Notas iniciais: Não se deixem enganar pela fluffice do início: esse é um capítulo com uma boa dose de violência. Trata-se de um flashback do Shun.
Há um lemon Afrodite & Shun aqui, então... Se não gosta, se não suporta, por favor não prossiga.
Afrodite estava magnífico em seu traje de gala. Os longos cachos de seu cabelo loiro cuidadosamente presos em um rabo de cavalo elaborado, com algumas mechas emoldurando-lhe o rosto muito bonito. Acabara de retirar os espinhos de uma rosa do frondoso jardim, ajeitando-a na lapela.
Seus olhos azuis brilharam de alegria ao vê-lo. Conheciam-se havia três anos, e o coração de Afrodite ainda acelerava-se ao ver o seu garotinho. Não que a que a diferença de idade fosse gritante. Ocorria apenas que Shun era possuidor de tal pureza que era difícil dissociá-lo da imagem de garoto. Ou de uma criatura divina.
Conheceram-se no primeiro ano de faculdade do mais novo. Eram pessoas diferentes, oriundas de mundos diferentes. Os dois eram possuidores de uma beleza incomum.
Afrodite gostava da ambiguidade de suas formas. Algumas vezes vestia-se de forma quase feminina. Gostava das reações que isso causava, quando alguém se aventurava a atravessar a superfície e fixar-se em algum ponto mais profundo.
Ah, era como quebrar algo precioso. Romper as ilusões dava-lhe a poderosa sensação de controle. E ele achava que seria sempre assim porque as pessoas nunca param para admirar algo mais além da beleza.
Até ele encontrar Shun. O garoto era sem igual: bondoso de dar dó, importava-se mais com pessoas do que com reputações e aparências, doce e gentil.
Sentia-se injusto, arrastando o seu garoto tão angelical para o seu mundo sujo e violento. Tanto que preferia sempre mentir para Shun e, na tentativa de mantê-lo a salvo, ocultava sempre a natureza do seu trabalho paralelo. Tinha pressa de sair, pelo bem do amado.
Sorriu para o mais jovem, admirando as formas esguias no terno bem ajustado. Inclinou o corpo levemente na direção de Shun, tomando-lhe a mão e nela depositando um beijo. Shun corou com tal gesto.
– Você está realmente muito bonito essa noite, Shun.
Shun uniu os lábios aos de Afrodite, em um selinho.
–E você, deslumbrante. É uma noite muito especial! - Comentou animado.
Era o dia da formatura de Afrodite. Finalmente o pisciano tornava- se um médico. Não poderia estar mais feliz. Suspirou e afagou os cabelos castanhos do outro rapaz.
– Quando menos esperarmos, será a sua! Não parece, mas passa bem rápido!
Shun sorriu. Bastava-lhe a alegria compartilhada com o outro pelo momento presente.
O virginiano conferiu as horas no fino relógio de pulso, presente de Afrodite.
– Precisamos ir, Afrodite, se não vamos nos atrasar.
Saíram da mansão no Porsche de Afrodite. Shun não gostava daquele luxo todo, sentia-se desconfortável, como se todo o ambiente banhado em ostentação e ouro o lembrasse a todo momento que aquele não era o seu lugar. Mas Afrodite gostava e fazia de tudo para deixar Shun confortável, além de sentir-se no dever de amar e proteger o mais novo, então ele não reclamava.
Havia uma imensa placa na frente do amplo salão de festas - que imitava a arquitetura grega antiga ao redor. A saudação fora caprichosamente talhada em caligrafia dourada, parabenizando os formandos da turma de medicina da Universidade Santuário de Atena daquele semestre. Logo abaixo, em letras menores, o slogan da universidade: "formando e resgatando o conhecimento em todas as áreas, sob a bênção da Deusa da Sabedoria."
Não se separaram em momento algum, a não ser naqueles em que Afrodite era solicitado para uma foto ou outra. Ambos sentiam-se nas nuvens enquanto dançavam, Shun um pouco menos do que Afrodite, pois não possuía o costume de frequentar festas e estranhava a música alta demais. Começava a sentir-se cansado.
– Lembra-se de quando nos conhecemos, Shun?
Não houve resposta. A música encobria a voz do pisciano.
Shun encarou-o com uma expressão confusa e desculpou-se por não ter entendido.
Afrodite parou de dançar e deu a mão para Shun.
– Vamos lá fora!
