Turn the Light in Your Eyes
Capítulo 4
- Você acha mesmo que ela acabará indo? - perguntou Burgess enquanto subia as escadas que davam para o escritório da Unidade de Inteligência.
- Erin pode estar entorpecida, mas não é burra. Tudo o que ela faz é intencional. Digo... Tem uma explicação.
Era nisso que Halstead se agarrou desde que nunca ouvira mais falar de Erin. E queria continuar a ter certeza disso mesmo depois do primeiro atrito que tiveram depois de tanto tempo. Um encontro que deixou a impressão sutil de que nada mudara entre eles.
Mas, pelo visto, havia mudado. Muito. Ao ponto de lhe restar apenas suposições.
Somando tudo que vira na companhia de Erin no decorrer de suas carreiras na Unidade de Inteligência, e até mesmo o que enfrentaram e compartilharam no âmbito pessoal, sabia que podia dizer com certa propriedade que capricho era uma palavra que não pertencia ao dicionário da sua ex-parceira. Ela estava em negação, das pesadas, e revê-la só o fez sentir com mais emergência a necessidade de tirá-la do ciclo vicioso.
O reencontro não fora programado, nem muito menos a oportunidade de sair de Chicago. Burgess pensara em tudo. Pensara fora da caixinha, algo que também não vinha fazendo há certo tempo. A ideia de Nova Iorque era uma esperança, mas Halstead ainda estava ciente de que o convite poderia não dar em nada – o que o obrigaria a pensar em um plano B.
No fim, estava mais preocupado que antes. O reencontro tirara Erin do sério, mas as emoções dela permaneciam irredutíveis. Ao contrário das suas emoções que estavam à flor da pele, forçando-o a fazer vigília pelo seu autocontrole que estava por um fio.
Sabia o quanto era deveras complicado trazer uma pessoa querida de volta, principalmente quando estava prestes a vê-la desvanecer da sua vida. Intimamente, sabia que não podia deixar Erin ir, mas, ao mesmo tempo, sentia que era hora de simplesmente abrir mão dela.
Seu lado fisgado pela ex-detetive não queria trabalhar naquele dia por querer estar com ela, para dar-lhe mais confiança de que viajar seria uma boa para espairecer. Para sair do ciclo vicioso. Para sair do domínio de Bunny que, secretamente, sabia que era manipuladora. Só que Erin calara tudo com uma negativa, deixando-o apenas com o agridoce do insucesso.
O bom é que Benson estava a par de qualquer pouso surpresa de Erin nas redondezas – e ainda não acreditava que tinha entrado em contato com a Sargento pelas costas do seu patrão. Só que, no fundo, Halstead ainda se sentia com as mãos atadas. Agora, dependia dolorosamente da decisão de Erin e esperava que ela acatasse.
Halstead e Burgess estavam atrasados, mas ninguém da Unidade de Inteligência se atrevera a perguntar os motivos ou fazer alguma piada indevida. Recolheram uma espiada de Ruzek dali (que mais parecia uma espiada enciumada), outra de Voight e uma de Antonio (que se ocupavam com a lousa de estudo de caso). O choque foi duplo ao verem o que estava pendurado na tela branca enquanto se acomodavam.
Como se estivessem conectados, ambos foram arrematados pelas lembranças vívidas de uma mulher dilacerada na noite anterior. Deitada em um museu, com um sorriso grotesco na face.
Era impossível não ver Nadia naquele caso, Halstead pensou, ignorando um salto no estômago. Sabia que Burgess pensava o mesmo só pela maneira como ela se ateve aos seus poucos pertences sobre a mesa. Influenciado, também poupou uma olhadela nas imagens, apurando a audição para capturar o que era falado.
Enquanto os colegas conversavam, uma parte do seu íntimo o alertou sobre a chamada de atenção do dia de Voight. Halstead sabia que seria chamado de canto a qualquer momento, como vinha acontecendo quase todos os dias. Ironicamente, desde que Erin se fora. Parecia que o Sargento queria culpá-lo, ou algo do tipo, por deixá-la ir, sendo que nem chegara perto de interrompê-la. Fato é que se sentia como um aluno que subitamente o professor pegou birra. E como odiava essa sensação. Principalmente de sentir os olhos dele na sua nuca.
