Olá.
Este capitulo começa com a música que me inspirou a escrever esta história, cujo nome ela deriva.
Espero que gostem.
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Capitulo 2 – Impotente
Linkin Park - Powerless - Impotente
You hid your skeletons when I had shown you mine
Escondeste os teus segredos quando eu te revelei os meus
You woke the devil that I thought you'd left behind
Acordas-te o demónio que eu pensava que tinhas deixado para trás
I saw the evidence, the crimson soaking through
Eu vi as provas, e elas pingavam vermelho sangue
Ten thousand promises, ten thousand ways to lose
Dez mil promessas, dez mil formas de as quebrar
And you held it all
E estava tudo nas tuas mãos
But you were careless to let it fall
Mas foste descuidado e deixas-te cair
You held it all
Estava tudo nas tuas mãos
And I was by your side
E eu estava a teu lado
Powerless
Impotente
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O Kenshin parou de respirar quando a viu. O que era aquilo? Uma aparição? Um fantasma do passado que tinha voltado para o atormentar?
A sua boca abriu-se para pronunciar o nome dela, mas o seu cérebro ainda não tinha aceite bem que era mesmo ela: "Tomoe?" – a voz dele fez um arco para um tom mais agudo.
A mulher sorriu e deu um passo em frente: "Anata."
A Kaoru sentiu um nó no estômago quando viu aquela cena desenrolar-se. Ela não conseguia ver o rosto do Kenshin porque tinha ficado atrás dele… Estaria ele feliz?
O Kenshin manteve-se imóvel como se tivesse ficado petrificado enquanto a Tomoe se aproximou e o abraçou, instintivamente ele olhou para o Enishi à procura de respostas, mas o seu ex… ou talvez, atual cunhado simplesmente desviou o olhar.
O Sano aproximou-se lentamente da Kaoru que de tão pálida parecia que ia quebrar a qualquer momento e pousou-lhe a mão no ombro. Ela olhou para ele como se tivesse sido acordada de um transe, piscou várias vezes os olhos… Não… não era um pesadelo, era real. Respirou fundo e controlou a vontade de chorar.
"Kenshin?" – a Tomoe soltou-se dele e olhou-o: "Não pareces feliz por me ver."
O Kenshin engoliu em seco: "Como é que…"
"Eu vou preparar um chá." –A Kaoru aproveitou a deixa para sair de cena andando para a cozinha em passo apressado. O ruivo sentiu uma pontada no peito quando a viu fugir assim… ele ainda não tinha percebido o que se estava a passar, mas, sabia que ela estava a sofrer tanto ou mais do que ele.
"Vamos entrar e sentar-nos." – o Kenshin fez sinal para entrarem para a sala enquanto tentava evitar o olhar constante da Tomoe.
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A Kaoru pegou no bule e encheu-o com àgua.
Eu não vou chorar, eu não posso chorar.
Ela pensou e repensou a situação na sua mente. A Tomoe estava viva. Durante todo aquele tempo. Como era isso possível?
Pousou o bule que estava no fogo e como que pôde sentir que era o seu peito que fervia e não a àgua dentro daquele recipiente. Teria sido tudo uma ilusão? O que viveu hoje de manhã? O que sentiu quando ele lhe disse que a amava, quando a beijou… A felicidade que a preencheu quando lhe perguntou se queria ter filhos? Teria sido tudo mentira?
"Tu és a minha única família Kaoru."- ela lembrou as palavras dele nesse manhã -"Mesmo que todos os outros partam, eu vou ficar sempre a teu lado…Prometo."
E agora? Como é que ele planeava cumprir as promessas que tinha feito?
A Kaoru pousou os braços no balcão, só agora tinha reparado que tinha as mãos a tremer…
E se ele partisse? E se a sua culpa relativa a tudo o que tinha acontecido entre eles falasse mais alto? Pior do que isso, e se ele ainda a amasse? Esse era sem sombra de dúvidas o maior medo da jovem instrutora.