Era uma noite bonita e estrelada, com uma brisa suave.
Sentaram-se em uma escada defronte o jardim do local, Shun inclinando a cabeça no ombro de Afrodite e tentando conter um bocejo.
– Cansado, meu anjinho?
– Com sono.
Afrodite gargalhou. Conhecendo Shun, sabia que ele estava cansado e com sono, de fato, a ponto de não reclamar por ser chamado de anjinho.
– Você se lembra de quando nos conhecemos?
O sorriso do virginiano era sincero, cristalino.
– Foi um dia inesquecível. Eu era só um rapaz japonês perdido em Atenas e na universidade, e no meio de toda a confusão tive um salvador sueco.
Afrodite retribuiu o sorriso. Encantara-se de imediato pelo - como ele mesmo dizia - rapaz japonês perdido. Orientara-o, cuidadosamente explicando a localização dos prédios da Universidade. Conforme se aproximavam mais e mais, aumentava a sua admiração por Shun. Na verdade, demorou pouco para ambos perceberem que a admiração era mútua.
– Shun, eu te amo imensamente. – Afrodite levantou-se da escada, apenas para ajoelhar-se no degrau abaixo de Shun, retirando uma pequena caixa de veludo vinho do bolso. – Quero passar o resto da minha vida ao seu lado. Você aceita?
Por um momento, dúvidas pairaram em sua mente. Depois, o virginiano ficou radiante. E pensou estar sem palavras.
– Eu aceito, Afrodite. – Precisou afastar as lágrimas dos olhos. – Amo você imensamente.
Afrodite colocou a aliança dourada no dedo anelar direito de Shun, e pegou o mais novo no colo.
– Hora de irmos para a nossa casa, então.
Shun aninhou a cabeça no ombro de Afrodite, quase rendendo-se ao sono. Estava tão contente! Apesar de seu duradouro relacionamento com o pisciano, nunca se imaginara de fato dividindo a vida com outra pessoa. Acreditava que valeria a pena.
Afrodite compartilhava da pura alegria presente naquele momento. Se o ser humano fosse capaz de conceber o caminhar nas nuvens, era o que o loiro fazia naquele momento.
Não tardou para retornarem à casa. Era quase madrugada e, apesar do cansaço, nenhum dos dois queria dormir. Ainda faltava alguma coisa.
Afrodite adaptava-se às preferências de seus amantes. Ao contrário do que muitas pessoas supunham, baseadas nos modos e na aparência do pisciano, ele deitara-se com poucas pessoas durante sua vida.
Com Shun, gostava de ser delicado. Ser suave dava-lhe ainda mais prazer do que uma sessão de sadomasoquismo. A atmosfera que arranjara antes de sair também contribuía para a sua satisfação: pétalas de rosas sobre a cama, a luz suave emanada do lustre, os lençóis do melhor algodão.
Desabotoou a camisa de Shun, e abriu-lhe a calça. Deslizou a mão esquerda para dentro da roupa íntima do mais novo, massageando o pênis dele em um ritmo lento, enquanto desenhava círculos nas costas esguias com as unhas da outra mão.
Shun deixou escapar um gemido durante o beijo. Afrodite afastou os lábios, sorrindo e impondo um ritmo um pouco mais vigoroso. Sentiu Shun endurecer-se sob seu toque.
– Afrodite... - Gemeu, sentindo o rosto afoguear-se. Pousou as mãos sobre o peito de Afrodite, como se quisesse afastar-se.
O pisciano compreendeu. Sabia muito bem que não era repelido. Era apenas a necessidade de espaço para que se livrassem das roupas. Ambos se despiam, os corpos ardentes de desejo. Guiou o companheiro até a cama de casal, colocada no centro do quarto decorado com imenso bom gosto.
Os imensos cachos loiros, espalhados sobre o abdome e a pelve de Shun e por parte da cama, moviam-se no ritmo da felação e dos gemidos de Shun.
Afrodite afastou da boca e do queixo o líquido proveniente da ejaculação, que lhe escorria pelo rosto.
Shun debruçou-se sobre a cama, fios de cabelo castanho ou displicentemente emaranhados, ou colados à pele que brilhava com o suor.
O loiro ajeitou os cabelos de Shun, penteando-os com os dedos. Ao terminar, beijou toda a extensão do torso, desde a nuca até os quadris do japonês. Refez o caminho, acrescentando lambidas e sugadas.
