Algumas considerações: Gente, é uma ficção! De vez em quando me dou algumas liberdades. Desculpem qualquer coisa!
Shun acompanhou vários pacientes durante a manhã, ávido por aprender, e atencioso com todos eles. Também estava animado com a recuperação milagrosa de Afrodite. E pensar que, dias antes, os médicos que atendiam o pisciano falavam que não havia mais esperança para ele...
Em seu horário de almoço, reencontrou Hyoga. O loiro parecia bem mais recomposto, embora um tanto assustado.
Hyoga levantou-se e afastou uma das cadeiras, apontando o espaço que deixara para Shun.
- Olá. - O virginiano o cumprimentou com seu costumeiro sorriso cordial, colocando a bandeja que trazia sobre as pernas na mesa, acomodando-se no espaço indicado e travando as rodas.
- Boa tarde. - Hyoga desviava o olhar, um tanto envergonhado.
Não pôde deixar de reparar, contudo, quando Shun respondeu o cumprimento, com um sorriso ainda mais radiante. O virginiano ficou sério em segundos.
- Precisamos falar sobre o que aconteceu ontem.
O loiro encolheu os ombros. Observava o rapaz à sua frente tentando abrir uma pequena garrafa de suco de laranja, sem muito sucesso. Se soubesse que lhe dariam algo tão difícil de abrir, teria preferido ficar sem beber. Ainda por cima tinha medo de quebrar o vidro com o qual a garrafa fora fabricada.
- Quer ajuda? - Uma oferta gentil e educada partiu do loiro.
- Hã? Desculpe... - Ergueu os olhos, confuso. Apesar de se esforçar para passar uma imagem de alguém bem-resolvido, ajuda era algo que só aceitava se viesse de amigos próximos ou do irmão. - Não escutei direito, me desculpe.
- Perguntei se quer ajuda com isso. - Era maior frase que Hyoga proferira, desde que fora levado ao hospital.
Shun piscou e entregou a garrafa ao loiro, que a abriu e a devolveu. Hyoga acariciou-lhe levemente a mão.
- Obrigado por isto. - O virginiano murmurou timidamente, as bochechas um tanto avermelhadas. - Não vai almoçar?
- Não vai me cobrar explicações?
- Não sei se poderia. - Retrucou, honesto em suas palavras. - Mas, como você me parece um paciente lúcido demais, deve saber que aquilo não foi adequado. Não para este ambiente, e não para aquele momento.
A calma das palavras de Shun era reconfortante e contagiante.
- Você não é meu médico...
O virginiano meneou a cabeça, reforçando a negativa do outro.
- Não sou. Mas isso não torna a situação menos inapropriada.
- Eu te incomodei? - Hyoga mordeu os lábios. Parecia pesaroso aos olhos de Shun.
- Não. - A resposta era calma, quase indiferente.
- Você é sempre tão calmo assim, doutor? Sinto muito se o constrangi.
- Ele é pior do que você imagina. Posso sentar aqui? - Shiryu sequer esperou resposta, e sentou-se à mesa. - O que o motivou a estar tão falante hoje, Hyoga?
O loiro silenciou-se. Não ficava tão à vontade na frente do libriano. Sentia que, a qualquer momento, Shiryu se colocaria a examinar meticulosamente a sua alma, e esta era a última coisa que Hyoga queria: alguém afogando-se em caos.
- Consegui me lembrar de algumas coisas. - Sentiu que deveria dar alguma explicação para a mudança extrema em seu comportamento, uma transformação relacionado ao visitante do dia anterior.
A verdade era que amava Camus profundamente, mas não queria vê-lo. Queria abandonar todas as lembranças da sua vida antes do momento em que vira Shun. Não sabia explicar mas, para ele, Shun era como um raio de sol. Ou uma radiante luz no fim do caminho. Um lembrete de que ele poderia voltar a viver, por mais fantasioso que aquilo pudesse parecer. E ele era um homem racional. Nunca acreditou nessa coisa de amor à primeira vista.
