Capitulo 11- Erro
A Kaoru não tinha conseguido dormir toda a noite pensativa no que o Kenshin lhe tinha dito. Ele ia falar com o Enishi… Ele não seria ele se não agisse para resolver a situação.
Mas isso assustava-a. Em primeiro lugar porque o Enishi sempre tinha sido hostil para com o Kenshin, e em segundo lugar por aquilo que falar com ele acarretava. Ele ia reencontrar a Tomoe… e Por mais que quisesse negar, isso preocupava-a, ainda mais quando na noite passada o Kenshin tinha sido perentório em dizer que quando resolvessem aquela situação, se ia embora.
Ela não queria que ele se fosse embora. Ela nunca quis. Por mais que o afastasse ela queria-o por perto.
Daí, mal o sol nasceu ela vestiu-se e foi ter com o Katsura. Era tão cedo que todos os outros estavam a dormir, e ela nem se apercebeu que o Kenshin não estava em casa.
O primeiro lugar que lhe ocorreu foi a casa do Katsura, e foi para lá que se dirigiu. Mas, quando lá chegou foi informada pela jovem que dirigia a casa que ele já tinha saído para o ministério. A Kaoru voltou todo o caminho para trás.
Apesar de ser cedo a ela não estranhou. Ele era ocupado e era somente natural que tivesse assuntos importantes a tratar. Se tivesse sabido disso logo de inicio ela teria poupado tempo e ido diretamente para a cidade.
Enquanto caminhava em direção ao ministério e mal entrou na cidade, a Kaoru logo pôde ver o corrupio de pessoas a comprarem alimentos no mercado.
Afinal de contas há quem ainda se levante cedo.
A jovem riu-se ao ver uma menina de cabelos escuros e compridos agarrados à aba da roupa do pai ao ver as lagostas vivas nos grandes aquários da peixaria. A Kaoru costumava fazer aquilo em criança, aqueles bichos também a deixavam arrepiada… Só de pensar que as mandibulas delas podem cortar um dedo a uma pessoa… A pequena olhou para ela e riu-se com vergonha. A Kaoru retribuiu o sorriso mas continuou a andar. Nada a podia distrair do seu objetivo.
Já cá estou. Assim que entrou no edifício central o guarda levantou-se e saudou-a. A Kaoru teve a impressão que todos à sua volta a olhavam de forma diferente e achava que isso tinha algum tipo deligação com o Katsura…
"Bom dia Senhorita Kamyia."- o guarda aproximou-se – "Se veio à procura do senhor Katsura, informo-o desde já que ele está numa reunião muito importante."
Definitivamente mais pessoas do que ela queria a associavam ao Katsura… "Obrigada pela informação." – ela respondeu um pouco desiludida. Eu não posso ficar aqui à espera que ele acabe, tenho de voltar para o dojo e impedir que o Kenshin saía para aquela maldita ilha! – "Será que posso deixar um recado escrito?"
O guarda deu-lhe um pouco de papel e tinta a Kaoru rapidamente escreveu o que queria e deixou com o guarda: "Por favor, é muito importante. Dê-lhe o recado assim que ele sair da reunião."
"Claro." – o guarda assentiu, e depois de agradecer a Kaoru voltou as costas e começou a caminhar de volta para a saída pensativa no recado que tinha deixado. Talvez o Katsura lhe perguntasse como ela conhecia alguém como Yukishiro Enishi… Um traficante de armas, um dono da Máfia…E aí ela teria que ceder algumas informações mais… estranhas… No recado ela tinha pedido que ele enviasse o Saito para falar com ele, eles conheciam-se e o Saito seria a melhor pessoa para encontrar o Enishi rapidamente, dessa forma o Kenshin não se tinha que envolver. Ela suspirou ao chegar ao exterior. Agora, era hora de voltar para o dojo e resolver as coisas com o Kenshin.
Assim que colocou um pé fora do edifício sentiu a terra estremecer. A Kaoru olhou em volta e viu algumas pessoas começarem a correr e gritar. Um terramoto?
"Cuidado!" – um jovem atirou-se na frente de uma senhora impedindo que uma pedra vinda do céu lhe caísse em cima. A Kaoru deu dois passos atrás. De onde tinha vindo aquilo?
Instintivamente os seus olhos procuraram pela jovem pequena que há pouco tinha visto na peixaria. Assim que a viu com o pai a Kaoru respirou de alivio. Mas, foi nesse exato momento em que ouviu os vidros atrás de si partirem e após um estrondo enorme sentiu-se a ser catapultada no ar.
::::::::::::::::::::::::::.
O Kenshin não estava confortável com aquela viagem. Ele sabia que não ia ser fácil extrair o que quer que fosse ao Enishi, e, reencontrar a Tomoe não era uma grande ideia. Pelo menos para já. Ou, talvez fosse, se calhar até era a altura certa para ele explicar o que se passava, e acabar com aquele sofrimento de uma vez por todas.
Ele temia que a Kaoru o desencorajasse a ir por essa razão tinha saído de casa muito antes de todos os outros acordarem, até mesmo antes do Aoshi.
Encontrar o Saito já em serviço não foi dificil, tinha tido sorte em ele ter feito o turno da madrugada… Mal o viu e ouviu as suas explicações o ex-lider de Shinsen conseguiu os meios para os colocar na ilha do Enishi em apenas algumas horas.
Eles iam num dos barcos turísticos que partiam cedo para uma das ilhas vizinhas, e, apenas teriam de remar até à mansão isolada do Enishi, o desafio seria extrair a informação do Enishi a tempo de voltar e encontrar o barco ainda no porto. Caso contrário teriam de esperar mais alguns dias até que o próximo transporte viesse.
Mas ele tentou ser positivo: Se tudo corresse bem estaria em casa a tempo de preparar o jantar.