Tateou sob os travesseiros até encontrar o lubrificante, e lambuzou os dedos com o produto. Introduziu o indicador no ânus de Shun, massageando-o. Acrescentou o dedo médio em seguida, fazendo uma massagem mais demorada. Aproximou-se da orelha do virginiano, apenas para morder-lhe o lóbulo.
– Posso, querido? – Perguntou-lhe gentilmente.
– Claro. – Shun grunhiu em resposta, enquanto virava-se para encarar Afrodite.
Compartilharam beijos enquanto Afrodite forçava-se para dentro de Shun, o primeiro ocasionalmente mordiscando os mamilos do mais jovem.
Shun agarrava-se à Afrodite, murmurando o nome dele repetidamente, suas unhas cravando-se nas costas daquele que o tomava por inteiro. Sentiu a mão do loiro estimulando-o novamente, e atingiram o clímax momentos depois.
Aninharam-se um à frente do outro. Admiravam-se mutuamente.
– É o dia mais feliz da minha vida. – Afrodite constatou.
– Da minha também. – Shun emendou com um sorriso. Bocejou em seguida.
– Teremos todo o tempo do mundo amanhã. Acho que devemos dormir. – Dito isto, beijou a testa do parceiro, entre as sobrancelhas. – Boa noite, meu querido.
– Boa noite, meu amor. – Arregalou os olhos, sobressaltado com a sua falta de atenção. Levantou-se rapidamente. – Preciso avisar para o meu irmão que não voltarei para casa.
– Você já é um homem adulto. Ele não vai se preocupar. – Afrodite retrucou, muito sonolento.
– Você não o conhece... Bem, já mandei uma mensagem. – Colocou o aparelho telefônico sobre a mesa de cabeceira e dirigiu-se à cama, não sem antes admirar o loiro.
– Então volte para os meus braços, ou não conseguirei dormir. – O sueco dramatizou.
– Acho que precisamos tomar um banho antes de dormir.
– Venha cá, Shun. – Afrodite retrucou manhosamente.
Shun voltou para a cama, sendo envolvido de imediato pelos braços do pisciano. Já havia caído no sono quando Afrodite bocejou, depois de observá-lo longamente, e rendeu-se ao sono.
O virginiano foi o primeiro a acordar. Não demorou até que Afrodite enlaçasse sua cintura.
– Você está estragando a minha surpresa, Afrodite. – Reclamou, ainda sonolento.
O sueco pegou uma torrada das mãos de Shun, levou-a à boca do amado. Sentou-se no balcão de mármore da cozinha americana, com as pernas cruzadas, evidenciando que trajava apenas a camisa social.
– Não preciso de mais nada se tenho você. Não se preocupe com as surpresas.
Era a mais pura verdade. O amor entre eles não possuía limites. Shun serviu chá para ambos, mas deixou as xícaras sobre a mesa. Aproximou-se de Afrodite, na ponta dos pés para alcançar o rosto dele, e o beijou nos lábios.
O barulho de batidas violentas à porta quebrou o encanto. O pisciano ergueu uma sobrancelha. Quem poderia ser, tão cedo? Quem chegaria com tanta urgência às seis da manhã? Não teve tempo de conjecturar: tratava-se de seu perigoso e criminoso ex-amante, Andrea, mais conhecido como Máscara da Morte.
O italiano de cabelos brancos tinha estampada no rosto uma fúria animalesca. Nas mãos, uma pistola e um pesado cano de metal. O pior era não estar sozinho. Outros cinco homens invadiram a casa, e atacaram Shun. O precioso Shun de Afrodite.
– O que vocês querem? Deixem-no! – Afrodite bradou, lutando contra braços que tentavam contê-lo. Deu chutes, cotoveladas, e até mesmo mordidas, até conseguir chegar a um Shun ensanguentado.
– Você sempre foi uma putinha, Afrodite, eu só não imaginava que você fosse me trocar por um veadinho afetado!
O pisciano agradeceu por seus bons reflexos. O soco que dera no nariz de Andrea deixou-o desnorteado o suficiente para que ele e seu bando não se aproximassem de Shun. Afrodite lamentou por não ter percebido que a violência não teria fim, enquanto sentia a pancada na nuca, e o gosto de sangue na boca. Antes de ver-se sem forças para manter os olhos abertos, viu Shun sobre si, protegendo-o. E recebendo cada golpe, o sangue de ambos, abundante, misturando-se no chão claro.
