Capítulo 5
Assim que deixou Hermione sozinha, não seguira direto para casa, porque não queria encontrá-la quando chegasse lá, depois do que acontecera. Tão pouco queria vê-la após se declarar e ela desprezar tudo que sentia daquela forma. Sua mãe sempre havia sido ótima em lhe dar conselhos, mas naquela vez falhara imensamente, porque agora sentia-se arrependido por ter bancado o ridículo. Se tivesse guardado seus sentimentos somente para si, não teria perdido Hermione. Tão pouco estaria sentindo aquela dor em seu peito. E isso apenas provava que jamais ficariam juntos. Não do jeito que seu coração desejava.
Aparatou diante de casa, seguindo até a varanda. Por algumas horas andara sem rumo por aí. Evitando os pontos em que qualquer alarme pudesse soar com sua presença. Mas de fato, pouco se importava com a guerra que acontecia. Se algum comensal aparecesse e quisesse levá-lo, talvez nem fosse resistir. Merecia um castigo por ter sido tão idiota com Hermione. Por ter se declarado e, principalmente, por ter feito isso tarde demais. No entanto, para seu tremendo azar, nada disso não acontecera. E agora estava na segurança e no conforto de sua casa deserta, outra vez.
Suspirou fundo, tirando a capa assim que entrara. Talvez partir sozinho para procurar pelas horcruxs fosse uma ótima ideia. Focar-se naquela batalha e ficar longe de Hermione era tudo que precisava para esquecer o que acontecera. O tempo ajudaria com que aquela ferida se cicatrizasse. E quando estivesse realmente bem e com uma grande vantagem à frente de Voldemort, voltaria para resolver todos os seus problemas. Não somente no que se dizia respeito a guerra, mas também com relação aos seus sentimentos. E estava tão distraído em tomar essa decisão, que sequer notou o amigo descer a escada.
O sorriso de Rony manchava completamente a ideia que tinha de um futuro ao lado de Hermione, e também para a ideia de que talvez pudesse lutar por ela. Sabia que independente do resultado, um dos dois iria perder, e isso o magoava. Tentara não se apaixonar pela morena, mas não conseguira controlar o que sentia, nem a cumplicidade que se transforma em algo mais íntimo, mais forte. Harry respirou pesadamente, estava cansado, não apenas de andar a esmo por aí, mas porque as palavras de Hermione o havia ferido intensamente. Não estava disposto a lutar agora, nem mesmo com o que viria, já que era notória a alegria do ruivo.
- Cara, você demorou... Tenho que admitir que deixou todo mundo preocupado. Sua mãe mandou uma coruja, ela disse que você jantaria com eles, mas não apareceu. Sem contar que Gina andou te procurando também, até mesmo Hermione quando ela chegou. Sabe o que aconteceu? Ela me pareceu estranha, viu se ela estava chorando antes? - Rony perguntava sem parar, um tanto preocupado, contrariando o sorriso em seus lábios. Talvez ele o esboçasse porque tinha voltado são e salvo para casa. Harry então desabou no sofá, sem dizer ainda uma palavra sequer. - Você também não me parece bem...
- Você acha? - Harry retrucou, sem se importar em ser amigável ou simpático com o ruivo, porque ele também era culpado por seus problemas. E por pouco não procurara por uma garrafa de uísque de fogo para amenizar o que queimava dentro de si. Só não o fizera porque não queria deixar uma brecha para que Voldemort dominasse sua mente em um momento de fragilidade. - Porque eu não estou mesmo nada bem. E pare de fazer tantas perguntas. Hermione é sua noiva. Você quem deveria saber o que ela tem, não eu.
- Tudo bem, você está certo. - ele concordou um pouco intrigado, raramente Harry lhe tratava daquela forma, a não ser que houvesse acontecido alguma coisa, ou havia feito algo errado, como era na maioria das vezes. Mas julgava o comportamento como um reflexo de tudo que viviam. O amigo era pressionado todos os dias, porque em suas mãos estava o destino de muitas pessoas, e era difícil carregar esse fardo sem enlouquecer. Admirava Harry e sua coragem de enfrentar tudo, talvez em seu lugar, não conseguisse. - Mas é que... Às vezes acho que ela gosta mais de conversar com você do que comigo. Hermione se abre com você... Só pensei que talvez soubesse o motivo das lágrimas, mas não quero te incomodar.
- Hermione não gosta de conversar comigo, Rony. Tudo que ela gosta é do fato de se sentir a mais importante e a mais inteligente do grupo. - praguejou ao se levantar e passar os dedos entre os cabelos. Não sabia ao certo porque agia assim. Talvez fosse a mistura de sentimentos e o fato de que magoara Hermione por ter feito aquela estupidez de se declarar. Isso deixava ainda mais claro que a tinha perdido. E que a ideia de ir procurar as horcruxs tornava-se cada vez mais sensata. Voltou-se para o amigo, vendo o olhar preocupado dele em si. - Olha me desculpa. Não devia falar desse jeito. Eu só... Estou cansado, está bem? Tem muita coisa na minha cabeça agora.
- Eu entendo Harry, há dias em que eu também quero explodir assim. Não precisa se desculpar por nada. Ahn... Eu sei que não é hora pra isso, mas talvez o que eu tenha pra lhe dizer possa fazer com que esfrie a cabeça. - Rony disse, corando um pouco, e o coração de Harry gelou. Embora não soubesse o que de fato ele iria lhe dizer, só havia um motivo para que o amigo corasse daquela forma. Sempre que via Hermione, ou a colocava na conversa, enrubescia, além disso, suas orelhas também ficavam daquela cor tão característica quando pensava nela. - Hermione e eu decidimos antecipar o nosso casamento. Acho que será uma distração e tanto de toda essa guerra. Embora eu quisesse que ela não durasse tanto até a cerimônia. - emendou tentando soar divertido.
- Ótimo. Uma festa enquanto acontece uma maldita guerra. É tudo que nós e os seguidores de Você-Sabe-Quem precisamos. - Harry disse com certa ironia ao revirar os olhos e dar as costas para o amigo. E pouco se importava com o fato de que ele tinha percebido ou não, o seu tom. Já tinha sido difícil e doloroso demais falar sobre isso com Hermione. E agora tinha que ouvir do próprio "idiota apaixonado" tudo que ele julgava ser baboseira. Caminhou até a janela adiante, apoiando-se no vidro e respirando fundo. Olhando para a chuva que ameaçava cair a qualquer momento. - Foi uma boa decisão a de vocês. Meus parabéns.
- Pensei que fosse ficar contente pela notícia. Você sempre apoiou meu relacionamento com Hermione, e tenho certeza de que ela é a mulher certa para mim. - o ruivo disse, fazendo com que a risada irônica de Harry preenchesse o ambiente e por mais que Rony entendesse o comportamento dele, se magoara com aquele tom desdenhoso. Como se aquele casamento fosse algo insano e incapaz de se realizar.
