CLAIRE

Apenas três anos se foram, mas para Claire parecia uma eternidade. Era como se nunca tivesse conhecido outra vida. Desde a morte prematura de seus pais e a partida de Chris, quando ela tinha acabado de completar trezes anos. Em um piscar de olhos, o Sr. e Sra Redfield estavam enterrados, a casa onde moravam foi vendida e o dinheiro posto na poupança de sua faculdade. E Chris... servia a força aérea.

As vezes Claire tentava lembrar do homem que as duras penas, se propôs a ser seu pai, mas conforme o tempo passou, até lembrar do rosto dele era difícil. Já a mãe, Claire ainda podia lembrar do cheiro do sabonete que ela usava, da voz dela, e também era somente dela, que Claire conseguiu guardar uma foto.

Sempre foi deslocada em casa, sentia como se não encaixasse lá, mas ainda era sua casa... E seu medo era que um dia, de alguma maneira, isso acabasse. E acabou. Chris prometeu nunca deixa-la. Mas deixou. Ele passava a semana inteira na Base Aérea que ficava há pelo menos 300 quilômetros da Escola interna onde Claire vivia agora. Ele a buscava nos fins de semana, às vezes a cada quinze dias. Ele já pilotava e frequentemente tinha outros afazeres. Ou era o que ele dizia... Claire sabia que algumas de suas faltas, com certeza foi por outros motivos. Que homem, no auge da juventude e beleza, iria passar todos os seus dias livres pajeando uma irmã mais nova? Era dolorido... mas Claire sabia que era a verdade.

A escola onde Claire estava era um internato para filhos e dependentes de militares. Era rígido e num sistema quase tão militaresco quanto o de um soldado. Durante a manhã e a tarde, as moças e os rapazes estudavam juntos e compartilhavam de todas as atividades, ao anoitecer, iam para alojamentos separados, moças para um lado, rapazes para o outro. É claro que nada disso nunca impediu que casais se formassem. Ano passado uma colega de sala precisou voltar para casa em uma condição bastante inapropriada, a Escola precisou explicar muito bem para os pais dela, como eles a devolveram grávida de gêmeos aos quinze anos. Nem em um colégio religioso o escândalo teria sido tão grande. Depois disso, a vigilância aumentou, e os encontros dos casais ficaram mais arriscados, mas de maneira nenhuma, acabaram. E é claro... nunca pararam as perguntas inconvenientes, sobre porque Claire nunca namorava.

Olhou para o telefone mais uma vez... Deu um longo suspiro ao lembrar que até agora ele não telefonou. Desistiu de esperar e então ligou ela mesma. Discou os números que ela já sabia bem de cor e aguardou as chamadas... mais uma vez, sem sucesso. As residências eram cedidas somente para os oficiais casados... Chris ainda ficava no alojamento comunitário, logo, ela não podia simplesmente ir vê-lo pois ele não teria aonde ficar com ela lá. Sendo assim, ele vinha, buscava-a e passavam o fim de semana ou os feriados em outro lugar, de hotéis em parques temáticos a hotéis em beira de estrada, tudo dependendo das condições financeiras de Chris na ocasião. Infelizmente, esses momentos foram ficando menos frequentes do que Claire gostaria. As vezes, uma corrente de pavor corria por todo o seu corpo, ao imaginar os motivos que levariam Chris a evita-la. Talvez ele tenha finalmente percebido, depois de todo esse tempo, que desde que ela deixou de ser uma criança, ela nunca mais conseguiu olhar para ele como um irmão...

Quando era uma criança, e nada sabia sobre um relacionamento homem e mulher, além do fato que esposas saem de casa e engravidam na rua, quando o seu mundo girava todo em torno de Chris e achava que o amor de irmão era o Maximo do amor que alguém um dia poderia experimentar, afinal era o único tipo de amor que ela conhecia... o mundo era um lugar muito mais bonito e muito mais fácil de se viver. Então ela cresceu, e descobriu da maneira mais amarga que fingir ser a irmã dele não era nem de longe o suficiente. Não se lembrava exatamente quando começou a olhar para ele exatamente como uma moça olha para um rapaz bonito... e não como uma irmã olha para um irmão, só sabe que aconteceu.