A sensação de ter sua atenção chamada em breve só aumentara por causa de uma lembrança da noite anterior. Fora despachado da cena do crime por motivos de álcool e até poderia usar o efeito disso como desculpa. Sempre dormia mais quando bebia por ser a forma que seu corpo reagia. A diferença que poderia dar em mentira é que não tinha bebido tanto e não dormira o bastante. Tivera outra aventura na madrugada que ainda o perseguia também.
Recolher uma Erin ao relento. Vigiá-la enquanto recebia litros de soro na veia.
Voight nem podia sonhar com uma coisa dessas.
Forçou-se a manter a audição apurada, mas seus sentidos oscilaram e o afastaram da realidade de novo. Agora, remoía fragmentos do reencontro. Percebeu que ainda estava agitado e isso não era bom. Mesmo que Burgess tenha tomado a direção do carro, o percurso até a UI não fora o suficiente para se restabelecer. De novo, sentia Erin impregnada na sua pele, criando uma comichão incômoda ao ponto de fazê-lo se contorcer na cadeira.
Pensar em Erin, a essa altura do campeonato, era um prato cheio para deixá-lo distraído. Principalmente porque parte de si havia guardado o quanto o estado dela era deplorável. Irreconhecível, considerando a última vez que a vira tão de perto.
Sua distração não durara muito tempo. Um pigarro de Voight foi o bastante para tirá-lo do devaneio. Arrumou a postura e se obrigou a estudar a lousa enquanto pegava seu bloco de anotações. Recordara os detalhes da noite no museu, embora parte dele ainda acreditasse que aquela cena se tratava de um sonho bem ruim.
Todas as vezes que lidava com um caso como aquele, se perguntava o limite do ser humano. O que fazia uma pessoa ir tão longe para cometer crimes hediondos. Furtos, tiroteios, tráfico de drogas eram tópicos suaves perto daquele que cobriam agora. Pelo rigor com a vítima, era provável que seria um serial killer, o tipo que sentia prazer no que fazia. Inclusive, que era cauteloso e inteligente o bastante para não deixar um cenário desordenado.
Aquela vítima era parte de um espetáculo ainda sem nome e as fotografias, muito bem organizadas por Antonio, eram dignas de dar arrepios tão quanto a cena real.
Entre fotos e rabiscos, percebeu algo novo. Um novo rosto em meio ao teatro acarretado por alguém ainda não descoberto. Embaixo, um nome escrito de vermelho. Acima, a vítima com suas feições intocadas. Um belo contraste com o resultado final.
- Dorothy Labreck. - Antonio apontou para a fotografia que não parecia tão recente da vítima. - Encontrada ontem à noite por volta das 23 horas no museu de Artes de Chicago. De acordo com a perícia, não há sinais de estupro, só de estrangulamento. As demais partes do corpo estão intactas, salvo o rosto. Isso anula, ao menos por enquanto, quaisquer chances de acionarmos a Unidade da Benson.
Burgess e Halstead não conseguiram evitar o olhar cúmplice de insatisfação.
- A perícia agora tenta encontrar traços de DNA no corpo e nas vestes. Com sorte, teremos algo até o meio da tarde.
- Esse é um crime premeditado e feito a dedo. - Ruzek tomou o discurso de Antonio. - A hora da morte confirma que a vítima foi trazida para o museu, a julgar também pela ausência dos pertences. Não há sangue no local. O crime foi feito em outro lugar, horas antes, provavelmente à tarde. Em algum lugar privado e íntimo, seu atacante teve tempo para deixá-la do jeito que queria.
- E vale dizer o gosto teoricamente artístico - arrematou Antonio olhando para cada detetive. - O corpo estava posicionado perfeitamente aonde as luzes noturnas do museu batem para destacar a obra do mês. Era como se a vítima fosse a obra do mês, trajada com uma fantasia que remete a uma boneca de sorriso macabro. Quem quer que tenha feito isso queria que Dorothy fosse encontrada e vista. O que caracteriza um atacante que quer exposição.
Os olhos de Halstead quicavam de Dawson para Ruzek, e vice-versa, conforme recebia todas aquelas informações. Escrevia o pertinente enquanto sua mente montava o quebra-cabeça. Tudo batia, tendo em vista a exposição de Dorothy. Ela foi tratada para ser exibida e a escolha do local caíra como uma luva.