- E eu estou feliz, Rony. Quem disse que não estou? Só não me sinto no melhor momento para expressar isso, ok? - o auror disse, ao passar os dedos na cicatriz, que naquele instante voltava a doer novamente. Estava dando abertura para que Voldemort se aproximasse. E não conseguia bloqueá-lo sozinho. Tudo parecia ser bem mais fácil com Hermione ao seu lado. Até mesmo esse maldito momento em que sua cicatriz doía. - Tenho uma pilha de relatórios para entregar, tenho que planejar o próximo ataque e procurar as horcruxs. Sinto muito. - virou-se para Rony, suspirando. - Tem mais alguma coisa pra dizer?
Rony rira sem jeito, incapaz de continuar seus relatos que eram tão diferentes daquilo tudo que Harry sentia, porque era bem óbvio que ele estava de mau-humor, e visivelmente cansado. Sabia que estava no limite e não iria provocar mais. Teria uma próxima oportunidade de fazer com que ele aceitasse melhor essa e outras novidades que poderiam aparecer. Respirou fundo e negou com a cabeça, embora agora se lembrasse do que a noiva dissera sobre o relacionamento de Harry e Gina. Poderia não parecer muito protetor, mas se preocupava imensamente com a irmã. Mas julgando a estranheza de todos, resolvera ficar calado, trataria disso depois também.
- Eu... Não tenho mais nada pra dizer. - disse espalmando as mãos no jeans, e fitou Harry. Ele é que estava mais estranho e irritado, e não sabia de onde, além dos campos de batalha, vinham tais sentimentos. Assim era com a noiva. - Vou subir e ficar com Hermione, talvez ela tenha parado de chorar e esteja apenas naqueles dias complicados.
- Faça isso. - Harry assentiu para o amigo ao caminhar até a poltrona adiante e se largar ali. Apoiando os cotovelos sobre os joelhos e abaixando a cabeça, enquanto ouvia os passos de Rony até a escada. Seria melhor que o amigo fosse ficar com Hermione. Assim evitaria encontrá-la pela casa enquanto estivesse ali. E na manhã seguinte, iria tomar o cuidado de sair primeiro do que ela. Evitá-la agora fazia parte de seu plano. Amava-a demais, por isso estava se sacrificando. Queria pensar o contrário, mas as evidências apontavam para isso. Hermione amava Rony e iria se casar com ele. E se fosse para ela ser feliz, iria respeitar essa decisão.
Sua tentativa de esquecer tudo que acontecera no beco na noite passada fora inútil. Ainda remoía as palavras de Harry e se arrepiava com a intensidade das suas ações, e mesmo que isso a influenciasse um pouco, tinha que manter seus dois pés juntos na realidade. Ele não a amava, não tinha um lugar mais especial na vida dele, e tudo aquilo não passava de um engano. Novamente o vira ao lado de Gina, e tivera mais certeza de que os dois deveriam ficar juntos. Formavam um casal muito bonito e tinham qualidades muito parecidas. Se tinha uma mulher perfeita para o auror com certeza era a estonteante ruiva.
Então se sentou à sua mesa, e o escritório pequeno, nunca parecera tão sufocante. Abriu um pergaminho que trabalhava sobre algum livro de runas que encontrara, mas também não conseguira se concentrar. Diversos aviões de papel, contendo recados diversos, planavam preguiçosamente do lado de fora de sua sala e por um momento Hermione se distraíra com seu vai-e-vem. Suspirou fundo, encaixando o queixo sobre a mão em punho. Sua distração não durara muito, pois ouvira a voz grave de Harry chegar cada vez mais perto. Ele não andava muito por aqueles lados ultimamente, e uma fagulha de esperança habitou em seu peito. Talvez ele estivesse ali para lhe pedir desculpas, para reatarem o que haviam perdido naquela noite, mas para sua surpresa o moreno seguira adiante.
Levantou-se com o coração aos trancos, e saíra da sala a tempo de vê-lo no corredor. Mas por azar ele não percebera sua presença, muito menos estava ali para vê-la. Sabia que era tolice esperar por isso, mas Hermione o fazia, porque embora estivesse em conflito diário, ainda amava Harry e novamente teria que se conformar com tudo que a vida lhe dava: que agora era o desprezo dele. Respirou fundo novamente, contendo os lábios trêmulos quando os mordera. Era tão patética que não tinha o direito de chorar por ele. Escolhera Rony e se casariam. No entanto, por mais que se esforçasse não conseguira controlar as lágrimas nem a sensação de que estava estragando sua vida.
Sua visão se tornara turva por conta delas e quando se virara outra vez para voltar até sua sala, esbarrou com Gina no meio do caminho. Ela deixara uma pasta cair no chão, e rira do seu encontro um tanto desastroso com Hermione. No entanto, a outra não fora tão simpática, e tal comportamento se evidenciara quando a ruiva perguntara sobre Harry.
- Não sei dele, não o vi hoje... – respondeu, limpando o rosto rapidamente, com medo de que Gina pudesse descobrir que estava chorando. Mas era inevitável que escondesse sua tristeza, bastava um olhar mais demorado para que os outros percebessem que não estava bem. Que não era a mesma Hermione de sempre. - Pensei que soubesse melhor do que eu onde ele está afinal vocês trabalham juntos.
- Trabalhamos sim juntos, mas não ficamos o tempo todo grudados um no outro. Harry é um pouco metódico. Ele tem esse lance de espaço, sabe? - Gina comentou em uma breve risada. Notando no rosto de Hermione, nada além de desprezo. E por isso, não entendia o motivo de ela a tratar dessa maneira. Pelo que se lembrava, nunca lhe dera pretextos para agir assim. Sempre a respeitara e a tratara muito bem. Então terminou de recolher suas coisas, seguindo-a até a sala, entrando sem nenhum convite. - É que precisava entregar minha parte dos relatórios para ele. Temos um prazo para cumprir.
- Não sou mesmo a pessoa mais indicada a dizer o paradeiro dele, então não pense em deixar comigo como sempre fez. - Hermione disse, ao cruzar os braços e fitar a ruiva. Seu rosto estava vermelho e um pouco inchado, mas pelo choro da noite passada. Mais uma em que ela ficara acordada, pensando em tudo que acontecia. E boa parte de sua irritação se devia a isso, mal tinha cabeça para nada, nem mesmo para comer. Então ser gentil não era uma opção. - Boa sorte para encontrá-lo.
- Quer saber de uma coisa? Já chega! Cansei de fazer de conta que não me importo com isso. - bradou impaciente, depois de jogar as pastas sobre a mesa. Colocou uma das mãos na cintura e ergueu a sobrancelha ao olhar para Hermione. Ela não parecia muito surpresa por aquela atitude. Muito pelo contrário. Até mesmo erguera o queixo como desafio e a fitava de modo sério. - Por que me trata assim? O que foi que eu te fiz, hein? Se for por causa daqueles doces, eu juro que não sabia que eram seus. Rony que me disse, mas já era tarde demais. Posso comprar uma caixa pra você se isso for acabar com seu mau-humor.
