Capítulo 4 -
Tomou um gole do café quente em sua caneca encostando-se ao batente da janela. Seus olhos acompanhavam a forte chuva que caía lá fora. E não imaginava que isso fosse obrigá-la a ficar a manhã e a tarde toda ali. Estava pronta para ir pra casa depois de trocar os curativos do ferimento de Draco Malfoy, porque não queria estar mais ali quando ele acordasse. No entanto, viu-se obrigada a mandar um patrono para a sede da Ordem e o Ministério, avisando que estava bem e que voltaria no fim da noite. Como não tinha visto ninguém depois que encontrou Draco, porque logo aparatara, avisar seria extremamente necessário.
Suspirou ao sentir o gosto do café, misturando-se ao som da chuva e ao momento reflexivo que vivia. E isso fez com que ela voltasse os olhos para o homem, adormecido na cama logo adiante. Ainda não havia conseguido encontrar um motivo que explicava tê-lo ajudado. Provavelmente o fizera porque era sim uma boa pessoa, que não suportava ver ninguém sofrendo e tão pouco à beira da morte. Mas uma parte de si dizia que Draco merecia tudo isso. Por tudo de mal que ele já fizera e ainda faria. Não somente para si ou sua família, mas para todas as pessoas, bruxas ou trouxas, que ele torturara ou matara durante a guerra.
Voltou seu olhar para a chuva que caía lá fora quando o viu despertar. Não queria que ele a pegasse o observando e pensasse algo indevido. Não podia negar que por algumas vezes se pegara o fitando com certo interesse. Draco, por mais que lhe causasse ódio, tornara-se um homem bonito e atraente. Isso era visível não apenas por seu porte físico, mas pelo rosto sério e pelos lábios finos também. Alguma coisa nele lhe chamava a atenção. E ela implorava aos céus que também nunca descobrisse o que era.
- Boa tarde, docinho. - Gina disse de modo sarcástico ao colocar sua caneca sobre a velha mesa ao lado. A Casa dos Gritos havia sido o lugar mais seguro para esconder Draco, porque sabia que os alunos de Hogwarts não se aventurariam por ali. Ou tinham medo ou não sabiam como entrar. E tinha ainda mais certeza de que nenhum funcionário da escola, andava pelos arredores, pelo aspecto abandonado que a casa tinha. Sua fama de mais assombrada da Grã-Bretanha trataria de ocultar seu hóspede mais ilustre e a casa não ofereceria nenhum interesse peculiar. Apesar de que o comensal não ficaria tanto tempo ali, já que o ferimento em seu abdômen começava a cicatrizar. Aproximou-se com uma bandeja em mãos. Eram algumas regalias que conseguira ao visitar Hogsmeade. E não fora nem um pouco delicada ao colocá-la no colo do loiro. - Bom apetite.
- Devo mandar você experimentar primeiro? Não quero correr o risco de morrer envenenado... - Draco comentou fazendo-a revirar os olhos. Mesmo depois de tudo que fazia por ele, o ingrato ainda tinha coragem de lhe dizer algo assim. Como se fosse a mesma assassina que ele era. E por mais que quisesse vê-lo morto, não seria tão baixa e cruel, queria derrotá-lo de um jeito justo e dentro das regras. O loiro percebera sua irritação e rira, permanecendo com um sorriso torto nos lábios ao se erguer um pouco na cama. Levou a mão até os curativos e gemera baixo. - Bem original me trazer para Casa dos Gritos, era aqui que você e o Potter costumavam namorar? É bem a cara de vocês dois... Apesar de que eu tivesse certeza de que seu irmão Ronald, fosse morar aqui com a sangue-ruim.
- Ah, claro. Transamos inúmeras vezes exatamente nessa cama em que você está deitado. - Gina disse com um sorriso divertido ao voltar-se para o Draco, vendo-o olhar para o colchão surrado em que estava e esboçar uma careta, mexendo-se de modo desconfortável na cama. Como se aquilo fosse amenizar seu nojo. A ruiva conteve uma risada ao encostar-se à mesa, reavendo sua caneca e tomando outro gole de café. - Mas não precisa fazer essa careta. A casa está assim porque há anos, ninguém a frequenta. Harry é bem romântico, ele deixava tudo limpo.
- Claro, ele tem uma alma de faxineiro... Por isso se dá bem com elfos domésticos. Inclusive, fiquei sabendo que eles são seus mais novos aliados. Não sei se devo rir ou lamentar por vocês. - o comensal desdenhou, mudando o rumo do assunto. De repente não gostara mais de fazer comentários sobre Gina e Harry, apesar de que sempre tivera um prazer muito grande de importuná-los. Talvez devesse ser o fato de que estava preso numa cama, por enquanto aos cuidados da ruiva, mas essa dependência não poderia durar muito, tinha que se livrar desse sentimento o mais depressa que pudesse, então voltaria a ser o mesmo Draco Malfoy de antes. - Qual a próxima surpresa... Diabretes da Cornualha, e os fantasmas de Hogwarts?
- Fala sério, Malfoy. Acha mesmo que vou te contar alguma coisa? – ela indagou ao cruzar os braços e olhá-lo de modo sério. Do mesmo jeito que ele não lhe contava os planos de Voldemort e sua corja, Gina também nunca revelaria nenhum detalhe do lado pelo qual lutava. O mínimo que falasse poderia tornar-se um detalhe gigantesco e trazer consequências. Porque era evidente que a intenção de Draco era essa. Cobri-la de perguntas e de sarcasmo até deixá-la irritada ao ponto de lhe contar tudo. Meneou a cabeça ao voltar seu olhar para a janela. - Vê se come de boca fechada, está bem?
Draco bufou e ignorou o comando dela, apenas ficara em silêncio porque realmente estava com fome. Somente agora que vira um prato de comida, percebera que seu estômago reclamava por alguma coisa. Não era nada do que estava acostumado. A refeição era simples, mas parecia estar deliciosa e dada a sua condição não podia desdenhar daquilo. Se quisesse recuperar suas forças deveria se focar nisso, e não comparar o que lhe era servido antes. Bebericou o café quente, e parecera que ele lhe aquecera, além da visão de Gina perto da janela. Embora já tivesse se repreendido muitas vezes, era difícil não se pegar admirando-a. E tinha que admitir que a concentração dela em não fazer o mesmo consigo, apenas o deixava mais interessado. Seu riso distraído chamara a atenção dela, que erguera a sobrancelha.
- É proibido rir também? - indagou ao notá-la lhe inquirindo em silêncio. - Juro que não sabia dessa nova regra... - emendou, partindo um pedaço de pão fresco e enfia-lo na boca.
