Capitulo 3 - O Intervalo
SEIS MESES DEPOIS DOS ACONTECIMENTOS DO CAPÍTULO ANTERIOR
Havia imensa gente nas bancadas a aplaudir a entrada dele. Nunca antes o Yahiko se tinha sentido tão importante.
"Yahiko concentra-te!" –a voz da sua instrutora acordou-o. Ela não queria que ele se concentrasse nas pessoas mas sim no seu adversário. O seu último adversário. "Ele tem mais força e é mais alto do que tu, mas tu és mais inteligente o que te faz mais forte do que ele." – a Kaoru encorajou-o. O jovem acenou.
Todos aqueles meses de trabalho árduo compensaram. Depois de o Kenshin ter partido A Kaoru devotou-se completamente aos treinos. Ela tinha-se empenhado em fazer dele um melhor lutador, mais forte, mais rápido, mais ágil… E agora estavam ali… Na final de um campeonato nacional.
Ele olhou para a jovem à sua frente. A sua sensei. A Kaoru já tinha cumprido a sua parte. Apesar de ter sido olhada com estranheza por ser a única mulher no concurso, ela Tinha derrotado todos os adversários que se cruzaram no seu caminho. Todos homens. E mesmo assim não se tinha perdido em celebrações. Ela estava atenta, a torcer para que ele ganhasse.
Todos os outros dojos eram sobejamente conhecidos, tinham anos de experiência em campeonatos como aquele e muitos deles estavam já carregados de títulos. O Dojo Kamyia era o único que parecia ter caído ali de para-quedas, no entanto, depois de chegarem ao fim sem perder um único combate, rapidamente se tornaram a equipa sensação daquele concurso. O Público estava, na sua maioria, a torcer por eles.
"Yahiko-chan!"– uma voz destacou-se da multidão, o Yahiko corou reconhecendo de imediato quem o chamava. Ele olhou para a Tsubame. Quantas vezes vou ter de te dizer para não me chamares Chan!
Ao observar a bancada onde os rostos familiares estavam ele deu-se conta de que todos os seus amigos estavam lá, excepto o Kenshin. Eles decidiram não lhe contar, para que a Kaoru pudesse estar completamente concentrada no torneio. O Sano levantou-lhe o braço em sinal de confiança e a Misao estava feita maluca aos pulos a gritar pelo nome do Dojo.
Era só mais um combate e depois disso tudo acabava e ele podia descansar. Era só mais um pouco de esforço para alcançar o tão desejado prémio. Mas mesmo que ele perdesse, ele sabia que o dojo já tinha conseguido o maior prémio de todos – Respeito.
O Yahiko observou o seu adversário aproximar-se e sentiu a adrenalina percorrer-lhe todo o corpo. Eu tenho de ganhar…
O jovem era dois anos mais velho que ele e posicionou-se na sua frente sem nenhum sinal aparente de nervosismo. Como campeão do ano anterior ele sentia-se bastante confiante. Eu tenho de ganhar pela Kaoru… para que ela possa ter orgulho em mim… Ele viu o juiz aproximar-se, o combate estava prestes a começar… Eu tenho de ganhar para provar a mim mesmo que sou capaz. O juiz levantou o braço e ambos tomaram as suas posições. Pela honra e pelo nome do Dojo que me acolheu… Eu vou ganhar.
Quando o gongo tocou o Yahiko levantou a sua bokken e olhou o adversário nos olhos. O barulho, a plateia… tudo desapareceu, só ficaram eles os dois.
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A Kaoru tentou controlar a respiração. Estava mais nervosa agora, do que em qualquer um dos seus combates. Não era falta de confiança no Yahiko, era apreensão. Afinal de contas, se ele perdesse a sua auto-estima ia pelo cano abaixo… Não importava que palavras ela usasse para lhe dizer que o segundo lugar era bom, ela conhecia bem o seu estudante.
O Yahiko tinha crescido imenso. Durante as manhãs treinava com ela, e durante a tarde trabalhava no restaurante. Além de ganhar algum dinheiro, isso ajudou-o a moldar o seu feitio e a forma como tratava as outras pessoas.
Daqui a uns dias ele ia ter quinze anos… mas era como se já fizesse vinte. Estava muito mais responsável do que antes. Ele era sem dúvida, o irmão mais novo que ela nunca teve. Após todos estes meses de treino, a Kaoru estava tinha confiança nas suas capacidades para a suceder na liderança do dojo.
A jovem treinadora observava a forma como ele se defendia dos golpes certeiros do adversário. Em vez de despender a sua energia em atacar o adversário vezes sem conta, o Yahiko estava à espera da ocasião certa para lhe desferir o golpe certeiro da vitória. Exatamente como ela lhe tinha ensinado.
