Capítulo QUATRO – A DOR QUE ME SALVA
Música do Capítulo: Sta Pliktra Tou Kormiou Sou (Στα πλήκτρα του κορμιού σου)
Três dias de agonia. Milo não conseguia se controlar. Sentia frio e calor. Acordava chorando. Acordava gritando. Via Radamanthys em situações nada inocentes. Tinha ereções incontroláveis e sentia ainda mais humilhação por isso. Era literalmente um inferno! Sentia dor em todas as partes do corpo, não comia, tinha que ser alimentado por intravenosas nos braços cheios de hematomas do tanto que se debatia. Fora amarrado à cama para seu próprio bem e aquilo doía ainda mais em Camus que não o deixara por um segundo sequer.
O templo de escorpião parecia uma enfermaria. O paciente era genioso, poderoso, mas naquele momento parecia uma pequena criança que procurava por seu lugar no mundo.
"Por que está demorando tanto?" Camus estava agoniado. No meikai durara algum tempo, mas não tanto.
"Se você quer saber, nada que venha do meikai faz muito sentido no nosso mundo da superfície. Se lá era de um jeito, aqui pode ser de outro. Não temos como saber. Milo correu um grande risco." Saga murmurou trocando o soro na veia de Milo e vendo-o gemer alto.
"Infelizmente, é isso mesmo. Nosso tempo de agonia no Meikai deveria ser bem mais rápido por aqui, mas pelo visto, não é bem assim. Não entendo e, sinceramente, não quero entender." Afrodite de Peixes viera com um chá de rosas especiais para tentar melhorar a dor do escorpiano.
"Por que está sendo tão gentil?" Camus perguntou com ar perdido, segurando a mão de Milo que não parava de se debater.
"Por que eu sei o que ele está passando. Eu estava lá com vocês. É horrível e todos nós sabemos. Se não fosse por esse carcamano idiota, eu não sei se ainda estaria vivo." O pisciano belíssimo se aproximou de Máscara da Morte e ofereceu-lhe também um pouco de chá. "É apenas calmante, nada mais. Não iria intoxicá-lo. Eu não faria isso. Não mais." Um sorriso apaixonado.
"Eu sei, obrigado." Máscara da Morte puxou o pisciano para si e deu-lhe um beijo rápido, mas intenso. "Espero que todos fiquemos finalmente bem. Não foi fácil para que eu entendesse meu amor por Afrodite. Não foi fácil para nenhum de nós. O inferno nos fez rever nossos valores, conceitos e ideais de felicidade. É uma experiência única que Milo não teve. Só que ele ama um certo ruivo gelado e é dever dos amigos estarem aqui, não é mesmo?" O italiano podia ser difícil de lidar, mas no fundo, bem escondido, tinha uma alma gentil esperando para ser aceita. E fora. Por Afrodite que esquecera o passado de horrores do canceriano.
"Eu sempre pensei que ser belo fosse o principal, ser imaculado e forte. Agora sei que algumas dores nos fazem mais fortes e mais dignos de nossas armaduras. Algumas cicatrizes são necessárias. E nos fazem ainda mais belos. A minha ideia de que apenas um poder supremo poderia manter a paz e ordem no mundo, mesmo vindo do mal, não poderia estar mais cheia de perigos. O inferno me ensinou que o mal deve ser combatido e que manter a paz não pode ser a qualquer custo. Ao custo de nossa dignidade e honra. Ao custo do que seja o certo." Estava preocupado com Milo. Apesar do temperamento difícil, sabia que aqueles ali eram sua família. A única família que teria.
"Acho que todos precisamos de um psiquiatra." Máscara da Morte sorriu. "Sabem, eu posso adorar matanças, lutas e já ter acreditado que alguns sacrifícios são inevitáveis, mas realmente espero que Milo não seja esse sacrifício. Gosto do rabudo teimoso." Riu do jeito sem graça dele e todos ficaram olhando para Milo, que se debatia ainda mais gritando que a dor era insuportável.
Uma força foi sentida por todos. Shion de Áries apareceu no quarto de Milo como se jamais tivesse saído de lá. Junto a ele, Dohko de Libra e um preocupado Kanon de Dragão Marinho.
"Irmão?" Saga se levantou da cadeira onde estava. Estavam todos em vigília por Milo. O escorpião era um homem leal, forte e que apenas cometera o erro de julgar Camus sem conhecer os fatos.
"Se for durar uma semana todo esse inferno tememos que a mente dele sofra danos irreversíveis. Temos que tirá-lo desse transe insuportável! Eu também sei, acredite. Eu sinto o que você sente, ou sentiu, Saga. Quando minha alma se juntou à sua no Muro das Lamentações eu soube." O geminiano mais novo se aproximou de Milo e tirou um pequeno vidro de uma sacola que tinha atada ao peito forte. "Poseidon me disse que, em seus embates com Hades, aprendeu algumas coisas. Eu quero que Milo tome isso. Podem me ajudar? Pode ser a única maneira dele melhorar."
