Capítulo 1 - Atrapalhado
| Maldita Maldição |
"Não olhe agora
Estou olhando pra você".¹
Enquanto havia festa e barulheira no Salão Comunal da Grifinória, Harry Potter observava de longe Colin Creevey examinando uma máquina fotográfica com atenção. O garoto mais novo pendurou-a no pescoço, e girava-a com as mãos, parecendo aflito e confuso.
Curioso, Harry chegou mais perto, e logo notou que a câmera não era uma qualquer. Diferente das antigas de Colin, essa era de origem trouxa, motivo pelo qual o menino provavelmente não sabia como mexer.
– Hey, Colin! – Saudou Harry com um sorriso.
– Olá, Harry! – Respondeu Colin, bem-humorado e animado. – Como vai? Parabéns pelo jogo hoje! Foi sensacional o jeito que você agarrou o Pomo-de-Ouro! Quer dizer, sempre é, mas dessa vez, Malfoy estava quase lá, você praticamente arrancou das mãos dele...
O garoto riu.
– Sim... Espero tê-lo deixado tão possesso que seja incapaz de dormir por uma semana – dizendo isso, de uma piscadela para Colin. – Diga-me, o que tem aí? – Perguntou, apontando para o objeto pendurado no pescoço dele.
– Ah, isso – Colin pareceu desanimado. – Comprei esses dias, mas acho que o vendedor me enganou. Não faço ideia de como funciona – suspirou, infeliz. – Logo agora, que queria tirar as fotos do jogo...
– Se incomoda se eu der uma olhada?
– Claro que não.
Colin entregou a câmera para Harry, que examinou atentamente os detalhes da mesma. Apesar de não ter muita experiência, ele notou que a máquina não parecia nada de diferente das que Tia Petúnia usava para fotografar Duda, quando eram jovens.
Virou-se para os amigos.
– É uma engenhoca trouxa, caras!
Todos os olhos viraram-se para ele, até mesmo os frios de Gina Weasley, sua ex-namorada.
– Suas fotos são sensacionais! Totalmente diferentes das bruxas!
Os olhos de Harry buscaram Hermione rapidamente, vendo a garota usando a mão para cobrir a boca, abafando um riso.
– E as fotos se movem?
Um aglomerado começou a se formar ao redor deles. Hermione suprimiu uma risada mais uma vez, quando deu um cutucão no braço de Harry.
– Mostre a eles como funciona!
Harry riu; virou-se para amiga, pegando-a completamente de surpresa, os flashes da câmera voando em sua direção.
– É exatamente como uma câmera bruxa – sussurrou em seu ouvido. – Mas as imagens não se mexem.
Hermione riu.
– Exatamente.
Aquele era um bom dia. Ele tinha acabado de ganhar da Sonserina, capturando lindamente o Pomo, estivera divertindo-se com os meninos da Grifinória e com Hermione. Estava feliz.
Mas esse pensamento morreu quando viu de relance o rosto raivoso de uma ruiva.
– Problemas com Gina? – Perguntou Hermione, notando a troca de olhares nada amigável dos dois.
– Que? – Harry questionou, surpreso. A ex-namorada parecia-lhe tão distante agora. – Nós não estamos mais juntos.
Hermione soltou uma exclamação.
– Oh, Harry! – Sua voz saiu pesarosa e escandalizada. – Sinto muito!
Ele fez um gesto com a mão.
– Não sinta – de repente sua voz pareceu cansada. – Vou subir... Não quero que ela pense que estou fazendo pouco do nosso término.
Hermione acenou com a cabeça. Enquanto observava o garoto subir as escadas do dormitório, não podia imaginar como a amizade deles estava prestes a mudar.
Harry acordou assustado. A camisa do seu pijama estava colada ao seu corpo, banhada de suor, e os lençóis estavam revirados e jogados no chão.
Tivera um pesadelo horrível em que Voldemort, na forma de Tom Servolo, conversava com ele. Amistoso, afável, mordaz.
