Nathan estava deitado em sua cama, o lençol indo até parte de seu abdômen. Olhava o teto sem muito interesse, deixando uma mão atrás da cabeça. Jenna, ao seu lado e com a cabeça apoiada em seu peito, parecia dormir. Ele a envolvia em um abraço entre protetor e carinhoso, como se o mundo fora daquelas cobertas fosse desagradável demais. A sensação da pele dela pressionada contra a sua era agradável e ele sorria de forma um tanto boba. Se a garota visse, com certeza faria algum comentário zombeteiro, como ela tinha o hábito de fazer. Ele não se importava.
Decidiu, então, testar sua teoria.
- Jen? – ele virou levemente o rosto de forma que pudesse fitá-la.
Os orbes negros se levantaram em silêncio.
- Eu estava pensando… – ele tornou a fitar o teto enquanto falava. Seu tom se mantinha sempre o mesmo.
- Você sempre está pensando. É o que você mais gosta de fazer. – ela tinha o tom divertido e se ajeitou ao acabar de falar.
Nathan riu.
- Você sabe que isso não é exatamente verdade. – ele sabia que ela tinha revirado os olhos com a resposta apesar de se manter fitando o teto – De qualquer forma, algo… Bom, interessante, porque não sei se é importante, me ocorreu.
- Você está enrolando demais. – ela franziu o cenho. Por que tanto mistério?
- É. Provavelmente. É que eu não sei…
- Nathan. – ela o interrompeu, levantando-se de forma a ficar apoiada sobre um braço na cama, olhando diretamente para o homem.
- O que? – os orbes dourados se voltaram para os negros.
- Desembucha. – ela tinha o cenho franzido.
- É. Ok. – ele respirou fundo – Eu queria saber… Bom, se você quer ter filhos.
Jenna piscou uma vez. Duas vezes. Ele viu seus lábios se contraírem para baixo. Para cima. Afinarem. Relaxarem. Viu seu peito subir algumas vezes. Ela estava processando a informação que tinha acabado de receber ainda. Nathan engoliu em seco, sem saber o que esperar. Talvez tivesse sido uma péssima hora para tocar naquele assunto. Claro, havia ainda o fato de ela ter se formado havia alguns anos e, por causa disso, ainda não ter se firmado muito no mercado de trabalho. Ela ainda não se sentia confortável com a ideia de se mudar do apartamento em que vivera durante a faculdade para ir morar com ele também.
Ele suspirou.
- Olha, não precisa responder agora. Foi…
- Tudo bem. – ela ainda tinha o cenho franzido.
- Tudo bem… O que…? – ele hesitou. Tudo bem ter perguntado? Tudo bem ter filhos? O que ela queria dizer com aquilo? Por que ele não conseguia apenas engolir a ansiedade que crescia em seu peito antes que vomitasse todas aquelas perguntas em cima da garota?
- Tudo bem… Ter filhos. Bom, de preferência no singular. Mais de um daria muito trabalho. Mas não ainda. – ela suspirou e tornou a deitar na cama. Não tinha se apoiado em Nathan de novo. Estava com a cabeça contra o travesseiro, encarando o teto. Sentia o olhar do homem sobre si, mas não virou – Sei lá. Não soa exatamente ruim, mas eu não sei se conseguiria, entende?
Ele pensou a respeito por um instante.
- Não me ocorreu ter crianças logo. – ele viu a garota se virar e automaticamente se corrigiu – Criança. Uma só. – riu quando a viu revirar os olhos e tornar a encarar o teto – Mas eu não acho que você precise se preocupar.
- Por quê? Eu vou virar uma boa mãe assim que parir a criatura? – ela tinha um tom divertido ao falar.
- Logicamente. – ele sorriu. Quando ela começou a rir, seu sorriso apenas se alargou.
- Você é um idiota.
- Talvez. Mas você gosta mesmo assim.
- Talvez eu seja masoquista. – ela se virou para ele e o sorriso em seu rosto delatava que não era o que realmente se passava em sua cabeça aquilo.