"Poseidon?" Camus estava nitidamente preocupado. Seu amor jazia ali, sofrendo, fazia dias intermináveis.
"Eu ainda sou um general marina, afinal." Kanon sorriu e segurou, com as duas mãos, o rosto de Milo. "Ei, escorpiano, olhe para mim, consegue me ver? Precisa tomar o que vou lhe dar, entendeu? Volte do inferno, Milo. Volte por todos nós." Kanon sentiu emoção intensa vindo em ondas.
Milo gritou. Resistiu e se livrou de Kanon com uma rajada de cosmo doente. Ele não estava bem, não parecia normal, nem consciente.
"C-Camus..." Milo murmurou enquanto fisgadas de câimbras horríveis lhe percorriam o corpo.
"Chega." Shion se aproximou e não perguntou nada. "Satã Imperial! Ouça, obedeça, acalme-se." Odiava aquilo. Vibrar seu cosmo para dominar a mente de Milo. Era preciso. Eles fariam o que fosse preciso.
"Shion!" Dohko alarmou-se. Para o ariano dourado fazer aquilo, a coisa era séria.
"Ele é só um garoto, Dohko, ele é nosso menino. Segurem-no e façam tudo que Kanon disser." Shion tinha os olhos brilhantes e a força dos que haviam visto muito do mundo.
"Eu faço." Camus ergueu-se. Mais magro, tenso, mas seus olhos continham luz. Luz do amor que sentia. Ouviu as instruções de Kanon e acercou-se da cama onde seu adorado escorpiano estava. Não se importava mais. Que vissem sua alma, que seu controle fosse para muito longe.
"Nunca senti o cosmo de Camus assim." Shura comentou.
"Ele está sofrendo, sofrendo de amor." Saga murmurou enquanto entrelaçava os dedos aos de Shura. "Se ele precisar de nós, estaremos aqui."
"Milo, amor, apenas olhe para mim. Apenas confie em mim." Camus aproximou-se e pegou o pequeno vidro das mãos de Kanon. "Se todas as estrelas de todas as galáxias brilhassem intensamente ao mesmo tempo, nem assim superariam o brilho do amor que eu sinto por você. Volte para mim. Esse amor me consome, me dá forças e me enfraquece. Eu não quero viver sem você. Volte para mim." Despejou o líquido viscoso nos lábios ressecados e viu o olhar cheio de dor de Milo. "Eu te amo tanto..."
Φιλιά και χάδια μικρά σημάδια
Kisses and caresses, small marks
Beijos e carícias, pequenas marcas
Και δυο καρδιές που λιώνουν απ' τον πυρετό
And two hearts that melt of the fever
E dois corações que derretem de febre
Σε κάθε χτύπο ανακαλύπτω
In every beat I discover
A cada batida eu descubro
Καινούριους τρόπους να σου πω πως σ' αγαπώ
New ways to tell you that I love you
Novas maneiras de dizer que eu amo você
Milo parecia enfeitiçado. Olhava para Camus como se fosse a única coisa que conseguia enxergar. Engoliu o líquido âmbar e suspirou profundamente. "C-Camus..." Murmurou.
"Eu estou aqui. Jamais estive longe. Eu amo tanto... Eu te amo tanto." Camus chorou. Suas lágrimas pingavam enquanto não resistia e abraçava Milo sentindo-o reagir tentando se soltar. "Eu não vou deixar você ir. Eu não vou deixar..."
"Acho que já podemos ir." Kanon sorriu. Sentia o cosmo de Milo se acalmar. "Eles ficarão bem. Poseidon me disse que o efeito é rápido."
"Se você diz." Saga olhou para Camus. Ele parecia não estar ali. Estava perdido na imensidão azul dos olhos de Milo. Sabia como era. "Vamos para casa, Shura. Nosso trabalho aqui acabou."
"Certo." Shura sorriu. Podia sentir o cosmo de Camus vibrando, procurando por Milo, buscando, salvando-o.
"Será que agora se entendem?" Máscara da Morte pegou a mão de Afrodite na sua e sorriu de leve.
"Ai deles se não se acertarem, finalmente." Afrodite puxou seu namorado para sua casa. Precisavam descansar, todos eles.
"Boa sorte. O satã imperial irá se desfazer em breve. A ordem foi apenas para que ele ouvisse, obedecesse e se acalmasse. Nada demais. Creio que tudo ficará bem." Shion saiu de lá seguido por Dohko.
"Estou aqui..." Camus repetiu, abraçando o corpo agora magro e muito pálido de Milo.