:::::
:::::::::
Os gritos e o cheiro a queimado fizeram-na abrir os olhos para o cenário mais aterrorizador que ela alguma vez tinha presenciado. Nem que vivesse durante cem anos ela iria conseguir esquecer o que viu.
Havia pedregulhos espalhados pelo chão, pessoas presas neles, algumas tentavam libertar-se outras pareciam já sem vida. Do edifício central restavam apenas algumas paredes, a maioria delas ainda em chamas. A Kaoru tentou levantar-se com algum custo e olhou em volta. Um sorriso apareceu nos seus lábios quando percebeu que o Katsura estava a apenas alguns metros de distância a ser assistido por um dos polícias. Apesar das dores a jovem conhecia-se bem para saber que não tinha nada partido. Estava apenas dorida. A explosão tinha-a feito voar e bater violentamente no chão, daí ter ficado inconsciente durante algum tempo. Mas nem todos tiveram a mesma sorte que ela.
"Socorro… pf…" – a Kaoru ouviu distintamente uma ténue voz no meio de todos os outros gritos. A instrutora de kendo concentrou-se para tentar perceber de onde vinha aquela voz. Olhou para o lado do mercado e percebeu que o sitio onde antes era a peixaria tinha desaparecido por completo e apenas restava um vazio, um enorme buraco no chão. Oh Não! A Kaoru tentou correr para lá e só ao ficar mais perto percebeu a dimensão do que tinha acontecido ali. Havia destroços por todo o lado, mas o pior era que o solo havia aluído e havia uma grande quantidade de pessoas que se agarravam nas bordas do solo para não caírem para dentro do buraco sem fundo que aquilo parecia ser. Todos gritavam por ajuda e a Kaoru olhou de volta para o Katsura, mas ele não a viu, porque estava rodeado de oficiais a dar-lhe assistência. Foi aí que ouviu de novo aquela voz tão ténue: "Ajuda-me."
A Kaoru deu dois passos em frente e reconheceu a menina de há pouco. Ela estava bem dentro do buraco, agarrada com ambas as mãos a um pedaço de madeira enterrado numa das paredes daquele inferno sem fundo. "Eu ajudo-te." – os olhos da criança encheram-se de esperança quando percebeu que a sua aflição tinha sido notada, esperança essa que logo desapareceu quando a Kaoru se baixou e percebeu que estava longe demais para a alcançar: "Não tenhas medo eu vou tirar-te daí." – a Kaoru estendeu-se mais para dentro do buraco ficando com mais de metade do corpo sem apoio. "Faz força com o tronco e tenta esticar uma das tuas mãos para mim!"
A pequena abanou a cabeça tinha demasiado medo de cair para ser capaz de soltar uma das mãos do objeto que até agora a tinha mantido a salvo. A Kaoru percebeu isso e os seus olhos percorreram o lugar À procura de algo que a ajudasse a puxar a jovem para cima…
Nada. Tudo o que havia eram pedras. Sem conseguir lembrar-se de mais nada a Kaoru rasgou a parte lateral do seu kimono para fazer algo para usar como corda capaz de suportar o peso da criança todo o caminho até cima. Depois de dar várias voltas de forma a fazer com que o tecido ficasse mais forte, ela atirou-o para dentro do buraco. "Segura-te pf!"- a pequena estendeu a mão e agarrou-se ao bocado de roupa.
"Eu vou puxar-te!" – a Kaoru tentou fazer força para cima e assim que a jovem estava ao alcance das suas mãos segurou-a por um dos pulsos. E foi aí que percebeu o erro que tinha cometido. As suas mãos estavam completamente suadas e não iam ser capazes de a aguentar por muito tempo: "Ajudem-me pf!" – a Kaoru gritou
Ao ouvir os gritos dela por ajuda, um homem, tambem vitima da explosão, que tinha a perna esquerda presa por um dos pedregulhos caídos do já desaparecido edifício, tentou mover-se para a ajudar.
A Kaoru sentia que a cada segundo que passava a pequena parecia escorregar mais e mais pelas suas mãos. "Aiii!" – a jovem disse ao sentir-se a cair – "Por favor, não me solte."
"Eu não vou soltar-te." – Mesmo em uma situação como aquela a Kaoru tentou mostrar-se confiante, mas ela sabia que sozinha não conseguiria: "Ajudem-me!" – ela gritou desesperada.
O homem gemeu por dentro ao ver aquela cena. Se ao menos aquela maldita pedra não estivesse ali, ele conseguiria correr e salvar aquelas duas jovens. Vá lá, tu consegues! Ele fez força para empurrar a pedra para longe mas o raio do objeto parecia ser mais pesado do que todo o edifício do qual antes fazia parte. Raios!
Os olhos azuis encheram-se de pÂnico ao perceber que aquele que estava mais perto de si para a salvar não ia conseguir fazê-lo, então ela olhou para trás e pelo canto do olho conseguiu ver os policias ainda em volta do Katsura e dos outros. "Precisamos de ajuda aqui! Ei!Ei!" – ela gritou com tanta força que por momentos achou que uma das suas cordas vocais se teria rompido.
Mas que tipo de cenário era aquele? No qual ninguém se preocupava em ajudar aqueles que verdadeiramente precisavam?
"Não!" – a Kaoru sentiu os dedos da pequena escorregarem até aos seus: "Não!" – Ela atirou o corpo para a frente ficando ela mesma pendurada com metade do corpo para dentro do enorme buraco que a explosão tinha causado: "EU NÃO TE VOU SOLTAR, EU NÃO TE VOU SOLTAR!" – gritou.
Nem que tivesse de cair e morrer ali ela não ia deixar aquela menina morrer.