Um dia estava apenas suspirando cada vez que Chris sorria, sentia os pelos da nuca arrepiarem quando ele a abraçava, se deliciava sempre que sentia o cheiro dele. Chorava e sentia vontade de morrer todas as vezes que ele tinha uma garota. No começo sentiu horror de si mesma, achava que era estupidez de adolescente, achou que talvez nem fosse uma menina normal. E que aquilo ia passar rápido. Chris era seis anos mais velho, e eles foram criados juntos, como irmãos, pelo mesmo pai e a mesma mãe. Como algo assim poderia acontecer? Ele nunca olharia para uma mocinha tão mais nova, mesmo que não fosse ela. E essa nem era a parte mais difícil... Mesmo quando internamente um pensamento maligno de que, um dia ela iria crescer, e então, talvez, ela tivesse alguma chance, ele olharia para ela e um milagre simplesmente aconteceria, quando Claire entrava em um mundo de fantasia, mesmo que por breves segundos, onde todos os empecilhos não existiam mais, era imediatamente interrompido pelo fato de que sabia que seus pais ficariam horrorizados, as pessoas também ficariam, e para completar Chris nunca ficaria tanto tempo solteiro... e provavelmente nunca teria olhos para ela mesmo que ficasse.

Foi toda uma adolescência tentando não encarar os fatos, tentando ignorar que se sentia cada vez mais atraída por ele, mais enciumada, mais apaixonada. Chegou a achar que se desse atenção a outros garotos, fosse esquecer esses pensamentos sórdidos a respeito do rapaz que ela deveria amar como irmão. Mas o rapaz salvador, por quem ela iria se apaixonar e finalmente livra-la desses pensamentos inapropriados nunca apareceu. A Claire só sobrou sofrer sozinha a amargura de estar apaixonada e saber que nunca será correspondida. E esperar que um dia isso acabe. Hoje, seus pais estão mortos. Hoje, Chris esta longe e ela não tem mais ninguém. Mas o sentimento, ainda não passou.

Então o telefone tocou. Não esperou nem o segundo "trim" para atender, mas ao contrario do que esperava, não era Chris no telefone.

" – Redfield, faça as malas e apresente-se na guarita de saída." – O coração de Claire bateu mais rápido. – " – Tenente Redfield veio te buscar."

Não foi uma manhã inteira trancada em seu quarto de tudo em vão! Sua mala já estava até pronta, mesmo sem saber se ele vinha. Calçou as botas e fechou o botão dos shorts, apanhou a jaqueta vermelha, deu uma ultima olhada no espelho antes de sair e então, foi.

Ainda a caminho da guarita de saída, Claire já podia observar a moto parada ao longe e Chris apoiado nela. Sorriu ao se aproximar. Era possível um homem ser tão bonito? Por que diabos o pai dele aceitou sua mãe de volta? Claire também gostava de fantasiar que se eles tivessem ficados separados, se talvez sua mãe tivesse ficado com seu pai biológico, um dia, mesmo que por acaso, ela teria encontrado Chris, eles se apaixonariam e viveriam felizes para sempre.

Não disse uma palavra quando pulou com pescoço dele. Apertou-o ainda mais quando o abraço foi correspondido. E finalmente ergueu os pés se pendurando nele. Amava sentir o quanto ele era forte. Sentia-se leve feito uma pluma nos braços dele... justo ela, que volta e meia ainda é vista como uma ogra de vez em quando. Quando ele a colocou no chão outra vez, ela saiu do abraço mais ainda se manteve perto. Jogou a franja para o lado para poder vê-lo melhor. Estava queimado de sol, usava uma jaqueta de piloto e um jeans. Lindo... Lamentava somente o fato de ter que usar aquele cabelo quase raspado.

" – Parece que alguém gostou da surpresa." – Ele riu.

" – Eu devia te bater por me fazer esperar."

" – Mais tarde. Agora sobe porque a estrada e longa e a hora do almoço é sagrada!"

Claire subiu na garupa da moto logo após ele, botou o capacete e então envolveu-o pela cintura. Conforme as milhas começavam a passar Claire sentia a força do vento soprando contra eles. Eram seus momentos favoritos nos últimos anos, quando encaixava seu corpo ao dele e o abraçava forte deixando que ele a levasse para onde quisesse. As horas passavam como se fossem minutos e sentia vontade de protestas todas as vezes em que finalmente chegavam ao seu destino e precisava se desgrudar dele.