Hyoga passou um ano e meio questionando a própria sanidade, sem saber como parara naquele hospital, quem era, o que havia feito. Sabia apenas que perdera a mãe. Que, em uma situação onde foi obrigado a escolher uma pessoa para salvar, Camus preterira Natássia e salvara Hyoga. E ele nem sequer era capaz de se lembrar de qual era tal situação.
Seu rosto adotou uma expressão vazia novamente, e ele calou-se.
- Acho que ele ainda não estava pronto para tanto. - Escutou Shun sussurrar para Shiryu, distante demais em sua mente para retrucar ou protestar. -É melhor irmos com calma.
Shiryu levantou-se, guiando Hyoga de volta para uma das poltronas do amplo cômodo. Shun recolheu as bandejas e as devolveu para o local apropriado, não sem antes jogar o lixo no lixeira.
Voltou-se para o libriano, à espera de orientações para a tarde. Foi apresentado a outros residentes e pacientes. Tudo transcorria tranquilamente.
Até Hyoga colocar-se a gritar, a despir-se, e arranhar-se. Tinha o rosto, os braços e o tronco arranhados, e sangue sob as unhas. Shun encaminhou-se a ele sem demora, tentando acalmá-lo com suas palavras, em vão.
Viu, horrorizado, sedarem-no e o colocarem em uma camisa de força. O paciente parecia totalmente alheio ao que acontecia ao seu redor.
- Lição número um: jamais chocar-se com o que vê. - Disse-lhe um homem de longos cabelos loiros e porte esguio. - lição número dois: jamais apegar-se a qualquer paciente, mesmo que não seja seu.
- Entendo a necessidade dos sedativos, mas pensava que a camisa de força estivesse ultrapassada.
Apenas depois de falar sem muito refletir, Shun ateve-se ao crachá do outro médico. Shaka, um nome conhecido. A outra informação foi o que o surpreendeu: Psiquiatra-chefe. Sentiu as faces arderem. Era seu segundo dia, e já cometera uma gafe daquelas! Conhecera o indiano, antes, na entrevista que fizeram com os selecionados para o programa de residência, mas Shaka fora astuto o suficiente para ocultar seu posto de chefia.
- Você tem razão. -Shaka surpreendeu-o - Mas as medidas de contenção se fazem necessárias, algumas vezes, para mantermos a segurança, a nossa e a dos próprios pacientes.
Shaka remexeu no conteúdo de uma pasta, separando um envelope lacrado e entregando-o para Shun.
- Espero que já tenha se ambientado por aqui. E avise-me se precisar de ajuda com qualquer coisa, inclusive para abrir essa pasta.
Shun sentiu-se testado. Achou que não conseguiria romper a aba de papel firmemente grudada, mas removeu-o cuidadosamente com a caneta que levava no bolso. Retirar as folhas de papel, no entanto, era algo bem diferente, e ele sabia que poderia fazê-lo, mas não achou de bom tom destruir o envelope na frente do chefe.
Shaka não esperou um pedido ajuda para auxiliar o outro. Em momento algum desgrudou os olhos de Shun.
- São os prontuários dos seus pacientes. Quero ver como os novos residentes se saem! - Shaka anunciava para todos os presentes, causando um burburinho. - Vocês começam em dez minutos!
A movimentação era caótica. Se Shun achava que havia poucas pessoas no setor, descobriu-se enganado. Procurava por Shiryu, completamente perdido. Ao invés do amigo, quem seus olhos encontraram foi Shaka, que olhava-o fixamente.
- Shun, uma palavrinha.
Dirigiram-se, em silêncio, a uma das pequenas salas de atendimento. A ampla janela possuía pesadas grades. Havia uma mesa com gavetas, uma cadeira em frente a outra, e uma poltrona a um canto, além de uma estante tomando boa parte de uma das paredes.
Shaka suspirou pesadamente. Aos seus olhos, Shun parecia um bichinho acuado e isso poderia ser um grande problema. Sentou-se na mesa, cruzando as pernas. Aproveitou-se da proximidade e ergueu o rosto do mais novo.