- O critério de exposição da vítima nos dá muito da personalidade de quem fez isso. Algo ainda muito frio por termos só Dorothy... E esperamos que permaneça dessa forma. - Antonio prosseguiu enquanto batia a caneta no seu bloco de notas. - No mínimo, a pessoa que fez isso teve acesso ao museu. A pessoa que fez isso teve tempo suficiente para bolar, fazer e expor.
- E há algo mais - a ponta da caneta de Ruzek bateu em uma das fotografias da vítima. Um círculo vermelho ressaltava duas máscaras, uma feliz e uma triste, na nuca de Dorothy. A dupla de máscaras cênicas. - A vítima possivelmente tinha gosto pelas artes, o que não torna sua escolha aleatória. Uma mulher envolvida com artes cênicas em um museu de arte?
Ruzek deixou a questão no ar. Não obteve resposta, o que abriu brecha para Burgess expor seu ponto de vista:
- O que calha no mesmo raciocínio do caso de Elizabeth Short, a vítima chamada de Dália Negra. Ela também tinha aspirações artísticas. Há dados de que ela queria morar em Chicago para ter uma carreira de modelo. Pode não ser um copycat, mas há semelhanças.
- Provavelmente, temos um admirador do caso da Dália Negra. E se for um admirador, devemos nos preocupar porque ninguém respondeu efetivamente ao que aconteceu com Short. Ela foi uma única vítima e o caso acabou enterrado, por assim dizer.
Aquilo não pareceu deixar Voight nem um pouco satisfeito.
- A diferença até então dos dois casos - Ruzek pregou duas fotos de Elizabeth Short na lousa. Uma ao lado do rosto intacto de Dorothy e a outra ao lado do corpo violado. - é que a nossa vítima não foi desmembrada e foi trajada de boneca. O corte de orelha a orelha, simbolizando um sorriso, faz parte do MO da Dália Negra.
- Sobre a mutilação: o assassino da Dália Negra cortou clinicamente o corpo da vítima e o expôs em um ângulo preciso para que pudessem notar que houve o desmembrar. Algo que não está presente no caso de Dorothy, que só teve o sorriso em destaque.
- Elas têm a mesma aparência. - Burgess acrescentou ao argumento de Antonio. - Cabelos negros e pele muito branca.
Halstead estudou as fotografias. Elizabeth Short, antes e depois. Dorothy, antes e depois. De um lado, uma aspirante a artista. Do outro, um pedaço de ser humano exposto de um jeito que a vítima atual deles não fazia jus. O mesmo para Labreck, cujas aspirações não eram confirmadas, mas a tatuagem dizia muito. Havia a mesma brutalidade e o mesmo aparente desejo de tornar a morte um espetáculo.
Uma obra de arte.
Um relampejo de memória o fez sentir um embrulho no estômago. Fechou os olhos para tentar dispersar a imagem de Nadia da sua mente. Mas seus pensamentos empacaram em uma única cena: o corpo dela descoberto, enterrado e abandonado no meio da praia. Olhos congelados. Boca entreaberta. Nua.
Sentiu a mesma coisa durante o caso Yates: a falta de compreensão das mentes que se aproximavam da crueldade do assassino de Nadia.
Halstead se levantou como se descobrisse que tinha acabado de sentar em um formigueiro. Escorou-se na mesa de Erin, como costumava fazer, espaço que agora pertencia à Burgess, que gentilmente o empurrou para o lado por não conseguir ver a lousa.
- Temos que torcer para que seja um serial - disse Olinsky com a voz calma de sempre. - Não é o que desejo, mas, se Dorothy for filha única, esse é um caso que não teremos muito que fazer. Mesmo com as semelhanças entre Labreck e Short, o que também é uma suposição
- Quem quer que seja, acha que sairá impune porque cometeu um crime só. Chances de continuidade parecem baixas se conversarmos sobre um copycat. Ele ou ela nos fará andar em círculos, pois não temos evidência palpável.
- A vida é maravilhosa quando se repete os insights dos outros.
Halstead não precisou encarar Voight para saber que a indireta tinha sido para ele.
Esfregou o queixo, pensando em qualquer coisa para não devolver a afirmação com uma resposta ácida. Além de se sentir o aluno que o professor tinha birra, Halstead também se sentia o aluno que tinha que se provar o tempo todo. Aquele que o professor sempre escolhia para humilhar em sala de aula e que todo mundo ria por não dar a resposta correta.