Foi quando percebeu que era uma questão de segundos até que as suas mãos cedessem ao suor que se tudo pareceu ficar em câmara lenta: Com horror a Kaoru viu a menina cair na escuridão daquele inferno sem fim e, quando sentiu que a gravidade a chamava para baixo também a ela, algo a levantou: "NÃAAAOOOOOOO!"
:::::::::::::
O Enishi tinha sido avisado pelos seus capangas que vivam nas redondezas da floresta que um barco se aproximava da ilha. Ao olhar pela janela ele percebeu de imediato quem pelo menos um dos visitantes era. Ele só conhecia um japonês ruivo.
Ele nunca tinha pensado que o ruivo viria À procura da irmã, tendo partido para o dojo há já algum tempo. Além disso, o combinado seria ele voltar para Otsu, não para ali. Foi só quando viu quem acompanhava o cunhado, que percebeu que ver a irmã não seria o motivo da visita à ilha. Com um sorriso de satisfação no rosto ele tirou o roupão, pegou na espada e preparou-se para descer.
Ao sair do quarto foi especialmente cauteloso, ele não queria que a Tomoe percebesse que o otário estava ali. As coisas estavam a ir tão bem, não iam mudar agora… Quanto menos contacto a Tomoe tivesse com o ruivo melhor. Como é que dizem? Longe da vista, longe do coração…
::::::::::::::::::::
"Tu não tiveste culpa, eu vi que fizeste tudo o que estava ao teu alcance para a ajudar." – A Kaoru olhou distante para o homem que a tinha salvo. Ele tinha conseguido finalmente desevencilharçe mas só tinha chegado a tempo de salvar a Kaoru. Se ao menos eu tivesse sido forte o suficiente… "Ei, estás a ouvir-me?" – o homem de olhos e cabelo castanho abanou-a: "Não te culpabilizes."
A Kaoru suspirou. Culpa…Sim, era isso que ela sentia. Mas, afinal de contas o que se passava? Porque ninguém veio para ajudar? A Kaoru olhou em volta à procura da policia, e apesar de haver um ou outro no meio das pessoas a prestar auxilio, todos os restantes uniformes azuis pareciam estar concentrados num local em particular.
Ela sentiu pela primeira vez em muito tempo raiva subir-lhe ao coração, e como que movida por esse veneno a Kaoru levantou-se esquecendo-se de agradecer ao senhor que a salvara e esquecendo-se tambem das dores que tinha.
A passos pesados aproximou-se do local onde a policia se agrupava em volta dos ministros. Ela não sabia o que ia dizer ou fazer, só sabia que não ia deixar que aquela situação continuasse. Desde quando é que eles eram mais importantes do que todos os outros? Não significava a palavra ministro alguém que serve? Então porquê que eles estavam a receber todos os cuidados enquanto todos os outros ficavam com os restos?
"Temos de os tirar daqui!" – um deles disse.
"Sim, vamos evacuá-los antes que exploda mais outra bomba!"
"Se o governo perde os ministros pode haver uma revolução!"
Ninguem se apercebeu que ela tinha chegado, nem mesmo o Katsura que olhava baralhado para todos os outros incapaz de tomar uma decisão.
"Há pessoas a morrer!" – a Kaoru empurrou um dos policias num gesto brusco. "E vocês estão preocupados com o governo?!" – todos os rostos se voltaram para ela e após alguns segundos um dos policias tentou afastá-la: "Menina estamos a fazer todo o possivel para…" – mas ela afastou-o para trás: "UMA CRIANÇA ACABOU DE MORRER!" – Se continuasse a abusar assim da voz ia certamente ficar sem ela, mas isso não a preocupava naquele momento. A Kaoru fez frente a um dos policias que se tentou entrepor entre ela e os restantes mas o Katsura segurou-o pelo braço. "Ela tem razão." – olhou para a quantidade de homens em sua volta e abanou a cabeça: "Isto está errado… Vão, vão! Ajudem as pessoas eu e os restantes nós conseguimos tratar do resto."
De imediato os uniformes azuis espalharam-se pelo terreno como sempre deviam ter estado. O olhar do Katsura Quando se dirigiu para ela parecia o de alguem que tinha acabado de perder tudo…
"KAORU!" –A jovem instrutora ouviu duas vozes familiares gritarem em uníssono mas não desviou o olhar do homem na sua frente.
"Katsura, para onde vamos?" – um dos ministros aproximou-se e tocou-lhe no ombro. Ele pestanejou, olhou para o ministro e depois para a Kaoru: "Eu conheço um sitio seguro." – ele disse mais para ela do que para os restantes.
"Kaoru." – o Sano ficou lado a lado com a amiga sem perceber como todos os outros o que se tinha passado ali, o Yahiko veio logo atrás.
"Vamos?" – O Katsura segurou-lhe na mão mas a Kaoru afastou-o com repulsa. Ele abriu a boca para argumentar mas não sabia o que dizer, o olhar dela era duro demais para qualquer argumentação. A Kaoru deu dois passos atrás: "O meu lugar é aqui."
"Kaoru, tu corres perigo!" – ele deu um passo na direção dela. "Por minha causa!"
A Kaoru deu um sorriso seco. Como aquele homem a tinha desiludido! "Um amigo ensinou-me que não podemos salvar o mundo, mas se estiver no poder da nossa mão ajudar alguém e não o fizermos…" Aquela frase era uma condenação autentica. Se fosse o Kenshin… Oh… ele teria saltado logo para ajudar outros em vez de se preocupar consigo… Era isso que ele tinha feito sempre em todas as ocasiões, nunca pensaria duas vezes em colocar a sua vida em risco… E quantas vezes teria o Kenshin colocado a sua vida em risco para salvar aquele homem? Porque acreditava nele, porque o via como um herói! Um herói que o levou a tomar as mais erradas decisões só porque acreditava no sonho de salvar o mundo! E agora… aquela cobardia fazia-a ter vontade de atirar tudo à cara mas não o fez, havia coisas mais importantes naquele momento: "O meu lugar é aqui." – ela decidiu simplesmente repetir. O Katsura ficou à espera de continuação mas ela ignorou-o e começou a falar par ao Sano: "Há muitas pessoas naquele fosso, temos que as tirar de lá."