- O que? Não estou "assim" por causa dos doces, eu nem mesmo liguei para isso. Rony sempre exagera quando os compra. Isso eu daria a você sem problema nenhum. - ela disse revirando os olhos castanhos, não soando tão amena quanto gostaria. Não conseguia se controlar e nem ao seu ciúme, ainda mais porque Gina parecia alheia a qualquer coisa, e de fato era. A ruiva não sabia de seus sentimentos para com Harry, e deveria se retratar antes que ela pudesse desconfiar. Respirou fundo, desviando o olhar. - Desculpe, só estou cansada e trabalhando demais... Eu sinto muito por ter sido rude, e sabe? Lembrei-me de que Harry passou aqui na porta e atravessou o corredor... Ele vai gostar de ter sua companhia porque parece bem estressado também. Ele sempre gostou disso, e agora que vocês estão juntos de novo tenho certeza de que vai ser bom ter alguém perto dele.
- Como é que é? – Gina indagou surpresa ao olhar para Hermione, arqueando as sobrancelhas. No começo pensara que aquela conversa ficaria mais amena. No entanto, se surpreendera quando ela falara daquela forma sobre seu relacionamento com Harry, que não passava de apenas uma amizade. Então rira de forma perplexa, meneando a cabeça. - Harry e eu não estamos juntos. De onde tirou essa loucura? - calou-se por um momento quando a bruxa diante de si, desviou o olhar, engolindo em seco para não entregar os pontos naquele momento. Mas já era um pouco tarde demais. - Você viu, não viu? Naquela noite, quando a gente se beijou.
- Sim, eu os vi naquela noite, mas isso não é importante... Eu não tenho nada a ver com essa história e pelo que notei, acredito que a de vocês ainda não acabou. - Hermione desconversou tentando ser simpática, mesmo que isso fizesse seu coração se comprimir. Fora mexer em algumas coisas sobre sua mesa no afã de esconder seus sentimentos, e novamente as lágrimas banharam seus olhos, fazendo com que evitasse olhar para Gina. Não queria colocar Harry naquela situação, porque embora negassem tudo que percebera naquela noite, para ela tudo era bastante óbvio.
- Mas acabou, Hermione. Merlin, Harry e eu não temos mais nada. E nem foi ele quem me beijou, eu o beijei, sem oferecer a oportunidade de se afastar. Além do mais não durou muito tempo. Só o suficiente pra gente ter certeza de que isso acabou. - Gina tentou explicar o que de fato acontecera porque esse mal-entendido lhe deixava acuada. Realmente, quando namorara Harry, sentira-se apaixonada todas as vezes que se beijavam. Mas naquela noite não sentira nada. Nada além da terrível comparação de imaginar Draco Malfoy no lugar do ex-namorado. Balançou a cabeça novamente para afastar aqueles pensamentos insanos. Voltando-se para Hermione, olhando-a curiosamente. - Por que está se importando, Hermione? Espere um pouco... Você está com ciúme?
- Porque eu estaria com ciúme? – retrucou, esboçando um sorriso nervoso. Harry sempre fora seu amigo, nada mais do que um bom amigo, e, além disso, era com ele que podia conversar às vezes, por isso ficava agoniada por guardar tudo aquilo dentro de si. Sem poder contar com ninguém. Dera a volta na mesa, e sentara-se na cadeira, enquanto baixou a cabeça para chorar. Estava farta de se fazer de durona, porque na verdade estava em frangalhos por dentro, porque tinha mais certeza de que não era tão perfeita quanto todos achavam. Que a Hermione certinha, tinha fraquezas e feridas muito profundas. - Harry é só meu amigo... Ele tem o direito de escolher quem quiser...
Gina franziu o cenho diante daquela cena. Ver os ombros trêmulos de Hermione enquanto chorava e saber que ela estava tratando-a mal por causa daquele beijo fazia todo o sentido. Caminhou até a porta, fechando-a para que ninguém que passasse por ali pudesse ouvi-las. Aquele assunto era deveras particular. E queria muito que sua relação com a morena melhorasse. Talvez pudessem ter confiança uma na outra. E naquele período de guerra, quem sabe fossem precisar uma da outra.
- É você. Por que eu não enxerguei isso antes? - Gina bradou para si mesma ao dar um tapa na própria testa, fazendo com que Hermione erguesse os olhos e a fitasse de modo confuso. - É claro que tinha que ser uma pessoa bem próxima. Que outra garota além de mim que vivia tão perto de Harry para fazer com que ele a amasse? - olhou para a outra bruxa, se aproximando e ocupando a cadeira diante da mesa. - É você que ele ama Hermione. Eu senti isso naquela noite, quando o beijei. Ele não me disse nada, claro. Mas soube que ele ama outra mulher. E é você.
- Eu? - indagou assustada com o comentário de Gina, tanto que dera uma pausa nas lágrimas. Elas sumiram com o susto porque a ruiva não deveria ter tirado tais conclusões. Arfou, engolindo tudo, e novamente baixou a cabeça. Quando Harry lhe dissera que a amava, não acreditou em nada, pois o momento não permitira que ela o fizesse, embora estivesse a um passo de ter desistido de seus ideais para retribuir aquela declaração. Tudo que mais queria estar ao lado dele, mas estava presa em seu noivado e logo estaria rendida por conta do casamento. E por isso pensava tanto nele para acreditar que podia dar tal passo. - Não é possível que você também pense assim... Porque não é verdade. Harry não pode me amar, não desse jeito. Pare de dizer essas coisas Gina, porque eu vou me casar com seu irmão.
- Vai se casar com alguém que não ama? Porque eu estou vendo nos seus olhos. Sei que você ama o Harry, não meu irmão. - ela disse o óbvio ao estender sua mão sobre a mesa, puxando a de Hermione, colocando-a entre a sua. Fazendo com que a atenção dela se prendesse em si. - Olha, eu não sei o que você vai fazer, mas espero que o faça logo. Porque eu senti que Harry te ama. - suspirou ao retirar suas mãos e abaixar seu olhar. - Na verdade, foi por isso que terminamos. Já sentia a algum tempo que ele amava outra. Por isso espero que tome a decisão certa quanto ao Rony. Pois eu sei o quanto é ruim ficar ao lado de alguém que não te ama da mesma forma que você o ama.