Quando levantou, sentiu uma vertigem chacoalhar sua mente. Tomou um banho rápido e se dirigiu Salão Principal, para o desjejum. Ainda era cedo, e só alguns poucos alunos perambulavam por ali. Luna Lovegood estava andando sem aparente direção, e Harry notou que seus pés estavam descalços.
– Luna? – Aproximou-se – O que houve? Roubaram seus sapatos novamente? – Perguntou, com uma ponta de irritação. Como aqueles tolos eram capazes de tal atrocidade?
– Ah, olá, Harry! – A menina falou, com afeição. – Não, li num artigo novo que osMutans estão se proliferando, e que a única forma de evitá-los é ficar sem sapatos!
Ele não sabia o que era Mutans, e nem sequer podia imaginar como algo poderia ser evitado de acontecer pelo simples fato de andar descalços. Pensou em orientar a menina, alertá-la que iriam gozar da sua cara, mas sentiu que não tinha o direito de tirar tal característica extraordinária de Luna.
– Avise ao Ron – ela falou, com os olhos brilhantes. – Acho que ele está bem vulnerável!
– Avisarei, assim que o encontrar... – E depois resmungou mais para si mesmo do que para a garota: – Se ele pretender acordar pelo menos até o meio-dia.
– Harry?
– Sim?
– Eu nunca tinha reparado em como as manhãs de Hogwarts são bonitas. Você não acha?
Ele olhou para cima, onde o teto encantado sustentava uma manhã ensolarada e sem nuvens.
Deu de ombros.
– Parecem normais para mim.
– Sei lá. Às vezes as coisas só são bonitas e a gente nunca tem tempo de reparar.
– Tenho certeza de que sim...
Mas Harry parou de falar instantaneamente. Avistara Hermione chegando entre as colunas de pedra do castelo, e sua cabeça chacoalhou muito mais do que quando ele acordara do pesadelo.
Seus olhos percoreram a menina: os olhos, ainda inchados de sono, a ponta dos cabelos ainda molhados, os braços, tão cedo da manhã, já carregando livros pesados, seu rosto absolutamente simétrico e lindo...
Harry quase correu até Hermione, tomando os livros de suas mãos e deixando Luna só.
– D-deixe comigo.
Mérlin, ele tinha acabado de gaguejar?
Ela lhe dedicou um sorriso preguiçoso.
– Obrigada, Harry, eles estavam realmente pesados. Bom dia, Luna.
– Bom dia, Hermione – respondeu a loura.
Harry quase tropeçou nos próprios pés para seguir a amiga até a mesa da Grifinória. Que diabos estava acontecendo? Por que se sentia tão nervoso a ponto de suas mãos suarem? Oras, era só Hermione! A mesma de sempre, que ele via todos os dias, sua amiga e companheira de todas as horas, que era tãomaravilhosamente linda...
Balançou a cabeça com força, como se de repende não tivesse controle dos próprios pensamentos.
Nunca na vida tivera achado Hermione feia, jamais. Pelo contrário, sempre admirou suas feições meigas, achando que a garota tinha um certo charme no seu jeito sabichão. Mas realmente nunca havia sentido o que estava sentindo naquele momento, como se estivesse anestesiado pela presença da menina.
– O que tem, Harry? – Perguntou Hermione, encarando o amigo enquanto sentava à mesa. – Aconteceu alguma coisa? – Ela se aproximou e acrescentou, baixinho: – É a sua cicatriz? Está incomodando?
Instintivamente, Harry levou a mão até a testa, soltando os livros que segurava de uma vez, produzindo um barulho estrondoso no recinto quando eles acertaram o piso. Corou, atrapalhado, rapidamente catando os livros do chão.
– Não, não há nada!
– Sabemos que é um péssimo mentiroso – ela anelou.
– Não sou – defendeu-se Harry, como se isso fosse algo que o ofendesse. – Só não sei mentir pra você – ele não conseguiu pensar direito, e já estava falando: – Você está bonita hoje, Hermione.
Quando as palavras saíram de sua boca, mal pôde acreditar no que tinha acabado de falar. Desviou os olhos, querendo enterrar-se em um buraco.