:::::::::::::::
O Enishi deu largas gargalhadas quando percebeu o que levava o cunhado ali. Eles queriam saber quem tinha encomendado as bombas. Era óbvio que ele sabia quem as comprara, afinal quase tudo o que se passava no mercado negro das armas tinha de ter o seu conhecimento, por isso, ele sabia tudo o que se passava, independentemente de quem se tratasse.
Especialmente aquele negócio em particular. Ela não sabia como é que alguem tão podre como o Kaji tinha conseguido dinheiro para financiar aqueles materiais, mas, não era que isso o importasse. "Negócios são negócios, se eu vos disser a quem vendi a mercadoria, deixo de ter a confiança dos meus clientes."
O Saito grunhiu. Já estavam ali há mais de meia hora e o metido a mafioso não estava a revelar nada: "Não és medico nem advogado não estás sujeito a nenhum sigilo, além disso os teus clientes são todos pessoas que ganham a vida a lixar a dos outros, portanto… deixa-te de coisas."
O Enishi encolheu os ombros e suspirou fingindo um cansaço que não existia: "Não me convenceste. Desculpa."
"Se não colaboras tenho de te levar comigo." – O Saito desconfiava que trazer o Kenshin não tinha sido uma boa ideia. "Tu sabes que te posso prender por tudo o que fizeste em Kyoto."
O Kenshin interviu: "Enishi nós não queremos isso. Só precisas de nos dar um nome." O ruivo queria acabar com aquilo o mais depressa possivel. Era uma tortura voltar aquela ilha, por diversas razões.
O Simples facto de o Kenshin ter falado irritou-o. Como é que ele tinha coragem de sequer lhe dirigir a palavra? "Eu estou-me nas tintas para o que tu queres ou não!"
"Enishi!" – ele encolheu os ombros ao ouvir a voz dela, como uma criança que sabe que vai ser repreendida. O Yukishiro mais novo olhou para trás e viu a irmã aproximar-se. Mas porque raios é que ela tinha vindo todo o caminho desde casa até ali? Será que ela percebeu que era o Battousai que estava ali? O que mais o incomodava era o olhar de esperança que ela carregava ao ver o ruivo. Era como se tivesse estado todo aquele tempo á espera que ele a viesse buscar… Instintivamente ele olhou para o "cunhado" a quem tanto odiava. Como estava ele a reagir? Será que o tempo que tinha passado no dojo tinha surtido o efeito que ele queria? Se houvesse arrependimento naquele olhar ele saberia de imediato que sim….
:::::::::::::::::::::::::::
:::::::::::::::::
A Kaoru sentou-se no chão exausta. As mãos doíam-lhe de levantar tantas pedras, os dedos estavam a sangrar. Todos os músculos do corpo reclamavam por descanso, mas mesmo assim ela levantou-se. Mas o Sano colocou-se a frente dela e impediu-a de avançar: "Nem penses."
Desde há algum tempo, principalmente depois de o Kenshin ter partido, ele tinha aprendido a olhar para a Kaoru como a uma irmã mais nova, teimosa e com o costume de fazer o contrário do que lhe pediam. E, apesar de aquela situação ser atípica, e ele mesmo se ter disponibilizado para ajudar os feridos e todos os outros que estavam ainda presos nos escombros, ele sabia que a Kaoru estava no limite das suas forças, mesmo que não admitisse.
O Sano tinha consciência de que ela ia continuar até cair ao chão. Nisso ela era igual ao Kenshin… Por isso, ele tinha de a proteger. Não queria ter de a levar para casa em frangalhos como fez com o ruivo após a batalha com o Shishio…
Por falar no ruivo, até agora não havia sinal dele.
"Eu só vou ajudar a Megumi." – a Kaoru pousou as mãos no peito dele e tentou afastá-lo, mas ele não se moveu: "Não. A Misao, já está com ela. Todas as pessoas se mobilizaram para aqui para ajudar. O Yahiko também." A Kaoru olhou em volta. Realmente muitas pessoas tinham aparecido para ajudar, mas faltava alguém. O Sano percebeu isso, ele percebeu o que ela se perguntava mesmo que não o tivesse feito em voz alta.
"Tu já fizes-te demasiado." – ele tentou confortá-la, mas o olhar azul longínquo mostrou-lhe que havia uma razão em especial para ela se estar a esforçar tanto naquele dia: "Não… não fiz Sano… eu deixei-a morrer…" a voz tremeu-lhe de tristeza ao recordar o momento em que deixou a jovem escorregar-lhe por entre os dedos para aquele abismo imenso.
O Sano tinha ouvido um dos amigos, o senhor que tinha tentado ajudar a Kaoru nessa altura, contar a história. E, tinha chegado mesmo a tempo de a ver enfrentar aqueles políticos estúpidos. Quem é que eles julgam que são?
O Yahiko, que também já estava exausto daquele dia aproximou-se: "Vamos, eu levo-te para casa." Mas a Kaoru abanou a cabeça. Ela estava exausta sim, ela poderia ir para casa, mas não ia fazer com que nenhum deles perdesse a oportunidade de ajudar outros só por sua causa. Além disso, sentia que precisava estar sozinha para pensar um pouco em tudo o que tinha acontecido. "Não. Tu ficas a ajudar, eu vou para casa sozinha."
Os dois rapazes entreolharam-se.
"Não vale a pena tentarem, ou vou sozinha ou fico aqui!" – ela respondeu.