Além das provocações gratuitas, Voight vinha testando seus ânimos também, como se duvidasse da sua capacidade com a troca de parceira e, claro, seus sentimentos por ela.
- Não é preciso fazer a lição de casa quando é óbvio que não dá para traçar o perfil de quem fez isso. - Halstead se virou para enxergar melhor o Sargento. Seus olhos faiscavam de consternação. - Pode ter sido qualquer pessoa maluca o bastante depois de um singelo resfriamento emocional. Alguma coisa foi despertada no interior dessa pessoa para fazer isso e é aonde devemos focar se quisermos chegar a algum lugar.
Halstead foi até a lousa e parou ao lado de Voight.
- Temos as câmeras do museu. Temos o nome da vítima. Alguém nesse meio acabou frustrado e cometeu um crime que, possivelmente, deve ter acompanhado a vida toda para criar a própria assinatura. Essa pessoa quer atenção e deixou o caminho fácil, ou simplesmente teria desaparecido com a vítima.
10 pontos para mim, pensou Halstead, oferecendo seu sorriso cínico – e típico – para um Voight irredutível no canto da lousa.
- Isso tudo - Ele apontou para a lousa - é vago. Um copia e cola só que adaptado para o século 21. O grande problema com casos como aquele - seu dedo indicador apontou para Elizabeth. - é que só um corpo foi encontrado e as evidências desde o princípio foram rasas. Acreditem quando digo: essa pessoa quer ser encontrada ou teria abandonado Dorothy a céu aberto como aconteceu com Elizabeth. Isso é um desafio.
- Nunca saiu da minha cabeça que o abandono de Elizabeth a céu aberto foi tão premeditado quanto o crime. Quer dizer - Burgess puxou o ar com clara dificuldade. - para mim sempre foi intencionado a contaminação da cena. Short foi encontrada, chamaram a polícia, mas a mídia chegou antes e comprometeu tudo.
- O sensacionalismo que com certeza não queremos - afirmou Voight desviando a atenção de Halstead para ocupar o centro da sala. Olhou para cada membro da UI, daquele jeito que poupava palavras. - O museu foi fechado até última ordem. Pedimos que divulgassem um falso vazamento de gás até voltarmos lá para examinarmos a cena mais uma vez.
- E o zelador? - indagou Halstead com energia.
- O zelador está aqui para ser interrogado. - Voight apontou para Mouse. - Pressione pelo acesso das câmeras do museu. Cruze também o nome de Dorothy com teatros e centros artísticos das redondezas. Atwater lhe dará uma força.
Halstead nem chegara perto da sua mesa quando ouviu Voight convidá-lo para a sala dele.
Lá ia o aluno para a sala que o lembrava da diretoria da escola. Perdera as contas de quantas vezes ficara sentado a espera da sua mãe ir buscá-lo. Não que fosse um encrenqueiro, mas a encrenca sempre dava um jeito de encontrá-lo.
A porta se fechou e já estava preparado para receber o sermão que demorara a chegar. Havia semanas que Voight e ele se alfinetavam, mais que o normal. De um jeito que tornava o ambiente de trabalho cada vez mais insustentável.
- Como ela está?
Voight foi direto ao ponto assim que se sentou. Halstead não conseguiu disfarçar a surpresa porque era a primeira vez que o Sargento se atrevia a citar Erin. Citar mesmo, daquele jeito, de chamá-lo para um canto a fim de coletar informações que retinha e que não compartilhava.
Se passara dias controlando os passos de Erin a distância, fato era que Voight deveria ter feito o mesmo com ele. Era o único meio para explicar toda a convicção do que se tratava aquela conversa sem ao menos precisar citar o nome do assunto.
- Boa pergunta - mentiu, na cara dura, com uma expressão lívida. - Telefonei incontáveis vezes até desistir.
- Halstead, você sabe qual é meu principal talento?
Havia momentos que as perguntas de Voight imploravam por respostas mal-educadas. Daquele nível que a pessoa pede para ser demitida. Se não amasse muito o que fazia, aquele seria o momento propício para dar uma de louco e largar o distintivo para o próximo sortudo que teria que aturar um Sargento que testava demais sua paciência.