É agora! – ambos pensaram em uníssono. O Yahiko desferiu um golpe no ombro do adversário que o deixou inoperável do braço direito. O jovem caiu ao chão desamparado mas levantou-se logo de seguida, no entanto, Ao se aperceber que era estava incapaz de segurar a bokken o juiz deu a vitória ao Yahiko.
Ele olhou para a sua instrutora com o olhar admirado. "Ganhei?"
A Kaoru teve de se controlar para não chorar de alegria. Estava muito feliz, ele tinha conseguido finalmente. Ele tinha ganho. O dojo Kamyia ganhava os dois primeiros títulos da sua história.
Distante da euforia em volta dos dois vencedores, um homem de óculos escuros levanta-se da plateia com um sorriso nos lábios: "Espera até saberes das novidades Battousai."
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"Sabes quantos pedidos de inscrição nos fizeram? Mais de Vinte!" – o Yahiko exclamou ao olhar para os papeis. A Kaoru sorriu. Isso significava que ia finalmente puder fazer obras no dojo.
"Agora até já temos dinheiro para pagar a alguem para cozinhar para nós!" – o Sanosuke encostou a cabeça para trás enquanto via a Misao e a Kaoru arrumarem as malas.
"Nem penses nisso!" – a Kaoru advertiu de imediato – "Temos que reparar o dojo, inclusive o buraco que ficou da tua luta com o Saito… Eu não vou receber os meus novos alunos sem antes arranjar o dojo!" O Sano barafustou mas sabia que isso não lhe ia adiantar de nada, por isso desistiu.
O Yahiko olhou para a mala que ela levava: "Vais por quanto tempo?"
"Quinze dias." – a Kaoru respondeu perguntando-se se faltava mais alguma coisa – "Eu vou deixar o dojo nas tuas mãos." O jovem aluno ergueu a cabeça e arregalou os olhos. Ela estava mesmo a falar a sério? Não ia pedir à Tae para dar uma olhadela? A Kaoru olhou-o séria: "Eu estou a confiar-te a minha casa… estou a depositar a minha confiança em ti." – ela levantou o dedo em tom de aviso: "Mas se quando eu voltar não estiver tudo conforme deixei, tu…" – ele não a deixou terminar: "Não te preocupes, vai estar tudo conforme tu deixas-te…." sensei…
A Kaoru expirou. Ia estar quinze dias afastada deles… Era a primeira vez desde que tinha viajado para Tokio para procurar o Kenshin, na altura da sua luta com o Shishio… Desde que tinha chegado tinha estado tão focada no concurso que nem sequer tinha pensado no ex-morador do seu dojo. Agora que tinha mais tempo livre, ela ia ter de se esforçar para continuar a ignorá-lo nos seus pensamentos. Ela tinha a certeza de que a Misao ia ser uma grande ajuda.
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O Enishi avistou a casa da sua irmã ao fundo e sorriu. Era bom estar de volta. Desde que a tinha encontrado, tinha retornado à sua vida normal… Se ela não tivesse decidido que queria reatar com o casamento psicadélico dela, podia viver com ele na mansão, onde haveria criados a servi-la e um jardim enorme para ela se entreter com as suas plantações.
Mas ele não se conformava que as coisas estivessem neste estado, por isso, já tinha um plano bem elaborado para que a situação se invertesse. E ia pô-lo em prática hoje.
O Battousai estava no exterior da casa na horta. O Enishi passou por ele e entrou na casa, ignorando-o. Ao ver a irmã, o seu sorriso aumentou ainda mais. A Tomoe aproximou-se e abraçou-o. Uma parte de si feliz por o rever, mas outra parte preocupada, porque sabia que sempre que o Enishi a visitava as coisas com o Kenshin ficavam ainda piores. Se isso era possível. "Estava com saudades tuas." – ele abraçou-a. A mulher fechou os olhos e inspirou o perfume do irmão: "E eu tuas… Mas… o que é isto?" – ela afastou-se para olhar para as coisas que ele tinha trazido consigo: "O que são estas caixas todas?" Ele tirou os óculos e sorriu: "São para ti, abre." – a Tomoe começou a abrir as caixas uma a uma. Um vestido, livros, tinteiros, uma infinidade de prendas que o irmão fez questão de lhe trazer, mas, os seus olhos abriram-se de surpresa quando abriu a última caixa. O Enishi ficou na expectativa… teria aquilo o efeito que ele queria nela?
A Tomoe segurou o objecto nas suas mãos… era um diário, igual ao que ela tinha tido há alguns anos atrás. "Oh… Enishi, tu lembras-te te." – ele quase que pôde jurar que ela tinha lágrimas nos olhos. Ele sorriu: "É claro que sim."
