LEON
Não sabia dizer o que aconteceu. Estava sentado em um banco de parque, distraído olhando para uma borboleta, quando teve a boca tomada a força. De repente. Claire puxava a gola de seu casaco com força, e naquele momento, Leon não sabia exatamente como reagir. Contudo, antes que ele pudesse fazer algo, a ruiva o empurrou, com raiva.
Ela se afastou para o outro canto do banco, e lá cruzou os braços, num misto de frustração, raiva e vergonha.
" – Foi mal." – Ela disse apenas.
Porque Claire fez isso? Nunca houve nada de romântico entre eles. Era uma boa amiga e nunca deu qualquer sinal de ter qualquer tipo de interesse romântico ou sexual por ele. Um beijo cheio de raiva... do nada, e num momento totalmente fora de propósito. " – Claire? Você está bem?"
Ela coçou a cabeça e bufou. " – Nada... só uns probleminhas aí."
" – E em que parte arrancar um pedaço do meu beiço te ajuda?"
Claire deu um riso amargo disfarçado de bom humor. " – Esquece, não foi nada. É que, de repente... eu quis saber como era."
Saber como era? Do que ela estava falando afinal? Conhecia essa mulher há tanto tempo... bonita, por dentro e por fora, inteligente, independente... Mas de fato, Leon nunca, jamais... a viu com um namorado. Ela nunca nem ao menos contou a ele sobre já ter tido alguém e ele não foi o único a perceber que havia algo estranho ali...
" – Claire... Com o perdão da pergunta. Como assim saber como é? Saber como é ME beijar, ou, enfim... beijar um... homem?"
Ela revirou os olhos. " – Por Favor, não me diga que você já participou das maravilhosas discussões sobre a minha sexualidade?"
Por um segundo, Leon sentiu vergonha. Não, nunca comentou isso com ninguém, nunca participou de rodinhas de fofoca, mas sabia que os outros já suspeitavam que Claire fosse lésbica e pior, ele também as vezes suspeitava. " – Se você fosse gay, pra mim não mudaria nada." – Sorriu e segurou na mão dela. " – Ei... eu so fico preocupado com você as vezes. Você é tão carinhosa, tão maternal com crianças, tão cheia de afeto pra distribuir e... sempre sozinha. Me desculpe, mas... tem algo errado aí."
" – Eu só queria saber como era beijar OUTRO homem."
" – Outro homem. Então você já beijou um?" Claire lhe deu uma cotovelada.
" – Palhaço."
" – Nossa, nessa idade.. e só beijou um? Unzinho só?"
" – Não é isso." – Ela pensou em dizer mais alguma coisa, mas seja lá o que tenha sido, mudou de ideia. " – Enfim, não é da sua conta."
" – Não vai nem me dizer quem foi o sortudo?"
Ela bufou novamente. " – No dia que você conseguir caçar uma borboleta." – Provocou. E Leon entendeu muito bem a indireta.
Claire tinha olheiras profundas nos olhos, estava mais magra do que na ultima vez em que a viu, não usava maquiagem e parecia muito abatida. Durante todas as vezes em que Chris desapareceu, esse foi a primeira em que todos tinham certeza que ele estava capturado em mãos inimigas. Foi a primeira vez que enviaram fotos, ameaças e promessas de soltura que nunca foram cumpridas.
Muito embora a B.S.A.A. ainda fosse uma organização armada legitimada e apoiada pelo governo, era difícil esperar que tivessem por seus soldados a mesma consideração que tinham por membros das forças armadas tradicionais. E era aí que Leon tentava ajudar. Colocou uma xícara de café quente em cima da mesa e arrastou em direção a ela.
" – O comandante informou que já entramos no espaço aéreo Sírio." – " – Claire ignorou o café e voltou sua atenção para a janela. " – Vamos Claire, você precisa comer ou beber alguma coisa. Não terá nenhuma utilidade se desmaiar no meio da missão."
Leon colocou um pote com biscoitos amanteigados e cheios de açúcar na mesa também, depois pegando um punhado deles e colocando tudo na boca.
" – Tem noticias dela, Leon?" – Claire perguntou e Leon sabia muito bem de quem ela estava falando. Sendo assim, ela também sabia muito bem que ele não estava autorizado a responder essa pergunta. Sorriu para ela em resposta. Sua amizade era assim, Claire sabia de seus segredos mesmo sem ele contar. " – Sabe, eu estive pensando... tudo isso está tão errado, da próxima vez você deveria encontrar um jeito de fazê-la ficar. Se não for possível, deveria ir embora com ela." – Claire ainda tinha um olhar vazio, completamente perdido, voltado para a janela. " – É só o que eu acho."
Claire é uma das poucas pessoas que sabe o quanto ele foi e é capaz de amar alguém, assim como para ela, ele é uma das poucas pessoas que sabe quais desejos ela guarda no coração. Amar alguém, estar com alguém... Claire com certeza sempre quis ser mãe, dentre tantas outras frustrações e sonhos não realizados, mas assim como Leon, ela também parecia não estar autorizada a contar a historia inteira. Pelo menos ela tinha o irmão, a quem ela podia dedicar todo o seu amor.
" – Nós vamos encontra-lo, Claire. E vamos trazê-lo de volta pra casa. É uma promessa, ok?" – Apertou a mão dela o quão forte podia.
CLAIRE
Correu o mais rápido que pôde até o seu prédio no Campus. Não podia simplesmente deixa-lo ir embora, não daquela maneira, não depois dela ter estragado tudo. Quando abriu a porta de seu apartamento o encontrou lá dentro, assim como imaginou, com as malas na mão.
" – Graças a Deus você ainda não foi embora."
" – Escuta Claire, eu não acho uma boca ideia a gente conversar agora."