"Leva então a minha espada de bambu, não tem uso nenhum aqui, partida como está." Ele tinha acabado por a partir ao usá-la como alavanca para levantar uma pedra. Não tinha sido lá grande ideia, mas, havia certos momentos em que não se pensava muito.
A Kaoru olhou para o objeto partido e pensou duas vezes se não era mais fácil deitá-la ao lixo, afinal de contas uma espada partida era quase inútil… Mas depois desistiu da ideia, afinal de contas o Yahiko é que era o dono da espada. "Está bem."
No momento em que partiu para o dojo com a espada de bambu na mão nunca pensou que o seu dia poderia ficar pior. Ela nunca pensou que pudesse bater mais fundo, que tudo aquilo que sempre tinha defendido se virasse contra si.
Ás vezes pequenas decisões mudam a nossa vida… Decisões como virar numa esquina em vez de outra, ou deitar ou não uma espada partida ao lixo…
::::::::::::::::
Enquanto a viam desaparecer os dois rapazes entreolharam-se preocupados. O olhar dela estava distante demais, longe demais. Talvez o que tinha acontecido com a Kaoru naquele dia fosse demasiado."Achas que ela vai superar?" o Yahiko tinha medo que ela voltasse ao estado catatónico em que a tinha visto uma vez. Por mais que lhe custasse admitir ele amava muito a sua mestre… apesar de todos os sermões e birras, da comida intragável e do mau humor matinal ele sabia que não conseguiria vê-la mal.
Ele sabia o que remoía por dentro quando se falhava em proteger alguém a quem amamos… ele viveu isso durante anos com a mãe… Por mais que a ajudasse nunca conseguiria livrá-la da doença e por fim da morte… ele sentia que era sua obrigação protege-la.
"Não sei, tu conheces a Jou chan, eu acho que ela vai ficar a pensar nisso durante muito tempo." – o Sano respondeu à pergunta que o Yahiko já nem se lembrava de ter feito.
Os seus lábios curvaram-se num sorriso quando lhe veio à mente a imagem da Kaoru a enfrentar os policias: "Ela deu uma lição aqueles tipos não deu?"
O Sano pousou a mão na cabeça do Yahiko, que logo o afastou: "Podes crer miúdo a tua instrutora é casca rija."
"Já te disse para não me chamares miúdo! Já tenho quase o teu tamanho!" – ele tentou libertar-se da chave que o Sano tentava fazer ao seu pescoço. "OH!OH! Quase o meu tamanho! Realmente o teu ego deve andar muito lá em cima!"
SANOOOOOO!
Um grito interrompeu a brincadeira deles.
"É A KAORU!" – os dois disseram em uníssono correrendo na direção do grito.
Ela tinha acabado de sair de perto deles, o que poderia ter acontecido de errado?! O Yahiko conseguiu correr ainda mais rápido do que o Sano e mal virou na esquina ele paralisou. O mais velho quase que o deitou ao chão quando parou de solavanco tambem.
O Sano olhou para o cenário na sua frente: "O que raios se passou aqui?"
::::::::::::::
O Saito olhou para o barco ao longe. Quanto tempo mais ia o Enishi atrasar aquilo? A irmã tinha-o convencido a dar alguns detalhes tais como a descrição do individuo que lhe tinha comprado as bombas, mas ele sabia que o homem de cabelo prata continua a esconder aquilo que era mais importante: "Só isso, não tens o nome deles?"
Arrogante como uma criança mimada o Enishi não hesitou em responder como se fosse a coisa mais lógica do mundo: "Tu achas o quê? Que eu passo faturas?"
O Saito Respirou fundo e olhou para o ruivo: "Temos de ir."
O outro assentiu. Aparentemente aquela ida à fortaleza do Enishi tinha servido de pouco. Poderia haver muitas pessoas com uma aparência semelhante aquela que ele descreveu. A frustração era evidente no rosto de ambos.
"Kenshin espera pf…" – Antes que eles pudessem voltar costas a Tomoe deu alguns passos na direção dele. Ele ia embora assim, sem mais nada?
"Himura, não temos muito tempo até o barco ir embora, despacha-te." – o Saito disse antes de se afastar um pouco para lhes dar mais privacidade.
A Tomoe agradeceu o gesto do policia e disse: "Quando te vi pensei que tivesses voltado."
O Kenshin não sabia explicar o que sentia, era uma urgência em sair daquele sitio, uma vontade de voltar para casa… Casa? Mas que casa? Tu não tens casa. Perdeste-a no dia em que a escolheste. Era como se sentisse que numa situação daquelas não se podia afastar de Kyoto por muito tempo. "Tem havido alguns problemas em Kyoto, eu estou a tentar resolver." – respondeu sem lhe deixar muita margem para argumentar. Era estranho como já não se importava em fazer conversa, em criar oportunidades para que ela lhe respondesse, porque era assim que era dantes, ele falava e ela ouvia, ás vezes fazia perguntas, mas fora isso ela era uma mulher introvertida. Agora, era ela que parecia agir assim, queria ouvi-lo falar: "Como estão todos no dojo?" – ela perguntou após algum tempo à espera que ele falasse mais.
O Kenshin olhou-o bem fundo nos olhos."Bem."
"Quando voltas?" – era aquela a única pergunta à qual ela queria obter uma resposta, a todas as outras ele podia dar respostas vagas, mas àquela ela precisava de saber.
Passou-lhe tanta coisa pela mente, os seus olhos desviaram-se para o chão, e ele falhou o olhar de escrutina do Enishi, bem como a preocupação no rosto daquela que tinha sido em tempos a mulher a quem amou. Ele percebeu que tinha de lhe contar, tinha de lhe dizer que se voltasse seria para terem uma conversa definitiva da qual ela não ia gostar do desfecho.