- Você precisa sair da sua bolha. - Sabia muito bem que era ríspido, porém sabia muito bem que aquela conversa era necessária. - Não sei se te protegeram demais, mas aqui não será assim. Questionarão as suas capacidades a todo momento e, se você estiver frágil, acabará não aguentando. Você está realmente pronto, doutor?
- Todos imaginam que eu tenha problemas. - Forçava-se a não desviar o olhar. Os olhos profundos e azuis de Shaka eram intimidadores. Além disso, considerara as palavras ofensivas. - Mas não é verdade. É uma acepção que a sociedade faz. É estranho, para as pessoas dentro de padrões, que alguém como eu se diga satisfeito com a própria vida. É como um pecado, porque elas desejam consertar tudo e me encaram como um brinquedo com defeito.
A mão do loiro afastou-se do queixo do mais jovem. Shaka acenou para que Shun continuasse.
- Por mais que me vejam mais como um objeto defeituoso do que como uma pessoa plenamente... Ou quase plenamente capaz, eu... Eu me recuso a me ver como um coitado ou uma vítima. Eu me recuso a ficar me lamentando pelos cantos, só porque isso é o que todos esperam de mim! Não sou um homem muito orgulhoso, mas não consigo aceitar que as minhas capacidades e habilidades sejam colocadas em xeque por suposições de quem não está na minha pele! - Fechou os olhos e levou as mãos à própria boca. Sentia que falara demais.
- Sei que você é brilhante e capaz. - Shaka o fitava serenamente. Por motivos que ele mesmo desconhecia, simpatizou-se quase instantaneamente com Shun. - Mas nem todos estão dispostos a deixar de lado as pré-concepções. Não quero que fique impressionado, e muito menos revoltado ou deprimido, quando encontrar uma pessoa dessas.
- Não sei com qual impressão você ficou, doutor Shaka, mas eu também tenho meus dias ruins.
Shaka descruzou as pernas e desceu da mesa.
- Saiba que não te darei nenhum tratamento especial, a não ser quando absolutamente necessário. Boa sorte, Shun. - Afagou os cabelos do mais novo e retirou-se da sala. - Sua primeira paciente virá em breve.
Tão logo Shaka deixou a sala, nela entrou uma jovem mulher, de olhos e cabelos escuros, trajando uma calça jeans com rasgos nos joelhos e uma jaqueta de couro. Shun sentiu-se tenso com o olhar demorado que ela lançou a ele.
- Não sabia que eles agora estão contratando crianças! - Foi irônica, apesar de aparentar ter a mesma idade de Shun.
O virginiano respondeu com um meio sorriso que deixava claro seu desconforto.
- Antes de mais nada, boa tarde.
- Boa só se for para você! - A jovem sentou-se, cruzando as pernas sobre a mesa. Shun sabia que precisaria ser firme e enérgico. Só não sabia como.
- Por favor, sente-se direito.
- Você deveria experimentar. Ela parecia querer fuzilá-lo com o olhar. Demorava-se nas rodas. - Coitadinho. Desculpe.
Tudo do que Shun precisava era daquela dose de ironia destilada pela jovem. Decidiu que desarmaria aquela garota.
- Preciso saber o seu nome, a sua idade, e o motivo que a trouxe aqui.
- Certamente estou aqui pelas suas belas pernas, doutor. O nome é Shina. Nascida no dia vinte e quatro de março de vinte e seis anos atrás.
Shina estudava os movimentos do homem que a atendia. Se ele era realmente um médico, aparentava bem menos idade do que tinha. De alguma maneira, ele fazia os próprios movimentos parecerem graciosos, embora ela percebesse o ângulo estranho no qual colocava a caneta.
- Muito bem, Shina. Pode me chamar de doutor Shun. - Ele não gostava de impor títulos, mas via-se em apuros. Shina parecia ter algum problema com ele. Não deixaria de ser amável e agradável, apenas precisava impor-se. - Você ainda não me disse o que trouxe você aqui.
- Dizem que tenho problemas para controlar a raiva. - A ariana bufou. Não estava apenas contrariada, estava irada.
- E você não concorda? - Shun perguntou-lhe, com a sua calma característica.
