Hana estava esparramada no sofá, olhando alguns papeis. Kyouya estava fora naquele momento para resolver alguns problemas dos negócios da família. Como o rapaz fez administração – e não medicina como os irmãos mais velhos –, tinha que resolver toda sorte de problemas. Hana se sentou. Espalhados pelo chão ao redor e pela mesa de centro estavam mais papeis. Ela suspirou. "Ele podia me ouvir pelo menos para isso. Já combinamos que eu não me meto na forma como ele se relaciona com os irmãos e com o pai em se tratando do trabalho, mas ele podia me ouvir quando se trata de nós!", ela suspirou mais uma vez.

Um dos papeis então lhe chamou a atenção. Era um folheto de propaganda de uma agência de viagem. Os pacotes não interessavam, mas o destino lhe deu uma ideia. Hana estava pensando a respeito quando a porta da frente se abriu. Kyouya tinha um ar cansado e afrouxava a gravata ao entrar na casa. Hana se levantou e foi até ele, recebendo-o com um abraço e um sorriso de canto. O moreno sorriu de volta e lhe beijou os lábios. Quando os dois se separaram, ela perguntou como tinha sido a reunião.

- Conseguimos resolver boa parte dos problemas, mas ainda há muitas pendências. – ele desviou o olhar para os papeis espalhados – Foi isso que você fez o dia todo?

- Não. – ela começou a juntar as coisas para liberar espaço no sofá e na mesa – Foi o que eu fiz no final da tarde. Nós realmente precisamos de toda essa cerimônia?

Kyouya suspirou.

- Nós já falamos sobre isso.

- É, já. Ostentação. Imagem. Só por isso. – Hana se virou para ele – Ainda acho que devemos falar com sua família antes de decidir todos os detalhes. Dar a notícia direito.

- Hana, você sabe como as coisas vão ser. – Kyouya se sentou no sofá e cruzou os braços – Eu não quero que você tenha dor de cabeça por nada.

Hana pareceu se divertir.

- É mais provável que você saia de lá com dor de cabeça. – ela parou atrás dele e passou os braços por cima de seus ombros, abraçando-o e colocando as mãos sobre as dele. Ao falar, tinha a voz suave – Vamos conversar com eles. Com calma. Eu posso falar com eles se você preferir.

Kyouya parou para pensar.

- É melhor que eu fale.

Hana revirou os olhos, mas manteve o tom.

- Tem certeza? Nós já estamos nessa coisa toda tem mais de três meses. Eles aceitaram bem quando eu me mudei para cá, por que não aceitariam isso?

- É diferente. – Kyouya tinha um tom sério.

- Não é tanto assim. – ela lhe beijou o topo da cabeça antes de soltá-lo – Amanhã, marque com eles um jantar aqui em casa. Vamos dar a notícia e então decidir o restante dos detalhes. Tudo bem? – ela se sentou na beirada da mesa de centro, olhando Kyouya com calma, e colocou uma mão sobre o joelho do moreno – Vai ficar tudo bem. Confie em mim.

Kyouya sorriu de canto e colocou uma mão sobre a de Hana. Aquilo significava que ele concordava com a ideia.


Kyouya tinha marcado o jantar com a família para dali uma semana. O tempo passou depressa e Hana se mantinha ocupada com os preparativos enquanto o moreno continuava a cuidar dos problemas dos negócios da família. Ela tinha deixado os papeis de lado por um tempo indeterminado. Tudo dependeria de como o jantar corresse. Quando o dia do jantar finalmente chegou, a casa estava impecavelmente limpa e arrumada, o que surpreendeu Kyouya.

- Tudo isso é para causar uma boa impressão?

Hana sorriu com satisfação.

- Quanto mais felizes e satisfeitos eles estiverem, melhor.

Kyouya sorriu de canto. Quando a morena queria algo, ela fazia de tudo para conseguir.


