Mei tinha decidido que não trabalharia naquele final de semana. Sua secretária tinha sido avisada com a devida antecedência, de forma que os pacientes puderam ser devidamente informados quando ligavam para marcar uma consulta. A menos que fosse uma emergência, ela não pisaria no consultório naqueles dois dias. Essa decisão um tanto extraordinária, como definiam as amigas, tinha se dado por um único fator: Satoshi queria ir a uma feira de adoção de cães e gatos e tinha insistido que o casal fosse junto. Yasuchika iria também, com a desculpa de estar apenas acompanhando o amigo. Mesmo depois de todos aqueles anos, ele ainda não conseguia assumir seu amor por animais fofinhos.

A morena preparou almoço para todos, colocando nos recipientes correspondentes conforme preparava cada parte da refeição. Takashi tinha dito que aquilo não era necessário e que ela não precisava fazer se não quisesse, mas Mei apenas respondeu que não seria trabalho algum. Ela sabia que haveria onde comer, se não no lugar da feira de adoção, nas proximidades. Mas nada se comparava a uma comida caseira bem-feita. Ela gostava de fazer aquilo de vez em quando, o que resultava em um Takashi levando marmita para o trabalho em algumas ocasiões. Ele se sentia especialmente grato quando tinha muito trabalho a fazer e acabava ficando com pouco tempo de almoço. Mas, independentemente da ocasião, ele não reclamava. Sabia que ela fazia aquilo com amor e dedicação, de forma que ele sempre comia feliz e satisfeito.

Quando Satoshi e Yasuchika chegaram à casa do casal, Mei já tinha deixado tudo pronto e guardado em uma mochila. Os olhos do Morinozuka mais novo brilhavam com empolgação, enquanto o Haninozuka parecia levemente desconfortável. Todos trocaram cumprimentos rápidos e Takashi chegou a perguntar onde estava Mitsukuni, ao que Yasuchika apenas deu de ombros e respondeu fracamente que ele devia estar com a Reiko em algum lugar. O moreno mais velho assentiu, achando melhor não insistir. Apesar de os dois irmãos terem começado a se dar melhor nos últimos anos, ainda havia traços da velha tensão entre eles.


A feira de adoção tinha sido montada em um parque, de forma que o espaço era amplo e agradável. O tempo também estava bom, nem muito quente, nem muito frio. Uma leve brisa de vez em quando. A maioria dos animais parecia empolgada com as visitas, com a quantidade de pessoas para lhes dar atenção. Mei sorriu levemente de canto com a situação. Aquela era a grande chance daqueles animais sem lar. Mas alguns, em um canto mais isolado da exposição, acabaram sendo os que realmente lhe atraíram a atenção.

Ela avisou Takashi de onde estava indo e então se afastou. O rapaz a observou por alguns segundos e então tornou a prestar atenção nos mais novos. Yasuchika parecia estar sofrendo para se controlar no meio de tantos animais fofos e peludos, o que visivelmente divertia Satoshi. Os dois estavam diante de um cercado com três filhotes de cachorro que pareciam empolgados ao ver os dois humanos.

Takashi tornou a olhar para onde Mei tinha ido. Ela estava observando os animais mais quietos do lugar. Os animais que recebiam menos atenção e demonstrações de carinho. Ele avisou aos mais novos que iria se juntar a morena e logo os dois decidiram ir com ele. Quando o trio se juntou garota, Takashi entendeu o que havia de diferente com aqueles animais.

Alguns tinham feridas cicatrizadas, partes em que o pelo não crescia. Outros tremiam com a aproximação de qualquer pessoa. Eram animais que tinham sofrido maus tratos e, apesar de estarem ali, ninguém devia acreditar que eles conseguiriam ser adotados. Não facilmente. Afinal, quem ia querer um cão ou gato que não quer interagir? Especialmente se for uma família com crianças.

Mas isso não significava que não havia esperanças para aqueles animais. Pessoas como Mei também podiam gostar de um bicho de estimação. Pessoas que entendiam o que era ser maltratado, ser arbitrariamente ferido, ser julgado como não merecedor de respeito. A morena estava diante de um dos engradados, observando dois cachorros nem tão novos assim. Eles estavam encolhidos, parecendo querer proteger um ao outro. Takashi supôs, não erroneamente, que eram irmãos.

Os animais fitavam Mei, que os fitava pacientemente de volta. Ela tinha uma das mãos encostada na grade que os separava, mas não fazia mais nada. Parecia, na verdade, esperar que os animais percebessem que podia confiar nela e se aproximassem por vontade própria. Takashi estava a poucos passos, mas decidiu não se aproximar mais que aquilo. Indicou ao irmão e ao amigo que ficassem com ele e observassem. Curiosos, os rapazes obedeceram.