Tentava tirar Shun dali, mas estava completamente sem forças. Escorregava para a inconsciência. Deduziu que Shun estava ainda pior. O cano metálico golpeava a sua cabeça repetidamente e, estranhamente, ele sequer sentia dor. Ouvia os movimentos ao redor, estampidos que pareciam distantes demais. Queria dizer que sentia muito para o seu doce companheiro, e isto era inútil pois as palavras o abandonavam. E havia apenas a escuridão.
Até em um momento como aqueles eles estavam juntos. Aquele era um dos maiores temores de Afrodite, que seu doce garoto fosse atingido pelo seu passado.
Ikki estava impaciente. Seu irmão jamais se atrasava, para nada, e o leonino esperava havia meia hora. Não pensou duas vezes antes de dar a partida na moto e seguir para a casa do seu cunhado.
Não era nenhum detetive, mas sabia o que era uma porta arrombada, e foi isso o que encontrou. Entrou na casa sem demora, chamando pelo irmão e por Afrodite. Sem resposta.
Era cuidadoso em seus passos, afinal não sabia o que encontraria por ali, ou se a pessoa que arrombara a porta de fato já havia saído. Não havia se preparado para a cena à sua frente, quando chegou à cozinha.
Deparou-se com os corpos inertes e ensanguentados de seu irmão e de Afrodite. Considerava-se uma pessoa bastante forte tanto física quanto emocionalmente, porém desmoronou. Deixou-se chorar, não sem antes apressar-se para chamar ajuda especializada e para, se possível, oferecer os primeiros socorros.
O pulso de Shun estava fraco e irregular, mas Afrodite estava em pior estado: não respirava. Respirou aliviado ao ouvir a sirene de ambulância. Não estar sozinho significava tudo naquele momento. Sua consciência pesaria se tivesse que deixar de lado o irmão para acudir o sueco, e Shun talvez não fosse capaz de perdoá-lo, se Ikki negligenciasse Afrodite.
Não acreditava lá em muita coisa, contudo agradeceu aos deuses pela localização privilegiada, de fácil acesso, da mansão. Não tardou para que a polícia também chegasse ali, munida com perguntas sem fim. Ikki respondeu a todas elas, e foi liberado para acompanhar o irmão. Se pegasse o desgraçado que fez aquilo com Shun...
Ficar parado e esperando era impossível. Passaram-se duas, três, quatro, cinco horas. Movia-se de um lado para outro, sem parar; andava em círculos tentando dissipar sua impotência. Apenas na sexta hora finalmente teve notícias. Seus cabelos negros e curtos estavam completamente despenteados, e os olhos igualmente negros possuíam um brilho perigoso.
O cirurgião levou tempo até ter a atenção de Ikki, que pareceu recobrar a consciência ao reconhecer os olhos verdes.
– Como ele está, doutor Dohko? Posso vê-lo?
– Tenha paciência, Ikki. Ainda demorará até que possa ver o seu irmão, mas garanto que ele está fora de perigo agora. – Cessou a fala por um instante, a longa prática o ensinara a fazê-lo: deveria dar um tempo para que os familiares processassem as notícias, quaisquer que fossem. – No entanto, há algo que me preocupa.
– Se ele está fora de perigo, o que o preocupa? – Ikki interrompeu-o. – Me diga! O que há de errado?
– Sente-se, Ikki. – Dohko apontou uma poltrona, e sentou-se à frente de Ikki. – Você os encontrou no local. Viu o quanto aquele ataque foi violento... Quando o corpo humano recebe tantos golpes, é impossível sair sem sequelas.
A mente do leonino dava voltas, pintando um cenário pavoroso atrás do outro. Temia que um futuro sombrio demais aguardasse pelo seu irmão.
– O que quer dizer?
– As lesões do seu irmão foram bastante sérias...
– Disso eu sei! – Ikki, muito impaciente, interrompeu-o.
– Me deixe terminar! – O cirurgião retrucou firmemente.
– Certo. Me desculpe.
– Como você bem sabe, é impossível prever como as lesões afetarão Shun, porque não temos como avaliar com segurança uma pessoa inconsciente. – Fitou o leonino, esperando alguma reação ou interrupção. Nada. Prosseguiu. – Quando nós avaliamos seu irmão, constatamos duas vértebras fraturadas.