Ouviu ao longe o ressoar da buzina do barco.
Mas não ia ser agora nem ali. Não, ela merecia mais."Desculpa tenho de ir." Ele voltou costas e dirigiu-se ao barco junto com o Saito, sem olhar nem uma única vez para trás.
O Enishi aproximou-se da irmã e colocou-lhe a mão no ombro.
Era dificil ler o Battousai, mas uma coisa ele conseguia perceber: Algo tinha mudado.
"Eu não percebo Enishi… O Kenshin está estranho…" ela murmurou ao ver o marido desaparecer no meio do mar.
Ele não ia responder a isso, mas havia uma parte dentro de si que ansiava por saber o que se tinha passado em Kyioto, e isso ia ser tratado ainda hoje.
::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::
O Sano repassou toda a situação na sua mente enquanto a Megumi o Dr Gensai e a Misao se revessavam para tomar conta dos pacientes.
Para ele havia duas coisas que mereciam a morte: Pedofilia e violações.
Ele não tinha preconceitos, aquele individuo tinha-a tentado violar. Quando ele chegou e viu o kimono dela rasgado, o lábio a deitar sangue e as marcas das mãos dele no pescoço dela, e teve vontade de…. O matar de novo.
A Verdade é que ele ainda olhou bem para o corpo para perceber se ele estava mesmo morto, mas a espada de bambu do Yahiko estava cravada de um lado ao outro no pescoço dele sem deixar nem uma ínfima hipótese de ele ter sobrevivido.
O que o preocupava era o impacto que isso ia ter na Kaoru. E a forma como ela ia olhar para a vida daí em diante. Ela que sempre defendeu que matar nunca era solução. Ela que sempre impediu o Kenshin de quebrar o seu voto… e agora… Como é que ia lidar com a realidade?
:
A Megumi estava atarefada com todos os doentes, mas quando o viu chegar com a amiga naquele estado tinha mandado a Kaoru para um pequeno consultório à parte. Ela sabia como ela se devia sentir. Uma mulher sabia sempre melhor o que fazer numa situação daquelas.
Havia tanta gente na clinica, aquilo estava mesmo um caos.
"Sano, onde está a Kaoru?" – a Megumi apareceu no meio dos doentes, com a bata um pouco suja e claramente exausta.
O Sobrolho Dele levantou-se: "No quarto onde a deixas-te." – ele teve um pressentimento de que algo não estava bem.
De imediato o rosto da médica ganhou uma expressão de quem está prestes a entrar em pânico: "Ela não está lá."
O Sano levou a mão à cabeça. Mas onde é que ela se foi meter? Eu devia ter tido mais cuidado, eu sabia que ela não estava bem! Os olhos dela estavam distantes…. Como se não estivesse a ouvir nem a ver nada à volta.
O que é que ele ia fazer agora?
Como que para aumentar os seus medos, o Kenshin apareceu na clinica, e pelo olhar de preocupação estampado na cara, ele já devia ter ouvido o que se passou:
"Onde está a Kaoru?" – foi a primeira coisa que ele perguntou-
Bolas… Isto ainda agora começou e já não podia ficar pior.
:::::::::::::::::::.
As dores eram quase nenhumas daí ela ter saído da clinica. Não havia necessidade de ocupar o lugar a alguém que pudesse estar realmente ferido. A Kaoru passou a mão pelo pescoço sabendo que as feridas que iam ficar seriam mais fundas na sua mente do que na carne, e daí relembrou o momento que nunca mais esqueceria, nem que vivesse mil anos:
O Kauru tinha-a apanhado sozinha mal virou a esquina do Akabeko sentiu-se a ser puxada para um beco... Provavelmente ele tinha ficado a observá-la À espera de que ficasse sozinha para assim puder atacar.
"Esperei tanto tempo por isto… Agora, ninguém vai estragar o nosso momento." – Ela sentiu as mãos gélidas do seu agressor a apertarem-lhe o pescoço quando a encostou contra a parede. Incapaz de dizer uma única palavra, ela limitou-se a ouvi-lo.
"Tu humilhas-te me da pior maneira possível para um homem… ser derrotado por uma mulher…" – aqueles olhos dourados fixaram-se bem fundo nos dela e ela sentiu o ódio que ele punha em cada palavra: "Agora eu vou humilhar-te da pior maneira possivel para uma mulher."
De inicio ela petrificou e foi como se o tempo tivesse parado naquele momento. Mas quando o Kauru lhe rasgou uma parte da roupa ela reagiu pontapeando-o. Mas ele parecia já estar à espera que ela respondesse, e por mais força que ela usasse para o pontapear isso só parecia fazer com que ele se divertisse mais.
A Kaoru cerrou os olhos com força sem querer acreditar no que lhe estava a acontecer. As lágrimas escorreram-lhe pelo rosto abaixo. Com a força que ele lhe apertava o pescoço já era dificil respirar, quanto mais gritar por ajuda. O Kauru riu-se maquiavelicamente. Ela tinha desistido.
Leva a minha espada de bambu… Não tem uso algum, partida como está.
A Kaoru tentou olhar para o objecto que já nem se lembrava que tinha em mãos. Os olhos do Kauru seguiram os dela e o sorriso dele aumentou ainda mais: "Ohhh… eu até te queria ver a tentar… como se tu fosses cap… uh…" – o sorriso dele desvaneceu-se lentamente, ele levou a mão ao pescoço tentando perceber o que tinha acontecido. Deu dois passos atrás sem tirar os olhos dela: "Tu matas…" o corpo dele começou a tremer e a Kaoru levou as mãos à boca quando se apercebeu do que tinha feito.
Observou-o cair de joelhos enquanto os seus olhos perdiam a vida… Só quando ele caiu morto aos seus pés ela se lembrou que já podia gritar.