Aquele tinha sido o melhor de todos os presentes. Há anos que não escrevia… Por vezes, ela perguntava-se o que teria acontecido com o sue antigo diário… Era algo que queria perguntar ao seu marido assim que tivesse hipótese…
Nesse momento o ruivo entrou na cozinha com alguns vegetais nas mãos e pousou-os na banca. O Enishi, incomodado com a intromissão, decidiu que devia começar a pôr em prática o seu plano. Pegou no jornal que trazia debaixo do braço e falou num tom mais alto: "Ouvi dizer que o Dojo Kamyia ganhou os dois primeiros lugares no campeonato nacional de Kendo." – ele mostrou o jornal à irmã. O Kenshin voltou-se de imediato para perceber se o que ele estava a dizer era verdade ou mentira.
A Tomoe observou a fotografia da Kaoru e do Yahiko na capa e começou a ler em voz alta a noticia de primeira página do jornal:
Dojo desconhecido faz sensação em concurso nacional
Uma mulher e uma criança foram os vencedores do concurso nacional de Kendo, levando o seu dojo – Dojo Kamyia a obter os primeiros dois títulos da sua história.
Desconsiderados pela sua natureza e idade os dois representantes do dojo Kamyia derrotaram um a um os adversários que lhes eram apresentados. Professora e aluno surpreenderam tudo e todos, deixando boquiabertos os membros da comissão do júri do concurso. Kogoro Katsura, ex-lider dos Ishinshinshi disse em entrevista ao nosso jornal:
"Fiquei tremendamente surpreendido com os representantes do dojo Kamyia. Certamente que é preciso muita coragem para lutar contra todos os nomes proeminentes que estiveram aqui durante estes três dias… e é preciso muito mais do que coragem para os vencer.
Apesar de vivermos em paz, estes jovens mostraram que o espirito de honra e bravura presente nos nossos ancestrais não morreu na era anterior… Não, ele mantem-se vivo atravessando o tempo e as gerações. Miojin Yahiko mostra já em muito jovem qualidades valiosas que farão dele uma referencia para os jovens e quanto a Senhorita Kamyia Kaoru… bem… ela é uma mulher fascinante, a sua força, beleza e destemor são notórios… uma autêntica descrição da mulher da nova era Meiji… acho que vai rapidamente tornar-se uma inspiração para muitas outras mulheres neste país."
A Tomoe terminou de ler e passou o jornal ao Kenshin com um sorriso nos lábios. O ruivo olhou para as fotos e de imediato uma onda de saudade invadiu-o violentamente, como uma onda do mar que nos apanha de surpresa. Ele olhou para o rosto dela… o sorriso nos seus lábios… o cabelo preso atrás, a sua roupa de treino… era ela… como ele a costumava ver todos os dias no dojo. Há quanto tempo é que os seus olhos desejavam vê-la mas não lhes era permitido… Apesar de ser só uma imagem a preto e branco, o Kenshin sentiu uma felicidade enorme. Mas era uma felicidade agridoce…
"A Kaoru-san é uma mulher extraordinariamente talentosa… " – a Tomoe pegou nos seus presentes e tirou-os de cima da mesa – "Admira-me que ainda não tenha casado."
O Enishi ajudou a irmã: "Não te preocupes que agora os pretendentes vão fazer fila à porta do dojo." –ele queria mesmo irritar o Battousai. A forma como aquela noticia afectou o seu cunhado, não lhe tinha passado despercebida. "Uma mulher bonita, já chama à atenção… mas uma mulher bonita e rica… incentiva ainda mais." – Ele estava a adorar aquele jogo e o Kenshin sabia disso. Numa situação normal o ruivo simplesmente ignorava os comentários do cunhado, mas hoje estava a ser difícil, por isso ele decidiu sair da cozinha e deixar os dois irmãos sozinhos. Ele já estava irritado com as insinuações que estavam a ser feitas e não queria continuar a ouvi-las, pois sabia que ia acabar por responder de tão irritado que estava.
A Tomoe observou o marido sair da cozinha de rompante e suspirou. O Enishi sabia que ela estava infeliz, só não conseguia perceber porquê que ela queria continuar assim.
"O Kenshin está estranho." – ela acabou por confessar. "Não parece a mesma pessoa de antes." – ela recordou a altura em que viveram naquela mesma cidade há dez anos atrás. Apesar de ser calado, o Kenshin era sempre carinhoso e amável com ela, em todos os aspectos que um marido deveria ser. Mas agora, ele parecia sempre distante, parecia evitar ficar a sós com ela, e, a maior parte das vezes, a Tomoe tinha de se contentar em vê-lo ao longe no campo. Ele nunca tinha sido agressivo mas a distância que ele entre-punha entre eles era a maior violência que ele lhe podia causar. "Ele já não sorri."