- Sou um detector de mentiras. - Um sorrisinho cínico brotou no rosto de Voight. - Isso quer dizer que sei quando cada um de vocês mente para mim. Neste instante, você está mentindo. Essa carinha de adolescente que recebeu um fora do amor platônico está mais transparente que a do detetive interessado no caso do momento.
- Engraçado o senhor me fazer perguntas sobre Lindsay, sendo que claramente só faltou monitorar aquilo que ordenou ficar dentro das minhas calças.
Ali estava. A resposta malcriada.
Viu o brilho dos olhos de Voight desaparecer. Tornaram-se dois túneis negros, sem íris, aviso que tinha pisado no acelerador e colidido no nervo sensível.
- Desculpa, Sargento. - Se apressou a dizer ciente de que seu pedido não adiantaria de absolutamente nada. - É que, às vezes, acho que o senhor não está nem aí.
Voight o encarou sem pestanejar. Parecia que o homem tinha parado de respirar também. Halstead sentiu que estava encrencado e emudeceu esperando sua última sentença.
- Eu deveria dispensá-lo por essa resposta, mas muito me alivia saber que não precisei grampeá-lo... Se é que me entende. - Voight apontou para Halstead, em um tom desafiador. - E sei que não ficou dentro das calças. Como disse, sou um detector de mentiras e, inclusive, sei fingir que não vejo nada.
Halstead mordeu a língua para não dar outra resposta, tal como "obrigado por não ter colocado um GPS nas minhas partes, Sargento". Preferiu apoiar as mãos na poltrona mais próxima, usando-a como seu eixo. Seus dedos se curvaram automaticamente, os nós ficando brancos indicando não só a força que pressionava o couro, mas o quanto estava com raiva.
- Não sei como ela está - repetiu, com mais sinceridade. Não estava mentindo sobre essa parte. Só conseguiu vê-la realmente naquela manhã e também não tivera tempo de chegar a uma conclusão. - Mas sei que ela não quer voltar e chegou o momento de respeitarmos isso.
Voight cruzou os braços e estalou a língua no céu da boca.
- Apesar do que anda acontecendo, confio no juízo da Erin. Ela está perto do fundo do poço e quero acreditar que em algum momento ela cravará as unhas para impedir a queda completa.
Halstead queria bem saber como Voight tinha tanta certeza de que Erin estava no fundo do poço. Ali estava a possível prova de que não fora o único a fazer vigília na porta de Bunny.
- E enquanto isso é melhor deixá-la pra lá?
- Você não a conhece, filho. Você acha que sim, mas não sabe metade da missa.
Queria que aquela afirmação fosse uma provocação de Voight, mas não era bem assim. Seu consciente sabia que não conhecia Erin tal como, muito provavelmente, Ruzek conhecia Burgess. Se bobear, até Mouch e Platt se conheciam melhor que Lindsay e ele. Só tiveram alguns dias de intimidade, mas isso não significava horas e horas de conversas sobre quem foram no passado e o que gostavam nas horas vagas.
Até mesmo quando trabalhavam não conversavam sobre essas coisas, pois estavam ocupados demais alfinetando um ao outro ou flertando indiretamente.
- Não sou a melhor pessoa que fica de braços cruzados sem fazer nada.
- Ninguém aqui está de braços cruzados sem fazer nada - corrigiu Voight com tranquilidade. - O que acontece é que cada detetive tem sua maneira de lidar com traumas de cada caso. Você teve seus traumas no exército, certo?
Voight pausou até ver Halstead anuir.
- E tenho certeza que você não pediu o colo do seu irmão para chorar.
- Tinha do Mouse.
Um sorriso contido surgiu nos lábios de Voight.
- Ela está perdida. - As emoções de Halstead se destacaram na sua voz. - Sinceramente não consigo ver um caminho de volta. Não precisa ser necessariamente para a Inteligência, mas de volta para si mesma.
- Ela precisa de tempo e de espaço - rebateu Voight. - Erin está dentro de uma das lutas mais árduas, Halstead. Brigar consigo mesmo até atingir o nível mais humilhante da própria existência. E, particularmente, quero que isso aconteça. Sempre é mais fácil viver em negação a se encarar diante do espelho e admitir que errou.
