Afrodite terminou de limpar a arma – praguejando ocasionalmente contra os tremores nas mãos, que ainda não o tinham abandonado, e contra os médicos que disseram que era apenas uma questão de tempo – e ajeitou os fios loiros que estavam soltos atrás da orelha.

Os olhos do sueco faiscaram quando leu a mensagem na tela do celular. Finalmente tinha uma pista sobre o paradeiro de Máscara da Morte. E um sentimento que achava que desconhecia o invadiu.

Passara dias vendo mais e mais notícias tomando os noticiários e os tablóides: o modus operandi de Máscara da Morte estava escrito por toda a região de Atenas. A fúria tomava conta de Afrodite a cada vez que relacionava aqueles crimes ao ex-amante, as mãos sempre trêmulas crispando-se em puro ódio.

Ele estava com sede de vingança. Com sede de um sangue um tanto específico. Jurou a si mesmo que mataria o maldito italiano com as próprias mãos.

Apertou os olhos e imaginou-se em um dos piores cenários possíveis. Se Máscara da Morte tivesse matado Shun, Afrodite certamente não se demoraria a ter sangue nas mãos.

Isto não o assombrava. Pelo contrário, aquele pensamento o confortava. Sabia que derramar sangue não mudaria a sua situação ou a de Shun. O que ele sabia é que, ao imaginar-se vingado, finalmente sentia paz.

Não se lembrava de ter se sentido daquela maneira quando perdeu os pais. Ou quando perdeu sua tia Anette.

"Ossos do ofício", a Anette Afrodite costumava dizer a ele, entre uma baforada de charuto e outra e incontáveis tragos de uísque, no funeral do irmão e da cunhada, "ninguém sobrevive por muito tempo no ramo da família."

Se a ocupação da mãe de Afrodite como diplomata era legítima, o mesmo não poderia ser dito sobre a de seu pai. Ou sobre a família paterna inteira do sueco, envolvida havia gerações com o crime organizado.

Afrodite era jovem, mas tinha discernimento o suficiente para saber o que estava acontecendo. Ou melhor, o que havia acontecido: o quê exatamente matara seus pais.

A irmã de seu pai encarregara-se de sua guarda até que o sueco completasse a maioridade. Não era uma mulher muito amorosa, e definitivamente não sabia comportar-se adequadamente em situações sociais, na opinião de Afrodite, mas ele sentia falta dela. Suspirou com aquelas lembranças. Já fazia tanto tempo, e os fantasmas ainda o assombravam.

Ergueu-se da poltrona, ainda com dificuldade; curvando-se e coxeando com a dor excruciante que sentia em toda a extensão da perna esquerda e, apoiando-se nas paredes, encaminhou-se para a escrivaninha.

Não sabia se sobreviveria à empreitada que ele mesmo arquitetava e não queria deixar assuntos inacabados.

Sentou-se ali e respirou fundo. Logo ele, que tinha pouquíssimos medos, estava precisando tomar coragem para escrever uma carta.

Suas mãos ainda tremiam quando pegou a caneta. A caligrafia, embora ainda elegante, saiu trêmula. Afrodite franziu o cenho para o resultado, descartou a folha e reiniciou. Ainda não se sentia satisfeito com a letra mas aquela tentativa precisava bastar. Tinha medo de que as palavras lhe fugissem.

"Caro Shun,

Acredite em mim quando digo que não quero machucá-lo ou magoá-lo. Nós passamos por maus bocados juntos, mas superaremos. Desejo apenas o melhor para você, sempre. E, me chame de egoísta, mas também preciso de algum tempo para reencontrar os meus eixos.

Acredite também quando digo que meu amor por você é real e intenso e infinito.

Por que resolvi me afastar, você provavelmente se perguntará. Ocorre que há determinadas coisas que necessito fazer antes de retomar a minha vida. E, neste sentido, para ser sincero, eu não sei o que fazer ou para onde ir.

Não peço sua simpatia ou seu perdão. Desejo apenas deixar claro que jamais deixarei de amar-te.

Com carinho,

Afrodite."

Fez uma careta novamente para as palavras. Não era uma obra-prima, e não era belo. Mesmo em uma carta ou em um mero bilhete, Afrodite imprimia sua marca – ou gostava de acreditar que era isto o que fazia até então – uma beleza sutil e sublime era a sua assinatura.

Afrodite pensou em todos os planos que fizera, pensou sobre os planos que fizera com Shun. Tudo parecia-lhe acabado e custava-lhe reencontrar a autoconfiança que sempre fora marcante em si.