- Você é maluco, Malfoy. E isso não é um elogio, vai por mim. - comentou ao conter um pequeno sorriso, mas logo se repreendera por dentro ao dar-se conta do caminho em que as coisas iam. Não deveria achar graça nenhuma em tudo que ele dizia. Muito pelo contrário. O certo era manter sua repulsa para ficar o mais longe possível dele. Aproximou-se novamente do loiro, o olhando de modo curioso. E como se os olhos cinzentos dele a atraíssem, Gina sentou-se na beirada da cama. - Quem feriu você, Malfoy? - indagou, vendo-o abandonar o pão que levaria à boca. Seus olhos ficaram tão escuros de raiva, que Gina teve que conter um arquejo pelo que via. - Foi o Harry, não foi?
- Sim, foi ele... - o comensal murmurou se enchendo de fúria novamente. Harry não era tão ou mais esperto que ele, mas guiado por algo irracional, lhe lançara aquele feitiço, e ele em seu momento de contemplação não havia percebido. Fora rápido demais e só notara seu fracasso quando sentira a dor forte e o sangue molhar sua roupa. Respirou fundo, perdendo um pouco da fome. - Por isso lhe disse que ele estava nos escombros do casarão velho, nos encontramos lá e eu espero mesmo que aquela sangue-ruim esteja morta. Assim o Potter vai pagar bem mais caro do que eu poderia querer.
- Hei, olha lá como fala. - Gina o repreendeu ao tocá-lo no rosto novamente. Trazendo o olhar dele de encontro ao seu para que percebesse o quão séria estava ao dizer aquilo. Por mais que Hermione e ela não fossem amigas ou que ela não fora nada simpática na última vez que estiveram juntas, gostava dela. Admirava a inteligência e a coragem que ela tinha para enfrentar cada batalha ao lado de Harry e Rony. - Aquela que você diz ser "sangue-ruim" vai ser minha cunhada. E apesar de você ter matado várias pessoas, não diga isso. Desejar a morte de alguém traz consequências em dobro pra você. - retirou sua mão do rosto de Draco quando o viu a fitar de cenho franzido. - Não que eu me importe com isso...
- Você parecia não se importar antes também, mas ainda assim me ajudou. Trouxe-me pra cá, limpou meu ferimento, está me alimentando. E mesmo que eu não entenda o porquê, não vou fazer perguntas. O que está feito, está feito. - Draco falou um tanto sério, ao segurar o pulso de Gina, para que desta vez ela o fitasse. Se não podia conseguir que ela o ouvisse de forma eficaz, tinha que usar de alguma artimanha. Ela respirou fundo, tentando se soltar e novamente o sorriso torto dele lhe atraíra. - Mas duvido muito que se por um milagre alguma viga não tiver esmagado a cabeça da "Granger", ela vá ser sua cunhada.
- Por que você tem que ser tão idiota, hein? - retrucou irritada ao fazer um movimento ainda mais brusco, obrigando Draco a soltá-la. Não sabia o porquê de agir assim, mas era a única forma que tinha de chamar a atenção de alguém. Humilhar, ofender ou pregar peças sempre foi o que fizera para que o notassem. E não tinha sido apenas o fato de segurar o pulso de Gina que a deixou furiosa, mas também o que ele dissera sobre Hermione. Ele sempre ouvira os pais e Voldemort desprezarem pessoas como Hermione Granger. Por isso não poupava suas alfinetadas aos sangues-ruins. Colocou a bandeja de lado quando viu Gina se levantar e caminhar até o outro lado do quarto. Pegando sua capa e vestindo-a. - Bastava ter dito "obrigado", Malfoy. Mas é esperar muito de um homem amargo, de coração frio e feito de pedra como você. Nunca fez nada de bom para alguém. E quando fazem por você age como um trasgo montanhês.
- Obrigado, Weasley. - ele disse firmemente, depois de um tempo em silêncio ouvindo-a praguejar enquanto juntava suas coisas. Não fora uma boa ideia ter baixado a guarda, mas achou que devia isso a ela. Gina tinha razão em dizer que nunca fizera nada de bom a ninguém, mas tudo que aprendera ao longo de sua vida fora exatamente isso, ser forte a sua maneira, e jamais demonstrar ter sentimentos tão comuns, como os que levaram a ruiva a cuidar dele. Surpresa, ela o fitou. Tinha que dar o braço a torcer que a cada minuto Draco Malfoy lhe surpreendia. Ora de uma maneira ruim, ora de uma maneira não boa, mas diferente. Apertou a bolsa contra o peito e franziu o cenho. - Estou sendo grato a você, mas não espere que eu trate bem quem me fez estar aqui nessa cama, e muito menos irei deixar de lado os meus princípios. Não quero manchar minha linhagem com essa gente de sangue-ruim.
- Se disser isso de novo, lavo sua boca com saliva de dragão. - Gina o ameaçou ao voltar-se para Draco e apontar o dedo em riste. Ouvir aqueles "elogios" irritavam-na imensamente. Assim como a Harry e o irmão. O sorriso debochado que ele esboçara em seguida a deixara ainda mais furiosa. Como se suas palavras tivessem entrado por um ouvido e saído pelo outro. Aproximou-se do loiro novamente, erguendo as sobrancelhas ao olhá-lo nos olhos. - Espero que aproveite seu tempo de recuperação sozinho. E descubra um jeito de sair daqui. Na próxima vez que nos encontrarmos, vou acabar com você Malfoy. Pode ter certeza disso.
- Ainda estarei aqui quando você voltar, Weasley. Porque eu sei que você vai voltar... - Draco falou pegando a bandeja novamente, voltando a comer. Ainda sentia fome e seu estômago reclamava mais e mais. Gina terminou de arrumar tudo, certificando-se de que não esquecera nada, nem estava levando algo que pudesse levantar suspeitas e caminhou rumo à porta sem olhar para trás. O comensal sorrira, e encostara-se melhor na cabeceira da cama. Sabia mesmo que ela iria voltar e se estivesse de bom humor, trataria de controlar sua língua.
Gina ainda praguejava quando aparatou diante da casa que dividia com os amigos. E pouco se importava com a forte chuva que caía enquanto seguia até a varanda. O importante é que estava o mais longe possível de Draco Malfoy e não tinha mais que suportar suas ironias ou o ego que a deixavam imensamente sufocada.
Ao seguir até a varanda, ainda se perguntava o motivo de tê-lo ajudado. Deveria ter deixado Draco naquela loja, em meio as lutas que aconteciam do lado de fora. Apesar de que fosse se arrepender amargamente também por largá-lo ali para morrer. E esperava mesmo que o destino lhe desse uma grande recompensa por ter sido tão generosa. Porque não seria qualquer bruxo que teria piedade do comensal no momento em que mostrava tanta fragilidade. Ela mesma deveria tê-lo prendido e o levado direto para o Ministério.
Retirou a capa molhada assim que entrou em casa, sendo imediatamente reconhecida pelos feitiços de proteção que cobriam também o seu interior. Alisou os cabelos molhados, soltando um muxoxo ao acender as luzes. E quando percorreu os olhos pela sala, franziu o cenho ao ver Harry adormecido no sofá, com um livro aberto sobre seu peito. E julgando pelo fato de não ter notado sua chegada, parecia estar exausto. Esboçou um pequeno sorriso ao se aproximar no sofá, o cutucando.