Almoçaram, pegaram a estrada novamente. Encontraram um milharal e acharam que era um bom lugar para praticar antes de anoitecer. Chris a estava ensinando a lutar com facas. Ele era muito bom nisso e frequentemente dizia que ela também era. Era uma programação incomum, é verdade. Mas eles gostavam. Claire estava aprendendo a atirar também. Chris também dizia que ela ficou uma moça muito bonita, e moças bonitas devem saber se defender. Era bom ouvir isso de vez em quando, mesmo sabendo que seja lá qual for seu tipo de beleza, não despertava nele nada além de um instinto protetor fraternal. Gostava mais ainda quando treinavam luta corpo a corpo, quando ele a envolvia por trás e segurava em suas mãos para ensina-la a atirar. Claire sentia que levava jeito pra coisa, e realmente aprendia rápido, mas durante incontáveis vezes errou de propósito, apenas para continuar ali, pertinho dele.

O maior medo de Claire era ser descoberta, mas as vezes o seu desejo era tanto que não podia resistir em tirar uma casquinha sempre que podia, um abraço mais longo, um beijo estalado na bochecha, um cafuné sem hora para acabar... E a noite, quando encontraram um hotel, foi obrigada a mais uma vez, deitar em sua cama, e observa-lo na dele. Aliviada por mais uma vez ter saído ilesa de seu segredo, admirando-o de longe, dormindo tranquilo, alheio ao que acontecia. E mais uma noite, esperando que Deus fosse bom, e fizesse aquilo acabar.

CHRIS

Hoje completava cinco anos desde a morte de seu pai, e Chris se sentia orgulhoso de ter cumprido sua promessa. Abriu mão de qualquer herança, vendeu a casa e colocou tudo na poupança de Claire. Entrou para a Força Aérea e lá foi capaz de se sustentar e dar qualquer suporte que a irmã precisasse. Prometeu ao pai que o ajudaria a manter a família, e o fez. Agora Claire tinha dezoito anos e acabara de ser admitida em uma universidade. Pode-se dizer eu seu trabalho acabou. Agora ela era uma mulher feita e pronta para seguir seu caminho.

Ainda lembrava das lagrimas e dos protestos dela quando ele disse que se mudaria para Raccoon City, ao norte do país. Ficariam ainda mais tempo longe, mas enfim... essa é a vida dos adultos. Não entendia o motivo de tanto drama. Além do mais, era algo que ele precisava fazer... as coisas não estavam funcionando na Força Aérea, embora ele ainda amasse pilotar, seus problemas com seus superiores já estavam cruzando todos os limites do aceitável. E foi com muito prazer que aceitou o convite de seu amigo Barry Burton para entrar para os S.T.A.R.S.

Começou uma vida boa e tranquila naquela cidade fria. Seus colegas se trabalho eram agradáveis, e até mesmo o Capitão Wesker que tinha uma puta cara de metido, se mostrou um sujeito bem camarada dando-lhe uns dias de folga para ir visitar a irmã na universidade. Não tinha o que reclamar. E queria muito, que ao reencontrar Claire, ela também estivesse feliz.

Deixou Sharon muito bem guardada em Raccoon City e viajou de avião mesmo. Pela janela do Taxi, podia observar a paisagem ensolarada da Flórida, e ao entrar no campus da Universidade, pode observar a infinidade de jovens universitários que ali estavam, moças bonitas, rapazes na flor da juventude. Sentia-se aliviado por Claire, ela merecia isso.

Olhou o papel com o endereço anotado mais uma vez e então entrou no prédio indicado. Subiu as escadas e chegou ao quarto também indicado no papel. Bateu duas vezes na porta, suavemente.

Ninguém atendeu.

Bateu mais três vezes, e uma voz não muito familiar respondeu: " – Tá aberta!"

Ergueu as sobrancelhas com a mal humor da mulher que o respondeu, e então, abriu a porta. Quando entrou no recinto, encontrou uma mocinha negra, com cabelos cacheados amarrados no topo da cabeça, terminando de abotoar a blusa, ela parecia muito surpresa em vê-lo.

" – Ora, me desculpe." – Ela sorriu. Terminou de se vestir e caminhou até ele, cumprimentando-o com um beijo em cada bochecha. – " – Se eu soubesse que era bonitão, teria te recebido bem melhor." – Ela piscou um olho e se afastou toda rebolosa até o espelho terminando de ajeitar os cachinhos. " – Então moço bonito, pode me dizer a que devo a sua visita?"