Halstead não queria acreditar que Voight usava aquele momento para clamar que era uma prova viva de que corrupção tinha seu ponto de retorno. Sentiu vontade de rir, mas se conteve. Já havia dado a patada do dia para cima do seu chefe. Tinha que manter o conflito interessante para o dia seguinte.
- A minha ordem de relacionamento na minha Unidade prevalece.
Não havia argumento que tirasse Halstead do sério.
Só aquele.
- Se você acha que estou atrás de Erin por me sentir um adolescente apaixonado e perdido, rebobine essa fita. - Halstead puxou a poltrona e se sentou. Queria estar na mesma altura de Voight para dar sua resposta. - Acima de tudo, ela é minha parceira. Tenho certeza que se fosse Antonio atrás de Jules, ninguém falaria nada. Ninguém falaria que era uma desculpa para ele dormir com ela.
Halstead contemplou o rosto impassível de Voight para notar se tinha atingido outro nervo.
- Pelo visto, é impossível esboçar qualquer preocupação genuína sem pensar em sexo, não é? Pois muito bem, é meio tarde para mandar o aviso - Halstead desenhou aspas no ar – "de que na minha Unidade não rola relacionamento" porque Erin e eu já nos envolvemos. E foi ótimo. Se quiser entrar com a papelada de transferência, pode começar. Não me importo.
Ele se levantou, prestes a sair, mas brecou no meio do caminho para lançar mais uma dose de insolência:
- Inclusive, acho que está na hora de atualizar a cartilha deste lugar.
Ele não sabia de onde viera a coragem para dizer aquelas coisas para Voight. Meses atrás, havia conversado com Erin sobre mandar a real para o Sargento, mas o silêncio acabou sendo a escolha de ambos. Porém, era em momentos como aquele que também detestava sua chefia, que sempre tinha muito a dizer sendo que também era todo errado.
Para piorar, Voight não mordera a isca para iniciar um confronto.
Detalhe que o fez perceber que estava louco para brigar. Tinha muita energia que precisava ser gasta dentro de si e sabia que qualquer cutucão que viesse como resposta da parte do Sargento seria o suficiente para fazê-lo explodir.
- Erin realmente fez um ótimo trabalho com você.
Os pés de Voight balançaram a cadeira de um lado para o outro. Ele não estava nem um pouco abalado com as palavras de Halstead. Na verdade, parecia ter se divertido.
E Halstead sabia que se arrependeria de ter falado tudo aquilo. Bastou ver o sorriso maligno de Voight. Sorriso de quem estava prestes a provocar muita dor.
- Fazer com que garotos como você voltem chorando para casa todas as noites.
E a mensagem se virou contra o remetente. Naquele instante, lembrou-se que Voight lhe dera o aviso sobre os estragos de Erin na vida dos homens com quem se relacionara. Isso, há poucas semanas em que começara a trabalhar na UI. Da outra vez, rira. Agora, sentiu o soco bem na boca do estômago.
- Não sou idiota em não notar que você também está nas fases de um luto que não existe. Barba por fazer, bebendo por aí. Continue assim, há muitos poços em Chicago.
Halstead não teve nem tempo de retrucar. Dois toques na porta chamaram a atenção de Voight.
Era Ruzek.
- O zelador está pronto.
Halstead agradeceu internamente pela interrupção. Mais uma rodada de argumentos e contra-argumentos com Voight e sua demissão se tornaria real.
Ficou por último no caminho rumo à sala de interrogatório. Avistou Burgess e parou ao lado dela, notando que estava mais tensa que todo mundo naquele recinto. Além do vidro, estava Antonio, sozinho, provavelmente expondo o que tinham coletado até ali a fim de tremer a única pessoa que poderia ser uma testemunha vital.
Ou o próprio atacante.
Keith era um homem muito magro. Já grisalho. Não trajava o que tinha em mente como modelo de uniforme para um zelador. Ou porteiro. Ou todas as profissões que acabara de dizer que exercia no museu. Usava roupas comuns, estava calmo, com os ombros relaxados. Tinha um olhar terno e pareceu honestamente impactado com as fotografias de Dorothy – tendo em vista que foi ele quem encontrara o corpo e ligara para a polícia.
- Você chegou a vê-la alguma vez no museu?
O zelador pegou a foto em que Dorothy estava com suas feições perfeitas. Anuiu, para surpresa de Antonio.