" – Chris, por favor, dexia essa mala no chão e me escuta." – Ele olhou para ela durante um tempo. Metade dele ainda estava transtornada e a outra metade por mais que buscasse se acalmar, so parecia mais perdida. " – Por favor. Não faz isso comigo. Cinco minutos, é tudo o que eu te peço." – Implorou. Chorou. E imploraria, choraria mil vezes mais se assim fosse preciso.
Chris soltou as malas no chão de uma maneira nada delicada e então começou a andar de um lado para o outro. " – Claire... você tem a menor... NOÇÃO do que aconteceu?"
" – Eu sei muito bem o que eu fiz, e eu entendo que agora tudo pareça muito estranho pra você, mas..."
" – Mas o quê? Claire? Eu sou o seu irmão! IRMÃO!"
" – NÃO! VOCÊ NÃO É!" – Não devia ter gritado, mas gritou. Assim como não devia tê-lo beijado, mas beijou. Assim como não devia ter se apaixonado, mas aconteceu. " – Eu não sou nada além da esporrada mal dada de um vagabundo qualquer na boceta da sua madrasta, a mulher que te detestava! Para de fingir que não foi isso, porquê foi!"
Claire pode perceber o horror nos olhos de Chris, era como se em um segundo ele fosse querer sumir outra vez, e quando sentiu que ele daria o primeiro passo, ela foi mais rápida. " – Não foge de mim ainda, Chris, não antes de eu terminar."- Sentiu o corpo dele inteiro tremer quando ela o segurou. " – Você foi... maravilhoso. Você foi e é um irmão maravilhoso mas... isso é uma farsa, Chris, uma farsa que os nossos pais criaram e eu não tenho nenhuma obrigação em continuar com isso."
" – Farsa? Eu vi você bebê, eu te botei no meu colo. Meu pai te chamava de filha. Eu fiz uma promessa, eu prometi manter a família unida."
" – O seu pai te fez prometer ajuda a manter a minha mãe em casa, Chris! Só isso! Como você não vê?" – tocou-o no rosto e chegou mais perto. " – é por isso que vai me fazer pagar? É por ele que vai me rejeitar antes mesmo de me ouvir? Que tipo de homem amaria tanto a mulher que rejeitou seu único filho? Ele não merece o meu sofrimento, muito menos a sua lealdade." – Chegou mais perto, a ponto de suas respirações pesadas se encontrarem. " – Eu te amo tanto... é um amor tão puro, que se você soubesse, não me faria pagar pelo erro dos outros."
" – E eu? Eu não te vejo assim, pra mim, você é, e sempre vai ser a minha irmãzinha."
" – Eu entendo. E e por isso que eu te amo. Você quer o bem das pessoas, se sacrifica por elas e até hoje só viu a situação sob a ótica do pai, conforme ele te ensinou. Mas talvez, você mude de ideia se ver a minha versão dos fatos..."
" – Nós fomos criados como irmãos."
" – Isso é mentira também. Você não sabe, mas a minha mãe mandou eu parar de ir no seu quarto quando eu comecei a crescer, mandou que eu parasse de andar de toalha pela casa e disse que era inapropriado eu ficar sempre grudada em você." – Ela não sabia se Chris percebeu ou não, que ela já tinha as duas mãos na nuca dele, se ele percebeu ou não, que a segurava pela cintura. " – Na hora, eu não percebi, mas hoje eu percebo. Uma mãe nunca faria isso se achasse mesmo que você era só o meu irmão, se nós fossemos mesmo uma família."
Chris pareceu confuso. " – Ela... não pode ser... ela não pensaria que eu, nós..."
Finalmente Claire sorriu. " – Sim, ela pensou. Tanto que ela quis evitar. E quer saber? Ela nunca esteve tão certa. Você nunca foi um filho pra ela, e por mais que todos fingíssemos, você não é o meu irmão. Você é um homem e eu, uma mulher e foi por isso, que eu terminei completamente e irremediavelmente apaixonada por você." - Uma fração de dúvida passou pelos olhos azuis, escuros e apertados de Chris, esse era um jogo arriscado, mas Claire tinha certeza que ia ganhar, talvez não agora, mas se ela tinha uma única chance de plantar para sempre nele a semente da ideia que ela queria, a hora era agora. Então o beijou, e não foi um beijo inocente. Colou o corpo ao dele, o mais próximo que podia, cada centímetro que podia. Beijou-o com todo o desejo que ela guardava em segredo, para que não sobrasse duvidas de que ela o via como homem, e para que não restassem duvidas de que ela era uma mulher.
Claire sabia que o beijo não ia durar. Ela conhecia Chris e sabia o quanto ele podia ser cabeça dura, não tinha como adivinhar os pensamentos dele, mas aproveitou cada milésimo de segundo que teve. Quando ele deu brecha, não esperou permissão para enfiar a língua inteira dentro da boca dele, gemeu quando em resposta ele apertou sua cintura com força enquanto explorava sua boca também. Enfiou os dedos por entre o cabelo cheio e macio que ele tinha e naqueles segundos, Claire conheceu o céu. Mas com a mesma velocidade que Chris correspondeu ao beijo, ele também o desfez.
" – Eu sou o seu irmão." – Ele repetiu pausadamente enquanto a segurava pelos ombros e a afastava. " – E você é a minha irmã." – Os olhos dele nunca foram tão severos, mas ao mesmo tempo, nunca foram tão confusos. Era como se fosse um outro Chris. " – E essa noite, nunca aconteceu." – Então finalmente ele a soltou.
Assistiu-o caminhar com as malas até a porta, e se despedir com - " – Só me procure quando voltar ao seu estado normal." – E partiu.
Ainda sentia o gosto dele, o cheiro dele impregnado em suas roupas e em sua pele também. E chorou.
CONTINUA...