- Claro que não! - A veemência na resposta a contradizia, porém ela parecia não perceber ou não se importar.
Shina começava a incomodar-se com o olhar de Shun. Ele não era como os outros médicos, que apenas passavam o tempo inteiro fazendo anotações, sequer mantendo algum contato visual.
- Você acha que tenho problemas. - Ela disparou.
- Se você não tivesse problemas, estaria aqui? - Questionou-a quase imediatamente. Se perdesse tempo, o jogo de dominação se reverteria. E ele queria ser bom no que fazia.
- Você é mais um dos malditos analistas?
Shun fez uma rápida anotação no prontuário da paciente, tornando a fitá-la demoradamente.
- Não. - Fez uma pausa bastante necessária antes de prosseguir. - Sou alguém interessado em ajudá-la. Isto é, se você quiser.
Eles prosseguiram e, para alívio de Shun, Shina parecia colaborar. Ainda estava claramente irritada, mas começava a se abrir.
Com o passar do dia, Shun sentia-se satisfeito. Sabia que estava fazendo um bom trabalho - estava fazendo o seu melhor. Conheceu vários pacientes naquele dia, e não deixava de se admirar com o quanto as pessoas podiam ser diferentes entre si.
Com mãos e pés atados por tiras de couro, Hyoga sentia-se caindo no mais profundo abismo. O ambiente na mais completa penumbra não o ajudava. Todos os seus sentimentos e pensamentos formavam um emaranhado confuso e indecifrável.
Ergueu a cabeça quando alguém acendeu as luzes. Piscou com o desconforto, para então notar onde estava: era um quarto pequeno, sem mobília alguma a não ser a maca onde estava preso. Por fim, viu a pessoa que dissipou a escuridão: Shun, que colocou-se ao seu lado esquerdo, observando-o em silêncio por um tempo impossível de precisar.
Aquilo irritava Hyoga. Não ser capaz de dizer se era dia ou noite, ou quanto tempo havia se passado desde que fora levado ao quarto escuro, ou estar atado e privado da maior parte dos movimentos. Sentiu-se mesquinho com o último pensamento.
Engoliu em seco. A vergonha e o embaraço tomavam conta de Hyoga novamente. Suas faces coraram quando Shun estendeu as mãos e tocou a sua.
- Sente-se melhor? - O virginiano indagou-o amavelmente.
- Eu... Eu não queria estar aqui. - Censurou-se internamente por dizer tais coisas. Aquilo era estúpido. - Também não sei o que acontece comigo...
- Estamos aqui para entender o que se passa com você, não é verdade? - Durante a pausa para procurar as palavras certas, Shun suspirou. - Você se lembra de alguma coisa? Viu alguma coisa antes da sua crise?
- Minha crise?
- Você não se lembra? Você se machucou, Hyoga.
Seguiu-se um muxoxo impaciente, após o questionamento. Sua cabeça doía, com a mistura do fim do efeito das fortes medicações e com o esforço para lembrar.
- Doutor, isso é uma consulta? - Os olhos azuis rolaram e se fecharam. - Só me lembro de alguns flashes. Camus... Um desabamento. Mais nada.
- Vamos dizer que seja uma preocupação pessoal...
Hyoga abriu os olhos e fitou Shun. Suas mãos agitaram-se quando o virginiano rompeu o contato e se afastou.
- Não existe algo que te proíbe de se envolver? - Estava realmente preocupado. Perguntava-se a todo momento o que fizera.
- Você não é meu paciente. - Com estas palavras, Shun sumiu do campo de visão de Hyoga. - Amanhã pedirei para que Shiryu te solte... Se você conseguir ficar sem se machucar. Quer que eu deixe as luzes acesas?
- Pode apagá-las, doutor. - Soou muito mais amargo e irônico do que pretendia. As luzes foram apagadas, e Hyoga mergulhou no pesadelo que eram suas lembranças.
Sonhou que estava em Paris, com Natássia, a sua mãe, e Camus, irmão de criação da russa. Apenas as três pessoas faziam algum sentido no seu devaneio.