O Enishi levantou os olhos. Ela também não sorria… Será que era isso que ela procurava no ruivo? O seu sorriso? O Enishi sentiu que as coisas não faziam sentido, afinal, andava tudo trocado. Ele procurava o sorriso da sua irmã, por sua vez, a Tomoe procurava o sorriso do seu marido… mas sem sucesso… "Tu és infeliz?" – ele perguntou-lhe.
Os olhos dela fixaram-se nele pensativos: "Não de todo… só que eu tinha imaginado que as coisas fossem ser diferentes…" – ás vezes parecia que o Kenshin tinha ficado ressentido por ter reaparecido.
"Eu acho que ele sente falta dos amigos." – ela sentou-se ao lado do irmão e pousou a cabeça no seu ombro. Isso trouxe uma ideia à mente do traficante de armas : "Isso é simples de resolver." Ela levantou o sobrolho: "Ai sim? Como?"
"Então, deixa-o ficar algum tempo com os amigos… enquanto tu passas algum tempo com o teu irmão." – ele disse num tom de brincadeira – "Que também precisa da tua atenção."
A Tomoe ficou em silêncio. Na sua mente levantavam-se algumas dúvidas. Seria bom deixá-lo voltar? Não seria mais difícil assim? Mas… se calhar tambem podia ser bom estarem longe um do outro por uns tempos para que ele pudesse sentir a sua falta e tomar a iniciativa em voltar. "Eu vou falar com ele e ver como ele reage… amanhã já te digo algo." – ela levantou a cabeça e olhou para o irmão: "O teu cabelo nunca mais voltou ao normal?" – a cor do cabelo do Enishi era estranha mas ao mesmo tempo era engraçado ele ser mais novo e já ter cabelos brancos. Ele retorquiu: "Não fales muito maninha… tu tambem já me estás a acompanhar." – ele pegou numa mecha de cabelo da irmã e apontou para os cabelos brancos. Ela suspirou. Os anos tinham mesmo passado.
"Ficas para jantar?" – ela levantou-se e foi para a banca lavar os vegetais que o Kenshin tinha trazido. Apesar de ter vontade de responder que sim o Enishi sabia que não ia aguentar a ideia de ter de jantar com o seu cunhado por isso negou o convite: "Eu volto amanhã para saber se vens comigo ou não." Ele aproximou-se da irmã deu-lhe um beijo na testa e saiu.
O Kenshin estava cá fora a apreciar o vento que batia no seu rosto. Todas aquelas novidades fizeram-no sentir uma comoção interna, um frio na barriga… como se houvesse algo que pudesse mudar a sua situação. Uma ansiedade…
Mas o que tinha acontecido? Quando trabalhava como samurai ele ansiava por uma vida como esta… Uma casa no campo onde ele podia cultivar para comer, uma vida de paz longe da agitação e dos problemas da cidade… Mas então porquê que todos os dias eram um suplício e todas as noites ele tinha vontade de dormir e não acordar, de fugir do dia seguinte…
Ele tinha paz… não havia movimento, pessoas a morrerem nem a sofrer à sua volta… Mas ele não se sentia descansado nem satisfeito! Porquê que ele ansiava cada dia fugir para o dojo, onde todos os dias havia novidades, para onde tinha imensas tarefas domésticas a fazer, dificuldades financeiras, gritos constantes e discussões acerca de coisas tão triviais como a comida? Porquê que ele ansiava por tudo isso?
Porquê que ele se sentia em paz em Kyoto tendo uma vida agitada, e aqui, em Otsu levando uma vida calma se sentia inquieto? Ele sabia a resposta.
Ele estava em paz porque tinha uma família… acima de tudo alguém a quem ele amava do fundo da alma, e que não importava qual o tamanho das ondas que apareciam, eles eram sempre capaz de as ultrapassar…
Mas aqui as coisas pareciam ter andado para trás. Estes seis meses tinham sido os mais infelizes da sua vida desde que tinha parado de viajar. A culpa não era da Tomoe, porque ela fazia todos os possíveis para o agradar. A culpa era sua por ter pensado que a conseguiria amar de novo. E o resultado era estarem os dois a sofrer. Ele sentia-se um desastre como marido, pois quase não falavam, não saiam juntos… e um fiasco como homem, porque era incapaz de lhe tocar. Em seis meses, apesar de partilharem o mesmo futon, eles nunca desenvolveram a nível íntimo qualquer tipo de relação. E apesar de ela não dizer nada, ele sabia que ela pensava nisso.