- Se tem uma coisa que você não é, senhorita Jenna Wong, é masoquista. – ele a cutucou levemente na barriga e riu quando ela protestou lhe estapeando se muita vontade a mão.
- Independentemente disso… – ela se ajeitou de forma a se virar para o homem ao seu lado, ficando com um braço apoiado debaixo da cabeça e o outro apoiado ao longo do corpo – Por que você estava pensando sobre ter filhos?
Nathan deu de ombros. Realmente não havia uma resposta.
- Eu só estava aqui, apreciando a companhia. E… Bom, uma coisa leva à outra, acho.
Jenna olhou para ele sem acreditar, ficando em silêncio por alguns segundos. Então começou a rir.
- Você é inacreditável. – ela se levantou, ficando sentada na cama – Bom, acho que devíamos jantar. O que quer…
Ele a segurou pelo pulso e a puxou para si antes que ela terminasse a frase.
- Mude-se para cá.
A coreana suspirou.
- Já falamos sobre isso, Nathan.
Ele não respondeu.
- Você sabe o motivo de eu não poder.
Ele continuou em silêncio.
- Isso é ridículo. – ela tentou se afastar, mas o braço dele a prendia firmemente – Nathan.
Ele baixou o olhar de forma a poder fitar os orbes negros da outra.
- Deixe de bobagem. Deixe-me ir fazer o jantar.
Ele deu suavemente de ombros ainda sem responder.
- Você pretende me vencer pela exaustão? Esse é seu plano genial?
Os orbes dourados percorreram o espaço atrás da outra como se estivessem pensativos antes de voltarem a fitar os negros. Mas ainda não havia uma resposta verbal. Jenna apostou que o plano do antigo professor era justamente aquilo que ela tinha suposto.
- Essa é uma ideia idiota. – ela se ajeitou de forma a ficar com a cabeça escondida no peito do homem.
- Você vir morar aqui ou eu te vencer pela exaustão? – pelo tom que ele usava, ela podia facilmente perceber que ele sorria com satisfação.
- Ambas. – ela riu – Você é um idiota.
- Bom, isso não é nenhuma novidade. – ele fez uma pausa – Inclusive, você já disse isso antes, não tem muito tempo.
Jenna riu de novo.
- Porque você é mesmo, oras.
Mergulharam então em um silêncio agradável. A morena logo passou um braço ao redor do tronco do homem, sorrindo de canto sem saber exatamente o motivo. Gostava de ficar daquele jeito com ele. Daquela despreocupação que emanava dele. Logo sentiu que ele mexia em seu cabelo, em uma carícia suave que a fez suspirar com certa satisfação. Era estranho como não se sentia cansada, mas apenas relaxada. Esse efeito que ele tinha sobre ela e com o qual ela duvidava que fosse se acostumar.
-Nathan.
- Diga, meu amor. – ele baixou o olhar para ela e riu quando percebeu as bochechas coradas – Não acredito que você ainda fica sem graça com isso.
- Cala a boca…! – ela afundou o rosto no peito do outro e respirou fundo algumas vezes, desejando profundamente estapeá-lo por continuar rindo. Quando conseguiu se acalmar, ela levantou os orbes escuros para os dourados – Nós ainda precisamos jantar, você sabe, né?
- Sei. – ele sorria de canto e fez uma pausa de que Jenna não gostou – Meu amor.
Ela bufou e se levantou, desvencilhando-se dos braços do outro com agilidade e saindo do quarto repetindo que ele era um idiota. Nathan permaneceu deitado na cama, rindo da situação. Quando conseguiu parar, ele apenas se levantou e pegou a calça que estava jogada próxima no chão. Desceu enquanto vestia a peça, terminando de fechar o botão quando encontrou a garota. Seus olhares se encontraram por um breve instante e ela logo tornou a olhar o folheto que tinha em mãos.
- Eu pensei em pedirmos comida. O que você acha?