:::
A Kaoru abriu os olhos depois de ter vivenciado todo o momento outra vez.
Uma espada é uma arma…
E o Kenjustsu é a arte de matar… agora as palavras dele faziam todo o sentido: "Não importa quão bonitas sejam as palavras que uses para o descrever, esta é a única verdade." – ela completou a frase que o Kenshin tinha dito quando a salvou do Gohei.
Sentia-se estranha no seu próprio corpo. Quando olhou para o ombro viu água pensou que fossem lágrimas, lágrimas por ter descoberto que a verdade na qual tinha acreditado durante tantos anos, afinal era mentira, por perceber que as suas mãos tinham servido de instrumento para a morte de alguém…. mas depois percebeu que não eram as suas lágrimas que a molhavam, mas sim, gotas de chuva.
Numa situação normal teria procurado abrigo, mas a sua cabeça estava longe, perdida em pensamentos estranhos…Agora ela conseguia perceber uma pequena parte da culpa que o Kenshin carregava todos os dias…. Como é que ele conseguia?
Olhou para o horizonte. Ela sabia porque tinha escolhido aquele lugar. O pai costumava trazê-la ali em criança. Era o mais parecido que havia com a praia, apesar de ser só um lago grande. O pai costumava trazer lanche, guardá-lo numa pequena cabana que havia lá, e depois dos mergulhos e dos banhos de sol na relva, eles iam para dentro da cabana e lanchavam.
A Kaoru levantou-se e caminhou até ao pequeno casebre. Rodou a maçaneta da porta E quando contava encontrar tudo sujo e cheio de teias de aranha, foi surpreendida, aparentemente alguem se tinha dado ao cuidado de limpar e cuidar do sitio.
Pensou duas vezes antes de entrar e mais uma vez a imagem do Kauru morto com a espada do Yahiko a perfurar-lhe a garganta lhe veio à mente.
Não… Eu sinto-me suja. Se eu entrar aqui vou sujar todas as memórias inocentes que tenho da minha infância.
Sem o pai e sem o Kenshin para a ampararem naquela situação a Kaoru sentiu-se despida.
A chuva começou a cair forte e foi aí que ela decidiu subir para cima do telhado. Talvez isso a ajudasse a sentir-se melhor. Talvez a chuva conseguisse lavar a dor que ela sentia no peito, e o cheiro a sangue nas suas roupas e mãos…
::::::::::::::::::
O Kenshin voltou para o dojo esperançoso de que ela lá estivesse, gritou o nome dela vezes sem conta mas nada… ela não estava ali. Correu de novo para a clinica onde encontrou a Misao. "Não Kenshin, ela não chegou." – ela também estava preocupada mas tentou descansá-lo dizendo: "Com tanta gente à procura dela, vais ver que a Kaoru vai aparecer num rápido."
"O que me preocupa é que ela não queira ser encontrada depois de tudo o que aconteceu."
A Misao tambem já tinha ouvido a história e temia o mesmo. "Leva-a, se a encontrares manda-me uma mensagem para eu poder avisar os outros. Eu pedi ao Aoshi que fizesse a mesma coisa." Passou-lhe uma rola para as mãos. O Kenshin ficou a olhar para a ave por momentos e depois assentiu.
Com a rola em mãos ele continuou a procurar, apesar da chuva que insistia em cair. Ele foi ao restaurante da Tae, à casa do Katsura, voltou de novo ao dojo, mas nada.
Ele recordou as palavras da Megumi: "A Kaoru não está bem nem física nem psicologicamente para andar por aí sozinha."
A raiva que ele sentia por aquele Kauru só era abafada pela preocupação que sentia pela mulher que amava. Ela devia sentir-se completamente perdida. Logo ela que sempre o impediu de matar, sempre o protegeu de se tornar de novo um assassino… Para ela se descontrolar daquela forma então…Há alguma coisa neste tipo que a assustou profundamente, foi como se ela tivesse ficado paralisada. – ele recordou as palavras da Misao na noite anterior quando se referiu ao ataque do qual as duas jovens tinham sido vitimas à chegada do dojo.
Ela tinha medo dele…. E eu não estive cá para a proteger…
Mais uma vez ele sentia que lhe tinha falhado.
O ruivo esqueceu-se do que andava a fazer… e começou a caminhar sem sentido a pensar em como tudo poderia ter sido diferente se ele lhe tivesse dito que a amava antes… Se ao menos ele tivesse sido corajoso… As oportunidades que ele teve foram tantas… Quando ela foi raptada pela Shura e os piratas, ele pensou em dizer-lho caso algum dia a voltasse a ver… Quando ela superou do feitiço do Jin-hei…. quando ele voltou da luta com o Shishio… quando voltou a recuperar a visão após a luta com o Shougo, quando ela erradamente pensou que ele estava a propor-lhe casamento com a história do anel que encontrou no rio… quando soube que o Enishi não a tinha morto e a encontrou de volta na ilha… Se ele tivesse aproveitado uma dessas oportunidades e lhe explicasse o que sentia…
Mas cada vez que pensava nisso, lembrava-se de tudo o que ele tinha sido e de que unir-se a ele significava unir-se a alguem cujas mãos estavam manchadas de sangue… Será que ela ia entender quando ele acordasse com pesadelos? Será que ele ia conseguir explicar-lhe o que sentia? Será que um dia que tivessem filhos… ela ia perceber a apreensão dele em relação a se fosse um rapaz? Não era algo que se pudesse escolher mas…. Ele tinha medo de transmitir "genes assassinos" por mais ridículo que isso parecesse…
E de todas as vezes em que ele pensava nisso, ela parecia-lhe simplesmente muito pura, muito superior muito inocente…
Mas agora alguém tinha roubado isso e ele não tinha feito nada para impedir.