Θα μαζέψω σύννεφα, κρεβάτι να σου στρώσω
I will gather clouds to make a bed for you
Irei reunir nuvens para fazer uma cama para você
Κάτω απ' την πανσέληνο, δίπλα σου να ξαπλώσω
Under the full moon I will lay down next to you
Debaixo da lua cheia eu irei me deitar ao seu lado
Θα μαζέψω λόγια που τα λένε μόνο νύχτα
I will gather words that speak only at night
Vou reunir palavras que falam apenas à noite
Σήμερα καρδιά μου δε θα πούμε καληνύχτα
Today, my love, we will not say goodnight
Hoje, meu amor, nós não diremos boa noite
Apenas eles dois. Não havia mais ninguém no quarto. Camus embalava o corpo agora frágil de Milo e o segurava para que não se machucasse. Não se importava mais em conter as lágrimas. Esperou. Por quase uma hora ele esperou, ouvindo os gemidos, os gritos, sentindo o corpo do escorpiano se retesar contra o seu.
Então tudo parou. Como se estivesse muito cansado, Milo apenas relaxou e ficou ali, encostado ao corpo de Camus, respirando calmamente.
"Meu amor." Camus murmurou e deitou o homem que amava na imensa cama que haviam repartido tantas vezes. Deitou-se ao lado dele e cobriu a ambos. Iria esperar. Talvez não fosse fácil, talvez nunca mais tivesse Milo como era antes, mas o amaria mesmo assim. Para sempre.
Era uma bela manhã de Ano Novo. O primeiro dia do ano acordara com alguma neve, mas não tão frio. Havia um sol brando infiltrando-se pelas persianas do quarto onde duas almas repousavam uma ao lado da outra.
Um suspiro profundo. Olhos se movendo embaixo das pálpebras pesadas. Um arfar. Milo de Escorpião acordava.
"Camus..." Murmurou ao sentir os braços ao seu redor. Observou os cabelos revoltos nos travesseiros. O ar tranquilo no rosto do homem que sempre estivera ao seu lado.
"Eu voltei." Sussurrou e passou dedos leves pelo rosto adormecido. Agora entendia. Saiu da cama sentindo o corpo inteiro reclamar. Quanto tempo? Não importava. Tinha alguma lembrança do que acontecera. Iria cuidar de tudo. Camus merecia aquilo.
Milo tomou banho, barbeou-se, arrumou os cabelos e saiu da suíte enrolado numa toalha simples e felpuda. Camus ainda dormia. Sorriu. Jogou a toalha longe e deitou ao lado do ruivo. Colou seu corpo ao dele e o beijou na boca, devagar. "Me perdoa, diga apenas que me ama..."
Camus acordou num susto tremendo. A boca de Milo, o gosto dele. Não resistiu. Abraçou-o e beijou-o, deixando pra lá qualquer orgulho ou hesitação. "Amo você, sempre amarei."
"Nada mais importa. Não mais." Calor. Estavam tão perdidos um no outro que nada mais importava. Havia suspiros, beijos. Havia amor.
Camus sentiu o corpo de Milo esquentar e não se negou. Deixou seu escorpiano se enfronhar em sua alma. Gemeu de dor e prazer com o sexo profundo e intenso que quisera jamais fosse esquecido. Sentiu prazer gemendo que o amava enquanto Milo repetia sem parar que sentia muito por toda aquela dor.
Camus não sentia nenhuma dor, não mais.
Θα σου φτιάξω ένα χειμωνιάτικο τραγούδι
I will make a winter song for you
Eu farei uma música de inverno para você
Απαλό και όμορφο σαν άγριο λουλούδι
Soft and beautiful like a wild flower
Leve e bonita como uma flor selvagem
Θα το ντύσω νότες απ' τους αναστεναγμούς σου
I will soak the notes from your sighs
Irei absorver todas as notas de seus suspiros
Στα πλήκτρα του κορμιού σου
On the keys of your body
Nas chaves do seu corpo
Seria um ano novo perfeito. A festa fora pequena e sem grandes preparativos ou eventos, mas no dedo anular de Camus havia uma aliança. Simples. Milo não tivera tempo para procurar por algo mais elaborado. Era apenas um círculo de prata. Era apenas...
Era tudo. Era o amor que os consumia. Milo entendera. Não mais julgaria Camus. Assim como Radamanthys se casara com Valentine, Milo queria ser o único amor da vida do aquariano ruivo.
Por amor.
Aquele amor que os consumia.
FIM?
Nota: Muito obrigada, de coração, por todos os reviews lindos! Vocês realmente são incríveis quando comentam. Foi uma boa história, cheia de fantasia, mágica e um pouco de insanidade, mas a vida é pra sonhar, não é mesmo? Cuidem-se e até a próxima.