Chris sorriu meio tímido. Já devia estar mais do que acostumado com o assedio das mulheres, mas a verdade é que elas ainda o deixavam completamente desarmado. No fim, parece que elas até gostavam disso nele. " – Na verdade eu vim..." – Não completou a frase. Saindo do banheiro estava a pessoa que ele procurava. Ela sorriu para ele de uma maneira tão linda que não restou qualquer dúvida que ela estava mais do que feliz em vê-lo. E cresceu tanto, e se ela não estivesse a mãe cuspida, escarrada e mijada, talvez nem a reconhecesse. Era uma mulher feita, de grandes olhos azuis brilhantes e uma cabeleira ruiva de um vermelho bem forte. Por um segundo as palavras pareceram fugir da boca. " – Claire."

Ela correu até ele como sempre fazia, e pulou em seu pescoço. Ele a abraçou forte e a ergueu do chão rodopiando com ela. Era uma mulher adulta, e linda. Não pode deixar de pensar que quem não os conhecesse, poderia até pensar que aquele encontro tinha outro significado... E justamente quando a colocou no chão, a moça que o recebeu disse.

" – Finalmente! Claire querida! Resolveu aparecer aqui com um bofe... e QUE bofe!"

A pele branca de Claire ficou rosada imediatamente.

" – Ah... na verdade... Ele... é meu irmão."

Chris não deixou de reparar no detalhe de que durante todo esse ano, Claire não levou nenhum rapaz para o quarto. Uma universitária comportada, ao que parece...

" – Sou Emilia, colega de quarto da sua irmã."

" – Prazer Emilia." – Emilia tinha a cor do pecado, cintura fina, seios firmes e o traseiro não era menos que um espetáculo. Aquilo era mulher pra virar de quatro, pegar com força, uma, duas, três vezes, casar, dar casa, comida, bota-la pra embuchar e parir no mínimo o Christopher Junior e mais seis ou sete Redfields.

" – Christopher..." – Era Claire o chamando. E ela so o chamava assim quando estava com raiva.

Claro, foi pra isso que ele veio, visitar a irmã... uma irmã muito ciumenta, ele se lembra. Voltou o seu olhar para ela, não estava com raiva, mas parecia magoada. Ah sim... nunca era delicado, ele deveria saber, estar com ela mas não dar atenção. Principalmente depois de tanto tempo.

" – Me desculpe." – Se dignou apenas a sussurrar e abraça-la novamente.

" – Então... Christopher." – Disse Emilia de um jeito bem afetado. " – Eu vou dar uma voltinha para vocês conversarem a sós. Bye bye Claire, te vejo mais tarde." – E por fim saiu, ainda mais rebolosa do que antes.

Quando a porta bateu, Claire sorriu aliviada, mas por mais incrível que pareça, Chris estava aliviado também. Foi um turbilhão de ideias que passaram por ele em um milésimo de segundo. Universidade, colegas de quarto e Claire... tão crescida.

" – Que bom que veio." – Ela o beijou no rosto. Claire era sempre tão doce com ele, e Chris gostava disso. Ela o puxou pelas mãos e sentaram na beirada da cama. " – Então, como foi a viagem?"

" – Foi tranquilo. Voo rápido, sem turbulências. Normal." – Ele brincava com os dedos dela com a mão esquerda enquanto ela ainda segurava sua mão direita entre as dela.

" – E Raccoon City. Como está?"

" – Oh.. eu devo dizer, um verdadeiro caos. A cidade cresceu muito rápido, chegaram várias industrias. A Umbrella por exemplo, sozinha emprega quase metade da cidade entre empregados e terceirizados, financiaram um projeto de expansão para a cidade, mais rodovias, mais casas, mais escolas, condomínios, hospitais... tudo para receber o volume grande de pessoas que chegaram para trabalhar lá, mas sabe como é... as pressas... Mas isso é o de menos, como acontece em toda cidade em franco crescimento, aumentou também o numero de assaltos, estupros, sequestros etc... e é ai que eu trabalho."

" – Deixar a força aérea para entrar para a Policia. Bom, pelo menos deixaram seu cabelo crescer." – Ela sorriu. E so então Chris percebeu de onde vinha a sensação boa que sentia. O toque suave de Claire ajeitando o seu topete.

" – Eu trouxe um presente."

" – Mostre!" – Ela soltou a sua mão para bater palminhas, e ele aproveitou a deixa para pegar o presente.

Claire abriu a caixa com cuidado e lá encontrou, a faca de combate com o símbolo dos S.T.A.R.S cravado. " – Uau."

" – Espero que ainda saiba usar uma."

" – A gente pode praticar, se quiser."

" – Só se você me levar para comer alguma coisa antes. Eu estou com fome."

" – O de sempre?"

" – Burger Kong?"

" – Burger Kong!"

