposa. Estavam casados havia poucos anos e ele ainda se lembrava de como a morena chorou de emoção quando ele a propôs. Parada ali, no centro da sala, vestindo o que seria um dos vestidos da nova coleção, ela o olhava com certo desconforto por estar na mesma posição por um tempo que parecia longo demais. O ruivo sorriu e foi até ela.
- Por nada em especial, na verdade, mas eu quero fazer as primeiras peças de forma que o caimento fique perfeito em você.
Ela se sentiu corar e desviou os olhos.
- Você é um idiota.
- E você fica uma graça com vergonha. – ele riu e lhe beijou a bochecha antes de voltar ao que fazia – Prefere azul marinho ou verde petróleo? – ao falar, pegava dois longos pedaços de tecido.
- O que você… – antes que ela pudesse terminar de responder, Kaoru já tinha voltado e colocava os pedaços de pano diante da esposa, como se para analisar qual era a melhor opção – Você não está ouvindo, não é?
Os orbes dourados se levantaram para os castanhos com certa surpresa.
- Desculpa, o que? – ele piscou. Por vezes acabava se concentrando demais no trabalho e se desconectava do restante do mundo.
Anny riu.
- Não foi nada. Conseguiu escolher? – ela olhou para as opções de tecido ao acabar de falar.
- Na verdade, não. Os dois combinam, o que torna essa escolha difícil. Eu não quero me arrepender depois. – o ruivo franziu o cenho.
- Bom, você pode pegar o que usou menos até agora. – ela deu de ombros, fazendo com que Kaoru a olhasse feio – Não me mexer. Desculpa.
- Você pode acabar se espetando com os alfinetes, Anny. Sabe disso. – então ele voltou para junto da pilha de tecidos e tornou a revirá-la – Talvez eu devesse usar uma cor mais clara…
Anastácia suspirou. O rapaz tinha novamente se desconectado do universo e agora falava alguma coisa sobre qual cor e textura escolher. Estava sentindo as pernas duras já quando ele gritou alguma coisa com empolgação, sinal de que tinha conseguido se decidir. Mentalmente, ela agradeceu por aquilo. Sua barriga começava a se contorcer depois de passar a tarde toda sem receber qualquer atenção, um lembrete de que precisava cuidar do jantar.
- O que acha de comermos pato hoje? – ela virou o rosto para Kaoru – Estava pensando em fazer um molho de laranja…
- Você devia deixar isso para os empregados. Eles trabalham para você também, sabia, senhora Hitachiin? – ele sorriu de forma marota e não conseguiu prender o riso quando a outra corou fortemente – Não acredito que você ainda não se acostumou com isso, Anny.
- É só que as pessoas dificilmente me chamam pelo sobrenome e… E… E…
Ela se sentia uma garotinha de 12 anos ficando sem graça com aquilo.
- Apenas escolha o que quer de jantar! – ela bufou, dando-se por vencida.
- Pato com molho de laranja está ótimo. – ele deu um breve selinho na esposa antes de continuar – Bom, acho melhor te ajudar a tirar tudo isso. Vou ver o que consigo adiantar até amanhã antes de minha mãe chegar.
Ah, aquilo. Yuzuha tinha ligado alguns dias antes, perguntando sobre o progresso do filho com a coleção, e acabou se convidando para visitá-los quando voltasse ao Japão para ver o "fruto do trabalho duro" do rapaz. Por mais que gostasse da mulher, Anastácia às vezes desejava que ela tivesse um pouco mais de tato. "Mas, se ela fosse diferente, Kaoru também seria diferente e eu não sei se gostaria tanto dele", sem perceber, a garota sorriu.
- Ah, senhorita. Deixe-me ajudá-la. – uma das empregadas sorriu ao entrar na cozinha e ver Anny separando as coisas para o jantar.
- Claro, Aiko. Você pode cortar as laranjas para mim? – ela indicou as frutas lavadas sobre a pia com a mão livre enquanto terminava de pegar os temperos que usaria.
A empregada, bastante jovem e recentemente contratada, assentiu brevemente e logo estava com um facão em mãos, picando as laranjas com uma habilidade impressionante. Por ter começado a trabalhar havia pouco tempo, ninguém esperava que ela conseguisse ser tão eficiente. "Eu sempre gostei de cuidar da casa" era a justificativa que a mulher dava quando perguntavam.
Enquanto as duas cuidavam do jantar, Kaoru continuava trabalhando nos modelos de sua nova coleção. Tinha vestido um manequim depois de tirar a peça de Anastácia e o encarava com o cenho franzido. "Não parece tão atraente agora…", ele suspirou. Talvez devesse pedir algum conselho. Com isso em mente, ele ligou para Hana pelo FaceTime do celular e esperou que a garota atendesse.
- Diga, Kaoru. – a mestiça sorriu – Do que você precisa?
- Eu preciso conseguir terminar um vestido, mas não consigo escolher os tecidos certos. – ele apontou a máquina para o manequim e esperou enquanto a amiga analisava o modelo.
- Olha só, que bonito! Pela cor, aposto que esse vai ser para a Anny. – ela riu. Então começou a discutir com o amigo sobre as possiblidades existentes e sobre o que ele já havia pensado em fazer.
Ficaram nisso por um tempo que pareceu muito longo, mas que, no relógio, não passou de poucas horas, e pararam apenas quando Anastácia apareceu para avisar que o jantar estava pronto. Hana se despediu com um ar de quem estava prestes a aprontar alguma coisa, o que fez a amiga franzir o cenho e questionar o ruivo. Kaoru apenas se desviou da pergunta, em parte sendo sincero ao dizer que não sabia o motivo da atitude da mestiça.
Anastácia deu de ombros, como se não se importasse. Provavelmente tinha algo a ver com a coleção e ela não entenderia, ao menos não de todo. No fundo, no entanto, algo lhe dizia que tinha a ver com ela própria. Mas o que poderia ser? Por mais que pensasse a respeito, nada lhe vinha à mente.
Não tinha se lembrado ainda de que seu aniversário estava chegando.