Ikki esperou. Precisava saber o que fazer, se era possível fazer alguma coisa. Sempre pensou que deveria proteger o irmão mais novo de qualquer coisa no mundo, e falhara. O leonino tornara-se bom demais em ler as pessoas, e sabia muito bem que Dohko tentava amenizar a situação. Interpretou vértebras fraturadas como um eufemismo para lesão medular.
– Qual... Quais? – Indagou, quando finalmente conseguiu reencontrar a fala.
– Devo repetir que as repercussões são imprevisíveis, Ikki. Não saberemos como as lesões o afetarão até que ele desperte.
– Doutor, por favor... Apenas seja objetivo, por favor.
– As vértebras fraturadas foram a C-7 e a T-1.
Ikki apoiou a cabeça nas mãos e encarou o chão. Por que aquilo aconteceu com Shun? Seu doce irmão era tão bondoso e puro com todos, e significava tudo para ele...
O leonino não era bom em esperar, mas foi isso o que fez por semanas, que se tornaram meses. Dois meses depois do ataque, Dohko chamou-o novamente.
– Tenho boas notícias! – A animação do cirurgião era evidente. – Seu irmão recuperou-se totalmente das lesões nos órgãos internos. E despertou. Se quiser, pode visitá-lo.
Shun tentava montar o quebra-cabeças que o rodeava. Mover-se era impossível, e seu corpo parecia irreal. Tentou virar-se, inutilmente, para tentar reconhecer o local, para tentar ver qualquer coisa familiar. Vira Dohko um tempo antes, mas não sabia dizer se desde então passaram-se horas ou dias. Percorreu os cantos de sua memória em busca das palavras do cirurgião, e percebeu que lembrava-se delas. Sua agitação fez disparar os monitores de sinais vitais ligados a ele.
Debatia-se e ofegava, querendo se libertar daquilo tudo, e parando repentinamente: não sabia se estava alucinando, quando viu seu irmão ao seu lado. Ikki beijou sua testa e acariciou os seus cabelos.
– Ikki...
– Ficarei aqui com você, Shun. – Ikki deslizou os polegares pelas bochechas de Shun, afastando as lágrimas dele. – Você sabe que farei tudo por você.
– Você tem a sua vida, Ikki. Não é justo que fique preso a mim. Eu me viro.
Os irmãos fitaram-se, ambos chorando. Ikki pigarreou e retornou à postura habitual.
– Sem ofensa, Shun, mas você vai precisar de cuidados por um longo período. Não pretendo ir a lugar algum até que você possa realmente se virar. – Piscou um olho e sorriu. – Ou até depois disso. Somos irmãos, não conseguimos nos livrar um do outro tão fácil.
Ao menos conseguiria arrancar um esboço de sorriso de Shun.
– Você tem razão. Há uma coisa que me preocupa. – O mais novo franziu a testa. – Afrodite estava comigo, não estava?
– Sim, Shun. Ele estava. Ainda está em coma.
Shun desviou o olhar para o outro lado. Ele conseguiria viver com qualquer limitação que fosse imposta pelo destino, mas não suportava ver as pessoas que mais amava sofrendo. E, ainda pior, ele mesmo estava impondo sofrimentos ao seu adorado irmão.
– Não me disseram quando poderei ir para casa... – O virginiano apertou os lábios.
– Você ainda precisa ficar por aqui por alguns dias. E a estadia será prolongada se você continuar se recusando a comer. Dohko te dedurou, maninho!
O mais novo suspirou e apertou os olhos.
– Não sinto fome. – Resfolegou, não querendo chorar tanto na frente do irmão. – Não sinto quase nada.
Ikki auxiliou o irmão a ficar sentado, de forma gradual – como fora orientado pelos médicos – e levou a bandeja com o almoço até o leito.
– Sei que não parece nada apetitoso. – O leonino fez cara feia para a comida do hospital. – Mas você bem que pode fazer isso por mim, não pode?
Shun apenas assentiu. Nunca resistia aos pedidos do irmão. Ikki levou a colher aos lábios dele: a comida descia-lhe sem gosto algum. Tentava mover os braços, e tudo o que conseguia era agitar os ombros.
– Acalme-se, Shun. – A voz do irmão era tão suave que causava estranhamento. – Você apagou por dois meses. É tempo demais para ficar imóvel.
Engoliu e encarou o irmão, os olhos verdes arregalados.
– Perdi as provas finais! E dois meses de aula, eu não podia ter perdido tanto tempo...