Caminharam pelo campus de braços dados. Contou a ela sobre Barry, Jill, Beca, Brad e até sobre o Capitão Wesker. Preferiu omitir as partes preocupantes do trabalho e as esquisitices podres da policia de Raccoon. Comeram muito mais do que seus estômagos permitiam. Encontraram um campo de futebol vazia e acharam que seria um ótimo lugar para praticar com a faca. Foi ideia da Claire levar umas cervejas também. Para falar a verdade, não sabia até onde ingerir álcool e manipular uma faca de combate poderia ser uma boa ideia.

Praticaram, beberam, riram e contaram piadas. Descobriu que Claire era muito mais resistente a álcool do que ele. Foi piloto um dia, Tenente da Força Aérea, era Olívio que ele estava autorizado a beber com responsabilidade, longe dos dias de trabalho. Mas Chris sempre gostou de fazer tudo além do certo, de dar o exemplo. Por isso, nunca bebia. O resultado era esse, agora estava rindo a toa feito um idiota, e Claire parecia ter passado a tarde bebendo suco.

" – Chega de falar de mim. E você? Gosta daqui?"

Claire deu um longo suspiro. " – Hn... Sim. Acho que sim."

" – Acha?"

" – Eu não sei, eu gosto das aulas, dos meus colegas, mas... as vezes eu me pergunto se deveria mesmo estar aqui."

" – E onde mais você poderia estar?" – A pergunta saiu natural, afinal, ela era nova, saudável, bonita, se existe qualquer outro lugar no mundo para onde ela quisesse ir, por que não foi? Mas tinha algo ali, ela apenas evitou o olhar.

" – Eu não sei. Não perca tempo tentando entender. É complicado."

Um tufo de vento bateu do sul, junto com ele trouxe o perfume dela direto para suas narinas. " – Está usando o perfume dela?" – Claire sorriu. Sim, ela usava o perfume da mãe... e também estava muito mais do que parecida com ela; Era a mesma beleza e o mesmo perfume que botou o seu pai de quatro no chão. Ainda era viva a memória de Chris, ver o pai, um homem não severo chorando escondido pelos cantos da casa quando ela foi embora, que vivia por ela, fazia-lhe todas as vontades, sempre com medo dela abandona-lo outra vez. Chris nem tinha duvidas que ele a amou muito mais do que amou a sua mãe.

" – O que foi? Por que me olha assim?" – Claire parecia confusa.

" – Nada. Ah... a sua amiga Emilia... disse que você não tem namorado." – Por que diabos perguntou isso mesmo?

" – É. Não tenho." – Ela respondeu desviando o olhar de novo.

" – Por quê?" – Chris considerou imediatamente que não deveria insistir nesse assunto. Não queria, mas o fez, sem nem saber porque.

" – Porque eu não quero."

Uma moça tão bonita. Não faz sentido. Quem em todo aquele campus não mataria um mamute a dentadas por causa dela? " – Claire. Você é lésbica?"

Ela arregalou os olhos e Chris não acreditou que tinha perguntado isso. Agora ela ficaria puta e eles brigariam de novo e... então Claire começou a gargalhar. Ninguém com aquela gargalhada gostosa e aqueles dentes brancos conseguiria ficar solteira mesmo que quisesse.

" – Chris. Você está bêbado;"

" – Não. Eu não estou bêbado... eu só estou... desinibido."

" – O seu freio cérebro-lingua já parou de funcionar. Esse é o ponto certo."

" – Ponto certo para o que?"

" – Jogo da verdade."

Chris deu de ombros. Sua vida era um livro aberto, não tinha nada a esconder, principalmente de Claire. " – Por mim..."

" – Conte-me sobre a sua namorada."

" – Eu não tenho namorada."

" – E Por que?"

" – Ninguém que valesse a pena."

" – Becca não vale a pena?"

" – Rebecca? É gatinha... Mas é errado se envolver com alguém da corporação. Além do mais, ela muito inteligente pra me querer. Foi uma criança super dotada e formou em medicina aos dezoito anos. Além do mais... parece que o Capitão Wesker já pegou pra ele... acharam uma foto dela escondida na mesa dele semana passada."

" – Hm... então parece que essa estória de não poder se envolver com alguém da corporação não é regra."

" – É regra! Por isso a foto esta escondida, e na nossa frente eles agem como se nada acontecesse. Até porque, ela é uma recruta e ele, é o Capitão."

" – Por isso você não tem namorada, na corporação, mas pode ter uma amante?"

" – Teoricamente, sim. Se ela valer o risco de ser descoberto."