Kenshin… Será que ainda a amas? A Kaoru sentiu-se inútil e diminuída perante aquela mulher… Apesar de bem mais velha a Tomoe era linda e elegante… Provavelmente sabia cozinhar bem e era dócil e meiga… Uma típica mulher-modelo japonesa… A mulher ideal… Tudo o que eu não sou.
Mas… o Kenshin pediu-me em casamento! E disse que me amava…
Apesar de ténue, a Kaoru ainda tinha uma esperança de que o seu viajante se sentisse confortável com a vida que tinha agora e não quisesse mais remexer em nada que se ligasse ao seu passado, e isso, incluía a Tomoe…
Talvez…
Com isso em mente a Kaoru respirou fundo e pegou no tabuleiro com os chás decida a entrar na sala de cabeça erguida.
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Estava silêncio na sala. Ninguém sabia o que dizer.
Ele não sabia explicar o que sentia. O Kenshin observou a Tomoe. Os anos tinham passado por ela… o seu rosto, apesar manter os mesmos traços continuava belo mas marcado por sofrimento. O Kenshin sentia uma culpa enorme por ela estar ali a olhar para ele à espera de um gesto, uma palavra que a fizesse sentir-se desejada e ele simplesmente não conseguir dizer nada de tão atónito que estava. Por outro lado, sentia um alívio enorme por saber que não era responsável pela sua morte… Era menos um apontamento que saía da sua lista de pecados….
Ele suspirou quando ouviu os passos da Kaoru a aproximar-se. Assim que ela entrou e se sentou entre o Sano e o Yahiko ele disse: "Conta-nos tudo por favor."
O Enishi observou o ruivo. A forma como ele falou para ela era a de um homem diferente daquele que tinha casado com a sua irmã. O olhar meigo, e o débil sorriso que costumava aparecer nos seus lábios quando falava com ela tinham desaparecido. O seu tom era sério, e ele estava focalizado não em aproveitar o facto de a sua irmã estar viva, mas em perceber o que se tinha passado. Comparando com a altura em que ele foi à sua casa resgatar a Kaoru, eram duas atitudes muito distintas… O sorriso quando a viu aparecer e o olhar esperançoso e confiante tinham desaparecido.
As memórias começaram a reaparecer na sua mente:
Estavam na praia em frente à mansão e o ENishi avançou para enfrentar o ruivo.
O Yahiko colocou a espada na sua frente e impediu-o de avançar: "Tu não te importas com mais nada, pois não?" – ele estava de rastos depois de ter lutado com os guardas do Heinshin, mas mesmo assim tinha arranjado forças para o enfrentar: – "Onde está a Kaoru?" – ele exigiu saber sem tirar os olhos dele: "Não me digas que ela está morta, porque se o fizeres, em lugar do Kenshin que jurou não matar ninguém, eu prometo que te mato!"
O Sano pousou a mão na cabeça do míudo e fez suas as palavras dele, e foi só quando ouviram a Kaoru sair do meio da floresta que todos eles descansaram.
A Expressão dele quando a viu foi de alívio e de alegria. Um sorriso de satisfação apareceu nos lábios do Battousai que de imediato se levantou e sorriu para a ela:
"Não te preocupes Kaoru, eu já vou ter contigo."
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O Enishi abriu os olhos e fixou-se na realidade.
Uma atitude muito diferente da que ele tinha tido para com a sua irmã. Era óbvio. Ele não a amava.
Alheia a todas estas memórias a Tomoe começou a contar tudo o que se tinha passado:
"Quando a tua espada me atingiu eu fiquei como que morta… acho que as dores eram tão fortes que o meu corpo arranjou uma forma de se desligar… por isso, tanto tu como o meu irmão pensaram que eu tinha morrido. Só me lembro de acordar e ver uma senhora a tratar de mim."
"Mas tu tiveste um enterro… tens um túmulo memorial em teu nome!" – o Kenshin disse incrédulo. Todo aquele sofrimento, toda aquela dor, as idas a Tokyo para visitar o túmulo dela… tudo aquilo era uma fachada, uma mentira.