- Lembro-me vagamente dela. Foi ao museu recentemente com algumas amigas. Se não me engano, estavam interessadas na exposição sobre teatro. Era visita agendada.
Aquilo parecia uma informação inocente para o zelador, mas era culposa para Antonio.
- Sabe o nome da escola?
- Não, senhor, mas é possível obter com a assessoria.
- Lembra-se da aparência das outras meninas?
- Não, senhor. Essa aqui foi a única que falou comigo e nem dei atenção para as outras.
Antonio fez algumas notas ao mesmo tempo em que ponderava.
Partiu para a segunda fase do interrogatório. As perguntas que contradiziam a impossibilidade do zelador não ter visto alguém entrar no museu com um corpo e ter tempo para expô-lo. Algo muito inviável, até mesmo para o argumento de Keith em sua legítima defesa de que limpava as salas fechadas primeiro para depois dar conta do saguão. O que não desvalida o argumento, claro, pois o museu em questão era enorme, com várias alas.
O que caía na ausência de seguranças, que também estavam na lista para ser interrogados, mas Keith explicou que eles costumavam ficar apenas no perímetro do museu. Quem tomava conta da proteção interna eram as câmeras e qualquer outro aparato tecnológico.
Itens que davam força a ideia de que quem tivesse cometido o crime conhecia a rotina do local. Como a troca dos seguranças e o tempo que o zelador levaria para limpar as salas até chegar ao saguão.
Por ser por volta das 23 horas, o zelador tinha acabado de chegar, o que levaria ao álibi de bater o ponto na chegada e possivelmente o encontro com os seguranças.
- Meu turno é o da tarde - revelou Keith já não tão mais relaxado. - Justamente neste dia troquei com outro zelador que precisava sair da cidade.
- Nome?
- Derek.
- As últimas pessoas que saem do museu é o departamento de assessoria de imprensa. Sempre costumo encontrar um ou outro antes de me trocar e começar meus afazeres.
- Você toma conta de tudo sozinho?
- Sim, senhor. São muitas horas até a abertura do museu, então, dá para fazer tudo muito calmamente.
Antonio se moveu mais uma vez. Um movimento mais tenso. Um movimento de que o interrogatório atingiria um novo looping. Agora, era a tentativa de quebrar o caráter.
- Muito calmamente?
- Sim senhor.
- E essa calma foi usada para expor a vítima?
Keith piscou várias vezes. Sinal de desentendimento.
- Pelo que consta na sua ficha, - Antonio prosseguiu, sem delongas. - você está a pouco tempo em Chicago e atua no museu há poucos meses.
O zelador confirmou com a cabeça. Aparentemente assustado em ver sua ficha nas mãos do detetive à sua frente.
- Mudei depois do meu divórcio. Minha filha recentemente chegou à cidade
- E há uma mancha na sua ficha sobre uma acusação de assédio sexual. Devo levar isso em conta, aprofundar a investigação e ver até onde esse tópico pode ser influente no caso de Dorothy?
O olhar do zelador foi parar no vidro. Halstead sentiu como se ele o encarasse dali.
- Isso foi há muitos anos. - O primeiro sinal de nervosismo assomou Keith. Ele se inclinou na mesa, olhando para o detetive com ar de súplica. - Eu era um jovem fotógrafo e acabei sendo acusado injustamente.
- O que você fotografava?
Keith hesitou, mas respondeu mesmo assim:
- Fotografava modelos e aspirantes a atriz. Não era um fotógrafo da elite, credenciado. Eu era uma opção mais barata para aquelas que queriam fazer carreira em Hollywood.
Halstead e Burgess se entreolharam por causa da ironia daquilo.
- Alguma predileção?
- Como?
- Preferência! – a voz de Antonio era fria ao ponto de fazer o zelador se encolher.
- Não há preferências quando se faz um trabalho desses sem uma agência para apoiá-lo. Muitas meninas recorrem a qualquer fotógrafo para fazer um book profissional. Eu - ele fez uma pausa, coçando nervosamente a garganta. – acabei me envolvendo com uma das modelos, mas o que aconteceu é mais complicado... Veja... Eu estava em outro relacionamento e fui descoberto. Como não consegui terminar, o meu dito affair abriu a acusação.
Houve uma pausa. Daquelas angustiantes em que havia algo mais a ser dito.
Mas o zelador se recolheu, se fechando a própria existência.