Seu mundo havia desmoronado e ele sentia-se com as mãos atadas. Recomeçar não era tão simples.

Mirou o fragmento de reflexo no espelho coberto por recortes de revistas e jornais, e pensou que fazê-lo foi um erro. Ele não reconhecia o Afrodite que via refletido ali, com os cabelos desalinhados e a palidez muito acentuada, os lábios ressecados e as olheiras profundas.

– Eu não sei mais quem sou – murmurou para si mesmo.

– Conheço o sentimento – uma voz grave atrás de si proferiu – a boa notícia é que você eventualmente descobre quem você se tornou... Mesmo que não goste disso.

– Há quanto tempo está aí, Saga?

– Você não vai querer saber.

Afrodite suspirou. Sabia que Saga estava ali com as melhores das intenções, como um amigo de infância preocupado com o outro. E como um aliado valioso para o mergulho no submundo onde o pisciano estava prestes a mergulhar.

– Então você realmente levará a sua ideia para frente?

– Você já me viu desistir de algo? – Afrodite retrucou.

– Jamais. Você é realmente a pessoa mais decidida que conheço.

O sueco meneou a cabeça levemente, em uma quase imperceptível afirmação.

Quando levantou-se, uma repentina e insuportável dor de cabeça o fez recuar. Abriu uma de suas gavetas impecavelmente organizada e de lá retirou duas pílulas. Levou-as à boca.

Engoliu-as a seco e aguardou.

– Malditas sequelas! – Murmurou apenas para si.

Saga, porém, estava ao seu lado, colocando uma manta azul e felpuda sobre seus ombros.

– Está ficando frio, Afrodite.

– Obrigado, Saga.

Quando Saga ofereceu-lhe o braço para que se apoiasse, percebeu o torso nu do grego.

– Você não está em horário de expediente?

– Eu fico de sobreaviso. Os chefões me ligam quando precisam dos meus serviços.

O sueco apertou os olhos. Conhecera Saga quando ainda eram crianças, e ele sempre lhe pareceu um bom garoto de uma boa família abastada. Doía-lhe ver Saga envolvido com o crime.

– Saga...

– O que há, Dite?

– Sei que não estou em posição de falar nada, mas... – deixou-se suspirar – Você não quer se libertar disso? Seu talento e sua inteligência te garantiriam algo melhor.

– Não posso deixar de trabalhar para eles até encontrar o meu irmão.

Os olhos de Afrodite demoraram-se nos de Saga. Franziu os lábios. Mesmo toda a fortuna dos pais de seu amigo não fora capaz de fornecer pistas sobre o gêmeo desaparecido de Saga.

– Sinto muito, Saga, eu não quis...

– Não há nenhum problema, Afrodite – interrompeu-o em um tom bastante calmo.

Saga conferiu as horas em seu relógio de pulso. Quatro e quarenta da tarde.

– Vamos?

– Preciso de um minuto, apenas um minuto, para ficar apresentável.

– Afrodite? – Saga interpelou-o – Para onde vamos, você está mais do que apresentável. Além do mais, quanto menos pessoas te reconhecerem, melhor para nós.

Suspirou e assentiu. Trançou os cachos de maneira desajeitada – sua face denunciava que também a contragosto – e colocou um lenço marfim sobre eles. Vestiu-se com uma roupa mais chamativa do que habitual, com uma blusa de mangas longas e estampa de onça. Tomou o cuidado de não disfarçar as olheiras profundas ou os lábios ressequidos.

Saga, por sua vez, recolocava a camisa social branca, a grava e o terno azuis.

Encaminharam-se para o carro de Saga, pois não queriam correr o risco de ter alguém associando o de Afrodite a eles.

Quando chegaram a um edifício abandonado, Afrodite ergueu os enormes óculos escuros e compreendeu as palavras de Saga. Não apenas a construção era decadente, como também o pareciam os seus frequentadores.

Alguns homens e mulheres jogavam cartas sobre uma mesa improvisada, ostentando suas armas sobre ela ou mal disfarçadas na cintura.

A um canto, um jovem estava deitado sem apresentar sinais de vida, àquela distância. Notando o olhar de Afrodite para ele, um homem ruivo, que se retirara do jogo de carteado, soltou uma baforada de cigarro barato e deu uma risada.

– Aquele ali tá vivo mas exagerou na dose hoje. Vai voltar em algumas horas. nunca teve aqui, né, belezinha?