"Eu só mais tarde é que soube disso." – ela não levantou a voz mesmo estando a defender-se – "Ela explicou-me que eu fui deixada como morta no médico, mas que ela se apercebeu que eu estava a respirar… e então cuidou de mim, e graças àqueles remédios antigos e naturais que ela fazia, a única recordação que tenho é a cicatriz que a tua espada me deixou."
O Kenshin engoliu em seco. "E porque não disses-te logo? Porque não procuras-te por mim ou pelo teu irmão?"
Mais uma vez a calma dela foi inquebrável: "Tu desapareces-te como um fantasma Kenshin após o final da era de Tokugawa." - ela respondeu – "E o meu irmão tambem. E então, em sinal de gratidão por ter tomado conta de mim, eu decidi tomar conta daquela anciã, visto que ela não tinha mais filhos…"
"E porquê que decidiste voltar agora?" – o Kenshin perguntou exausto daquela história.
"Porque ela morreu… E… por coincidência fiquei a saber que o meu irmão estava na prisão da cidade onde eu vivo…"
"Tu não estavas preso aqui, em Kyoto?" – A Kaoru falou pela primeira vez.
"Eu fugi daqui na primeira noite." – ele respondeu – "Depois fui preso novamente, porque quis." Ele olhou para a irmã - "Quando ela foi à prisão eu não me queria acreditar que fosse verdade. Só passados alguns dias, quando ela pediu para te ver é que me apercebi que era real. Não era um sonho… caso contrário tu não entrarias nele." O Enishi continuava a não suportar o Kenshin e isso notou-se na forma ofensiva como falou: "Fica claro que eu não concordo com isto, tu só lhe vais fazer mal." – o Enishi olhou para o Kenshin e depois para a Kaoru à espera que ela dissesse algo em defesa dele, como ela sempre fazia, mas para sua surpresa ela não falou.
A Tomoe pousou a mão no braço do irmão: "Kenshin, eu quero recomeçar a minha vida do sítio onde ela parou. Estes anos para mim foram um suplício e eu acho que merecemos ser felizes…"
O Kenshin baixou o olhar incapaz de a olhar nos olhos, desejando secretamente que tudo isto fosse um pesadelo. "Tomoe, passaram dez anos."
A Kaoru suspirou, aquilo ia entrar num campo intimo, eles iam falar de coisas que se tinham passado entre eles às quais só a eles lhes diziam respeito. Por repulsa e tambem por não conseguir aguentar mais a forma como ela demonstrava que ainda estava apaixonada pelo homem que ela tambem amava, a Kaoru levantou-se, deixando todos a olhá-la.
O Kenshin teve a esperança de que ela fosse falar, se fosse impôr, que ela pudesse tomar aquela decisão por ele. Mas ao mesmo tempo ele sabia que ela nunca faria isso: "Eu acho que vocês tem de conversar em privado. Afinal de contas… é um assunto vosso." – Não foi preciso fazer sinal para se levantarem, tanto o Yahiko como o Sanosuke se seguiram-na de bom grado. Aquilo também era demais para eles…
O Enishi apesar de renitente ao inicio depois acabou por sair também.
A Kaoru saiu da sala disparada para o exterior do dojo e calçou os chinelos. O Sano correu atrás dela:
"Jo-chan, espera." – mas ela andou sempre e ele teve de correr para a alcançar.
"Deixa-me sair um pouco eu não aguento estar aqui Sano, por favor, não me impeças." Ele olhou para a amiga: "Eu não te vou impedir, só vou contigo porque também não aguento este ambiente."
A Kaoru assentiu, abriu a porta do dojo e caminhou, caminhou, caminhou… depois parou de repente. O Sanosuke ficou a observá-la. Ele sabia que mais cedo ou mais tarde ela ia acabar por desabar. Primeiro ela cerrou os punhos, depois abanou a cabeça depois abaixou-se e ficou de cócaras com a cabeça entre as pernas, e foi aí que ele se aproximou e a obrigou a levantar-se: "Anda cá." – ele abraçou-a enquanto ela soluçava compulsivamente, deixando toda a frustração e raiva sair: "Ele pediu-me… em…" – de inicio ele pensou que ela ia sufocar – "Tem calma Jo, o Kenshin vai tomar a decisão certa…", mas ela continuou a soluçar: "casamento hoje."