O Kenshin suspirou. Mais uma vez as suas escolhas levaram-no a um caminho de solidão e tristeza. Ele teve a felicidade nas suas mãos e não a soube agarrar.
O ruivo voltou-se quando sentiu a presença da sua mulher atrás de si. "O jantar está pronto." – ela sorriu. O Kenshin assentiu e segui-a para o interior da casa. "Cheira bem." – ele observou.
Assim que entraram ela começou a servir a comida. Jantaram em silêncio e só apenas no final do jantar é que ela falou: "Quando viste as fotografias dos teus amigos no jornal… sentiste saudades?" – a pergunta foi tímida mas ele pôde perceber que era apenas curiosidade.
"Sim senti. Foi como se por segundos eles estivessem aqui ao meu lado." – o Kenshin respondeu.
A Tomoe sorriu. Ele estava a ser sincero e talvez se lhe fizesse mais perguntas ela conseguisse saber o que se estava a passar no coração do seu marido: "Tu tens boas recordações de lá, não tens?"
O Kenshin respirou fundo. Ela estava a fazer perguntas cuja resposta a poderia magoar, mas, se ele não lhe contasse ela poderia pensar que tinha algo a esconder-lhe. "Sim, tenho. Recordações de jantares, de conversas, de aventuras que vivemos juntos. Houve uma vez que fomos passar férias todos juntos, e eu, perdi o dinheiro que a Kaoru me tinha pedido para guardar…" – ele riu-se e passou a mão no braço direito do seu kimono, onde o buraco que tinha deixado o dinheiro cair costumava estar: "E eu só reparei nisso depois de já termos usufruído da estadia, então tivemos que trabalhar para pagar" – o sorriso nos seus lábios aumentou: "Foi aí que um jovem aspirante a pintor que lá estava hospedado, queria à força toda fazer um retrato da Kaoru."
"E ela não deixou porquê?" – A Tomoe perguntou interessada na conversa mais longa que tinha tido com ele nestes últimos tempos.
"Ela não sabia… só descobriu quando o apanhou a espiá-la durante o banho." – o Kenshin deu uma gargalhada que surpreendeu a sua mulher e ao mesmo tempo a fez rir-se tambem. "Ele levou com uma porrada de baldes e só recuperou a consciência uma hora depois."
"Tudo isso por uma pintura? O rapaz esforçou-se mesmo." – a Tomoe concluiu.
O Kenshin ficou pensativo por um pouco: "Ele disse que ela era a sua musa inspiradora."
"Um pintor romântico…. Pela forma que falas ele devia estar apaixonado por ela." – concluiu.
O Kenshin olhou-a pensativo recordando toda a confusão que o Sano e a Misao armaram para desencorajar o jovem DaVinci. "Penso que sim." – A menção do sentimento romântico tornou o ambiente pesado para ele… na sua mente surgia a pergunta: Nestes seis meses teria ela encontrado alguém para amar?
"Porque não passas lá para os visitar?" – ela propôs.
"Não." O Kenshin nunca sujeitaria a Kaoru a passar por tudo aquilo de novo. Por mais saudades que tivesse dela nunca a iria obrigar a sofrer ao ver a Tomoe ao seu lado, só por um capricho. Por algo ao qual ele tinha perdido o direito à muito tempo.
"Mas eu sei que sentes saudades deles." – ela continuou – "E se a tua preocupação é a de eu ficar sozinha, então não tem razão de ser, porque eu posso aproveitar para passar algum tempo com o meu irmão na casa dele."
O Kenshin parou de comer e olhou-a tentando perceber se ela estava mesmo a dizer aquilo. A expressão séria que ela empregava mostrava bem que sim. O seu coração começou a bater mais forte só de pensar que poderia voltar de novo ao dojo, nem que fosse só por uns dias. "Está bem. Sendo assim, parto amanhã."
A Rapidez com que ele planejou a sua ida deixou-a perplexa, mas ao mesmo tempo feliz pois percebeu a mudança no seu humor. Depois de terem terminado o jantar, o samurai levantou-se e foi para o quarto preparar as coisas para a viagem. Depois de ter colocado algumas roupas no saco, ele caminhou e procurou no bolso de um dos seus hakamas algo que só ele sabia existir. Quando o sentiu tocar nos seus dedos, ele retirou o objecto para fora e abriu a pequena caixa expondo o anel no seu interior… A pequena pedra azul brilhou apesar de o quarto estar escuro. Ele recordou-se do motivo que o tinha levado a escolher aquele anel… A safira era exactamente da mesma cor dos olhos dela. Independentemente do que ela vestisse aquela jóia ia sempre condizer com o seu olhar. Ele suspirou ao pensar no significado de tudo aquilo.