Saga cutucou as costelas de Afrodite com o cotovelo. Era hora de atuarem.

Afrodite sorriu.

– Digamos que eu frequentava outro ponto. Mas, desde que Kostas foi preso...

– Primeiro acerto que o maldito faz na vida é encaminhar os clientes pra gente. Diga, belezinha, o que vai ser hoje?

– Informação. Depois que nos apresentarmos.

– Oh, será um prazer nos apresentarmos, lindinha. Vamos lá pro fundo.

Encaminharam-se para os fundos do edifício, onde havia uma cabana em igual estado: parecia abandonada havia anos. O homem que os levou até lá abriu a porta.

– Também precisarei de armas – Afrodite acrescentou, em um sussurro.

– Tudo o que quiser. Se puder pagar, é claro.

– Dinheiro não será problema.

– Agora a gente tá falando. Mas é melhor cê dar um jeito na sua abstinência antes de pegar numa arma, bonitinha.

Os olhos de Afrodite procuraram Saga, que abraçou-o pela cintura.

– Isto não será um problema, senhor...

– Egisto – ele deixou escapar uma risadinha. – E corta essa de almofadinha de chamar os outros de senhor.

– Bom, Egisto – Saga retrucou – aposto que você tem o que precisamos para acabar com a abstinência da minha esposa.

Afrodite precisou usar todo o auto-controle para não demonstrar surpresa ou socar o rosto de Saga naquele momento. Sabia, porém, que estavam apenas encenando. E, se desejassem as informações que foram buscar, precisariam se passar por pessoas completamente diferentes de si mesmos.

Egisto apontou cadeiras de metal enferrujado, dispostas em torno de uma mesa de madeira carcomida.

– Sentem-se aí – acendeu um cigarro e o ofereceu a Saga e a Afrodite, que o recusaram.

– Egisto, você deve saber que Kostas tinha o melhor fornecedor de armas da Europa, ou é o que dizem – Afrodite explanou, tomando cuidado para não deixar transparecer emoção em sua voz – um homem que não hesitaria em contrabandear um volume absurdo de armamentos para quem pagasse o maior preço.

– Tá falando do Máscara da Morte.

– Exatamente. Eu preciso de uma... – Mesmo o riso baixo parecia encaixar-se na personagem que Afrodite assumia – Certa quantidade de armas pesadas, como também de semi-automáticas.

– E quer que todas venham do mesmo fornecedor.

– A logística é mais simples, assim. Além do mais, minha esposa aqui é cheia dos caprichos e só aceita as coisas do jeito dela, se é que me entende. – Saga piscou para Egisto.

Se a situação fosse outra, Afrodite teria uma conversa muito séria com Saga. Não gostava do papel que interpretava, mas ele parecia levar a alguma pista. Era questão de tempo e de permanecer fiel à personagem para que Egisto mordesse a isca.

– Sabe onde encontrar pelo menos um intermediário dele? Devo acrescentar que o meu marido deixou de mencionar que, quanto menos pessoas souberem de nossas aquisições, melhor para todos os envolvidos.

Mostrou um envelope de papel pardo, tão cheio que parecia quase rasgar-se, para o ruivo.

– Posso contar com sua discrição? Temos mais, é claro, mas eu prefiro fechar a negociação depois de certas garantias.

Egisto abriu o envelope e assoviou. Estendeu a mão para Afrodite.

– Pode contar com a minha total discrição, gracinha. Aliás... – Retirou um papel amassado do bolso da calça, rabiscou algo ali, e o estendeu para Afrodite – O intermediário.

– Traremos o resto do seu pagamento na semana que vem. E certamente combinaremos sua comissão quando voltarmos. Pode ser assim? – Saga indagou.

Parecia um negócio vantajoso. Egisto apenas assentiu.

– Até a próxima semana.

– Até!

Durante todo o trajeto até a casa do sueco, permaneceram em silêncio. Afrodite não tirava os olhos do papel amassado. Hades. Que nome – talvez fosse pseudônimo – para um negociante de armas.

– Você está bem?

A voz de Saga o levou de volta à realidade.

– Melhor agora que temos uma pista. Obrigado, Saga.

– Não foi nada. Você sabe que ainda tenho dívidas com você.

– Mas eu não fui de muita utilidade naquela época... Quando isto passar, prometo ajudá-lo a procurar Kanon, Saga.

Quando desceu do carro, pensou ter ouvido Saga resmungando algo como "bobagens". Acenou para ele e encaminhou-se para a casa imensa e vazia. Ainda teria muito a fazer.