Ele juntou as duas frases e achou que tinha percebido mal, por isso afastou-a: "Ele o quê?"
As lágrimas escorreram pelo rosto da jovem enquanto ela tentava formular de novo a frase: "Ele hoje pediu-me em casamento…"
O Sanosuke acenou: "A sério?" – ele aconchegou-lhe os ombros – "Estás a ver? Ele gosta de ti. Ele pode estar confuso, porque é muita coisa ao mesmo tempo… mas eu tenho a certeza…"
"Ela é a mulher dele Sano!" - A Kaoru afastou-o. – "E eu sou apenas a pessoa que lhe deu uma casa." – ela virou costas e continuou a andar, mas ele não desistiu.
"Ei! Ei!" – ele agarrou e abanou-a para a chamar à realidade: "Ele gosta de ti, tu sabes disso e ele sabe disso." – ele falou num tom mais alto – "Não te vais minimizar perante aquela mulher, estás a ouvir! Mesmo que ele cometa o erro de ir com ela, tu nunca te minimizes dessa forma… se não fosses tu, ele não era nada para além de um viajante, o Yahiko não era nada para além de um ladrãozito qualquer e eu… continuava a viver de trabalhos sujos."
A Kaoru ficou atordoada com a reacção dele ao ínicio mas depois percebeu que ele estava apenas preocupado. Suspirou e encostou a cabeça ao peito dele. "Se ele se for embora Sano… eu não tenho o direito de…"
"Shhh… eu tenho a certeza de que ele não vai fazer isso." –ele apoiou o queixo na cabeça dela. Ele sabia o que era gostar de alguém… e também sabia o que era ficar sem esse alguém… Mas se isso acontecesse com a Kaoru, ainda por cima numa situação como estas, ele tinha a certeza de que ela não se ia aguentar.
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"Não precisas de ficar aqui de vigia, eu não vou fazer nada." – o Enishi advertiu o Yahiko que estava na sua frente em posição de sentinela.
"Eu não confio em ti." – a resposta foi sincera e imediata e fez o irmão da Tomoe rir-se: "Eu tambem não confiaria se estivesse no teu lugar"
O Yahiko não gostou do tom e ameaçou: "Nós nunca vamos permitir que tu lhe faças mal de novo."
"A quem? Á Kaoru?" – ele perguntou em tom de gozo sentando-se e cruzando os braços atrás da cabeça– "ohhh… eu nem consigo imaginar porque pensas assim?" – A cara de poucos amigos do Yahiko fê-lo ter ainda mais vontade de continuar, mas o miúdo pareceu transformar-se num tigre quando ele gozou com a situação:
"Tu não admites que ninguém maltrate a tua irmã, pois não?" – Ele rosnou – "A Kaoru é para mim como uma irmã! Não te atrevas a brincar com a segurança dela ou vais ter de te haver comigo!"
A atitude dele fez o Enishi ter um flasback dele mesmo há muitos anos atrás…. Ninguém podia fazer nenhum comentário torto acerca da Tomoe que ele transformava-se, exatamente como o jovem na sua frente.
"Eu não lhe vou fazer mal." – ele respondeu ainda atordoado com as memórias que aquela ida ao dojo lhe estava a proporcionar. Depois levantou-se e começou a caminhar… "Só gostava de ser mosca para ouvir o que eles estão a dizer." – ele disse pensativo.
A mudança de atitude confundiu o Yahiko. O Enishi estava a agir como uma pessoa normal?
O irmão da Tomoe fixou o olhar no miúdo: "Eles casaram?"