" – Jill valeria o risco?"

Chris pensou por um instante. " – Ah... agora que você disse, pensando bem, sim talvez."

" – Então ela é bonita?"

" – Não é a mulher mais linda que eu já vi... mas sim, é bonita."

" – E qual é a mulher mais linda que você já viu?"

Imediatamente a imagem dessa mulher lhe veio a mente, mas dizer quem ela era para Claire lhe pareceu um erro absurdo. " – Agora não me vem nenhuma especifica."

"- Você mente. Vai, fala. Sem julgamentos, eu prometo."

Claire sorria e talvez por causa do álcool a coragem apareceu de uma maneira tão natural que de repente, não parecia grande coisa confessar.

" – Sua mãe. Ela era... bem, nunca vi nada parecido com aquilo." – Tiveram suas diferenças, apenas suportavam a presença um do outro. Chris não sabia dizer se mesmo após sua morte, conseguiu perdoa-la pelo fato de te-lo rejeitado tanto, mesmo quando ainda era uma criança sem mãe e dependente dela. Mas isso não impedia dele reconhecer que entendia, porque o pai dele fraquejou tanto.

Um sorriso de lado surgiu nos lábios de Claire, nos olhos ela tinha um brilho estranho. " – Eu senti tanto a sua falta."

" – Eu também." Se abraçaram e assim ficaram um longo tempo. A noite caiu e com ela, a temperatura caiu também. Esfregou as costas de Claire para que ela se aquecesse. Então sentiu um arrepio quando a respiração dela bateu contra sua orelha, depois sentiu a bochecha dela roçar contra sua barba por fazer, sentiu o halito fresco dela e não pode fugir dos olhos dela, que nunca foram tão escuros. Chris percebeu e pode prever cada passo dela a partir dalí. Mesmo assim, não conseguiu impedi-la. Claire hesitou, por fim, tocou sua face de leve, a mão dela estava fria e trêmula, um segundo após todo o corpo dela tremia também, ela sussurrou algo como um "me desculpa" e por fim, o beijou.

Ela o beijou uma vez, de leve. E depois outra. Ele não reagiu. Estava atônito. Só quando ela finalmente grudou os lábios aos dele e forçou um beijo mais longo, caiu a ficha do que estava acontecendo ali. E de novo um turbilhão passou pelo seu cérebro, ideias confusas e desencontradas. Ela é a sua irmã... não, ela não é. Mas deveria ser... você prometeu... você prometeu. Isso é errado! Errado! O Beijo era bom... não. Errado... Não... Não...

" – NÃO!" – Só depois do berro viu que a tinha empurrado com mais força do que deveria. Não sabia o que pensar. Deve ter sido sua culpa. Provavelmente foi ele que fez algo errado. Cerveja... ele não devia ter bebido. Por quê, como? Por quê? Ele queria perguntar, mas não conseguia, apenas ficou de pé e olhava para Claire sentada no chão. Ele não falou, mas sabia que ela já tinha entendido.

" – Desculpa, Chris. Eu posso explicar."

" – Não! Você não pode!" – De novo, o volume da sua voz estava mais alto do que deveria.

Claire chorava, desesperada. " – Por favor, me escuta.". Ela tentou segura-lo pelo braço mas ele deu mais um solavanco nela.

" – O que eu fiz..." – Gemeu enquanto esfregava os cabelos com força.

" – Você não fez nada. Fui eu! Por Favor me escuta. Não é de hoje. Não foi fraqueza, eu fiz. EU. Porque eu amo você.. desde... desde sempre. Eu tentei esquecer, eu juro que eu tentei, mas eu não consigo."

Chris ficou sem fôlego. Não sabia dizer exatamente a cara que fez, mas avaliando a de Claire sabia que foi horrível. Aquilo era muito. Era demais para suportar. Talvez fosse um pesadelo e ele iria acordar a qualquer minuto. Se não fosse, tudo o que Chris queria nesse momento era morrer. Em algum momento, mesmo quem querer, ele a deve ter seduzido. Isso que ela chama de amor, so podia ser fruto de algo que ele com certeza fez errado. Mas não foi por querer. Seja lá o que ele tenha feito não foi de propósito. Girou os pés e começou a andar. Dando passos cada vez mais rápidos. O pranto de Claire ainda foi audível por um tempo, diminuindo a medida que ele se afastava. As palavras que ela dizia foram perdidas, ele não conseguia entender. So sabia que devia ir embora. Deveria ficar longe dela. Para sempre, se fosse preciso.

Continua...