Capítulo TRÊS – O CONHECIMENTO QUE ME TORTURA

Música incidental: Closer, Nine Inch Nail


Dois dias se passaram desde que o Kyoto e seu marido haviam conversado com Milo de Escorpião. Era Natal, mais precisamente véspera de Natal. Haveria uma grande festa no décimo terceiro templo.

Quase dez horas da noite e todos estavam por lá. Quer dizer, menos Milo de Escorpião. Camus vestira-se com aprumo. Seu jeito estoico fazia bem mais fácil ele ocultar a dor que sentia ao ver seu primeiro Natal sem Milo. Sim, porque na alma de Camus, desde que se haviam conhecido que eram melhores amigos antes de qualquer coisa. E não, a promessa do escorpiano feita de que voltariam a ser amigos não se concretizara. Ficaram afastados e sem a intimidade amorosa e gostosa, mesmo no terreno da amizade, que tinham antes.

"Feliz Natal, Camus!" Shura aproximou-se do aquariano com Saga ao seu lado. Deu-lhe um abraço apertado e um beijo numa das faces, mesmo que o francês parecesse não sentir nada além de tédio.

"Obrigado. Para vocês também." Camus olhou para Saga com o mesmo jeito sem vida que era sua marca registrada, mas ensaiou um pequeno sorriso.

"Ora, você até sorriu! Acho que o Ano Novo será sensacional!" Saga gargalhou e ficaram por ali, conversando um pouco. Algumas taças de champanhe e logo havia um feliz burburinho entre os cavaleiros presentes.

"Será que Milo não vem?" O tom controlado da voz de Camus não deixando que a emoção que o dominava ao pensar no loiro grego que amava fosse evidente.

"Sinto muito, Camus, não sabemos." Saga respondeu. Aquele idiota escorpiano! Ele andava sumido desde a conversa que haviam tido. Não o vira desde então.

"Bem, talvez seja melhor eu ir para minha casa. Está um tanto tarde." Camus não queria que percebessem seu desapontamento.

"Você acabou de chegar e..." Saga parou de falar ao ver o olhar de Shura. "Quer que o acompanhemos?"

"Não, não é necessário, obrigado, vou apenas me despedir de Atena e do Grande Mestre e eu... Eu... Por Atena, o que é isso?"

Entrando com todo garbo e elegância no salão, ninguém menos que Radamanthys de Wyvern, elegantemente vestido, acompanhado de Valentine de Harpia e... Milo?

Camus quase cuspiu o champanhe que bebia. Não estava entendendo.

"Boa noite. Como já devem ter desconfiado, eu fui convidado. Nós fomos. Pelo Cavaleiro Milo de Escorpião." Uma mesura educada e Wyvern se dirigiu até onde Camus estava e o cumprimentou com outra mesura, ignorando o olhar de espanto de todos ao redor. "Este é Valentine de Harpia, meu marido. "Quer dançar com ele por alguns momentos? Sugiro que aceite, por favor."

O aquariano estremeceu. Fazia muito tempo que não via, que não pensava no Kyoto. "Não sei se seria adequado."

"Será adequado, Camus." Milo vestia uma roupa além de elegante. "Porque eu vou dançar com Radamanthys."

"Você o que?" Shura estava em choque. Radamanthys não era sua pessoa favorita. Ele era uma pessoa? Seu cosmo inflamou um tanto. Olhou para Saga. Todos os demais cavaleiros estavam em alerta.

"Por favor, acalmem-se, todos. Eu sou responsável por todos vocês e lhes digo que a vinda desses dois espectros foi necessária e acertada. Há um problema a ser resolvido e espero que, finalmente, tenhamos um tanto mais de paz." Uma voz que ecoava na alma de todos eles. A Deusa a quem haviam jurado proteger.

"Mas, Atena... Já estamos em paz!" Mu não se conformava. Aqueles espectros... Valentine os prendera no gelo. Radamanthys assassinara tantos.

"Não todos vocês." A deusa ergueu seu cosmo e tudo se acalmou.

"Não estou compreendendo." Camus estava basicamente em choque. Sentiu as mãos de Valentine nas suas e viu o sorriso do ruivo aquariano do inferno. "Por que..."

"Milo escolheu descer ao inferno em que você esteve e eu concordei. Dance comigo. Vai ser mais fácil se apenas não resistir." Harpia não gostara nada da ideia, mas Radamanthys decidira que seria possível, e digno.

"Como assim? O que eles vão..." Camus arrepiou-se inteiro ao enxergar na mão direita de Wyvern aquele artefato. A garra de metal com ponta afiada . Mandrágora! "Não!" Camus perdeu completamente a fleuma, mas o cosmo intoxicante de Valentine e garras de metal escuro ao lado de sua carótida o fizeram parar no lugar. Harpia. Sentiu uma pequena dor em sua nuca, como uma agulha. "Não..."