"Uh?" – o aprendiz levantou o sobrolho sem perceber. O Outro exasperou: "A Kaoru e o Battousai! Eles casaram?"
"Ah! Não… eles não casaram." – o Yahiko respondeu.
A resposta não pareceu agradar ao Enishi que planeava continuar a interrogar o Yahiko, mas com a chegada da Kaoru ele decidiu que era melhor parar. Era evidente que ela estava a sofrer… E era com esse sofrimento que ele contava para impedir o Kenshin de aceitar o pedido da irmã.
Quando entrou e viu os dois cá fora a Kaoru apercebeu-se de que apesar de já ter passado mais de uma hora, o Kenshin e a Tomoe ainda estavam a conversar, e isso aumentava ainda mais a certeza que ela tinha quanto ao que o Kenshin ia fazer. Sem conseguir ficar parada à espera ela caminhou para a cozinha mas parou quando ouviu a porta da sala deslizar.
Eles saíram.
A Tomoe olhou para o irmão e sorriu. A Kaoru engoliu em seco. Se a mulher do Kenshin estava feliz, então isso significava que ele ia com ela.
"Yahiko, hoje dormes no meu quarto, para que a Tomoe-san possa dormir no teu." – a Kaoru virou costas. Ela já sabia o que tinha de fazer… não podia ficar ali. "Kaoru-san." – ela ouviu pela primeira vez o seu nome dito pela Tomoe e sentiu todos os pelos do seu corpo a levantarem-se. Ela caminhou apressadamente até perto da Kaoru e disse com um sorriso: "Será que eu podia ficar no mesmo quarto que tu? Pensei que talvez pudéssemos conhecer-nos melhor."
A Kaoru só não abriu a boca de espanto porque ficava mal. Porque razão é que aquela mulher a queria conhecer? Já não lhe tinha causado sofrimento que bastasse? "Desculpa Tomoe, mas tenho uma amiga que está com problemas, e ela pediu-me se eu podia ficar em casa dela hoje para a ajudar."
A Tomoe acenou: "Que pena." – o tom pareceu sincero… se calhar ela estava alheia a tudo o que se tinha passado entre ela e o Kenshin.
A Kaoru tentou esboçar um sorriso: "Boa noite." – mas foi mal sucedida. De imediato virou costas e foi para o quarto. Retirou apressadamente algumas coisas da gaveta e colocou-as num pequeno saco. Era tudo o que ela precisava para aquela noite.
Eu não vou ficar cá e vê-lo partir com ela… Seria ainda mais doloroso.
Mas depois, algo lhe veio à mente. A Despedida.
Não seria pior se não se despedissem? Não doeria mais saber que nunca mais o ia ver e que nem teve a hipótese de lhe dizer adeus? Como é que ela ia conseguir fechar aquele capítulo sem se despedir dele? Ele tinha feito o mesmo com ela quando partiu para Edo… Ele despediu-se apenas e só dela…. Por isso, ela ia agir da mesma forma, ia despedir-se apenas e só dele.
Mas como faria isso? Não ia entrar no quarto dele… ainda para mais com toda esta situação… era… desconfortável… como se uma parte dele agora lhe fosse estranha.
Não… eu vou até ao dojo, à parte de treino… ele vai sentir que eu estou lá… Se quiser falar comigo aparecerá… se não quiser… aí já é com ele.
A jovem deslizou a porta do quarto. Já todos se tinham ido deitar e toda a casa estava às escuras. A Kaoru caminhou até ao dojo lentamente na esperança de que ele se apercebesse que ela estava ali. Quando chegou lá dentro olhou para os nomes na parede. Em breve iam perder um habitante. Era triste, desesperante e até mesmo irrisório… mas aparentemente ela tinha de se conformar.
Os seus pensamentos congelaram quando sentiu a presença dele. Era um alívio saber que ele queria falar com ela, mas ao mesmo tempo era constrangedor… não sabia o que dizer.