O laboratório onde os três trabalhavam parecia fugidio. Um silêncio sepulcral tomava conta dos corredores desabados. Camus não largava o microscópio, Hyoga gritava, tentava libertar a mãe dos escombros, e era incapaz de salvá-la: não a alcançava. Olhava para si, e ele mesmo estava soterrado.
- Fizeram isso porque ela descobriu que eles adoeceram. - A voz cortante do ruivo partia-lhe o coração. - Não temos como salvá-la.
Todos os protestos eram inúteis. Camus estava determinado a salvar apenas o mais jovem dos três.
- Hyoga! Eu já disse, sua mãe está morta! - A frieza nas palavras do francês era assustadora.
- Hyoga! Hyoga! Está acordado?
- Não agora, Camus! - Sentou-se na cama, a cabeça ainda latejando entre as mãos. Sua boa estava inundada por um gosto horrível, metálico.
Apenas então deu-se conta de seu erro. Não havia sinal de Camus no local. Era Shiryu quem estava à sua frente.
- Podemos conversar, Hyoga? Parece que você teve uma noite bastante agitada.
Depois de deixar Hyoga, Shun apressou-se para não perder o horário de visitas. Por algum motivo, Afrodite recusava-se a falar com ele.
- Respeitarei sua vontade de não falar comigo, Afrodite. Mas não ache que desistirei! - Disse ao deixar o quarto do pisciano, e partir para mais uma das longas e intermináveis sessões de fisioterapia.
Afrodite afundou a cabeça no travesseiro. Aqueles dias estavam complicados. Estava com problemas para equilibrar-se, seu corpo e suas mãos tremiam, e suas pernas mal sustentavam o peso de seu corpo. Estava impaciente. Seus olhos brilharam quando viu Shura à porta, com vistoso buquê de rosas vermelhas.
Admirou o porte poderoso de Shura, a pele muito mais dourada pelo sol do que se lembrava, os cabelos negros, e os olhos verdes e profundos. Aquele homem também possuía a profunda seriedade capricorniana quando queria e, ainda assim, vestia-se sensualmente... Pelo menos aos olhos de Afrodite.
Seu ânimo arrefeceu ao lembrar-se do próprio estado. Era incapaz de pentear-se, vestir-se ou alimentar-se por si mesmo. Depender de outros para tarefas tão simples e banais o deixava sufocado. Era inevitável que pensasse em Shun, em como o virginiano se sentia.
- Olá, Dite. - Shura beijou as bochechas do pisciano. O espanhol era um dos poucos, senão o único, que o chamava pelo apelido. - Como se sente?
- Melhor, acho. - Seguiu-se um muxoxo impaciente. - Pelo menos posso conversar agora.
- Você precisa ter paciência...
- Quero sair logo desse hospital, Shura... Você poderia me ajudar a fugir.
Shura gargalhou. Só Afrodite para fazê-lo rir ou para ter uma ideia daquelas.
- Isso seria imprudente.
O espanhol sentou-se ao lado de Afrodite, penteando-lhe os longos cabelos loiros. Aproximou o rosto perigosamente, quando terminou, e seus lábios foram atraídos para o canto da boca do sueco.
Encararam-se longamente. Shura era uma das maiores paixões de Afrodite. Os dois sabiam que o relacionamento não havia dado certo apenas porque o capricorniano voltara à Espanha. Conversaram por quase uma hora, até que uma enfermeira enxotasse Shura dali, anunciando o fim do horário de visitas.
Os dias ficaram mais fáceis para Afrodite, com as visitas constantes de Shun e Shura. Alegrou-se imensamente quando os médicos liberaram seu retorno para casa. Ainda tinha problemas para equilibrar-se e com determinados movimentos. Nada que não pudesse ser superado com fisioterapia, segundo os médicos; afinal, três anos era tempo demais para permanecer imóvel.
Dias depois de sua alta, Shun o visitou.
Afrodite estava desgostoso. Rasgou as folhas de jornal, praguejou contra a televisão, amaldiçoou o jornalista de quinta categoria que o ligava sem parar. Shun tentava acalmá-lo, em vão. Na verdade, o virginiano também estava muito nervoso. O problema era Afrodite estar ciente disso.