Era loucura, era certo e errado ao mesmo tempo…. Era insano mas ao mesmo tempo… perfeito.
Ele já tinha tido muitas segundas hipóteses na vida… Mas nunca neste campo… Talvez esta fosse a sua vez… Ele guardou de volta o anel na caixa e colocou-o juntamente com as coisas que ia levar na não sabia bem o que ia fazer, mas com dois dias de viagem pela frente tinha a certeza que algo se ia proporcionar.
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A Kaoru e a Misao passeavam pelas ruas de Tokio calmamente, observando a multidão nas feiras e o rebuliço de gente nas filas das compras. Era um dia animado na cidade. Ambas vinham a conversar sobre o concurso e como tudo tinha sido um sucesso. Ás vezes a Kaoru sentia que tinha sido um sonho e não realidade. Mas a Misao insistia em lembrá-la de tudo o que tinham conseguido. Ela era a pessoa certa para ter por perto quando precisávamos de ânimo. "A mim pareceu-me que além de o teu dojo ganhar o concurso e com isso acumulou respeito e admiração, tu também chamas-te a atenção de muitas pessoas… inclusive de uma em especial…" – o tom da Misao pressupunha que ela ia tentar especular acerca de possíveis namorados, por isso, a Kaoru advertiu-a: "Misao, não vamos ver coisas onde elas não existem."
"Oh…" – a ninja aproximou-se da amiga e sussurrou-lhe ao ouvido: "Não me acredito que não tenhas nem um fraquinho por ele."
A Kaoru sorriu com a atitude da amiga e deu-lhe um apalmada no ombro: "O Katsura é só um amigo."
"Um amigo que passou os três dias do concurso sempre atento a ti… desde a primeira luta até à última." – ela deu um pequeno salto e juntou as mãos como se estivesse a rezar: "Parecia que estava a torcer para que tu ganhasses."
"Ele é só um amigo.." – a Kaoru encolheu os ombros e tentou manter a conversa fora de romantismos.
"Um amigo que vive na mesma cidade que tu… é normal que vocês…" – ela fez uma pausa à procura da palavra certa: "se esbarrem de vez em quando."
A Kaoru deu uma gargalhada: "Está bem Misao… Por acaso, eu vou ter que me encontrar com ele, mas, apenas porque ele disse que conseguia arranjar-me uma espada de gume invertido para o Yahiko."
A Misao sorriu e apontou-lhe o dedo: "Vês? Eu sabia! O Katsura não vai conseguir resistir À mulher a quem ele mesmo chamou de…." – ela estendeu as mãos no ar como se estivesse a ler no jornal naquele momento: " Fascinante."
"Misao, o Katsura é bem mais velho do que eu. Ele disse isso provavelmente num tom fraternal não numa perspectiva romântica." – A Kaoru pousou os olhos nuns biscoitos que uma tenda estava a vender e sentiu fome: "Vamos comprar aqueles biscoitos?" pelos vistos a Misao estava longe em pensamento porque nem sequer a ouviu.
"Kaoru, mas o Kenshin era dez anos mais velho que tu… e tu nunca te preocupas-te com isso… O Katsura deve ser pouco mais velho que ele…" – Ela disse pensativa, só passado algum tempo é que se apercebeu que tinha falado no samurai. "Oh, desculpa Kaoru eu não queria que…" – ela aproximou-se da amiga arrependida do seu deslize.
"Não tem mal Misao." – A Kaoru voltou as costas à tenda dos biscoitos, a simples menção do nome dele tinha-a feito perder a fome: "Eu tenho de me habituar a lidar com isto."
A Misao não sabia o que dizer, nem sabia se havia de falar nesse assunto ou não: "Kaoru, Tu não soubeste mais nada dele?"
A Kaoru abanou a cabeça negativamente: "Não. E é melhor assim…" – durante aquele tempo não trocaram cartas, nem ele com ela nem com nenhum dos habitantes do dojo… isso significava que o que quer que eles tivessem sentido um pelo outro tinha morrido, porque caso contrário, caso a chama da esperança de haver algo entre eles se mantivesse nem que fosse um pouco acesa, nem um nem outro iam puder seguir com as suas vidas: "Apesar de eu continuar a amar o Kenshin, eu tenho a plena noção de que é uma relação impossível."
A Misao ficou parada no tempo. Quando conheceu o samurai ela apercebeu-se de que ele tinha deixado alguém para trás, alguém importante… e quando viu a Kaoru ela soube que era ela… era ela a quem ele amava. O amor deles era tão bonito que por vezes ela tinha desejado que o Aoshi agisse com ela da mesma forma que o Kenshin agia com a Kaoru… Era tão estranho perceber que isso tinha acabado…
"De quem é esta casa? É enorme." – a voz da Kaoru acordou-a. Ela olhou para a mansão ao seu lado esquerdo.