"Ele vai ao inferno, Camus, ao seu inferno. E meu marido é o senhor desse inferno. Não interfira." Valentine tinha ar neutro, olhar frio e força impressionante. Camus sentiu-se fraco, zonzo.

"O que..." Camus amoleceu nos braços de Harpia, não se sentia bem.

"Mandrágora. Mas numa concentração diferente e com outras misturas. Vai ficar dócil, mas não desacordado, nem excitado, muito menos chapado. Queen é muito bom no que faz. Não resista." Valentine manteve-se calmo e apoiando Camus, sentindo o cosmo de Atena conter os demais cavaleiros.

Camus aprenderia depois que a mandrágora era chamada de maçã do diabo por conta de seus efeitos afrodisíacos extremados. Não, não apenas isso. Ela era afrodisíaca, alucinógena, analgésica e narcótica. Um sedativo tão potente que Camus sequer se lembrara do que havia feito depois.

Narcótica!

"O que está havendo?" Saga arfava. Ele sabia muito bem. Ele, Shura, Máscara da Morte, Afrodite e Camus sabiam muito bem. "Shion, não permita!" Sim, o Grande Mestre também sabia.

"Eu permito." Atena tinha o olhar tranquilo. "Respeitem o que Milo quer. Ele quis saber, quis entender, quis sentir. Ele precisa disso."

As mãos de Wyvern nas costas de Milo. A boca do espectro encostada no pescoço de Milo, um abraço perigoso. A ponta de metal reluzente, o veneno. A mão direita do Kyoto subindo pelo pescoço desprotegido. A picada funda, a agulhada bem no córtex cerebral, o arrepio, a loucura. Milo gemeu alto. Havia dor, mas havia... Algo mais.

"Calma, escorpiano, estou apenas começando. Queen fez este preparado e nós o utilizamos para quebrar a alma de seus amigos. É algo incrível o que uma combinação de Beladona, Meimendro e Mandrágora pode fazer. Alucinações, dormência, embriaguez, amnésia e, a parte que me interessa no momento, desejo sexual exacerbado. Entende, Milo? Ou já não consegue mais entender coisa alguma? Talvez consiga pensar apenas em sexo desenfreado e em mim acariciando seu pênis até você gozar? Talvez meu corpo no seu, rápido, fundo, gostoso. Você quer, não quer?" A voz grossa do Kyoto retumbando na mente drogada do cavaleiro de escorpião.

Milo não conseguia respirar direito. Seu corpo inteiro parecia ter agulhas. Seu coração batia rápido, a voz de Wyvern parecia um feitiço, sentia desejo insuportável, dor no baixo ventre, o membro rijo e desesperado por alívio, suas entranhas vibrando como se fosse explodir. Não resistiu quando o Kyoto o beijou, embora o odiasse, não conseguiu não sentir excitação absurda e incontrolável quando o juiz encostou sua virilidade na dele por cima das roupas, gemeu baixo com a voz grossa dizendo que iria destruir toda e qualquer resistência.

You let me violate you

You let me desecrate you

You let me penetrate you

You let me complicate you

Você me deixa violar você

Você me deixa profanar você

Você me deixa penetrar você

Você me deixa complicar você

"Por Atena!" Aiolia tinha os olhos muito arregalados e engoliu em seco. Sabia bem que Radamanthys tinha lá seus poderes, mas nunca imaginara...

"Isso é aviltante!" Dohko reclamou.

"Não, não é. É educativo." Shion mantinha-se o mais calmo possível apesar do cosmo roxo pegajoso e sensual estar se alastrando pelo ambiente.

O inferno. Milo estava no inferno. Seu corpo inteiro queimava por dentro, gemia sem controle e enroscou-se em Radamanthys como se fosse seu apaixonado amante. Não conseguia fazer nada além de ficar excitado, tremendo e completamente alheio a qualquer senso de realidade.

"Você entende agora, escorpiano dourado? Não havia como resistir. Eu sou um kyoto do inferno, eu faço o que preciso fazer. Eu mando, você obedece. Especialmente quando você está no inferno. Está no inferno, Milo?" Um sorriso frio, um ar de perfeito controle.

"Eu odeio isso tanto quanto você." Valentine murmurou para Camus.

Milo continuava alheio. Perdido, com a mente vendo imagens alucinadas de sexo e prazer. Sentia frio, calor, medo, desejo.