Depois que o prato principal foi servido, Yoshio olhou para o filho mais novo e a morena sentada ao seu lado. Os anfitriões da noite. Hana parecia tranquila e extremamente confiante, apesar de nada ter sido dito a respeito do objetivo do jantar. Kyouya, por sua vez, parecia inquieto. Yoshio notou que o filho não tinha soltado a mão de Hana em nenhum momento, o que era anormal. Foi Akito quem quebrou o silêncio que se formou à mesa.

- O jantar está sendo realmente agradável, mas vocês não nos chamaram aqui apenas para apreciar a comida, não é? – ele olhou de Kyouya para Hana, que se levantou ao começar a responder.

- Você tem razão. O objetivo deste jantar é, na verdade, notificá-los de algo muito importante. – ela fez uma pausa e se virou para Akito, olhando-o fixamente nos olhos. Então tornou a olhar para todos os presentes – Eu e Kyouya vamos nos casar.

Kyouya acompanhava a cena com o olhar, sorrindo de canto discretamente ao ver Akito franzir o cenho. O mais novo, que tinha alcançado tanto sucesso quanto os irmãos em menos tempo, estava dando um passo importante. Um passo que apenas um dos três irmãos tinha dado até então. Fuyumi, que tinha sido convidada com o marido para o jantar, apenas apreciava a cena. Era bom ver o irmãozinho, que sempre tinha sido tão preso à família e ao que o pai dizia, tomar uma decisão tão importante. E tinha escolhido com quem se casaria sem a pressão da família. Akito desviou o olhar de Hana para Kyouya, mas foi Fuyumi quem se manifestou.

- Isso é ótimo! Já sabem como vão fazer?

Hana sorriu para a cunhada.

- Ainda não. Kyouya quer fazer a cerimônia com todas as tradições e a festa, mas eu ainda acho que devíamos só fazer uma cerimônia simples e ir direto para a lua-de-mel.

- Oh, você quer passar mais tempo sozinha com ele! Isso é tão bonitinho! – Fuyumi olhou para o irmão – Você devia ouvi-la mais vezes.

Kyouya suspirou e olhou para os irmãos e o pai. Yoshio sorriu. Havia tempo que tinha aceitado o jeito irreverente de Hana. O jeito de conseguir o que quer. A forma de pensar fora da caixa. De não se intimidar pela sociedade. Afinal, era graças àquilo que ela tinha chegado onde estava. Akito e Yuuichi se entreolharam. Não conseguiam se acostumar com Hana. Enquanto eles estavam arrumados um tanto formalmente para o jantar, ela estava com roupas casuais. E ainda assim não destoava.

- Eu acho uma ideia muito válida a sua, senhorita Hana. – Yoshio olhou para o casal com um sorriso nos lábios.

- Já escolheram onde farão a cerimônia? – a pergunta veio de Yuuichi.

- Ao céu aberto. De preferência, sob as estrelas. Estava pensando em alugar algum lugar próximo à natureza. – Hana sorria com satisfação e olhou para Kyouya, que se divertia com a cena, apesar de não demonstrar. Ela voltou a olhar para Akito e Yuuichi – Assim podemos chamar quantas pessoas quisermos e aproveitar a natureza.

- E já começou a ver vestidos? – Fuyumi tinha um tom empolgado.

- Alguns modelos. – Hana deu de ombros – Mas nenhum me interessou muito.

Fuyumi sorriu. Logo as duas tinham se posto a conversar sobre vestidos de casamento e decorações. Kyouya sorria de canto ao ver o quanto as duas se davam bem, logo desviando o olhar para os irmãos ao ser chamado. Yuuichi não parecia confortável com a ideia da garota por ter tido um casamento tradicional. E achava que todos deveriam ter. Akito parecia incomodado pelo lugar escolhido. Yoshio parecia se divertir com a situação toda.

- Você fez uma boa escolha, Kyouya. – Yoshio comentou após alguns minutos de conversa – Achou uma peça realmente única.