"Eu sei que isto é injusto para ti." – ele começou por dizer apesar de a Kaoru ainda se manter de costas. As palavras pareciam vazias… porque nada que ele dissesse ou fizesse o ia fazer sentir melhor. Ele sentia-se um monstro por tudo o que lhe estava a fazer… Se ao menos tudo tivesse sido diferente… Se ele tivesse tido a coragem de derramar o seu coração perante ela há algum tempo atrás… então hoje já estariam casados e nada do que a Tomoe fizesse ou dissesse poderia anular isso. Ela não estaria dividido entre o seu dever e o seu coração… "Parece surreal… eu ainda não consigo acreditar nisto." – ele aproximou-se e ela voltou-se de frente. Estava a ser difícil controlar as lágrimas, mas, ela não queria que a última recordação que ele ia ter sua fosse uma em que estava a chorar.
Apesar de estar escuro, a Kaoru notou que o olhar dele estava fundo… e pela primeira vez desde que se conheceram o Kenshin tinha ficado sem saber o que dizer, o que argumentar… logo ele que era tão bom nisso… Por outro lado, a Kaoru via tudo isto a acontecer à sua frente sem puder fazer nada para o impedir… Ambos estavam impotentes perante esta situação… Os acontecimentos eram simplesmente grandes demais para serem alterados por duas pessoas como eles. Só uma intervenção divina os podia ajudar…
Perante o silêncio do Ex esquartejador, a Kaoru decidiu dar o primeiro e também o último passo: "Eu não te posso culpar pela decisão que tomas-te." – ela olhou-o fundo nos olhos… naquelas órbitas violeta que ela nunca mais ia ver: "Afinal de contas ela é a tua mulher." – dizê-lo em alta voz doeu mais do que aquilo que ela tinha pensado, principalmente na parte em que se referiu à Tomoe como mulher dele, quando na realidade ela sentia que esse era o lugar que lhe estava a ser roubado. Ela respirou fundo para ganhar coragem para continuar: "Todo este tempo foi maravilhoso Kenshin."
O Ruivo engoliu em seco. Aquela mulher por quem ele se tinha apaixonado, parecia tornar-se mais forte a cada dia… ele pensou que a fosse ver chorar, pensou que a fosse poder abraçar mal a primeira lágrima caísse, mas ela estava a fazer algo contrário à sua personalidade… mascarar sentimentos. "Espero que sejas feliz."
Ele tentou tocar-lhe no rosto, mas ela afastou-se: "Obrigada por tudo senhor viajante." – ela deu um pequeno sorriso e segurou a mão que tinha afastado na dela por alguns segundos. "Adeus Kenshin." – ela largou a sua mão e saiu rapidamente.
O ruivo manteve-se imóvel com a mão que ela tinha segurado ainda esticada, como se ela ainda estivesse ali. Tudo aquilo estava a deixá-lo doente… aquele sofrimento…
"Adeus, menina Kaoru." – ele disse mas ela já estava longe demais para ouvir.
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Não valia a pena tentar… ele já tinha imaginado que aquela noite ia ser assim.
O Ruivo estava encostado à parede do quarto, sentado no chão a olhar para a mão que ela tinha segurado na noite anterior. Ou a sua mente andava a pregar-lhe partidas ou a sua pele ainda tinha o cheiro do perfume dela. Ele levantou-se saiu do quarto e caminhou pelo corredor. O galo estava prestes a cantar e o sol a acordar. E o Kenshin percorria as várias divisões da casa à procura de memórias que o fizessem sentir-se vivo.
Quando passou pela sala e recordou a festa que fizeram quando o Sano pensava que ia embora, aquela em que a Kaoru se embriagou e revelou alguns pormenores… íntimos. Depois, no dojo, lembrou-se do dia em que a ajudou a desmascarar o Gohei…
"Tu podes ficar… aqui." – ela disse ainda de costas viradas.
"Depois de saberes toda a verdade acerca de mim… Quem eu fui? Alguém como eu só te vai trazer problemas se ficar aqui." – ele respondeu certo de que isso se ia cumprir mas com vontade de que não fosse assim, pois a ligação que sentia por aquela jovem estranha já era mais forte do que a que ele alguma vez tinha sentido antes por alguem. Foi então que a resposta dela o apanhou de surpresa.