- Shun, seria melhor nós nos afastarmos. Não aguento mais essa merda desses tabloides!
Shun só parou de dar voltas em torno do sofá da sala de estar porque suas rodas embolaram o tapete persa de Afrodite. Sobre a mesa de centro, inúmeras manchetes anunciavam o despertar de "Afrodite Nilsson, o playboy, e a sua tragédia pessoal com seu noivo tetraplégico após ataque brutal à sua mansão". Várias fotos estampavam os dois durante a internação, ainda cheios de feridas e hematomas, inconscientes e conectados a tubos.
- É por causa da imprensa, Afrodite? Só por isso você quer se separar?
O pisciano abaixou-se com um gemido, arrependido pela bagunça que ele mesmo fizera. Catou os pedaços de jornal e ajeitou o tapete. Foi com pesar que olhou uma das fotos na capa do jornal: Shun, ainda inconsciente. Uma das muitas fotos lastimáveis que mostravam a televisão e os jornais. Mostrou a figura para o mais novo.
- Não. É por causa disso. - Apontava o dedo para a fotografia. - Eu te conheço, Shun, e sei que isto está te afetando. Sei que você é tímido demais e nunca quis sua vida exposta dessa maneira. Eu não me importo com a minha imagem, mas...Droga!
Interrompeu-se para não acabar descontando a própria frustração em Shun. Não mais do que já fazia. Apoiou-se em sua bengala e dirigiu-se ao seu jardim o mais rápido que seus passos ainda trôpegos permitiam.
Sabia que Shun o seguiria. Segundos depois, viu-o descendo a rampa colocada na porta de entrada. O sueco calçou as luvas de jardinagem e aparou algumas folhas de suas rosas, mesmo sem necessidade.
Havia um degrau no caminho para aquele canteiro. Shun o observava de longe.
- Você está sofrendo. - Afrodite levantou-se, franzindo o nariz com a dor e apoiando-se na mureta. Lançou um olhar melancólico para Shun.
- Não estou.
- Não minta para mim!
O virginiano encolheu-se. Era sincero em suas palavras, realmente achava que não estava sofrendo. Pelo menos, não pelos motivos que Afrodite apontava.
- Sofri quando não sabia o que aconteceria com você, Afrodite. - E não queria nem se lembrar daqueles três anos de agonia, entre as melhoras e pioras de Afrodite, e nenhuma palavra e nenhum gesto vindos do pisciano para confortá-lo. Sentia-se egoísta por pensar dessa maneira, mas era o que desejava.
- Meu menino... Meu doce menino... Nós não podemos ficar juntos.
- Por que não? - Era um questionamento mais do que justo, e Shun achava-se no direito de saber os motivos de Afrodite.
- Olhe bem para o que te aconteceu!
- O que quero saber é o que aconteceu com o "eu te amo imensamente"! - O pacato Shun começava a irritar-se.
- Shun, não quero te colocar em perigo novamente... Ainda mais agora que você está... nestas circunstâncias.
- Acho que você tem medo de encarar o meu corpo imóvel na sua cama, Afrodite. - Embora a voz de Shun saísse em volume baixo, pouco a pouco, ele começara a bradar cada uma de suas palavras. - Acho que você está disfarçando seu asco pelo ex-amante agora aleijado com pena. Talvez você ache que eu não sou mais o bastante para você! Você é um covarde!
- Shun! - Afrodite ajoelhou-se à frente de Shun, para ficar no campo de visão dele, com os olhos baixos. - Talvez você tenha razão. Sou mesmo um maldito de um covarde, mas você é injusto ao pensar que quero me afastar por causa...
O pisciano fez uma longa pausa, sentindo a garganta apertar.
- Não precisa ficar cheio de dedos. Diga.
Afrodite ergueu os olhos e espantou-se com a mágoa nos olhos verdes.
- Não é por causa da sua paralisia, Shun. Achei que você me conhecesse melhor do que isso.