"Nem tanto", Kyouya pensou nas amigas da garota e nos demais integrantes do antigo Host Club. Eles eram os próximos a serem avisados. No entanto, em resposta ao pai, o moreno apenas sorriu e agradeceu. No meio de tudo aquilo, tinham se esquecido de comer. Hana chamou dois empregados, que recolheram os pratos. Em pouco tempo, o prato principal foi novamente servido, quente o suficiente para ser apreciado. A morena sorria com a sensação de missão cumprida. Kyouya se sentia aliviado pela forma como as coisas correram. Fuyumi estava empolgada e já tinha combinado com Hana quando iriam visitar lojas e mais lojas de vestidos de casamento até encontrarem o perfeito.


Hana permitiu-se cair na cama, exausta. Kyouya riu levemente ao ver o quanto ela estava cansada. Não era por nada. Toda a preparação tinha exigido muita dedicação da morena. Geralmente, ela só se dedicava com aquele afinco todo ao trabalho. Mas vê-la se esforçar por aquilo o deixava contente. Sabia que não tinha errado ao propor o casamento. Ao se lembrar de como as coisas tinham corrido, suas bochechas ficaram levemente coradas. "Não acredito que ainda coro com isso", ele sorriu e deixou a gravata sobre a escrivaninha. Hana desviou o olhar para ele.

- Por que você está vermelho? Nem servimos álcool hoje. – ela se sentou na cama e indicou que ele se sentasse ao seu lado.

- Estava apenas pensando. – ele sorriu para ela e se sentou na cama, puxando Hana pela cintura.

- Pensando, é? Em que? – ela sorria calmamente ao acariciar a bochecha do moreno.

- Nada importante. – ele aproximou o rosto do dela e a beijou suavemente – Vamos dormir. Você deve estar exausta.

- Um pouco. – ela se levantou e começou a se trocar. Estava apenas com a calça do pijama quando sentiu os braços de Kyouya a envolverem pela cintura – O que foi, seu bobo? – ela sorria divertidamente e passou os braços sobre os dele.

Kyouya não respondeu, apenas beijando a garota. A melhor decisão que tinha tomado era a de manter-se com ela até o fim. Independentemente do que a família achasse, apesar de a aceitação ter sido maior do que ele imaginava que seria. Hana o completava de um jeito diferente do que ele imaginou que aconteceria. Ela o fazia ver as coisas por outro ângulo ao provocá-lo. E o contato que ela mantinha com os outros tinha se mostrado mais importante do que Kyouya imaginara. Quando adormeceram, Kyouya sonhou com o pedido de casamento. Tinha sido simples, mas ela tinha adorado. E era tudo o que importava.


Hana estava sentada à mesa de jantar, desenhando modelos para a coleção que lançaria com Kaoru. Os dois estavam planejando aquilo havia meses e ainda não tinham conseguido selecionar os modelos que usariam. Kyouya se aproximou em silêncio, esperando até Hana abaixar o lápis para colocar a mão em seu ombro. Como o esperado, a morena se assustou. Estava concentrada demais no que fazia. Ele sorriu de canto e a segurou suavemente pela mão, guiando-a até o sofá. Na mesa de centro, uma caixinha preta jazia solitária. Hana franziu o cenho. Não tinha visto aquilo antes.

A embalagem cabia em sua mão perfeitamente. Ela olhou para Kyouya, que apenas disse que a abrisse e olhasse o que tinha dentro. Hana deu de ombros e obedeceu. Dentro, um anel delicado e discreto estava preso bem no meio, com um pequeno diamante solitário brilhando sob a luz. Hana sentiu o coração falhar e olhou surpresa para Kyouya, que apenas pegou o anel e colocou no anelar esquerdo da morena. Hana sentiu os olhos encherem d'água e o abraçou com força, sorrindo. Achava que o pedido nunca aconteceria. Não precisaram trocar uma única palavra. Tinha sido perfeito daquele jeito. Eram, enfim, noivos.