- Não deveria me encorajar a isso. - Hermione simplesmente respondeu, dando uma chance a si mesma. Não deveria perder a oportunidade de compartilhar isso com alguém porque poderia lhe fazer bem ver a perspectiva de outra pessoa. Gina não era uma pessoa qualquer, ela tinha sim a autoridade de dizer tais coisas, porque conhecia Harry bem. Foram namorados e juntos adquiriram a habilidade de perceber certas coisas, e isso ela sabia, porque a convivência com ele fizera com que o entendesse apenas com um olhar. Seu coração novamente dera um salto no peito. A ruiva se surpreendera, com a atitude de Hermione em estender a conversa, e ficaria até o final, ali. - Eu não posso deixar Rony, ele não é tão forte quanto Harry. E se você diz que ele me ama então... Vai poder esquecer isso facilmente. Eu não consigo pensar em outra coisa, e apesar disso não sei o que fazer. Estou magoando as pessoas que amo. E tenho certeza de que ele me odeia agora, porque está me ignorando...
- Ele vai viajar. Daqui a dois dias. - Gina murmurou, fazendo com que Hermione a olhasse assustada. Não queria ser a portadora daquela notícia, mas a morena tinha o direito de saber. Porque somente assim poderia decidir que escolha tomaria para sua vida. Deixaria sim algumas pessoas magoadas no caminho, mas precisava fazer alguma coisa, antes que fosse tarde demais. Ao contrário de si, Hermione não estava destinada a viver em um mundo vazio e solitário. - Harry vai atrás do resto das horcruxs, Hermione. E não vai voltar tão cedo. Muito menos antes do seu casamento com Rony. Essa viagem vai ser uma ótima desculpa pra ele não aparecer no dia.
- Ele não pode ir sozinho, é muito perigoso. O que Harry pensa que está fazendo? - Hermione indagou, agoniada. Só de pensar que ele viajaria sem alguém para lhe auxiliar era uma ideia terrível, alguma coisa errada poderia acontecer por conta daquela teimosia, muito embora achasse que ele fazia isso para fugir da situação e fugir dela principalmente. Mas por outro lado, tal atitude poderia ser boa, já que ela mesma não o enfrentaria. De qualquer jeito precisava pensar sobre o que faria. Se iria ficar com Rony e aceitar ser infeliz, ou se ia atrás de Harry e agradaria a si própria e não aos outros.
- Isso se chama abrir mão da própria felicidade para fazer outra pessoa feliz, Hermione. - a ruiva sorriu de modo gentil ao se levantar. Sabia que aquela conversa faria a outra pensar muito na situação. Não estava torcendo para que ela deixasse o irmão. Mas também não pedia para que ela magoasse Harry e se magoasse pelo resto da vida. Havia uma decisão sensata a ser tomada ali. E somente Hermione quem poderia arcar com ela. - Foi isso que eu fiz quando terminei com o Harry. Na hora certa, você vai saber o que fazer. - disse antes de abrir a porta e deixá-la sozinha em sua sala.
Hermione tinha muito no que pensar de agora em diante.
Odiava quando contrariava suas razões, principalmente quando fazia o oposto do que tinha dito que iria fazer. Mas lá estava ela outra vez, caminhando até a Casa dos Gritos sendo que dissera no dia anterior que deixaria Draco, ali sozinho, se recuperando, até ter forças suficientes para sair por conta própria. No entanto, não ficaria em paz com sua consciência se acontecesse alguma coisa com ele enquanto estivesse sob seus cuidados. E não podia deixá-lo à mercê da própria sorte. Por isso, contava com que estivesse melhor. Porque assim seu papel logo terminaria e cada um seguiria seu caminho.
Tudo que mais precisava era de distância do comensal, porque tal proximidade não estava lhe fazendo bem, nem ao seu físico e também ao psicológico. Não obstante, não ficaria bem se alguém descobrisse algum dia que ajudara um comensal da morte. Ainda mais sendo esse comensal, Draco Malfoy. Sua família e amigos, nunca a perdoariam por essa imprudência. Mas se convencia de que estava ali apenas para tirar um peso de seus ombros. Apenas isso.
Abriu a porta do quarto, escutando as velhas dobradiças rangerem. Apertou a sacola que trazia consigo, entre os dedos, percorrendo os olhos pelo local, encontrando-o vazio. Não podia acreditar que o cretino havia se recuperado tão rápido ao ponto de ir embora sem deixar vestígios. Tentou dar um passo, mas antes que fizesse isso, fora surpreendida ao ser pressionada contra a porta. A sacola em sua mão caíra no chão e ela olhara para o loiro a sua frente, surpresa demais.
- Mas que droga! Será que dá pra você parar com isso, Malfoy? – Gina bradou entre dentes ao dar alguns tapas no ombro do comensal, fazendo com que ele risse divertidamente. Parecia ser bem interessante para ele, encurralá-la daquela forma. Já que não era a primeira vez que fazia isso. Olhou para as mãos dele por sobre seus ombros, suspirando fundo antes de fitá-lo. - Me solta, vai. Se estiver tentando me assustar, não está funcionando.
- Pensei que precisaria de mais do que isso para te assustar, Weasley... Mas eu precisava me precaver. Curiosos podem entrar aqui a qualquer momento, e eu não quero ser visto. Não enquanto ainda estiver em recuperação. Tive que assustar umas crianças xeretas que passaram por perto. Tenho certeza de que não vão mais sair de Hogwarts. - Draco comentou perigosamente perto dela, tanto que Gina se sentia anestesiada. Não deveria se sentir assim, mas o que poderia fazer se ele tinha um magnetismo forte demais, mesmo sendo ele um comensal da morte, cruel e seu inimigo? O sorriso dele fora calmo agora, mas também não se afastara quase pelo mesmo motivo. Sentia-se atraído por ela e não conseguia se controlar.
- O que deveria se esperar de você? Isso é tão típico. – ela forçou um sorriso irônico ao olhá-lo. O vendo erguer uma sobrancelha em forma de desafio. Deveria aproveitar aquele momento para afastá-lo e impor a distância devida entre ambos, mas não tivera forças para isso. Não quando ele a olhava daquele modo tão atento e intenso. Analisando cada detalhe de seu rosto, os contornos delicados e bonitos. Demorando-se algum tempo nos lábios volumosos até descer para o decote da blusa que ela vestia. Fazendo com que respirasse fundo novamente e mantivesse o olhar fixo dele ali. – Malfoy...
- Pode falar, estou ouvindo você. – disse brevemente, fazendo-a revirar os olhos. Por um lado sentia-se lisonjeada pela admiração tão direta, mas inutilmente desejava algo mais. Novamente se repreendera por deixá-lo se aproximar. Aquela experiência era arriscada e por existir esse risco continuava com ela, tanto que estava ali, praticamente presa em seus braços. - Pensei que não fosse mesmo voltar, mas digamos que estou muito "contente" com sua visita, escolheu um belo traje.