Shun inclinou-se levemente para a frente, tocando nas bochechas e nos cabelos de Afrodite, que deitou a cabeça sobre as pernas de Shun.
- Então me dê um motivo, Afrodite. Qualquer outro motivo para terminar de vez o que estávamos começando.
- Você...Você esperou por mim todos esses anos, sozinho. Eu não conseguiria fazer o mesmo, Shun. É por isso que você não merece ter alguém como eu em sua vida.
- Ainda está bem longe de ser um bom motivo.
- Está esfriando. Vamos para dentro.
Apesar de suas palavras, Afrodite também adaptara sua mansão para que se tornasse acessível a Shun. Viu-o fazendo a cadeira de rodas subir pela rampa e perguntou-se se algum dia deixaria de se sentir culpado.
Reforçara o esquema de segurança quando voltou para casa, mas ainda sentia-se inseguro. Ameaçado. Vulnerável. Perdera-se em pensamentos por tanto tempo que Shun viu-se obrigado a ver se ele continuava ali.
- Afrodite... - O virginiano o chamava, sem obter resposta. - Afrodite!
- Hã... Oi. Já vou. - O pisciano parecia ter saído do transe.
- Onde você colocou a chaleira? Não a encontro.
- Pode deixar que pego, Shun.
A chaleira estava em uma prateleira baixa dos armários da cozinha, completamente fora do alcance de Shun. Aparentemente, também era difícil para Afrodite alcançá-la, a julgar pelas expressões de dor que o sueco fazia ao abaixar-se, ao levantar-se, ao andar.
- Eu continuo te amando imensamente, Shun. - Comentou, enquanto auxiliava o outro a abrir um pote com folhas secas para o preparo do chá. - E jamais o descartaria. Não consigo imaginar uma vida sem você. Só que não sou bom para você.
- Seria melhor você apenas falar que quer um tempo...
- Talvez.
- Que tenhamos nosso tempo separados, então. - Shun tentava remover a aliança do seu anelar direito. Descobriu que colocá-la fora uma tarefa infinitamente mais fácil.
- Fique com ela. - O sueco, que observava consternado aquela cena, segurou as mãos de Shun. - Que seja uma boa lembrança do que tivemos.
- É um adeus, então?
- Não seja bobo, Shun. Nós não podemos fugir um do outro assim. - Afrodite entrelaçou os dedos aos do virginiano. - Você sempre terá espaço na minha vida e na minha casa.
O virginiano tentava não chorar. Observava Afrodite com espanto, tentando compreender as reais motivações dele. Sabia que deveria tentar colocar-se no lugar do pisciano, afinal ele estava sofrendo por tudo também, e perdera três anos da própria vida.
- Talvez seja melhor eu voltar para casa.
- Você sempre será bem-vindo a ficar aqui, se quiser. - Fez a oferta enquanto soltava as mãos de Shun.
- Afrodite, eu realmente não te entendo...
- Há outra pessoa. - Os olhos azuis voltaram-se para o teto. Encarar o mais novo ficava mais difícil a cada segundo.
- Poderia ter me falado antes... - Shun estava magoado. Profundamente magoado.
Saiu dali o mais rápido que as suas rodas permitiam. Não teve tempo de escutar Afrodite dizendo que havia mais, confessando os pecados de sua vida anterior.
O pisciano, por sua vez, por mais dissimulado que fosse, estava com o coração partido. Nunca quisera causar nenhum tipo de dor a Shun, e conseguira apenas destruir a vida do mais jovem. Além disso, seus velhos hábitos não o abandonariam - e ele sabia.
Subiu as escadas que davam para o seu suntuoso quarto, abaixou-se, e removeu o fundo falso localizado abaixo da cama. Dentro dele, uma pesada mala com armas e munições. Guardou tudo aquilo no esconderijo, sentou-se na cama, e chorou. Deixou que as lágrimas represadas por três anos se libertassem... Que o libertassem.
Cairia em um abismo sem volta, se arrastasse Shun novamente para o seu mundo de violência e destruição. O único mundo que havia conhecido em toda a sua vida, até o jovem virginiano aparecer.