Help me

I broke apart my insides

Help me

I've got no soul to sell

Help me

The only thing that works for me

Help me get away from myself

Me ajude

Eu fragmentei meu interior

Me ajude

Eu não tenho alma para vender

Me ajude

A única coisa que funciona para mim

Ajude-me a fugir de mim mesmo

"Consegue me ouvir? É capaz de finalmente compreender que jamais foi uma escolha para Camus? Nem para mim?" Radamanthys deu um beijo leve no pescoço de Milo e puxou-o para si, roçando nele, esfregando sua própria ereção na do cavaleiro.

"Eu não quero ver isso." Camus gemeu sua agonia.

"Milo não queria ver isso, mas ele precisa ver e você precisa aguentar. Ele vai ter que perdoar o imperdoável." Valentine continuava segurando Camus em seus braços. Sabia que era complicado. Tinha ódio daquele tipo de trabalho. Eram apenas subordinados de Hades, precisavam obedecer.

Radamanthys só iria parar quando Milo se rendesse. Quando ele realmente o quisesse, quando o puxasse para si e implorasse. Iria humilhá-lo, vencê-lo e quebrá-lo. Ele queria saber, não era mesmo?

"Por favor..." Milo rosnou, seu corpo inteiro parecendo em carne viva.

"Por favor? O que? Quer que eu meta até você gritar? É isso?" A voz insidiosa e cheia de tesão do kyoto.

Os demais não podiam ouvir nada daquilo, mas as cenas eram bem... Instrutivas? Milo se esfregava em Radamanthys, agarrava-se a ele, beijava-o como se ele fosse seu amor.

"Eu posso destruir você, eu posso fazer o que eu quiser. O que você quer?" Radamanthys mordiscou o lóbulo da orelha de Milo com ar frio.

"Me fode." Milo nem sequer sabia de onde vinha tanto desespero. Apenas queria, e muito.

"Oh, seria um prazer. Meu e seu, garanto." Radamanthys sorriu. Sadicamente, friamente. Era um trabalho, só isso. "Mas não. Chega, já entendeu." O Kyoto apenas olhou para Valentine e viu seu marido vir até ele com Camus ao seu lado.

I want to fuck you like an animal

I want to feel you from the inside

I want to fuck you like an animal

My whole existence is flawed

You get me closer to god

Eu quero fodê-lo como um animal

Eu quero senti-lo por dentro

Eu quero fodê-lo como um animal

Toda minha existência é falha

Você me faz ficar mais perto de Deus

"Nosso trabalho foi feito. Nada além disso. Explique a ele. Diga, se ele precisar ainda de alguma desculpa, que homens não precisam de motivo algum para sexo. Que é bem fácil. E que... Eu sinto muito." A honra. Nos olhos dourados do Kyoto de Wyvern havia honra. "Cuide dele. Terá pesadelos. Você sabe."

Sim, Camus sabia.

"Vamos embora." Valentine enroscou-se no marido e desapareceram como se nunca estivessem estado por ali.

"Eu quero muito chorar." Saga murmurou ao ver Milo ir ao chão gemendo, tremendo, cego pela alucinação das drogas, desesperado.

"Vamos ajuda-los." Shura falou e logo estava ao lado de Camus que não sabia muito bem o que fazer. Estava sofrendo.

"Aquariano, vamos. Eu carrego Milo, você aguenta firme." O espanhol demonstrava porque Camus havia se apoiado nele no meikai.

"Chamarei alguns servos, se você quiser. Talvez um médico." Saga suspirou, agoniado. "Milo é louco."

"Oh, sim, ele é. Louco de amor por Camus." Máscara da Morte não precisou de convite algum. Apenas estava ao lado deles sem precisar que o chamassem. Afrodite de Peixes também estava ali e ajudou Shura a carregar Milo.

"Vamos para casa. Todos nós. Precisamos deixar o passado para trás. Você sabe, nós sabemos. Agora Milo também sabe." Saga tinha a voz triste. Preferia que nada daquilo tivesse acontecido.

"Ao menos agora ele poderá entender. E perdoar." Afrodite tinha um sorriso triste na face belíssima. "Ele vai finalmente deixar os demônios para trás e aceitar Camus ou eu vou destruí-lo com rosas piranhas!"

And it's hard to dance with a devil on your back

And given half the chance

Would I take any of it back?

It's a fine romance but it's left me so undone

It's always darkest before the dawn

E é difícil dançar com um demônio nas costas

E com metade de uma chance

Eu tomaria alguma coisa de volta?

É um bom romance, mas me deixou tão destruído

É sempre mais escuro antes do amanhecer


Nota: Sinceramente? Perdoem-me a demora! Eu esqueci, eu simplesmente esqueci que não terminei de postar! O último capítulo será postado domingo, ou segunda, se vocês quiserem, claro. Obrigada, de coração, aos reviews inspirados. Vocês me fazem querer escrever mais. Abraços e me perdoem!