- Eu não me vesti pra te "visitar". É esse tipo de roupa que uso com frequência, tá bem? - a ruiva disse, ao soltar um muxoxo, notando o olhar dele ainda fixo em seu decote. Então o tocou no rosto, fazendo com que ele erguesse os olhos. No entanto, não havia sido uma boa ideia. Logo se arrependera por ter o olhar cinza dele de encontro ao seu. Engoliu em seco, retirando sua mão. Enquanto ainda se repreendia imensamente por dentro, por sentir-se tão atraída ao ponto de se esquecer de seus preceitos e da razão, e cometer uma possível loucura, ali mesmo. - E eu não iria mesmo voltar, mas tenho duas coisas que você não tem: consciência e coração. Sinto muito se minha compaixão ainda te deixa excitado.
- Devo admitir que sim, ainda estou bastante excitado com sua compaixão, mas devo ressaltar que está errada, minha cara... Eu tenho consciência e coração. No entanto minha consciência não se perturba com as mesmas coisas que a sua, e meu coração, dizem por aí que é tão gelado quanto o inverno. – Draco zombou encostando seu corpo mais ao dela, à medida que a auror permitia isso com seu silêncio e desejo, estampados no olhar azul vívido. Ele não se arriscaria assim por nada, e por conta daquela ânsia de estar desobedecendo algumas muitas regras, o comensal prosseguia naquele ato inconsequente. Quem poderia imaginar que o braço direito de Voldemort, o lorde das trevas, estaria encantado por uma Weasley. Uma garota pobretona, que tolerava os trouxas. Era algo inadmissível.
- Você ficou maluco? – Gina ofegou ao sentir o corpo dele de encontro ao seu. Deveria estar maluca também ou algo pior. Mas seu corpo estremecera e o coração estava aos trancos no peito por sentir aquele contato tão próximo. Algo que nunca tinha sentido antes. Nem mesmo em seu relacionamento com Harry. E isso, a deixava completamente balançada e desnorteada, porque não sabia o que fazer. O certo era afastá-lo. Só que não conseguia. Queria e desejava aquele contato imensamente. Tanto que quando percebera, suas mãos já estavam sobre o peitoral firme dele. O fato de Draco estar sem camisa permitira com que ela sentisse o quanto a pele dele era fria. Era até irônico pensar que isso se devia ao coração gelado que tinha, como havia acabado de dizer. Olhou para a mesa logo adiante, voltando-se para o comensal. – Tomou demais sua poção, não foi? Eu disse que eram dois goles pela manhã. No mínimo deve estar alucinando...
- Sei contar Weasley, foram apenas dois goles. – ele respondeu, erguendo a sobrancelha ao perceber um tom de nervosismo em sua voz. Gina era sempre tão segura, que arrancar esse sentimento nela era formidável. Não o deixava no comando da situação, mas também não o deixava tão em desvantagem. Retirou uma das mãos da porta, e a prendeu firme à cintura feminina, fazendo-a se arrepiar e surpreender. - Mas obrigada pela preocupação... O que traz de novidades pra mim?
- Está brincando, não é? Acha que vim até aqui para fazer fofoca ou te contar alguma? – indagou ao arquear as sobrancelhas. Como se todo aquele receio tivesse sido varrido por causa das palavras do comensal, que pensou que ela iria manter-se na defensiva por um bom tempo para lhe dar certa vantagem. Então ela tirou as mãos de seu peito, interrompendo o calor que ele recebia de seus dedos pequenos e cálido e cruzou os braços. - Se quiser saber, vá você mesmo procurar informação. Pode parar com esse joguinho de sedução. Já disse que não vou te dizer nada, nem sobre o efeito de veritasserum e muito menos sobre o de uma maldição cruciatus. Vai perder seu prazer em me torturar.
- Vou te torturar de outro jeito, pequena Weasley. – murmurou de um jeito provocante, enredando-a realmente no seu jogo. - Mas infelizmente não posso sair para ouvir as fofocas... Sinto-me fraco ainda e ir embora seria uma imprudência muito maior do que estar perto de você. Acredite em mim, as acomodações de Voldemort nem se comparam com a Casa dos Gritos. - emendou sarcasticamente, dando uma olhada ao redor. O quarto mal arrumado, velho, e sem luxo algum estava lhe servindo muito bem de abrigo porque Gina estava cuidando de tudo.
- Quer saber de uma coisa? Você está enlouquecendo. E eu não quero fazer parte disso. – Gina murmurou ao menear a cabeça, pois não conseguira ouvir mais nada do que Draco havia dito, depois da parte sobre torturá-la de um outro jeito. Porque agora não conseguia parar de imaginar como ele iria executar tal tortura. Era impróprio e indevido demais para ela se envolver assim com um comensal da morte, mas Draco tinha algo que a deixava cada vez mais desejosa. – Trouxe comida para você. Vai dar até que se sinta mais recuperado. É melhor eu ir embora. - virou-se, levando a mão à maçaneta, abrindo a porta. Contudo, antes que conseguisse mesmo abri-la, Draco levou a mão à porta. Impedindo-a e a pressionando contra a superfície de madeira novamente. Ela conteve um gemido ao sentir o corpo firme dele de encontro ao seu. Assim como a respiração gélida em sua nuca, a qual fizera com que fechasse os olhos. - Me deixa ir, Malfoy.
- Talvez você pudesse me fazer um pouco de companhia... Isso seria parte da sua compaixão, não é? – Draco sugeriu cheio de intenções, enquanto brincava com os sentidos dela. Gina quis ir embora, mas novamente não se movera, permitindo que ele fechasse de vez a porta, e a virasse para si. Quando avistara o olhar do comensal, a ruiva não pudera definir quais sentimentos havia ali além do desejo, mas sabia que eles existiam e isso a atraíra ainda mais. Então sem que pudesse evitar sentira os lábios dele contra os seus, derrubando suas reservas completamente.
Deus, Merlin, seja lá quem fosse, sabia que ela tentara de tudo para evitar aquele momento. Mas o desejo e a atração que sentia falaram mais alto. E não queria mesmo afastá-lo e interromper aquele beijo, porque estava adorando-o. Seu corpo parecia estar em chamas, num contraste maravilhoso com o corpo frio do comensal de encontro ao seu. E o modo tão profundo com que ele explorava sua boca deixava Gina cada vez mais surpresa. Nunca tinha sentido tanto em um beijo como naquele momento. Era um misto de perigo, adrenalina e excitação que fazia seu corpo inflamar. E sem poder se conter, seus dedos tocaram o rosto masculino, sentindo-o estremecer quando afagara a barba por fazer enquanto sua outra mão, deslizava as unhas pelo braço que a envolvia.
Não souberam precisar quanto tempo mais perderam naquelas sensações e nos braços um do outro, mas nada importava naquele momento senão aproveitarem-no intensamente. Depois se arrependeriam, ou passariam por isso sem pesar, mas agora não podiam parar. Poderia não haver uma próxima vez...