- Ei, eleito. - riu quando o viu abrir os olhos lentamente e esfregá-los, não esperando ser acordado daquele modo tão sutil. Ler parecera ser o melhor para distrair seus pensamentos. Não de toda a guerra que vinha acontecendo ou com a batalha que enfrentaram naquela última noite, mas pelo beijo que trocara com Hermione também. - Acho que aqui não é seu quarto.
- Acabei pegando no sono. Estava tentando ler para distrair a cabeça... Mas acho que a melhor terapia foi dormir. - Harry respondeu, sentando-se no sofá, depois de fechar o livro e coloca-lo na mesinha de centro. Passou as mãos nos cabelos, desgrenhando-os mais, ao passo que Gina sorrira. Definitivamente estar em casa era melhor do que estar ao lado de Draco. Ali se sentia bem melhor embora algo mais a atraísse de volta ao comensal. - Por onde andou esse tempo todo? Ninguém apareceu ainda... Nem Ron, nem Hermione, mas Luna mandou uma coruja mais cedo. Ainda está cuidando dos feridos daquele povoado.
- Precisava ficar um pouco sozinha depois dessa última batalha. - Gina o respondeu, ao sentar-se do seu lado. Embora não tivesse ficado sozinha não podia simplesmente contar a verdade. A companhia de Draco só tinha sido suportável enquanto ele estava desacordado. Porque assim que despertou, esta se tornara um martírio. Suspirou ao abraçar a si mesma em uma tentativa de se aquecer. - Essa guerra está ficando cada vez mais assustadora, Harry. Quando penso que não tem como ver coisas piores do que já vi até hoje, chega outra batalha e me prova o contrário.
- Tente ter Você-Sabe-Quem dentro da sua cabeça na maioria das vezes, com certeza é a pior coisa de todas. - o moreno comentou suspirando fundo. Já não era segredo para ninguém que a pior tortura para ele, era ter Voldemort sempre a lhe atormentar, sendo acordado ou dormindo. A qualquer hora, lá estava ele, sua imagem, sua voz. Não sabia como ainda não havia enlouquecido. E com toda a certeza sua família e amigos, eram seu porto seguro, tê-los por perto lhe ajudava bastante a passar por tudo isso. E fora impossível não se lembrar de Hermione. - Embora eu tenha que concordar com você, sempre veremos algo mais chocante a cada dia, mas tenho certeza de que vamos conseguir parar essas maldades todas... Você-Sabe-Quem não é invencível.
- Com certeza não. E tenho certeza de que vai vencê-lo. - ela disse com um pequeno sorriso ao pegar a manta sobre o encosto do sofá e jogá-la sobre seus ombros. Com certeza ela a esquentaria melhor do que suas mãos geladas por causa da chuva que tomou ao sair da Casa dos Gritos. Tivera que andar um pedaço para poder aparatar. E quando conseguira, ainda se molhou ao chegar em casa. Aproximou-se do moreno, repousando a cabeça em seu ombro, fechando os olhos. E mesmo que sempre sentisse que algo em Harry lhe faltava, gostava de tê-lo por perto. - Lembro-me de quando essa guerra começou. A gente falava que assim que saíssemos de Hogwarts iríamos nos casar. - comentou, rindo junto com ele.
- Quando se é jovem demais fazer planos parece bem divertido, e ao mesmo tempo muito sério. Eu realmente pensava que iria me casar com você, mas as coisas não foram desse jeito, e fico feliz porque ainda somos amigos. Embora não estejamos mais juntos, você é importante para mim Gina. É uma amiga pra todas as horas e sei que posso contar com você, certo? - Harry indagou esboçando um meio sorriso, enquanto a ruiva se envaidecia com aquele comentário. Também sentia o mesmo por ele, embora antes tivesse sido muito apaixonada. A verdade era que ambos cresceram e puderam superar o que sentiam sem problema nenhum, e agora sabia que ele amaria outra.
- Você sabe que sim. Esse seu repertório piegas sobre amizade nunca muda, não é? - a ruiva riu ao erguer o olhar para o ex-namorado. As palavras de Harry faziam sentido. Ele também era muito importante para ela. Descobriram juntos muitas coisas, se apaixonaram e foram realmente felizes, ao ponto de isso amenizar tudo que o início da guerra causara. Embora quando deixaram Hogwarts o relacionamento se perdera entre muito tumulto, e o fim fora inevitável. Gina suspirou quando ele a fitou de modo intenso. - Eu sei que as coisas nunca vão voltar a ser como eram antes. Tomamos caminhos diferentes depois que tudo acabou, mas... Eu o fiz feliz, Harry? Do mesmo modo que você me fez?
- É, você me fez feliz. - ele respondeu, rindo assim como ela. Naquela época coisas simples o deixavam feliz, assim como fora o namoro dos dois. No entanto, precisava agora de algo mais intenso, um amor duradouro, e sabia no fundo que teria isso com Hermione. Mas já começava a desacreditar dessa certeza, pois depois do beijo que trocaram a morena passara a evitá-lo de algumas formas. Ela poderia estar confusa e tudo mais, entretanto ele merecia uma chance.
- Não dá pra ser mais direto? - replicou de modo irônico pela resposta breve dele. Esperava um discurso poético como sempre fizera, mas aquela resposta fora o suficiente para fazê-la esboçar um sorriso, enquanto o ex-namorado ria. Fitou os olhos verdes dele, suspirando fundo. Sentia-se bem ao lado de Harry, era verdade. Mas era somente isso. E agora que fazia tais comparações, era inevitável que os momentos na presença de Draco Malfoy não passassem por sua cabeça. Mesmo que se repreendesse imensamente por isso, sentia-se atraída por ele. Gostava da sensação de perigo e de adrenalina que ele despertava dentro de si. No entanto, isso era inviável. Ia contra seus preceitos, contra as pessoas que lutavam ao seu lado na guerra e tudo sobre sua família. Por isso, apegou-se nas lembranças do que vivera com Harry para afastar tais pensamentos. Levou uma mão ao rosto masculino, retirando os cabelos escuros dele que cobriam a cicatriz e sorrindo. - A garota que você ama é de muita sorte, sabia?
- Seja direta também, como sabe que eu estou amando alguém? - indagou e a fitou com um sorriso maroto nos lábios. Será que era tão óbvio que estava apaixonado por Hermione que não podia mais disfarçar? Não duvidava muito, ainda mais depois de tê-la em seus braços, de experimentar os seus lábios tão macios. Era quase impossível tirá-la de seus pensamentos. - Você nunca foi boa em reconhecer o que eu estava sentindo. Claro que às vezes acertava, mas precisava de uma pequena ajuda. Então como percebeu?