Hermione aceitou o elogio com naturalidade, embora suas faces tenham ganhado um tom róseo.
– Obrigada – disse, timidamente. – Acho que os esforços de Gina têm dado resultados, afinal – brincou.
– Você fica bonita sem esforço nenhum.
"Oh. Meu. Mérlin."
Harry simplesmente não conseguia se conter.
"Cale-se agora, Potter".
Não queria falar aquelas coisas.
"Cale a sua maldita e enorme boca!"
Quer dizer, ele pensara aquelas coisas, mas de maneira nenhuma tivera a intenção de compartilhar seus sentimentos com Hermione. E então, simplesmente as palavras escaparam da sua boca, como se ele não tivesse escolha.
– Você é muito gentil, Harry – o rosto dela agora ganhara um tom mais profundo de vermelho.
– Estou apenas retratando a realidade – respondeu, antes que pudesse evitar. Suas bochechas já começavam a enrubescer.
Hermione desviou o olhar. Harry sentia-se afundar na cadeira. Queria se coçar até arrancar aquele sentimento estranho de dentro de si. De onde vinha aquela vontade de elogiar tanto sua amiga? E aquele desejo ardente de sentar-se ao seu lado e discretamente abraçar-lhe?
Tentou concentrar-se em outra coisa, pois começou a crer que estava babando, enquanto contava as sardas no nariz de Hermione. Buscou Ron pelos cantos do Salão, mas não havia sinal dele.
Harry bufou, pensando seriamente em ir até ao Dormitório e matar o melhor amigo com um travesseiro velho.
– Onde está Ron? – Perguntou Hermione, embaraçada. Pelo visto, ela estava tendo exatamente as mesmas ideias que Harry.
– Não sei – bufou o garoto, cruzando os braços. – Deve ter sido capturado por "Mutans" – acrescentou, com ironia.
– Como? – Questionou Hermione, sem entender.
– Nada... Jesus, Hermione, você sempre cheirou assim?
Harry escondeu o rosto nas mãos, mas dessa vez não de vergonha, e sim como se isso o pudesse ajudar a tirar aquelas coisas da cabeça.
– E-estou usando o mesmo perfume, acredito – ela respondeu, devagarinho, envergonhada. Seus olhos estavam arregalados de surpresa. – Não gosta?
Harry riu, nervoso. Passou a mão nos cabelos, e, antes de responder, seus olhos varreram o Salão novamente, à procura de Ron.
– Claro que eu gosto – respondeu, num gemido. Será que a amiga não entendia? Se bem que ele não queria se fazer entender. Não queria que, nem em seus sonhos, Hermione desconfiasse que ele tinha tais inovadores e arrebatadores pensamentos com ela.
Harry notou que Hermione olhava para ele com uma expressão incrédula no rosto, como se estivesse querendo entender o que se passava, mas sem o menor sucesso.
– Posso sentar ai do seu lado? – Ele perguntou, de repente se sentindo tímido e ansioso.
– Claro.
O rosto dela relaxou, e ela ofereceu um sorriso caloroso a Harry. O garoto deu a volta na mesa, e posicionou-se no banco bem perto dela.
Achando melhor não ficar falando besteira, Harry pôs-se a comer, enquanto Hermione lia e ocasionalmente levava colheradas de purê de abóbora à boca.
Por debaixo da mesa, Harry sentiu o joelho de Hermione tocar o seu e, em vez de afastar-se, ele o deixou ali.
Ele sabia que sua amiga tinha acabado de tomar banho, e sabia que ela usava o perfume mais delicioso da face da Terra. Ele percebeu também, que sua pele estava mais corada, já que o inverno passara. Ele sabia que suas unhas estavam pintadas de branco bem claro, e que não usava pulseiras ou relógios.
E ele se odiou por perceber essas coisas, pois eram coisas que um amigo não devia reparar.
N/A:
¹ Nosso Pequeno Castelo, O Teatro Mágico
Obrigada pelos comentários! =)