"Eu não quero o lendário esquartejador… eu quero o viajante… o Kenshin que eu conheci… é esse que eu quero que fique… " – ela devia estar a corar pois continuava de costas. As palavras dela, a sinceridade com que falou mostravam uma pureza de coração que nunca antes ele tinha visto. Quando fechou a porta ela pensou que ele tivesse partido e suspirou de tristeza.
"Eu acho que já viajei demasiado tempo." –todo o corpo dela reagiu ao ouvir a sua voz. Ela voltou-se de imediato com um sorriso nos lábios: "Vais ficar?"
Ele sorriu e começaram a ir ao encontro um do outro: "Eu posso ajudar-te na cozinha." – ele respondeu. Ela deu mais um passo em frente: "Sim… Porque tu até cozinhas melhor do que eu." – ela riu-se."E posso ajudar-te nas tarefas domésticas." – ele deu mais um passo em frente e ela deu outro: "E se tentares entrar outra vez na casa de banho enquanto eu estou lá, eu dou-te um murro!" – e esticou a mão na direção do seu rosto.
Ele lembra-se de ter caído com o impacto: "Oroooorororo…" Ela encolheu-se: "Kenshin!Kenshin! Desculpa, eu pensei que te fosses defender!"
O Kenshin deu por si a sorrir com as recordações… Tudo ali parecia perfeito…
Não… ela fazia tudo o resto parecer perfeito…
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Já estava tudo pronto para partirem. O Kenshin continuava com esperança de que ela aparecesse e já preocupado, visto que o Enishi tambem não estava ele comentou com o Sanosuke que se calhar era melhor ir procura-los, mas o amigo abanou com a cabeça: "É melhor que não o faças."
"Mas ela pode estar em perigo!" – ele tentou, mas o Sano garantiu-lhe: "Ela está bem…" e colocou-se na frente do ruivo impedindo-o de avançar. O Kenshin percebeu de imediato que ela não vinha e deixou-se desanimar ainda mais…
A Tomoe saiu do quarto e caminhou até eles: "A Kaoru-san ainda não voltou?" – ela sabia que ainda não tinham saído porque estavam à espera dela e encarava isso como normal, pois estava alheia a tudo o que se tinha passado entre eles na sua ausência. Afinal de contas, ela tinha-lhe dado uma casa durante todo este tempo, e ele queria apenas agradecer-lhe.
"Ela não vem. Acho que o problema da Tae era grave e ela deve ter decidido ficar…" – o Yahiko respondeu cobrindo a desculpa que a Kaoru tinha dado na noite anterior.
"É pena…" – a mulher do Kenshin olhou para o quarto onde a Kaoru devia dormir… "Eu gostava de ter hipótese de me despedir dela e agradecer por tudo o que ela fez por ti, achas que não podemos passar por…" –O Kenshin não a deixou acabar: "Vamos embora." – o seu tom foi ríspido o que fez o Sano e o Yahiko estranharem, porque o Kenshin nunca falava assim com ninguém, muito menos com uma senhora.
"Adeus." – ele voltou as costas, colocou os braços dentro da camisola e começou a caminhar. A Tomoe fez uma pequena vénia de despedida aos habitantes do dojo e seguiu o ruivo a alguma distância.
O Sano e o Yahiko ficaram a vê-los partir perguntando-se como iam ser as coisas no dojo depois da saída do ruivo.
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A Kaoru olhou pela janela para as pessoas que passeavam na rua. Como ela gostava de saber se alguma delas estava a viver um pesadelo pior do que o seu.
Teriam eles partido por esta altura?
Um barulho de fundo fê-la desviar a atenção da janela para a porta. Alguem vinha a subir as escadas e a voz da Tae reclamava furiosamente: "Tu não podes subir !" A Kaoru levantou-se e ia em direcção à porta quando esta se abriu furiosamente para trás.