- Porque você pode ter sido apaixonado por mim, mas nunca me amou realmente. - Gina disse baixo enquanto deslizava os dedos por entre os cabelos escuros de Harry. Por mais que também tivesse sido apaixonada, ela sempre tivera os olhos abertos para perceber isso. Não admitira antes porque não queria perdê-lo. E o fato de serem amigos agora, era suficiente para que finalmente revelasse isso. Como se as lembranças do passado e o fato de querer ter certeza de que Harry amava outra a atormentassem, então os olhos de Gina caíram sobre os lábios do moreno. E antes que ele pudesse prever, estavam próximos o suficiente para sentirem a respiração um do outro. - E eu espero que ela perceba isso. Você merece mais do que qualquer um ser feliz, Harry. - murmurou antes de surpreendê-lo ao cobrir a boca dele com a sua, em um beijo lento e carinhoso.
A princípio, Harry se surpreendera com aquele gesto ousado, mas não se afastara. Muito pelo contrário, retribuíra-o com ternura. Não havia motivo concreto para isso, mas provavam a si mesmos que já não sentiam nada um pelo outro, além de uma amizade muito grande, por isso se permitiam esse derradeiro gesto. O beijo que trocava com Gina nem chegava perto daquele que dera em Hermione na noite passada. Não sentia aquela paixão intensa, nem vontade nenhuma de estreitá-la em seus braços e lhe tocar de qualquer outra forma. Não a amava. Era apenas um sentimento muito fraternal, mas que fora o bastante para que a morena parada à porta, percebesse que a chance que pensara estar ganhando, estivesse totalmente acabada antes mesmo de existir.
Enquanto ela passara boa parte do dia sonhando com Harry, Gina tomara uma atitude real e novamente o tinha para si. E ela entendera duramente que seu amor nunca poderia acontecer, que era ela quem estava sobrando...
Seu coração se comprimiu dentro do peito e as lágrimas banharam seu rosto, confundindo-se com a água da chuva que o molhava. Também fora pega pela tempestade, mas preferira ir caminhando ao invés de se esconder e aparatar. Precisava pensar, colocar sua vida em ordem, mas a decisão que tomara antes não tinha mais sentido. Se Harry havia lhe beijado daquele jeito, cheio de paixão e carinho, fora tudo fruto do momento difícil que passavam e das suas próprias fantasias. Ele não a amava, nem sentia nada relevante, só estava brincando consigo, aliviando seu próprio tormento. Seu lugar era ao lado de Rony e nada no mundo mudaria seu destino, então trataria de ser feliz com o que a vida estava lhe dando. Desnorteada, Hermione dera meia volta e saíra novamente pela porta, tomando o cuidado para que esta não batesse e chamasse atenção para si. Não queria mais ficar ali presenciando aquilo, tudo que queria era estar sozinha.
- Tudo bem. Isso não foi uma boa ideia. - Gina disse ao findar o beijo e afastar seus lábios dos de Harry. Quando estavam juntos, sentia uma paixão imensa e um grande desejo que a fazia suspirar durante o carinho. Mas agora, não tinha sentido nada. Nada além do fato de que um estava completamente distante do outro e de que a amizade era a melhor solução. Até porque, durante todo o beijo, que não durou mais do que segundos, sua mente insistia em lhe pregar peças ao imaginar-se beijando Draco Malfoy. E isso a deixara ainda mais assustada. Fazendo com que acabasse com aquele carinho e se levantasse. - Me desculpe, Harry. Eu não... Não sei o que me deu. Acho que essa guerra tem me deixado um pouco carente. - tentou soar divertida ao voltar-se para o moreno. - Mas prometo que não vai se repetir. Até porque você ama outra e não quero atrapalhar isso.
- Você tem razão, não foi uma boa ideia, mas não precisa se desculpar Gina. Eu sei como se sente... - o auror comentou, rindo sem jeito. Apesar de ser tão seguro, ainda se pegava tímido em certos momentos. Mas não podia negar que realmente esse beijo colocara um ponto final no que se referia ao antigo relacionamento deles, porque mais do que nunca era Hermione que estava em seus pensamentos e em seu coração. E era por ela que lutaria até o fim. A ruiva sorrira entendendo muito bem o que ele queria dizer, e não precisaria ser boa o bastante para ler nos olhos dele que seus sentimentos pela garota misteriosa eram bem fortes. - É melhor se aquecer ou vai pegar um resfriado, minha mãe sempre me repreende por isso, e tenho certeza de que a Sra. Weasley deve estar pensando a mesma coisa. Ela tem um sexto sentido bem aguçado...
- Eu diria que é mais pra um sétimo sentido. Chega a ser assustador as vezes. - Gina comentou, rindo assim como Harry. Aquele momento de distração era o que ambos precisaram, depois do erro que cometeram segundos atrás. Mas que tinha sido o suficiente para lhes provar que tudo agora fazia parte de um bom passado. - Boa noite, Harry. - despediu-se dele com um pequeno sorriso e um breve aceno ao seguir até a escada. Precisava se aquecer e, principalmente, precisava tirar Draco Malfoy de sua cabeça e parar com aquelas comparações que a consumiam. O comensal era inalcançável e completamente errado para ela.
Hermione ainda demorara um bom tempo até voltar para casa. Esperara até que seus ânimos estivessem controlados e adormecidos, para enfrentar tudo o que tinha que enfrentar, mas com toda a certeza confrontar a si mesma era o mais complicado. Em um momento achara que estava pronta para cometer sua loucura, mas no outro, via que realmente tinha que manter seus pés no chão. Não podia deixar Rony por simplesmente acreditar que Harry sentia algo mais por ela, não podia abandonar o homem que a amava, por uma incerteza, porque isso iria destruí-la. Iria se magoar e magoar outra pessoa e definitivamente não queria isso. Estar tão machucada já era o bastante.
Terminou de pentear os cabelos ainda molhados, e sentou-se na cama, segurando a escova nas mãos. Estava tão triste que não quisera sair do quarto, e evitava ao máximo conversar com alguém por conta disso, de não poder esconder o que realmente sentia. E com esse silêncio evitara que a vissem, por isso pouco lhe importava se imaginavam que já havia chegado em casa ou não. Ninguém iria sentir sua falta, já que estavam preocupados demais com suas vidas, principalmente Harry. Pensou nele e as lágrimas voltaram a cair de seus olhos. Agora ele deveria estar com Gina, enquanto estava ali tentando sufocar o que sentia.
Mordeu o lábio para controlar o choro, já o havia derramado muito, e não deveria mais perder o seu tempo com algo que apenas vivia em seus sonhos. Tinha que se focar em outras coisas, na guerra que estava acontecendo por exemplo. Muitas pessoas dependiam dela e de suas pesquisas, por isso iria se fartar de tanto trabalhar. Assim esqueceria seus sentimentos e se adaptaria novamente. Levantou-se, e suspirou ao virar a fotografia que estampava os amigos, porque não queria ver o rosto de Harry, tão sorridente ao seu lado. Procurou por seu livro, depois de guardar a escova e tudo mais, e sentou-se na poltrona.