- Ao ver Dorothy, o gatilho para atrair mulheres acabou ativado, não é? Por isso você a perseguiu. Deve ter prometido uma carreira como todo bom fotógrafo sem agência, mas uma negativa o fez raptá-la, violá-la e abandoná-la morta no museu. Certo?
- Nunca toquei em uma mulher com brutalidade na minha vida.
- E sem brutalidade?
O clima ficou tenso na sala de interrogatório. Era fato que nada mais seria falado, a não ser o pedido de um advogado.
- Precisamos de um mandato para vistoriar a casa dele. Ele não falará mais por ter se tocado que o que temos é circunstancial. Quem já passou por uma sala de interrogatório, sabe quando um policial tem o que dizer e quando não tem. - Voight apontou para o zelador com o queixo. - Esse é o caso e precisamos de mais evidências.
- E ele sairá andando?
- Não temos motivos para segurá-lo aqui.
- Na verdade, há sim. - Burgess se virou para Voight. - Se o timing do Antonio estiver certo, o crime acontece no período da tarde e
- Precisamos dar o benefício da dúvida - interrompeu-a o Sargento. - Precisamos saber se Keith é o nosso serial killer ou não. Olinsky ficará na cola dele nesse ínterim.
- Ele é melhor livre que enjaulado. Ao menos, por enquanto - emendou Halstead atraindo a atenção de Burgess. - Coletaremos o DNA dele para ver se bate com qualquer um que possa ser encontrado em Dorothy. Não temos evidências e precisamos delas para enjaulá-lo.
- Acho melhor irmos até o museu então - sugeriu ela, esperando uma aprovação de Voight. - Veremos as filmagens e iremos atrás de alguém da assessoria para recolher o nome do teatro.
- Sejam discretos, sim?
Halstead anuiu para Voight e acompanhou as passadas largas de Burgess até o carro. Entrou rapidamente para afugentar o frio e começou a juntar as peças iniciais da investigação. Sentiu uma pontinha de frustração ao perceber que tudo estava confuso e incoerente. Um zelador com uma ficha que um dia o acusou de abuso sexual era muita ironia para um dia só.
Era muito fácil, pois o botava corretamente na cena do crime.
- Quem fez isso sabe do histórico do zelador - declarou Halstead ainda distante em pensamentos.
- Não acha que ele tenha cometido isso?
Halstead espiou Burgess por cima do ombro. Reconheceu a indignação dela.
- Pode ter cometido, mas ainda há alguém no meio dessa história. Dorothy não me parece o gatilho, mas a consequência. O gatilho aqui é outro. O zelador estava equilibrado e desmoronou ao ser acusado. Fazendo um comparativo com Yates, teríamos que ter visto um orgulho relampejar no olhar. O mérito de ter feito. Geralmente, serial killers não conseguem esconder isso. É o trabalho deles sendo reconhecido.
Ele fez uma pausa.
- O olhar dele não brilhou de malícia.
Burgess pareceu entender o ponto de vista de Halstead, mas não se tranquilizou.
- As aparências enganam nesses casos. E todo cuidado ainda é muito pouco. Se ele tiver traços de Yates, não tenha dúvidas que teremos um corpo ainda hoje.
Foi impossível não pensar em Nadia novamente. Pensamento que norteou Halstead para o medo psicológico que ela tinha passado nas mãos de Yates. O mesmo que Dorothy teria passado antes de ser morta. Tentou não pensar nos gritos e no desespero. Queria pensar que ambas tinham sido dopadas desde o início para não terem sentido nada...
Mas era impossível. Além do rigor, criminosos daquele tipo gostavam de jogar com o psicológico. Alimentavam-se do medo das vítimas.
E o zelador ainda não fazia esse tipo de pessoa.
Fato era que a UI teria que remontar a cena. Encenar os passos. Imaginar de onde Dorothy saíra e com quem teria se encontrado para terminar estirada em um museu. Tudo às escuras.
Tudo com base em suposições.
N/A: Demorou bastante, mas eis a nova atualização. Esse foi só o explanar do caso para que Erin consiga se unir a ele – no próximo capítulo isso acontece.
Talvez consiga postar um capítulo por semana – era minha média na época de ouro hahahaha –, considerando que as séries estão em um belo hiatus. Preciso me organizar!
Até a próxima!