"Esta casa?" – perguntou tentando perceber se era a isso que a amiga se referia. "É um lar para mulheres que foram mães solteiras ou então viúvas com filhos que não tem mais família a quem recorrer."
A Kaoru ficou curiosa: "E tratam delas aqui?"
"Sim. As que tem casa, tomam apenas as refeições aí, mas as que não tem ficam aí a viver. É uma ajuda para não terem que viver de esmolas. Ao menos assim as crianças podem crescer com dignidade." – A Misao explicou. – "Nós costumamos doar roupas e alimentos para o lar… muitas outras pessoas fazem o mesmo, e é isso que permite que continue em funcionamento."
A jovem instrutora olhou para uma mulher que estava na porta com um bebé de cerca de dois anos ao colo. A Jovem tinha os cabelos pretos e olhos azuis como os seus… Sem saber porquê a Kaoru sentiu um frio na barriga…
"Tenho pena que daqui a uns dias já te vás embora. É tão bom ter-te aqui… Os dias passam a correr quando estou contigo amiga..."
A Kaoru sentiu lisonjeada mas não queria que a Misao ficasse triste com a sua partida, por isso tentou impedir que se criasse um ambiente melancólico afinal de contas ainda faltavam alguns dias para partir: "Ohh… não me acredito que passem assim tão rápido, afinal de contas estás sem o teu marido e deves estar ansiosa que ele venha."
A Misao sorri: "Sim é verdade que o tempo custa mais a passar sem ele… Mas a tua presença ajuda-me muito a aguentar as saudades…."
A Kaoru suspirou… Era bom ver a amiga assim apaixonada e feliz. Eles mereciam… Por mais confusa que fosse a cabeça do Aoshi, a Misao conseguia percebê-lo como mais ninguém… Devia ser uma característica das mulheres apaixonadas…
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Durante aqueles dois dias de caminho o ruivo pensou nas desculpas que podia dar para estar de volta ao dojo. E, a mais direta foi a de estar de visita. Afinal de contas, ninguém o proibiu de voltar. Ele caminhava a passo rápido, tal era a ansiedade de chegar…as ruas, as casas, os cheiros, já tudo lhe era familiar assim que pisou Kyoto. Mas aquilo que o fazia andar mais depressa, o verdadeiro motivo para ele quase estar a correr, era prever a reacção que ela teria ao vê-lo. Como é que ela ia reagir? Será que ia correr para ele? Abraçá-lo? Não… ele sabia que ela não ia fazer isso. Ela ainda estava magoada com certeza. Mas… ia recebê-lo? O Kenshin achava que sim… afinal de contas, ela sempre teve um coração perdoador.
Quando avistou os portões do dojo ao longe o Kenshin suspirou. Finalmente estava de volta a casa após seis meses. Ele sentiu-se como um imigrante a chegar a casa, depois de alguns anos fora do país. Ao aproximar-se do portão, que estava semi-aberto, o ruivo percebeu que alguém estava no exterior do dojo. Ele colocou a mão no portão e empurrou-o entrando de seguida. "Kenshin?" – a voz do Sano fez-se ouvir.
O ruivo olhou para o seu velho amigo. O Sanosuke estava de vassoura na mão a varrer as folhas que a chegada do Outono tinha trazido. Nem parecia dele, estar a cumprir tarefas domésticas. Pelos vistos tinha mudado nestes seis meses. "Olá Sano."
Os olhos do ex-lutador fixaram-se no homem na sua frente. Ele estava com um ar acabado."Então? Como tens andado?" – ele largou a vassoura e caminhou até mais perto dele.
O ruivo retirou o saco do ombro e pousou-o aos seus pés olhando diretamente para o amigo. A falta de resposta e o seu olhar eram uma clara confissão de que não estava satisfeito com o rumo que a sua vida tinha tomado. O Sano não estava chateado com ele por tudo o que se tinha passado, só lhe custou ver a Kaoru triste... afinal de contas ela era como uma irmã para ele.
"Como está a tua mulher?" – o Sano perguntou-se se eles ainda estariam juntos e se o Kenshin teria voltado para ficar, por as coisas não terem dado certo, ou se estava só de visita.
"Ela foi passar algum tempo com o irmão." – respondeu olhando em volta como se estivesse à procura de alguém. E de facto estava. Mas já se tinha apercebido de que ela não estava em casa. Talvez tivesse ido ás compras… Se calhar até tinha passado por ela e não a tinha visto.