- Hermione? - o chamado de Rony ao bater na porta fez com que ela fechasse o livro e suspirasse. Pensara que ganharia algumas horas sozinha para se focar no trabalho, e esquecer tudo que acontecera durante todo esse tempo, mas não podia recusar a visita do noivo. Além de não querer levantar suspeitas, ele não merecia ser tratado daquela forma. Autorizou que ele entrasse, colocando o livro sobre a escrivaninha ao lado enquanto o observava se aproximar com as mãos nos bolsos da calça. Demonstrando que estava sem jeito. - Eu não... Te vi depois da batalha. Passei para saber se está tudo bem. Mas tinha certeza disso, já que Harry te protegeu lá.
- Estou bem Ron, não se preocupe... Só precisava de um tempo para descansar e repor as energias. E embora eu precisasse de uma folga, passei boa parte do tempo lendo uns manuscritos, tentando interpretá-los de alguma forma, mas acho que estou exausta demais e não consegui muita coisa. - Hermione se explicou esboçando um sorriso, forçando-o na verdade, porque não tinha vontade de sorrir, não tinha motivos aparentes para isso. Muito menos queria falar em Harry. Respirou fundo, vendo o ruivo sentar-se na beirada da cama, lhe chamando para mais perto. E embora não quisesse, ela o seguira, ficando ao seu lado. - E você está bem? Soube que teve um problema com um carregamento ilegal de filhotes de dragão.
- Ainda estamos investigando se isso está ligado a Você-Sabe-Quem. Mas se ele estiver pensando em ter dragões ao seu lado, estamos realmente perdidos. - Rony disse em um longo suspiro. O Ministério já não tinha o controle de muitas criaturas mágicas: dementadores, trasgos, gigantes e outros, faziam parte dos artifícios de Voldemort e tornavam cada batalha ainda mais difícil. Entrelaçou suas mãos as da noiva, sorrindo ao ver seu anel de noivado ali. - Não vim até aqui pra falar sobre isso. Na verdade, vim pra me... Desculpar pelo modo como falei com você naquela noite. Quando disse que queria que Harry a protegesse. Sinto muito mesmo, Hermione. Eu não quero te perder, fiquei angustiado.
- Você não vai me perder Rony. Eu entendo o que sentiu naquele momento, eu estava sendo teimosa demais. Mas eu sei me cuidar muito bem, tem que entender isso, por mais difícil que seja pra você. - ela disse e apertou a mão dele, afagando-a suavemente. Queria que seu coração disparasse com aquele gesto, mas não conseguia sentir nada muito forte. Rony lhe despertava um carinho muito grande, e não chegava a aquecer seu peito. O respeitava e respeitava seu compromisso, por isso levaria aquele casamento adiante. Porque pelo menos ele merecia ser feliz. - Eu sou esperta, se lembra? Já tirei você de várias encrencas... E aceito suas desculpas. - emendou sorrindo novamente, um pouco mais sincera.
- É por me salvar e me perdoar sempre que eu te amo. - o ruivo disse aliviado ao levar a mão ao rosto dela. Afagando-o antes de beijá-la de modo terno. Expressando com aquele carinho o quanto estava satisfeito pelas coisas tomarem aquele rumo agora. Durante a batalha, uma ideia não saía de sua cabeça. E tinha certeza de que Hermione a aceitaria. Afinal de contas, se amavam e quanto mais tempo passassem juntos melhor seria. - Hermione, eu andei pensando. Pensei muito nessa última noite. E olha que isso é algo bem raro. - emendou, rindo assim como ela. - Mas eu gostaria que... Antecipássemos nosso casamento. Se você concordar, claro. Não vejo motivos para esperarmos tanto tempo, quero muito te tornar minha esposa. Amamo-nos e temos que ficar juntos.
Ao ouvir aquelas palavras Hermione permanecera quieta demais, tentando assimilar a última sentença que lhe fora dada em relação ao amor que nutria em silêncio. Quando marcara a data do seu casamento com Rony para mais longe, quando a guerra acabasse, ela queria com esse tempo poder se conformar com o rumo de sua vida, mas agora com esse pedido, tinha que se obrigar a aceitar. Embora o beijo apaixonado que presenciara naquela tarde já o tivesse feito. E apesar de tudo, achava que Rony tinha razão, se estivesse ao lado dele como sua mulher poderia ao menos tentar se apaixonar e seguir seu destino. Não tinha mesmo nenhuma chance com Harry e deveria honrar com sua palavra. Ser impulsiva e arriscar-se tanto não era algo característico de sua personalidade, por isso deveria acatar a sugestão do noivo. Casar-se-iam tão logo pudessem.
- Você está certo. Não precisamos mais esperar tanto assim, e... Uma festa vai animar as pessoas, apesar de que a nossa vai ser bem pequena e modesta. - ela falou, se esforçando para parecer animada, e se o ruivo a conhecesse tão bem quanto achava que conhecia, saberia que fingia. Que não estava muito satisfeita, mas que não faria nada para mudar isso. Não depois de perceber que não tinha chance nenhuma com Harry. - Só tenho que avisar sua mãe para que ela cuide de tudo o mais rápido possível e dar os últimos retoques no meu vestido. Quando acha que podemos?
- Puxa, eu pensei que você fosse hesitar. Parece até mais empolgada do que eu. - Rony comentou entre uma risada ao ver o sorriso no rosto de Hermione. De fato não pensou que ela fosse aceitar de imediato. Para a noiva, lutar cada batalha na guerra vinha em primeiro lugar. E assim como ela tinha dito na noite que a pediu em casamento, só haveria tempo para os dois quando tudo acabasse. No entanto, estava feliz com a ideia de que logo se casariam. Com tudo que vivia, não podia suportar a ideia de que algo pudesse separá-los antes de se casarem. - Bom, eu... Pensei em dois ou três meses. Tempo suficiente para ajeitar algumas coisas, já que em poucas semanas vamos ir atrás de uma das horcruxs.
- Daqui a dois meses, está ótimo. Se adiantarmos algumas coisas podemos nos casar até mesmo antes... - Hermione comentou, surpreendendo-o intensamente, tanto que ele franzira o cenho ante as suas palavras. Realmente pensou que a noiva fosse lhe negar o casamento para breve, porque embora se amassem, sabia que Harry era mais importante, não apenas todas as batalhas que travavam em nome dele. Suspirou fundo, sorrindo largamente. Não era segredo que a queria do seu lado, que queria fazê-la feliz e sua esposa. E estava mais do que satisfeito por que logo estaria realizando seu desejo. - Não precisamos deixar nossas vidas em segundo plano, Ron... Temos que pensar mais em nós mesmos, já que o próprio Harry está fazendo isso. Acho que em breve ele vai ser seu cunhado de novo... E eu fico feliz por ele e Gina, porque formam um bonito casal.