– Shun! – Ikki fora bastante enérgico ao chamá-lo. – Não se preocupe com isso agora. Nós ainda temos um longo caminho de reabilitação pela frente.
– Mas, Ikki...
– Eu não posso pagar as nossas contas, se eu tiver que deixar de trabalhar para poder escrever o conteúdo das matérias para você! – Aquilo fora muito mais duro do que pretendia. – Então, por favor, se esforce na sua recuperação. Apenas isso. Além do mais, você é o queridinho dos seus professores. Todos eles vieram aqui, sabia?
No momento em que escutou as palavras do irmão, quis se esconder. Queria sumir e não ter que encará-lo. Sabia muito bem que a nova condição apenas traria gastos extras para o orçamento familiar. Sentia-se um lixo, mas não permitiria que isso o afundasse.
Ikki dedicou os dias seguintes às reformas da casa que dividia com Shun. Trocou as escadas da entrada por uma rampa - e descobriu que martelar os pregos na madeira aliviava a sua ira. Fez mudanças nas disposições dos móveis da casa inteira, moveu objetos para uma altura onde pudessem ser alcançados pelo irmão, e instalou barras de apoio no banheiro.
Alternava as modificações com as visitas a Shun e o trabalho. Vibrava com cada pequeno progresso do irmão e, mais rápido do que qualquer um deles imaginava, Shun já era novamente capaz de escrever, embora ainda estivesse bastante longe de recuperar por completo os movimentos das mãos, e tal recuperação não passava de uma hipótese. Também adotara uma cadeira de rodas manual, feita sob medida para ele, e parecia bastante mais confortável com ela.
– Me sinto menos inválido. – Justificou-se para Ikki, um dia.
Quando foi liberado pelos médicos, Shun passou a visitar Afrodite todos os dias. No início, contentava-se com a imagem através do vidro. Com o passar dos dias, entendeu que não poderia negar a necessidade de tocar o amado.
Recuperara o ânimo com o passar dos dias. Dohko, Ikki e Shiryu concordavam que era uma reação um tanto estranha, mas sempre concluíam que "aquele era Shun, afinal, e não há ninguém no mundo tão puro e especial quanto ele".
Não era uma euforia sem fundamentos. Como o irmão mais velho dissera, Shun era o queridinho absoluto dos professores, sempre empenhado e muito inteligente. Estes professores decidiriam, então, aplicar condições especiais para que o aluno pudesse concluir o semestre sem atrasos.
Ele empenhava-se e virava noites estudando. Tanto empenho cobrou seu preço, na forma de uma ferida causada pela pressão. No início, tentou disfarçar, se tratar sozinho, e fazer - também só - toda a higiene pessoal, mas acabava sempre se atrapalhando.
Ikki o cercou de mais cuidados depois do episódio, e algumas vezes chegava a levar o irmão para a cama à força. Criou uma rotina diária de inspeção do irmão, às vezes - muitas vezes - passando-lhe sermões. Em tais ocasiões, nem parecia que apenas dois anos de idade os separavam.
Por outro lado, todo aquele cuidado unia ainda mais os irmãos. Shun realmente não via motivos para reclamar, e acreditava que a autocomiseração apenas o deixaria pior. A única coisa - ou pessoa - capaz de mexer com seus nervos era Afrodite, em seu coma prolongado. Ou talvez o inspetor de polícia, muito insistente. Depois de tantos meses, não conseguir fechar o caso envolvendo o bilionário Afrodite Nilsson pegava mal para a corporação.
Tudo o que Shun não queria deixar transparecer durante o dia, contudo, parecia assombrá-lo nas noites. Frequentemente gritava durante o sono e, quando Ikki precisava trabalhar nos plantões, sempre havia alguém ao seu lado. Geralmente se tratava de Shiryu, que às vezes era acompanhado por Shunrei.
Shunrei era namorada de Shiryu: chinesa, ariana, com cabelos negros que estavam usualmente trançados, e olhos bondosos. Era uma pessoa bastante agradável, e ela e Shun entendiam-se muito bem.
Notas da autora:
Vocês querem me matar? Espero que não! O próximo talvez demore um pouco. Sabem como é, o final de semestre se aproxima.
O próximo capítulo será um flashback centrado no Hyoga. Depois, sim, eu paro de enrolar e coloco a fic nos eixos - ou não -, muahaha!