O ruivo olhou para o Sano que percebeu o que ia na sua mente: "Podes perguntar… ninguém te vai criticar se o fizeres."
O Kenshin esboçou um sorriso perante a solidariedade do amigo: "Onde está a Kaoru?"
"Foi de férias para Tokio. Só deve chegar daqui a uns dias." – respondeu pensando o que ela ia achar da situação quando chegasse a casa.
O Kenshin expirou. A sua felicidade ia ser adiada por mais alguns dias.
"O que aconteceu entre vocês foi uma situação muito dolorosa para ela…" – o Sanosuke voltou as costas e pegou novamente na vassoura: "Apesar de ela sorrir e agir normalmente eu sei que por dentro ela sofre."
O Kenshin ficou admirado pela rapidez com que o Sano tocou no assunto."Eu sei… Acredita que para mim as coisas também não são fáceis." – ainda sentia um aperto no peito cada vez que pensava na expressão de impotência dela quando percebeu que ele ia com a Tomoe.
Apesar de o Kenshin ter defraudado as suas expectativas quando escolheu partir o Sano não conseguia ser duro com ele pois percebeu que além de exausto da viajem estava também emocionalmente desfeito. No entanto, manteve em mente que teria de o avisar para manter a devida distância da Kaoru e não lhe dar esperanças, porque afinal de contas ele era um homem casado. "Pareces cansado."
"É da viagem." – o Kenshin respondeu disfarçando com um sorriso. O Sano percebeu que havia mais alguma coisa, mas não perguntou. "Podes ficar no teu antigo quarto se quiseres… "
O ruivo agradeceu com prazer. Era bom puder ficar no seu quarto novamente. "Eu hoje preparo o jantar." – respondeu antes de entrar com as suas coisas no quarto.
O Sano recomeçou a varrer: "Estou a contar com isso."
As coisas estavam todas no mesmo sitio em que ele as tinha deixado. Aparentemente ninguém tinha mexido em nada. Ele perguntou-se se isso acontecia por ser doloroso para ela entrar ali.
Começou a arrumar as suas roupas nas gavetas. Todo o cansaço que sentia da viagem parecia ter desaparecido, a chegada ao dojo deu-lhe novas energias. Decidido a aproveitá-las, depois de arrumar todas as suas coisas, ele saiu do quarto e procurou pelo cesto da roupa suja, que, como sempre estava cheio… O que era normal, com três pessoas a viverem naquela casa. Ele encheu o balde com água e começou a lavar. O Sano que tinha estado a descansar no quarto, quando saiu e o viu a fazer aquilo perguntou-lhe: "Não estavas cansado?"
O ruivo de cócoras respondeu-lhe: " Já me sinto melhor." – voltar à sua vida antiga era como uma lufada de ar fresco: "E assim também aproveitamos que hoje até está sol para secar."
O Sano acenou sem perceber como é que ele podia achar contentamento em fazer tarefas daquelas…. Mas, era o Kenshin…. E nem tudo nele tinha explicação. "Eu vou à cidade resolver umas coisas. Devo chegar daqui a duas horas."
"Ok." – o Kenshin viu-o sair e ficou pensativo por momentos. Sentindo-se evadido pela saudade, levantou-se ainda com as mãos molhadas e começou a caminhar ficando parado em frente à porta do quarto dela. Devia entrar? Antes de a sua mente se decidir as suas mãos já tinha deslizado a porta de papel. Ele entrou e ficou parado lá dentro em silêncio e de olhos fechados. Ele respirou fundo como se estivesse em meditação. O perfume dela entrou nas suas narinas trazendo-lhe à mente as memórias do dia em que se despediram.
Todo este tempo foi maravilhoso Kenshin… Ele teve vontade de a agarrar de a impedir de partir de lhe pedir para fugirem juntos… Porquê? PorquÊ que eu não fiz isso? - ele pensou irritado consigo mesmo sem conseguir tirar da mente o som da voz dela:
Adeus senhor Viajante…
Adeus…. Adeus… a palavra que só se diz a quem morre… Ela usou-a para se despedir… Estaria ele morto para ela? O Kenshin sentiu-se indisposto com esse pensamento.
"Knock… Knock…." – o ruivo olhou para o portão do dojo. Alguém estava à porta. Mas… quem seria? Ele caminhou até lá na esperança de que fosse ela… apesar de uma parte de si recear que assim fosse, pois não sabia como ela ia reagir.
O Kenshin abriu o portão e foi apanhado de surpresa. A pessoa do outro lado partilhou o mesmo sentimento, os seus olhos arregalaram-se de espanto: "Não pode ser."