- Harry, meu cunhado de novo? - Rony indagou ao erguer uma sobrancelha, olhando curioso para Hermione. De fato não deveria estar surpreso caso um dia eles voltassem ao relacionamento que tinham antes. Mas o modo como deixaram bem claro as coisas o fizera pensar o contrário. - Não entendi, Hermione. Eles vivem dizendo que o namoro deles acabou, que não tem mais volta e que são grandes amigos. Eu gosto da ideia do Harry ser meu cunhado. Acho que ele e Gina se merecem. Mas... Não tenho tanta certeza. Parece que está incomodada com isso.
- Impressão sua... Porque eu estaria incomodada? - despistou sorrindo fino, em seguida o beijando brevemente nos lábios, mas não o suficiente para que Rony suprisse a saudade que sentia dela, porém o bastante para que não retrucasse. O coração de Hermione doía muito ainda, porque o noivo concordara com a realidade. A mesma dura realidade que juntava Harry e Gina. E enquanto os dois se amassem nada poderia interferir nisso, nem mesmo ela. E o beijo que ganhara naquela noite, fora um erro. Algo que não deveria ter acontecido jamais, porque quase jogara tudo para o alto, por causa de uma precipitação. Do que adiantaria ficar sua vida toda se lamentando por isso? Nada, não adiantaria. Ela só sofreria ainda mais, e se decidira por tentar ser um pouco feliz ao lado de Rony. - Eu também gosto dessa ideia, e se tivesse visto o que eu vi, com certeza pensaria como eu. Eles se merecem realmente... Harry merece alguém que o faça feliz, e esse alguém vai ser sempre sua irmã.
- Se você diz quem sou eu pra discordar? - ele riu completamente distraído ao olhar de modo intenso para a noiva. Deixando-se levar pelas palavras dela, que pareciam ser bem sinceras. Porque ele não era o único que achava que Harry e Gina se mereciam. Toda sua família julgava isso também. Principalmente aqueles que acompanharam o namoro dos dois. Sorriu ao tocar-lhe o rosto, vendo-a suspirar. E embora ele tivesse pensado que era um gesto apaixonado, não era. - Porque eu já encontrei alguém que me faz feliz. E esse alguém vai ser sempre você, Hermione. - disse antes de se inclinar e beijá-la.
Nada seria como antes, quando beijara Harry, mas não tivera coragem de afastar Rony. Ele a tratava com tanto carinho e não tinha medo de dizer o que sentia, porque em várias vezes declarara seu amor, e o mínimo que poderia fazer era retribuir isso, mesmo que de uma forma pequena. Iriam se casar e construir uma vida juntos, e o que aconteceria depois ficaria a cargo do destino. E apesar de não acreditar tanto nessas coisas, acreditava que era isso que a mantinha afastada de Harry. Ele não era para si, não o merecia, e tinha que finalmente se resignar.
Pedira para sair mais cedo do trabalho naquele dia, pois não conseguia se concentrar o bastante e por isso, talvez precisasse descansar um pouco mais. Não conseguira pregar os olhos à noite, porque ficara pensando em tudo que estava lhe acontecendo. Sentia-se mal, e era algo que não podia explicar razoavelmente, embora pudesse atribuir boa parte disso à rejeição que sofrera de Harry e o pedido de Rony para adiantarem o casamento. Não gostava de ser tão pressionada, mas escolhera assim, e tinha que arcar com as consequências. Amava o moreno, e iria se casar com outro, ninguém a estava forçando, apenas ela mesma.
Juntou suas coisas e pegou algumas outras, colocando tudo dentro da bolsa. Quando estivesse mais descansada retomaria o trabalho, e distrairia sua mente das coisas que realmente lhe atormentavam. Olhou novamente para sua sala, descobrindo com os olhos que não havia se esquecido de nada, então saíra fechando a porta com um feitiço. Caminhara por sua seção tentando não chamar atenção. Sempre era a primeira a chegar, mas também a última a sair e com certeza todos iriam estranhar seu comportamento. No entanto, só queria ir para casa e ficar sozinha.
Tomou o elevador e saíra até o átrio, passando pela fonte dos Irmãos Mágicos. Estava tão concentrada em seus dilemas que não notara Harry mais ao longe, conversando com alguns colegas enquanto esperavam qualquer coisa, fosse uma ordem vinda do ministro, ou apenas o tempo passar. Eram raras essas ocasiões e muitos as aproveitavam com fervor, pois a guerra se tornava cada vez mais intensa. Ele se despedira dos outros aurores e a seguira. Hermione tinha uma vantagem, então somente a encontrara fora do Ministério, caminhando apressadamente pela calçada, desviando-se das pessoas igualmente alheias e com pressa. E como sempre tinham um lugar seguro para aparatar, ele sabia muito bem aonde ela iria.
Denominaram-na de área segura, pois era longe dos olhares de qualquer trouxa, sendo que nem mesmo Rony com toda a sua indiscrição conseguira ser notado. Hermione então parara no beco, olhando para os lados. Mesmo que fosse seguro não poderia se arriscar. Além dos trouxas, havia os comensais que rondavam o Ministério, disfarçados, então todo o cuidado era pouco. Fitou o relógio de pulso e esse pequeno segundo de distração fizera com que Harry a alcançasse.
A morena sacou a varinha ao escutar o ruído de passos e a apontara para onde o visitante apareceria, pronta para lançar lhe um feitiço estuporante. E só não o atacara porque precavido, Harry lhe chamara antes de se aproximar um pouco mais. No entanto, ao invés de aliviada, Hermione ficara tensa. O evitava desde o dia anterior, e muito antes, desde o beijo que trocaram. Mas era assim que deveria fazer. Tinha que tirá-lo de sua vida, antes que perdesse tudo.
- O que você quer Harry? Eu estou com um pouco de pressa... - ela murmurou ao abaixar a varinha. Por pouco não aparatara o deixando a ver navios.
- Passei o dia todo atrás de você, Hermione. Por acaso está me evitando? - Harry indagou de cenho franzido ao se aproximar, não podendo deixar de fitá-la intensamente. Durante todo esse tempo vivera uma agonia constante. Hesitando se a procurava ou lhe dava um tempo para digerir o que aconteceu entre eles. Mas aquele tempo parecia ser uma eternidade e não suportava mais esperar. Colocou as mãos nos bolsos do casaco, vendo-a cruzar os braços e desviar o olhar. Parecendo desistir da ideia de aparatar. - Posso saber o motivo da sua agressividade?
- Minha agressividade? - Hermione indagou, respirando fundo novamente. Essa tortura a estava matando, e Harry não tinha noção disso porque continuava com seu castigo, com aquele olhar e o sorriso. Parecia estar brincando realmente com seus sentimentos porque fazia questão de confundi-la ainda mais. E era por isso que estava tão irritada. Porque mesmo estando com Gina, ele se aproximava demais, lhe dava esperanças que nunca se tornariam reais. - Só estou ocupada. Seu pai pediu que eu fosse rápida com alguns manuscritos que encontramos, e eles são complicados, então não posso ter ajuda. Além disso, é um assunto muito confidencial. Você sabe... Restringimos a qualquer funcionário.