Gina poderia se afastar, e Draco poderia voltar com suas costumeiras atitudes, inundando o espaço com arrogância e frieza. No entanto, naquele instante eram apenas duas pessoas que sentiam um desejo mútuo e inegável. Não eram inimigos e isso não era relevante, e a guerra que os rodeava parecia bem longe e quase inexistente. Ela gemera contra a boca masculina, notando que ele reagia com força ao seu lamento e à carícia ousada em sua pele, então resolvera provocar, unindo seu corpo ao dele de um jeito sensual. Dessa vez fora ele quem deixara escapar um gemido sufocado. Não imaginara nunca que a ruiva pudesse lhe prender assim, dando-lhe apenas uma opção, que era a de continuar, de inventar e de ousar.
Ambos procuravam um modo para parar aquele beijo, mas nenhum conseguira fazer isso. Porque o calor do momento e daquele beijo intenso, impediam isso. Deixando-os sem forças. No entanto, findaram lentamente o carinho quando o ar lhes faltara. E não querendo se afastar, os lábios frios do comensal deslizaram pela tez quente de Gina. Apreciando a maciez e o perfume doce que emanava dali. Era um combinado de lavanda com flores campestres, que o deixara ainda mais desejoso. O suficiente para pressioná-la ainda mais contra a porta e encaixar-se em seu corpo. Como se tivesse sido moldado para ela.
- Isso é loucura, Malfoy. - Gina gemeu, ao sentir a pressão dos lábios dele em sua pele, seguida por uma leve mordida que fizera com que ela cravasse as unhas em seu braço rígido. O ouvindo gemer também com aquele contato repentino. - Era pra você tentar me matar. Será que a gente pode voltar ao normal?
- Eu lhe disse que te torturaria de outro jeito, mas tem certeza de que quer o normal de volta? – indagou roucamente, erguendo o olhar para fita-la dentro dos olhos. Definitivamente não queria a realidade usual de volta, não enquanto pudesse aproveitar os parcos momentos em que Draco não agia de má-fé, nem lhe insultava. Na falta de palavras, ele continuara a atormentar sua pele com os lábios não mais tão gélidos. - Acho que isso é um não...
- Não... droga! – Gina praguejou novamente quando ele mordiscou seu lábio, prendendo-o entre os dentes, disposto a tirar-lhe a razão.
Realmente voltar ao normal agora não era uma boa ideia. Porque queria aquele momento tanto quanto ele. Suspirou quando Draco tomou-lhe a boca novamente em um beijo ainda mais ávido. Aceitaria o arrependimento depois, mas agora iria se entregar ao momento. Porque sabia que assim que saíssem da Casa dos Gritos e se encontrassem lá fora, tudo voltaria ao normal. Ela seria a Gina Weasley pobretona de sempre, desprezada pelo braço direito e comensal de Voldemort.
Se estava confusa antes, agora que a madrugada chegava, Hermione não conseguia definir seus pensamentos. Depois da conversa sincera que tivera com Gina, muitas coisas habitavam seu coração. Sentia um alívio muito grande pela ruiva ter-lhe dito que não havia nada entre Harry e ela, e que só sentia por ele uma grande afeição. E mesmo que estivesse tranquila, sentia também medo, porque agora havia outra pessoa que conhecia seu segredo além de si mesma, mas tinha certeza de que Gina não faria nada que pudesse ferir Rony, então poderia relaxar o mínimo que fosse. Mas o que mais lhe afligia era o desprezo de Harry, um ato mais do que merecido, porque deveria ter sido mais corajosa e não ter se escondido na conveniência de seu noivado.
Ouvira todos chegarem em casa e silenciosamente seguirem seus caminhos. Pedira um tempo a Rony, alegando cansaço, mas tudo que queria era esperar Harry em paz. Estava preocupada com ele, principalmente depois que soubera de suas intenções de ir buscar as horcruxs sozinho, seguindo um caminho perigoso e por conta própria. Sentia-se culpada por força-lo a tomar essa decisão e esperava poder convencê-lo do contrário. Ou pelo menos de levar alguém consigo. Poderia ser até Gina, mas contanto que o moreno estivesse seguro, ela não se importaria.
Suspirou fundo, encostando a cabeça no vidro frio. Chovia um pouco lá fora, e o cenário era típico desta época do ano. Não obstante, parecia que com sua guerra, Voldemort também trouxera a melancolia e a obscuridade que encobria todo o mundo bruxo. Puxou as mangas do suéter até cobrir-lhe as mãos, e se abraçou num gesto de confortar seu coração inquieto. Mas sabia que apenas quando Harry chegasse é que poderia descansar.
Passara então um bom tempo ali, vigiando o escuro além das casas que eram distantes, até que escutasse o estampido comum de quem aparatara.
Sorriu aliviada, ao ver o moreno caminhar até o alpendre e sumir de vista. Rapidamente Hermione saíra do quarto, mas antes se olhara no espelho. Não desejava que ele a visse de qualquer jeito, e por mais que a situação entre eles fosse indefinível, sua vaidade era maior. Queria tolamente que o auror lhe admirasse. Então desceu as escadas pulando os degraus e o chamou.
- Harry, graças a Merlin você chegou! – exclamou sem se importar com uma possível nova rejeição e se aproximou. O sorriso que esboçara minutos atrás morrera em seus lábios ao notar a camisa dele manchada de sangue. Seu semblante se empalideceu, e ela buscou o olhar de Harry com certa urgência. - Está ferido...
- E mais uma vez você demonstra o quanto é inteligente. – ele disse irônico ao seguir até a cozinha. Querendo muito não ter sido tão ríspido e não se importar com a preocupação dela. Mas não conseguia fazer isso. Principalmente quando se lembrava do modo frio com o qual Hermione havia desprezado seus sentimentos ao se declarar. Conjurou uma toalha ao entrar no cômodo, pegando algumas poções no armário ao lado do fogão, deixando-as em seguida, sobre a mesa. Abriu os botões da camisa e tirou-a. Ainda estava perturbado demais com seus pensamentos. Por isso procurou por algo para se distrair, até encontrar um comensal e duelar com ele. Se seus pais soubessem disso com certeza levaria uma bronca, mas não se importava com isso. Ergueu seu olhar para a morena parada à porta, e suspirou. - Se era minha ausência que estava tirando seu sono, já pode ir dormir. Eu me viro.
- Por favor, me deixa te ajudar... Eu não vou conseguir dormir enquanto estiver aqui, cuidando de si mesmo, como se não houvesse ninguém que se preocupe. Porque eu me preocupo muito. – Hermione disse também sem se importar com o olhar gelado dele e o silêncio que viera em seguida. Mesmo que merecesse aquele desdém, não iria se deitar enquanto Harry não estivesse bem e devidamente cuidado. Então se aproximou dele, tomando a frente dos primeiros socorros, e como não estava com sua varinha, decidiu fazer tudo manualmente, assim teria mais tempo ao lado dele. E isso era tudo que desejara durante a tarde toda e desde que haviam se falado pela última vez. – O que aconteceu com você?
