A quem possa interessar,

Não sei o que me levou a escrever essa carta. Nem o que será feito dela depois. Não pretendo rasgá-la nem nada, mas também não pretendo enviar a quem quer que seja. Acho que vou apenas guardá-la e deixar que meus filhos, netos ou quem for eventualmente a encontre quando eu não estiver mais aqui. Acho que eu só preciso colocar algumas coisas no papel… Afinal, esses últimos anos foram solitários para mim.

Kyouya se foi já faz muito tempo. O estresse pelo trabalho acabou tomando-o de mim. Mas ele aguentou mais do que os médicos previram. Afinal, esse era meu Kyouya, sempre duro na queda. Não culpo meus filhos também. Sei que as próprias famílias e os próprios trabalhos exigiam sua presença e sua atenção. Mas, apesar da distância física, eu sempre os senti próximos. Sei que o Japão não era para eles o mesmo que é para mim. Eles não encontraram a mesma paixão que eu aqui. Por isso, sou incapaz de culpá-los.

Também não posso culpar meus amigos. Os que sobraram, ao menos. Mei, que com certeza será a última de nós a ir, tem tido muito trabalho com os netos. Assim como Takashi. Eles são quase imortais… Não vou me surpreender se eles passarem com folga dos 100 anos. Jenna, se ainda estivesse aqui, provavelmente estaria com Nathan aproveitando as festas do lar de idosos para onde ele foi em seus últimos anos. Anny passou a morar em algum lugar da Espanha com John depois que Kaoru sofreu um trágico acidente. É incrível como alguns sentimentos podem durar para sempre…

E Catarina… Sinto falta dela. A profissão a tornou mundialmente famosa e nunca sei onde encontrá-la. Hikaru às vezes me manda algumas fotos das viagens, dos encontros, das palestras. Ela continua tão ativa que me pergunto se chegou a envelhecer. Mas ele também me confidenciou que ela está pensando em se aposentar. E, apesar de já ter anos desde que passei a falar mais com ele que com ela, ainda acho estranho abrir minha caixa de e-mail e não ter nenhuma mensagem do bichinho de estimação da turma. Mas ela costuma me ligar algumas vezes e passamos horas conversando.

Perdi contato com Mitsukuni. Não sei o que aconteceu com ele. É uma pena. Sei que, na última vez em que nos vimos, ele não tinha mais aquele ar infantil. Continuava com seu tamanho diminuto (não sei o que me levou à escolha do termo), mas tinha um ar muito mais maduro. O que a vida não faz com as pessoas… Ele não é mais uma criancinha empolgada correndo atrás de doces e coisas fofinhas. Acho que sinto falta disso.

Benjamin finalmente conseguiu encontrar alguém que não o abandonasse ao ver a cicatriz. Surpreendentemente, decidiu abandonar toda a carreira que tinha para ficar em casa, cuidando de tudo enquanto a mulher trabalha. Ele, que era tão apaixonado pelo que fazia. Acho que a família se mostrou sua verdadeira vocação. Mas eles estão felizes assim, então quem sou eu para julgá-los?

E Frederick… Ele se casou, mas não sei quando. Conheci sua esposa apenas muito depois, quando ela já estava grávida do segundo filho. Tive medo disso. Tive muito medo. Não acho que ele esteja realmente feliz, mas que simplesmente aceitou a felicidade que conseguiu alcançar. Eu consegui me ver naquela mulher. Não apenas em questões físicas. Vi tudo que fui. Tudo que deixei para trás. Tudo que mantive. Tenho medo de que Frederick tenha apenas tentado preencher o vazio que deixei em vez de tentar realmente ser feliz.

Sinto que comecei a divagar. Mas isso é cada vez mais comum com a idade. Acabamos nos perdendo em pensamentos que originalmente não estavam ali e de repente são nossa linha principal de raciocínio… Mas, como disse no começo, não sei o que me levou a começar essa carta sem destinatário. Então acho que posso divagar sobre o que quiser. E o quanto quiser também.

Sendo sincera, acho que só comecei a escrever porque queria registrar em algum lugar o que foi de nós. Nossa história acabará perdida quando formos esquecidos. Mas nunca foi nosso desejo ser eternos. Nós aproveitamos, ou ao menos tentamos aproveitar, ao máximo o que a vida nos deu. E isso sempre foi suficiente. Pelo menos ao olhar em retrospectiva. Eu sou incapaz de dizer que irei embora desse mundo com arrependimentos. Mesmo que isso ainda demore alguns anos.

Eventualmente, se meus filhos ou netos acharem isso, imagino que vão sorrir ao pensar em mim. Não sei o que vão pensar. Talvez pensem em quão espirituosa eu fui? Se é que fui. Talvez apenas pelo carinho. Não me importa. Porque, independentemente de qualquer coisa, eu os amo. E amarei a todos, bisnetos, tataranetos e o que for. Mesmo não os conhecendo. Porque essa é uma das coisas mais importantes da vida: amar. Amei e ainda amo com todo meu coração meus filhos e meus netos, é importante dizer também. A última coisa que desejo é que eles se sintam pouco amados por mim, porque acreditariam em uma mentira.

Minha mão treme agora e acredito que já disse tudo que precisava… Assim, acho que é melhor para todos, incluindo a minha saúde, parar por aqui e tomar meus remédios. Acho que darei uns telefonemas também. De repente, senti uma enorme vontade de ouvir a voz de meus filhos e meus netos. Sim, farei isso mesmo. Acho que eles também gostarão da surpresa.

Com amor,

Hana.


Hana dobrou calmamente a folha, guardando-a em um envelope comum que tinha deixado sobre a mesa. Olhou-o por alguns longos segundos antes de suspirar e o deixar sobre a lareira enquanto ia até a cozinha. Tinha chegado em um ponto que antes considerava deprimente, mas que tinha aprendido a aceitar: precisar tomar diversos comprimidos por dia para conseguir se manter funcional. Agora era apenas mais um fato de sua vida. E era graças a ele que conseguia se manter tão ativa. Então foi para a sala e pegou o telefone.

Discou um número.

A voz do outro lado a fez sorrir com ternura.

- Vovó!