- Hermione, eu não... Não estou falando de trabalho, está bem? Esquece essa porcaria de guerra, esquece o que meu pai te pediu, esquece tudo. Eu quero falar sobre nós dois. - o moreno se aproximou ainda mais, ao ponto de encostá-la contra a parede atrás de si. Levou as mãos por cima dos ombros de Hermione, mantendo-a presa enquanto fitava o olhar castanho. Pudera ver tantos sentimentos ali que fizera seu coração se comprimir. Porque nenhum deles parecia ser bom. – Principalmente sobre o fato de você estar me evitando desde que... Nos beijamos. Porque você está me evitando, notei isso. Não acha que conversarmos seria mais fácil? O que aconteceu?
- Não tenho nada pra conversar com você, Harry. Estou te evitando por que o que aconteceu foi um erro, não precisamos dizer um ao outro para saber que isso foi um tremendo erro. - a morena disse um pouco irritada, com intenções de magoá-lo tanto quanto estava magoada. O amava tanto, mas tinha que desistir disso porque esse amor não era recíproco. Mas que culpa tinha ele se era tão tola ao ponto de poder acreditar que um dia poderiam ter alguma coisa além da amizade? Era tão irônico e ridículo que conseguira rir de si mesma. Fizera um papel de idiota nessa história toda e não queria mais sofrer. - Você me beijou porque achava que eu estava morta. Eu entendo que ficou aliviado por isso não ter acontecido, mas eu ficaria feliz apenas com um abraço. Sei que ainda ama Gina, vi vocês dois juntos e não quero estragar nada... Vou me casar com Rony em dois meses, e vamos ser felizes também.
- Vão se casar em dois meses? - murmurou ao retirar suas mãos e se afastar de Hermione. Sentindo a mesma dor que experimentara em seu peito quando presenciou Rony pedi-la em casamento na Toca. E a cada dia que se passava, ela tornava-se ainda maior. Junto com a angústia em pensar que não poderia ter Hermione para si. Não do jeito que o amigo teria. E estava tão atordoado com a notícia do casamento, que sequer havia processado o fato de ela dizer que o vira com a ex-namorada. Engoliu em seco, olhando-a. - Por que anteciparam o casamento? Rony significa tanto assim, Hermione?
- Antecipamos porque é assim que tem que ser... - ela disse, abaixando a cabeça. Não tinha sido uma boa ideia provocar Harry daquela maneira porque agora se sentia mal por ter sido tão cruel. Mas apenas estava deixando claro que não queria mais ser um mero figurante, que não queria ser a expectadora do relacionamento dele e de Gina. Porque o fora durante tanto tempo, e sofrera calada em todas as vezes. Como naquela noite, que passara com Rony ao seu lado. Chorando em silêncio, molhando o travesseiro que sufocava seus soluços. - É o certo a se fazer... Porque está tão surpreso? Deveria estar feliz por nós, porque estamos felizes que tenha voltado com Gina. Vocês dois formam um belo casal, sempre foi assim. Ela é a mulher certa pra você... Não eu, então esqueça aquele beijo, porque foi errado e sem motivo algum de ter acontecido. Você não me ama... - emendou sentindo as lágrimas confundirem sua visão.
- Para de dizer tantas besteiras, Hermione. - bradou em tom alto o suficiente para que ela entendesse o que queria dizer. Porque estava farto de guardar tudo isso no peito. E de forma alguma poderia aceitar em silêncio, o fato de que a mulher que amava iria se casar com outro. Não conseguiria bancar o amigo feliz em meio de tudo isso, porque não estava feliz. Podia ser egoísta demais o que sentia, mas estava arrasado e desesperado. Passou os dedos entre os cabelos, respirando fundo, voltando-se para ela. - Gina e eu não reatamos, está bem? Aquele beijo não significou nada. Na verdade, nem sei por que a beijei. Talvez para provar a mim e a ela, que não teremos outro tipo de relacionamento que não seja amizade de agora em diante. Mas não significou nada. - se aproximou da morena novamente, a olhando nos olhos e suspirando. - O beijo que trocamos sim, significou muito pra mim.
- Não... Não minta pra mim. - Hermione insistiu evitando a todo custo olhar dentro dos olhos dele e enxergar a verdade de suas palavras, porque sentira a intensidade delas. O conhecia bem demais para perceber isso e não deveria se entregar tão facilmente outra vez. Aceitara o compromisso com Rony e teria que ir até o fim. Não desejava se decepcionar outra vez, jogar tudo fora, para em seguida perceber que Harry não queria ficar ao seu lado. As lágrimas já banhavam seu rosto, e era impossível refreá-las. Por muito tempo apenas deixara que elas caíssem em silêncio, e agora estava farta de tudo. - Não se beija as pessoas sem motivo nenhum, ainda mais uma pessoa que é tão próxima, que evidentemente ainda te faz sentir muita coisa. Gina é perfeita pra você, Harry... E eu espero que possa ser feliz com ela.
- Você tem toda a razão. Não se beija uma pessoa que é tão próxima sem motivo. - Harry disse ao se aproximar de Hermione novamente. Sabia que a tinha magoado ao beijar Gina depois de beijá-la. Não podia negar que sentia um carinho imenso pela ex-namorada e que foram felizes juntos, mas todas as vezes que a olhava tinha certeza de que não tinham um futuro juntos se não como amigos. Com Hermione já era diferente. Cada pedaço de si implorava desesperadamente para tê-la ao seu lado. E precisava fazer com que ela entendesse isso. - E eu tive um motivo pra beijar você, Mione. Um motivo bem forte. Que nem chega perto daquela despedida entre Gina e eu. - levou os dedos à boca rosada da morena quando ela iria respondê-lo. - Não diga que era por causa da batalha e por causa do alívio por você estar viva, porque não era.
- Eu... Não consigo imaginar porque seria... - ela falou de modo baixo, deixando escapar pelos lábios macios, um suspiro longo o bastante para que Harry tivesse alguma esperança de que a teimosia dela poderia ser contornada. E embora estivesse tão concentrada naquele dilema, não podia ainda evitar as lágrimas. Toda aquela espera lhe deixava ansiosa, e talvez a resposta que queria nem chegasse. - Não consigo mesmo... E se não penso em nada, é porque não existe um motivo. - tentou manter os olhos bem abertos quando Harry chegara mais perto de si, a pressionando novamente contra a parede e contra seu corpo cálido, mas não conseguira. Hermione espalmou as mãos sobre o peitoral masculino, e manteve-se imóvel, quando outra vez o moreno lhe roubara o juízo, encostando a boca a sua.