- Estava fazendo uma ronda, Hermione. Encontrei um comensal e decidi prendê-lo. Foi só isso... Por favor, não me toque! – Harry bradou, ao dar um passo para trás quando Hermione fizera menção de limpar o ferimento. Ela o olhou surpresa, percebendo que ele realmente falava sério. E todas as vezes que ela o olhava, Harry sentia-se humilhado. Um completo imbecil por ter sido tão sincero em confessar seus sentimentos. Podia ser egoísta por pensar que Hermione devia lhe corresponder, mas jamais teria dito que a amava se ela não tivesse lhe dado esperanças para isso, ao corresponder tão intensamente aos beijos que trocaram. – Do mesmo jeito que você não quer que eu te toque, você também não vai me tocar. Já disse que me viro.
Hermione se afastou magoada, e sem jeito, não sabia o que fazer com as mãos, por isso, as apertara uma na outra num gesto nervoso. Sentira seu coração se comprimir no peito e aquela dor voltar com intensidade. Harry a odiava, e agora tinha certeza disso. Logo as lágrimas ameaçaram cair de seus olhos e ela respirou fundo, não queria ser fraca novamente, mas como conseguiria controlar aquela tristeza? O havia perdido para sempre e nada poderia mudar essa verdade. E apesar de tudo não podia abandona-lo, não dessa vez, então o fitou com o olhar castanho marejado, porém obstinado.
- Sei que quer me punir de alguma forma ficando longe de mim, mas não faça isso com você mesmo, Harry. Eu estou aqui agora e quero te ajudar. E... Se depois disso, nunca mais quiser falar comigo, ou se quiser que eu vá embora daqui, não vou reclamar, mas agora não vou fazer o que você quer. – disse firmemente, o irritando com sua teimosia, mas não iria ceder. Aproximou-se novamente e pegou a gaze, molhando-a numa das poções, o encarou esperando sua resposta.
- Eu estou tentando cumprir minha promessa, Hermione. E você não está ajudando... – gemera quando ela se aproximou de uma vez, cobrindo seu ferimento com a gaze. A ardência da poção sobre o corte fez com que ele fechasse os olhos. Ignorando por um momento aquela aproximação. Mas bastou acostumar-se com ela para que se deparasse com o olhar intenso e preocupado da morena. Suspirou fundo, sentindo seu corpo reagir naquele momento. E como quisera manter sua pose fria e distante. Porque ainda estava magoado e ferido com tudo que havia acontecido. – Por que estava me esperando? Pra que essa preocupação toda se vai se casar com Rony?
- Sempre me preocupei com você, e só porque vou me casar com Rony não quer dizer que esse sentimento vá desaparecer. - Hermione comentou tendo vontade de completar sua frase de uma forma mais direta. Diria que não conseguiria deixar de ama-lo assim, de uma hora para outra, mas tinha que se manter quieta. Talvez se Harry a odiasse seria mais fácil levar aquele casamento adiante e tudo ficaria bem. - Fiquei te esperando porque não consegui dormir com medo de algo te acontecer, além disso, você está me evitando e essa atitude está me machucando muito. Eu magoei você, mas não foi de propósito. Porque teve que dizer aquilo, que me ama?
- Porque é a verdade. – Harry disse de modo direto, fazendo com que ela o olhasse. Seu tom de voz agora era mais calmo e sincero. Longe da ironia e da frieza que ele usava desde que tinha colocado os pés naquela casa. E quando fitou o olhar verde do auror, Hermione pudera enxergar vários sentimentos ali. E todos eles demonstravam o que ele realmente sentia: que a amava e a admirava de uma forma que nenhum homem fizera antes, muito menos Rony. Ele então suspirou ao encostar-se a mesa, desviando seu olhar. Mais uma vez estava bancando o ridículo ao se declarar diante dela. Porque sabia que em seguida Hermione iria desprezá-lo outra vez. – Precisava te provar o motivo que me levou a te beijar naquele dia. Foi por alívio sim, eu admito. Mas também foi porque tive medo de te perder. Medo de pensar que nunca poderia fazer o que sempre desejei fazer quando estou com você.
Hermione não soubera o que responder naquele momento. Estava tão chocada com aquela declaração, muito mais do que quando a ouvira pela primeira vez, porque Harry estava sereno e firme, não como antes, mais intenso. E isso a confundia ainda mais, porque agora não tinham nada para aquecer seus sentimentos a não ser eles mesmos, que já eram fortes o bastante. A morena respirou fundo, retribuindo o olhar dele. Se Harry tivesse dito isso bem antes poderiam ter ficado juntos sem que ninguém mais saísse ferido dessa história. Por mais que não amasse Rony como o amava, se preocupava com o noivo, e era por isso que não tinha coragem ainda de desistir de tudo. Não obstante as palavras de Gina completavam todo o significado dessa situação. Harry a amava, mas ela não sabia o que fazer agora.
- Mas esquece de tudo que eu disse, está bem? – ele cortou o silêncio após não ouvir palavra alguma da bruxa como resposta. E de certa forma, isso doera menos do que ela lhe jogar na cara que era Rony quem a amava e que iriam se casar. De modo gentil e um pouco rápido, tirou a mão dela de seu corpo, que ainda cuidava de seu ferimento. Então se afastou, pegando sua camisa ao lado e vestindo-a. Tentando ignorar o olhar atento dela em si. – Quer saber? Você tem razão. Rony te ama. Vocês vão se casar. E com certeza você o ama também. Não aceitaria esse pedido de casamento se não o amasse. Eu vou superar, Hermione. Só preciso ficar longe de você por um tempo. É... Só isso.
- Por esse motivo vai procurar as horcruxs, sozinho? – ela retrucou rápida, reunindo toda a sua coragem para falar, porque sua voz não era firme o bastante para continuar aquela conversa. Mas o fizera, e o encarou com intensidade. Estivera também pensando nisso todo aquele tempo, e tal ideia lhe tirava o sossego. Imaginar Harry saindo dali, sendo um provável alvo, pois todos os comensais tinham ordens expressas de levá-lo até Voldemort, era assustador. Hermione sentira um frio invadir seu corpo e trêmula dera um passo à frente, exigindo ficar mais perto dele. Estava cansada de chorar, mas isso era a única coisa que amenizava o que sentia. Não era fraqueza, mas uma forma de se fortalecer para o que precisasse fazer. – Vai embora numa missão suicida para ficar longe de mim?