"Espera, onde é que eu estou?" O Kenshin tinha-se deixado guiar para ali e acabou perdido. Pelo menos até certo ponto. As pessoas e as ruas passavam-lhe ao lado, mas quando chegou ali, algo o parou. Ele nunca tinha estado ali antes, mas algo o levou para ali. E após alguns segundos ele percebeu o quÊ.
Instinto.
Todo o seu corpo relaxou quando a viu em cima do telhado, com os joelhos encolhidos e a cabeça entre os joelhos, enquanto a chuva a molhava sem piedade.
O ruivo suspirou e subiu até ela. Assim que lhe tocou no ombro ela assustou-se, mas depois o rosto dela ficou sério: "Vai-te embora Kenshin, pf."
Ela sentia-se hipócrita por estar a dizer aquilo, porque por um lado, ela sabia que precisava dele, do conforto dele, mas por outro sentia que tudo aquilo que tinha defendido, a espada da vida, tudo o que tinha ensinado ao Yahiko… as vezes que o tinha impedido de matar para a proteger… tinha tudo ido por água abaixo… "Eu preciso estar sozinha Kenshin, pf." – ela disse quando ele abanou a cabeça e se recusou a descer.
O ruivo pousou a mão nas costas dela: "Não faças isto contigo mesma."
Percebendo que ele já sabia do sucedido ela desviou o olhar para longe: "Eu não sei como aconteceu." – "Eu estava petrificada, eu, não sabia o que fazer, eu pensei que ele fosse…."
O Kenshin cerrou os dentes. Ele sabia o que ele quis fazer. A Kaoru ainda tinha a parte da frente do kimono rasgada suficiente para ter um pouco do ombro à mostra e aí as marcas das mãos nojentas do Kauru ainda se notavam mais… "Se eu o tivesse apanhado eu tinha-o feito sofrer…"
"Kenshin pára!" – ela quase que gritou. Mas depois arrependeu-se, ela sabia que o ruivo só a estava a tentar ajudar. Num tom mais controlado ela continuou: "O que eu fiz foi muito errado. Eu não pensei que ia acertar e ainda para mais com a espada do Yahiko, eu… nunca pensei que… mais valia eu ter deixado, mais valia eu ter deixado que…"
"Não…Não… Nunca." – ele agarrou-lhe nas mãos: "Tu nunca mais digas isso, ouviste? Matar é errado sim, mas tu fizes-te-o para te defender!"
"É igual Kenshin, se o meu pai estivesse vivo agora, ele.." – ela desviou de novo o olhar dele, mas o ruivo colocou-lhe a mão no rosto e obrigou-a a olhá-lo nos olhos:"Tu não matas-te por ganância, nem por prazer, nem para que os teus ideais se realizassem. Tu fizes-te-o para te defender, e eu sei Kaoru, eu sei melhor do que ninguém que nunca o farias se tivesses outra hipótese. Se alguma vez ele te tocasse… eu… não pensaria duas vezes…"
A jovem abanou a cabeça, se isso alguma vez tivesse acontecido, se ele voltasse a matar por ela, nunca se perdoaria, seria ainda pior do que agora: "Kenshin, tu fizeste um voto."
"Tu és mais importante do que qualquer voto que eu possa ter feito." – ele passou-lhe a mão pela bochecha e a jovem fechou os olhos deixando-se acariciar por aquele pequeno gesto de carinho."Eu só queria acordar e perceber que isto tinha sido um pesadelo."
"Eu sei. Mas ninguém vai ter a coragem de te julgar, Kaoru."
Ela abriu os olhos: "Eu vou ter a coragem para me julgar Kenshin."
Pousou ambas as mãos nos ombros dela e olhou-a bem fundo nos olhos: "Não, eu não te vou deixar fazer isso."
A Kaoru ficou calada durante algum tempo. Nesse entremeio o Kenshin abraçou-a contra si com força. Ela precisava de saber que ela ia estar ali para a defender, que ele a ia proteger contra tudo e todos até mesmo dela própria. Ele não ia permitir que um erro, por mais grave que fosse, destruísse a vida da mulher a quem ele tanto amava.
No meio daquele gesto, e quando os lábios dela estavam bem junto aos seus ouvidos ela acabou por ceder: "Ajuda-me a esquecer isto… eu quero esquecer isto, nem que seja só por um pouco."
O Kenshin sorriu e afastou-se um pouco para a olhar nos olhos: "Claro, vamos, eu levo-te para o dojo."
"Não. Eu vou ficar aqui, Kenshin." – ela respondeu.
Será que ele tinha entendido mal? Ela não tinha dito que queria esquecer tudo? Estar com os amigos e família fazia-a sempre sorrir… Será que ela queria ficar sozinha?
"Mas tu precisas que te tratem dessas feridas." – ele contrapôs apontando para o braço e para o corte nos lábios. Ela precisava de ajuda, porquê que estava a recusá-la?
"Tu podes fazê-lo." – respondeu.
O Kenshin arregalou os olhos: "Posso?"
Será que ele estava a entender bem? Quando ela disse que ELE podia fazê-lo, estava a querer dizer que queria ficar a sós consigo? Que confiava apenas nele, acima de qualquer outra pessoa para tratar das suas feridas mais profundas?
Quaisquer que fossem as suas dúvidas o pedido seguinte dela elucidou-o por completo:
"Fica aqui, comigo, só esta noite."
::::::::::::::::::::
::::::::::::::::::::
Peço desculpa pela demora mas com o fecho de ano tenho tido muito trabalho e isso tem me impedido de ter tempo para escrever.
Não tenho tido quase nenhum feedback desta história, o que me deixa um pouco desanimada, mas, não vou deixar de escrever... Embora alguns comentários ajudassem a escrever com mais entusiasmo..
Beijo