- Acho que não vou deixar você abrir a porta. – ele a abraçou por trás e lhe beijou suavemente o pescoço.
- Claro, porque você está muito melhor. – ela revirou os olhos e colocou uma mão sobre a dele – Podia ter me trazido sua camisa.
- E perder ver você andando assim pela minha casa? – ele tinha um tom levemente malicioso e falava ao pé da orelha da coreana, sentindo quando ela se arrepiou com a provocação. Ele se divertia com aquilo e não se importava com o fato de ela ter plena consciência disso.
- Você hoje está mais idiota que o normal, sabia? – ela riu e pressionou mais as costas contra o peito quente dele – Em vez de ficar de gracinha, você podia me dizer o que quer para o jantar.
Ele levantou o rosto e fitou brevemente o folheto que ela segurava.
- Qualquer coisa, meu interesse é na sobremesa.
- É? E o que você quer de sobremesa? Uma torta de caramelo?
- Na verdade… – ele tornou a lhe beijar o pescoço antes de acrescentar – Eu estava pensando em você.
Jenna sentiu um forte arrepio lhe correr as costas.
- Nathan…!
Ele riu mais uma vez.
- Por que você está sendo uma garota tão inocente agora? Não é como se isso fosse muito diferente de nossa rotina. – ele apoiou a cabeça sobre a dela.
- Vai ver você me drogou e eu não fiquei sabendo. – ela lhe bateu sem muita vontade na mão e seu tom estava entre a repreensão e o divertimento.
- Seria muito triste se eu precisasse te drogar para ter alguma chance. Especialmente depois de todos esses anos.
Jenna parou para pensar.
- Seria deprimente, isso sim. – ela riu.
- Eu preciso ser honesto com você. – ele disse depois de uma longa pausa. Soltou a morena e foi para o sofá, sentando-se com uma elegância que parecia absurda, considerando os trajes e o cabelo bagunçado com que ele se encontrava.
A garota se virou, olhando-o com o cenho franzido e uma incerteza incômoda.
- Sobre…?
- Sobre a nossa conversa de… Dez minutos atrás? – ele pareceu pensar – Bom, sobre termos filhos.
Jenna suspirou com alívio.
- Não me assuste, droga. – ela foi até ele e se sentou ao seu lado – O que mais você precisa me dizer?
Ele respirou fundo e voltou o rosto para ela.
- Eu estava pensando… Anny e Kaoru já estão casados. Hana e Kyouya estão para casar. Cat e Hikaru estão seguindo pelo mesmo caminho. – ele deu de ombros – Aí eu comecei a imaginar você em um vestido de noiva e…
- E uma coisa leva à outra. – ela riu – Isso foi uma indireta? – ela sorriu com certa satisfação e apoiou a cabeça na mão.
Nathan se sentiu subitamente desconfortável, ajeitando-se no lugar e engolindo em seco antes de responder. Aquilo tinha sido uma indireta? Nem ele sabia. Mas era uma possibilidade interessante, não era? Seria um passo natural, não seria? Ou talvez eles pudessem só ter a chamada "União Estável". Ele não fazia questão de se casarem, mas, se ela quisesse…
- Eu não sei. – foi o que disse por fim – Digo, eu quero passar a minha vida com você, mas não sei se isso nos obriga a casar. – ele franziu o cenho – Faz sentido?
- Faz todo o sentido. – ela se endireitou e passou uma mão pelo rosto do homem de forma carinhosa – Nós não precisamos casar para sermos uma família. Ou um casal. Ou o que for.
Ele sorriu para ela com certo alívio. Não sabia o motivo de estar aliviado. Talvez imaginasse que ela fosse ficar brava. Ou achar que ele estava louco. Talvez ele estivesse mesmo louco. Nunca imaginou que fosse se apegar tanto a alguém a ponto de realmente propor se tornarem uma família. De terem filhos. "Filho", ele se corrigiu automaticamente. "Um só", ele riu. Aquela era uma ideia com a qual poderia facilmente se acostumar.