"Estás a desistir mais facilmente do que eu pensava."
Ela olhou para o Enishi parado na sua frente.
Para quem esteve preso ele vestia-se demasiado bem… roupa preta elegante, botões de punho, o habitual brinco e os óculos que desta vez vinham na mão. A Kaoru espreitou para trás dele e acalmou a Tae: "Deixa Tae, eu trato dele." A jovem olhou-a incerta: "Tens a certeza?" ela acenou e a dona do restaurante desceu ainda a reclamar.
A Kaoru passou por ele e fechou a porta, depois olhou-o nos olhos: "A decisão não é minha para que seja eu a tomá-la." Ele aproximou-se e segurou-a pelo braço – "Chorar não te adianta de nada… Tu tens de agir!"
Ela rodou o braço e soltou-se dele: "Já te disse! Não é uma decisão que seja da minha responsabilidade tomar!" – ela berrou irritada com a insistência dele – "Ela é a mulher dele, se ele a aceitou de volta é porque é dela que gosta." – todo a raiva que sentia em relação aquela situação estava a fazer-lhe mal, se a guardasse para si ia consumi-la, e se ele tinha vindo ali para a criticar, então ia ter de a ouvir: "Se não querias isto, porquê que a trouxeste? Porquê não lhe mentiste e não lhe disseste que o Kenshin estava morto?" – ela gritou. Como é que ele se atrevia em culpá-la? Ela estava a sentir-se lixo com tudo aquilo e ele ainda a estava a mandar agir? Como se houvesse algo que ela pudesse fazer! Logo ele, que tinha sido quem tinha trazido a irmã de volta… logo ele que era o responsável por esta confusão toda!
O Enishi ficou surpreendido com a forma como ela reagiu, no fundo ela tinha razão, ele podia ter evitado tudo aquilo, mas ele não quis contrariar os desejos da irmã apesar de se ter sentido traído quando ela perguntou pelo Battousai. ""A mulher que conheci há um ano atrás era mais lutadora e mais forte do que tu." Mesmo assim ele não quis dar o braço a torcer.
A Kaoru voltou costas e depois de algum silêncio encolheu os ombros e caminhou até à janela: "Essa mulher morreu ontem." A voz dela enrouqueceu quando falou.
O Enishi colocou-se ao lado dela partilhando a mesma vista da janela, mas depois voltou a atenção para a jovem. Os seus olhos estavam vermelhos e inchados, provavelmente de chorar. A Kaoru reivindicativa e rebelde que ele manteve cativa em sua casa não era decididamente a mesma pessoa que estava ao seu lado agora. Aquela imagem fê-lo lembrar-se de quão miserável a sua irmã ficou quando soube da morte do noivo. Ela tinha-se fechado no quarto durante dias, sem falar com ninguém, sem sorrir… e tentou inclusive matar-se…. Depois decidiu vingar-se do Battousai e acabou casada com ele…
Ao olhar para a instrutora de Kendo não conseguia tirar da cabeça a pergunta: O que é que vai acontecer agora? Será que a história ia tomar um rumo semelhante à da sua irmã? Mas porquê que ele se interessava? Sem saber explicar porque todas aquelas ideias lhe vinham à mente ele segurou-a pelos ombros e abanou-a. Os olhos azuis da Kaoru abriram-se de espanto com o gesto súbito da parte dele. Ele olhou-a com um ar sério: "Não faças nada estúpido." – ele disse-lhe em tom de advertência. Depois soltou-a e aproximou-se da porta: "Eu vou estar atento." – e saiu tão de repente como tinha entrado.
A Kaoru suspira e olha pela janela vendo-o sair do restaurante na direção oposta à do dojo.
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Mais um capítulo.
Era para ter escrito a continuação toda num só capitulo, mas acabei por dividir em dois para nãos e tornar mais confuso, até porque vão passar seis meses entre um capitulo e outro.
O próximo deve ser colocado online até ao final desta semana.
Deixem os vossos comentários.
Obrigada.