- Para quem diz ser muito inteligente, você está um pouco lenta, Mione. – murmurou, ao roçar seus lábios aos dela enquanto seus dedos desprendiam carinhos suaves em seu rosto, deixando-a ainda mais arrepiada. A sensação de ter a boca dele sobre a sua era deveras maravilhosa. Fazia com que se recordasse do beijo que trocaram na última vez. Assim como ele, Hermione também experimentara sensações que jamais sentira algum dia. Ele mordiscou o lábio inferior, aveludado, ouvindo-a gemer baixo e prender os dedos no tecido de sua capa. Como se perdesse as forças por completo com cada carinho que ele lhe oferecia. Os dedos deslizaram até sua nuca, afagando-a enquanto seu corpo fazia o trabalho de deixar inexistente qualquer barreira entre eles. - Eu te amo. - disse baixo e roucamente, mas num tom convincente, surpreendendo-a antes de começar um beijo intenso e apaixonado.
Tal beijo fora realmente intenso como da última vez, mas com alguma sutil diferença. Antes Harry não havia dito que a amava, e essa declaração enchera novamente seu coração de felicidade e anseio. Não sabia se poderia confiar nesse sentimento, mas não podia refrear o que sentia, não com ele lhe tocando daquela forma. Tudo que achava ser errado se tornava certo, e Hermione não podia discernir o que estava fora daquele beco, ou presa no abraço do auror, que era onde estava agora. Permitiu que ele se aproximasse mais, ao passo que envolveu os braços em torno de seu pescoço, se cansando de permanecer imóvel. Gostava de afagar os cabelos negros dele, porque o sentira reagir com força a esse toque da primeira vez e agora não fora diferente. Para ela, era uma forma de se sentir ainda mais desejada, e para ele, era uma maneira de perder a sensatez.
Sentir a textura e a maciez dos lábios dela novamente deixara Harry cada vez mais embriagado. E isso sempre lhe dava a certeza de que o que dissera minutos atrás era o mais verdadeiro e prudente. Amava-a, sentia isso todas as vezes que trocavam olhares e sorrisos cúmplices, quando ela o incentiva a seguir adiante ou quando se empenhava ao máximo para estar sempre ao seu lado. E agora tudo isso se tornava ainda mais intenso com aquele segundo beijo. Ofegou quando os dedos dela desceram por seu rosto e os lábios brincaram com os seus para fazê-lo perder a razão. E quando não puderam mais continuar com o beijo, o findara entre um pequeno gemido. Encostou sua testa à dela, abrindo os olhos lentamente, contemplando o rosto tão bonito e corado a sua frente.
- Entendeu a diferença desse beijo com aquele que você viu? - indagou ao roçar seus lábios pelo queixo redondo de Hermione, beijando-a de modo suave, ouvindo-a suspirar. Olhou-a nos olhos novamente quando ela os abrira. Admirando o olhar âmbar e intenso de encontro ao seu. - Entendeu porque não estou feliz com a ideia do seu casamento, tanto quanto deveria estar? Posso ser um egoísta, cretino ou talvez idiota, mas... Eu te amo, Hermione.
A morena recebera aquelas palavras em silêncio, mas não porque não tinha uma resposta à altura para elas, mas sim porque não podia se enganar dessa maneira. Não podia acreditar que Harry a amava, que a beijava tão intensamente porque sentia isso. Estava tão acostumada com sua situação platônica, que parecia irreal ouvir aquela declaração. Não era só estar com Rony que era cômodo, mas também amar seu amigo e não ser correspondida, porque era Gina que deveria estar ao seu lado. Novamente as lágrimas inundaram seus olhos, e Hermione tivera que se conter para não se atirar nos braços de Harry e dizer que também o amava. Mas realmente não podia fazer isso, não podia abandonar seus compromissos assim.
- Você não me ama... Eu não sei o que sente, ou o que está pretendendo, mas não quero que isso aconteça outra vez. Não quero que me toque assim, eu preciso que fique longe de mim porque vou me casar com Rony, e ele sim me ama. Por isso não posso desfazer esse compromisso.
Ouvir tudo que Hermione disse e vê-la se afastar daquela forma fizera com que toda a sensação maravilhosa, que percorria seu corpo depois do beijo se dissipasse completamente. E agora, as palavras de sua mãe não faziam sentido algum, embora ainda quisesse lutar por Hermione. Mas depois de se declarar, de expor seus sentimentos e ouvir isso como resposta, suas esperanças foram praticamente arruinadas.
- Tudo bem, Hermione. Banquei o ridículo, me expressei da forma mais sincera que pude e pra você não significa nada. - assentiu entre um sorriso nervoso ao passar os dedos entre os cabelos. O fato de começar a se irritar era suficiente para sua cicatriz latejar. Porque estava dando brecha para Voldemort atormentá-lo novamente. - Não se preocupe, vou respeitar sua vontade e não vou te tocar. Que você e Rony sejam muito felizes, porque merecem.
Ele se afastou, incapaz de fitá-la uma segunda vez. Fora rejeitado da maneira mais cruel que poderia pensar, porque imaginou que Hermione fosse retribuir sua declaração dizendo que também o amava. Mas não fora isso que acontecera. Ela apenas lhe jogara na cara todos os fatos que exprimiam bem a realidade. Hermione iria se casar com Rony porque o amava, e porque não podia ser tão egoísta ao ponto de aceitar sua investida. Deveria imaginar algo assim vindo dela, sempre tão correta, mas sua postura rígida apenas o deixara irritado, confuso. Num momento a vira entregar-se àquele sentimento como se nada mais importasse, mas no momento seguinte este se tornara a pior coisa do mundo, a mais detestável. Então aparatou, deixando-a ali sozinha. Com certeza não seria dele que Hermione precisaria.
Quando se viu sozinha a morena se apoiou na parede de tijolos e fechou os olhos. As lágrimas caíam fartamente e a dor em seu peito a fazia soluçar. Suas mãos tremiam freneticamente, e tudo que trazia consigo caíra no chão. Olhou para o lugar onde Harry estivera há poucos segundos e desejou imensamente poder voltar no tempo. Desejou ainda que ele houvesse lhe dito aquilo muito antes, então agora poderiam ter a chance de estarem juntos. Um lado seu acreditava nas palavras dele, mas também havia tantas dúvidas que a deixavam desnorteada. No entanto, julgava estar fazendo a coisa certa. Um dia Harry encontraria alguém que o fizesse feliz, e mesmo não sendo ela, ficaria satisfeita. Porque seu amor só vivera disso, dos sacrifícios que fazia.
N/A:
Devido aos comentários de vocês, decidimos acelerar para postar o capítulo 4.
Ebaaaaa! \o/
Ficamos muito felizes com os comentários. E esperamos que vocês continuem assim, comentando bastante e nos incentivando cada vez mais a escrever.
E se querem que os capítulos sejam mais frequentes, comentem bastante. Porque enquanto vocês leem o capítulo 4, nós já escrevemos até o 21.
Só para despertar a curiosidade de vocês... Alguém está completamente diferente na metade da fic. E vai chocar à todos com as suas atitudes.
Então comentem que semana que vem postamos mais, tá bem?
Beijo das autoras.