Vários minutos se passaram até que o primeiro filhote decidisse ir até Mei. Hesitante, ele lhe cheirou a mão e levou a pata até ela. A garota não reagiu. Com qualquer outro animal, ela poderia lhe segurar a pata e brincar, mas sabia que, ali, aquilo apenas os assustaria. Então o segundo também veio. Ela levantou a outra mão devagar, parando quando os via se encolherem. Por fim, apoiou a segunda mão no engradado. O segundo cachorro a analisou com a mesma hesitação do anterior, mas logo pareceu aceitar que ela não representava uma ameaça.

Ela passou os dedos pelos espaços da grade e deixou que os animais brincassem com ela. Quando possível, ela lhes acariciava o pelo. Takashi então decidiu se aproximar e se abaixou ao lado da garota, olhando-a com admiração e orgulho. Atrás do casal, os dois rapazes mais novos pareciam encantados. Estavam tão absortos na situação que Satoshi nem parecia o mesmo ao se aproximar e se abaixar ao lado de Mei. Ele falava sem a empolgação usual, mas com um tom mais baixo e suave. Yasuchika se manteve em pé atrás do amigo, olhando com o coração partido para todos aqueles animais.

Ele jamais entenderia pelo que eles tinham passado. Ele duvidava que fosse capaz de conseguir tão rapidamente a confiança de qualquer um deles da forma como Mei tinha feito. Mas, ao mesmo tempo, ele queria desesperadamente ajudar. Mei percebeu quando o loiro cerrou os punhos e pareceu tremer levemente. Sem fazer movimentos bruscos para não assustar os animais, ela se levantou e se virou para o rapaz.

- Você quer tentar? – ela sorriu para ele.

Takashi e Satoshi se viraram para ver o que acontecia. Yasuchika concordou levemente com a cabeça, hesitante. Mei indicou que ele escolhesse um dos animais ali e o loiro apontou para um gato de pelagem mesclada, enrolado sobre si mesmo no canto de seu engradado. Mei sorriu com a escolha e foi com ele até o animal. Os cachorros com que antes ela brincava acompanharam a garota com o olhar e então voltaram a atenção para Takashi, que continuava com a mão na grade. Os animais pareciam confortáveis com o contato, de forma que o moreno decidiu levá-los. Mei gostaria daquilo.

Yasuchika sentia-se nervoso. E se estragasse tudo? E se o gato não gostasse dele?

- Respire. – a voz de Mei não escondia totalmente o divertimento que ela sentia, mas também soava suave e compreensiva – Se você não conseguir confiar em si mesmo, como espera que o gato confie?

Aquilo fazia sentido. O loiro respirou fundo algumas vezes para se recompor e então indicou que estava pronto. O gato os olhava com uma suspeita justificada enquanto Yasuchika sentava diante do engradado e punha a mão no metal frio. Mei ficou ao seu lado, observando ora o animal, ora o rapaz. O tempo pareceu se arrastar. Toda vez que Yasuchika começava a sentir que ficaria nervoso de novo, ele passava a respirar fundo para se acalmar. Na primeira vez, acabou soltando o ar com muita força, o que fez o gato chiar. Aquilo o assustou, mas ajudou a controlar melhor o que fazia.

Apesar da demora, o animal finalmente pareceu achar tudo menos suspeito e se aproximou. Yasuchika ficou visivelmente emocionado e Mei teve de colocar a mão em seu ombro para lembrá-lo de ficar parado. O gato olhava firmemente para o rapaz, analisando a mão contra a grade sem parecer muito confiante na situação. Yasuchika esperou sem se mexer, mas estava começando a ficar realmente nervoso.

Então o inesperado aconteceu.

O gato lhe lambeu levemente a palma da mão, o que fez o loiro se sobressaltar. Assustado, o gato tentou mordê-lo e arranhá-lo. Mei tentou acalmar o mais novo, mas sabia que talvez as coisas não dessem certo. Mesmo assim, estava disposta a ajudar. Yasuchika parecia determinado a conseguir a confiança do animal, de forma que se ajeitou novamente na frente do engradado e, após se acalmar, levou novamente a mão até a grade. Dessa vez, ele manteve os olhos fechados. Mei não entendeu o propósito, mas não questionou. Provavelmente ajudava o rapaz a se acalmar e poderia ser um sinal de confiança para o gato.

Por fim, os esforços valeram a pena. O gato tornou a se aproximar e a interagir. Dessa vez, Yasuchika conseguiu manter a compostura e logo interagia com o gato de volta. Os dois tinham conseguido se entender e aquilo empolgava o loiro enormemente. Quando os irmãos Morinozuka se aproximaram, Mei ficou empolgada ao ver os cães com quem brincava antes andando ao lado de Takashi.

Satoshi foi até o amigo e começou a fazer as brincadeiras típicas com o loiro, mas sem deixar de dizer que se sentia orgulhoso do outro por ter conseguido fazer aquilo. Os dois concordaram que levar o gato era uma ótima ideia e que os pais de Yasuchika iam adorar. Ficaram mais um tempo olhando a feira e interagindo com os animais, comeram o almoço preparado por Mei e, quando o sol se punha, decidiram voltar para casa. O dia tinha sido produtivo e Mei não se arrependia de ter tirado aquela folga.