- Não é só para ficar longe de você. É porque eu preciso. Sabe que eu sou o único que pode colocar um fim nessa guerra toda. Estou cansado de ficar me escondendo, esperando o Ministério tomar alguma atitude e traçar planos só para me proteger. – disse, enquanto se ocupava em tampar os frascos de poções sobre a mesa e guardá-los novamente. Tudo para não se torturar enquanto olhava para Hermione. Porque a partir de agora, teria que conviver apenas com as lembranças dos beijos que trocaram. Do sabor doce de sua boca e do modo intenso que ela o correspondia, enquanto a mantinha em seus braços com extremo zelo. Como se fosse frágil e importante demais, temendo que algo pudesse feri-la a qualquer momento. – Não é isso que você quer? Um mundo seguro para que você e o Rony sejam felizes para sempre depois do casamento, com seus filhos andando por aí depois de um tempo?
- Não quero nada à custa da sua segurança e da sua vida. Se o Ministério traça planos para te manter seguro é porque você é importante, e para mim não apenas para acabar com essa guerra. – a morena falou, deixando as lágrimas escaparem dos olhos tão tristes. Jamais sentira algo assim antes, nem mesmo quando estivera cara a cara com um dementador. A dor de perder Harry de qualquer maneira seria a pior coisa que aconteceria a ela. Mordeu o lábio para abafar um soluço. Queria tanto fazê-lo ficar, mas queria mais que sua vida fosse outra. Era com ele que desejava e que fazia planos, mesmo que secretos. Queria que Harry fosse seu marido e o pai de seus filhos, mas ambos foram covardes demais até aquele momento em que ele tomara a frente e se declarara. – Não vá sozinho, Harry, por favor...
- Já tomei minha decisão, Hermione. E já comuniquei ao Ministério também, deixando bem claro que não quero que ninguém vá comigo. Preciso de um tempo sozinho. Vai ser melhor assim. – Harry disse entre um longo suspiro. E por mais que estivesse magoado e humilhado por Hermione rejeitá-lo, não podia se conter ao se aproximar dela. As palavras de sua mãe lhe dizendo para lutar ainda ecoavam em sua mente. E seu coração gritava imensamente por isso. No entanto, sabia o que ela iria lhe responder naquele momento. Mas precisava se arriscar novamente. A olhou nos olhos, enquanto ela recuava ao ponto de encostar-se a mesa atrás de si. – Me diz uma coisa, Hermione. Olhando nos meus olhos. Você ama o Rony? Porque não foi isso que pareceu quando eu te beijei.
Ela tentou desviar o olhar do dele, mas não conseguira, Harry a atraía sem que pudesse refrear seus atos, e principalmente seus sentimentos. Suspirou fundo, não por pensar em Rony, ou qualquer outra coisa, mas por vê-lo chegar mais perto de si, esperando uma resposta que fosse, para talvez acalmar seu próprio coração. Mas novamente ela não pudera dizer nada e o silêncio deixara o moreno cheio de dúvidas, no entanto se ela amasse o noivo não hesitaria em responder. Conhecia Hermione e ela nunca titubeava quando tinha certeza, só deveria estar assustada demais com seus sentimentos para poder agir como ele mesmo queria que agisse.
- Não... Não me pressione assim. Todos sabem o que sinto ou esperam que eu sinta... Isso não importa. Só não quero que fique longe de mim, não quero que se arrisque sozinho por aí. – Hermione disse angustiada, e sem receio algum tocou o rosto masculino com cuidado. Seus dedos trêmulos e frios se aqueceram com aquele toque e por mais que Harry estivesse magoado e irritado antes, entendia que precisavam de um tempo para pensar direito. Talvez essa distância fizesse com que ela enxergasse que a amava, e que a queria intensamente.
- E o que você acha que eu tenho que fazer? Ficar por perto e ver a mulher que eu amo se casar com meu melhor amigo porque fui idiota demais ao ponto de perdê-la? – indagou em uma voz rouca e baixa, ao se aproximar ainda mais de Hermione. A falta da resposta resoluta lhe dera a liberdade para se chegar mais perto. Estava desejoso demais para não fazer isso. Seus olhos fixaram-se na boca rosada, obrigando-o a respirar fundo. Ainda se lembrava do como era maravilhoso beijá-la. Por isso esquecia sua mágoa, frieza e o que ela lhe dissera sobre não tocá-la. Inclinou-se, roçando seus lábios aos dela e a ouvindo gemer baixo. – Isso está acabando comigo, Mione. Será que não percebe?
- Harry, eu... Eu... – ela murmurou num tom baixo, aceitando cada gesto carinhoso dele: as mãos que se firmaram em sua cintura, a junção dos corpos cálidos, e o olhar intenso, principalmente aquela declaração. Hermione não recuara, nem quisera lhe dizer as mesmas palavras de antes, porque não podia estragar tudo ainda mais. Se deveria ser corajosa era chegado o momento certo. Respirou fundo, e prendeu os dedos contra a camisa que o auror vestia, aproximando sua boca da dele sem demora. Sentia-se angustiada e isso contribuía para aquela pressa que o surpreendera. Há minutos atrás, não dissera que amava Rony, porque não amava, e só precisava de um tempo para reunir forças e desfazer aquele compromisso insano; uma vida inteira ao lado de alguém que não amava era um preço alto demais para se pagar. Roçou seus lábios aos masculinos apreciando uma calma que parecia não existir entre eles, sentir novamente o sabor da boca de Harry era incrível.
Ele gemera baixo ao senti-la tão entregue e desejosa ao beijo quanto ele estava. Exatamente como nas outras vezes em que se beijaram. E embora estivesse eufórico com aquele momento, também estava confuso. Apesar de Hermione não ter dito que amava Rony, também não disse que o amava. E mesmo assim ela estava em seus braços, instigando seus sentimentos e lhe despertando sensações que eram indescritíveis. Por isso decidira deixar tudo de lado e se deliciar ao momento. Cada vez que a tinha para si era maravilhoso.
Mordiscou o lábio inferior avolumado, arrancando dela um novo gemido que fizera ambos estremecerem. E sem delongas, iniciara o beijo intenso e cálido. Deslizando seus dedos até a nuca feminina, afagando-a suavemente, enquanto pressionava o corpo pequeno ao seu. Aquela noite faria parte de suas lembranças, porque não a beijaria daquele modo tão apaixonado como fazia agora. Ela iria se casar com outro. E todos aqueles carinhos seriam para outro.
Doía imensamente todas as vezes que Harry se lembrava disso.
Nota das autoras: Beem, voltamos! Antes tarde do que nunca... Enfim espero que não tenham desistido da fic, porque nós ainda não! Vamos postar com mais frequência e isso vai depender dos reviews e da colaboração de todos kkk Portanto, comentem muitoooo. O que acharam do capítulo?
ERRATA: Gente, por favor não deixem de ler aqui. No capítulo 1 fizemos referência ao irmão assassinado da Gina, citamos que era o Percy, mas não... O BILL (GUI) foi morto pela Bellatrix. Ok? Já fizemos a mudança no capítulo, mas só pra reforçar.
BEIJOOOOS.
