Fuckin' Perfect

By: Jubs.

To: Debs-chan, por todos as reviews, pelo carinho e pela amizade.

Music by: Pink


[2º Tomo - Terapia]

Nem toda fuga é doentia, nem todo contato é saudável.

V

Já estava cansativo acordar todos os dias no mesmo lugar, vendo as mesmas coisas, ouvindo os mesmos sons. Por que apenas mostraram o jardim no fim de sua estadia? Poderia ter passado mais tempo lá, aproveitando os dias quentes, do que dentro daquele quarto branco e enjoativo, porém teve o conforto de passar o fim de semana observando as árvores, as flores e o céu. No domingo, o grupo já tão conhecido do andar, fez um piquenique com o mais velho, comemoravam a alta que o mesmo receberia no dia seguinte e, por pior que fosse sua estadia ali, era mais seguro ficar do que voltar. Voltar para a casa que presenciou tantos momentos de sua família, de sua impecável felicidade mascarada. Mas nem tudo seria igual à antes.

Antes mesmo de acordar, depois das cirurgias, Inuyasha se reuniu com a grande equipe médica – que agora se reduzia a quatro indivíduos - para discutir sobre os próximos passos, como prosseguir. Teve que reformar a casa, facilitando a locomoção do mais velho, porém era uma reforma momentânea, assim que ele voltasse ao que era antes, a casa também voltaria. Quando Sesshoumaru acordou, teve uma longa conversa com Inuyasha sobre a reforma e quis modificar toda a casa, apagar todas as lembranças dolorosas, mas que deixassem o seu quarto e o quarto de Yume do jeito que estavam, não apagaria tudo. Se ao menos conseguisse falar daquela forma com seu irmão, com seus amigos, mas permanecia frio, distante, com seus acessos de raiva e ataques de criança mimada.

Naquela manhã ensolarada de segunda-feira , esperou pacientemente por Rin, Hakudoushi lhe fez companhia, mas o mesmo precisou retornar ao trabalho. Estava completamente só. Sem gracinhas, sem bagunças, estava só com aquele imenso fardo pesando em suas costas, estava só com a culpa martelando em sua mente. Porque não conseguia desviar daqueles pensamentos agora? Toda vez que estivesse sozinho seria a mesma tortura?

- Bom dia, Taishou-sama. – A mesma enfermeira sorria, não sabia como tinham voltado para aquela normalidade.

- Bom dia, Ayame. – Respondeu em um curto sussurro, sem desviar o olhar da janela.

- Sekime-sama me pediu para informá-lo que ela esta meio enrolada em sua sala e também pediu para levá-lo para lá, se não for um problema.

- Sem problemas.

Se levantou da cama com um pouco de dificuldade, a perna ainda doía, porém estava bem melhor. Se sentou na cadeira e deixou a enfermeira ruiva empurrá-lo pelos corredores. Não era mais grosseiro com a jovem, porém se mantinham em silencio, era melhor assim, já havia feito amizades inconseqüentes naquele local. Abriu um sorriso imperceptível, não fora o único, afinal, pelo o que Kagome e Inuyasha contaram, o encontro entre Sangô e Miroku correu muito bem, ele até controlou aquela sua mão 'amaldiçoada'.

Entraram no elevador vazio e saíram no andar de cima, era uma ala silenciosa e que sofria certos preconceitos, nem mesmo isso, era apenas uma ala temida. Oncologia. Câncer. Crianças. Perdeu Yume de forma tão rápida, não presenciou o sofrimento dela, as dores, não foram meses em um quarto de hospital, esperando ela ter uma falha a qualquer segundo. Fora rápido, como a retirada de um band-aid, mas ainda doía, apenas podia tentar imaginar como os pais daquelas crianças deveriam sentir. Mas, em todo aquele silencio, ouviu uma risada.

- Sekime-sama está acabando a sessão, mas assim que acabar ela te leva para a sala. – Sorriu. – Vou voltar, tenho algumas coisas para fazer. Boa sorte.

Apenas acenou com a cabeça. Estava ao lado de uma porta e era de onde provinha a risada. Rin conversava com uma menina em uma língua que não conhecia, mas a mesma mal respondia, parecia mais preocupada com alguma outra coisa. Se ele estivesse dentro da sala, encontraria a psicóloga e uma menina de 8 anos deitadas no chão desenhando em cartolina, por mais preocupada que a paciente estivesse, ela ria dos comentários e do desenho de Rin, Sesshoumaru teria admirado a força da psicóloga em sorrir e rir de volta.

- Bom, agora eu vou ter outro paciente. – Ouviu o som de alguém se levantando. – O que achou do meu desenho?

- Bonitinho, Rin. – Ouviu a criança rindo, apenas não conseguia entender a conversa. – Antes de ir, podemos cantar uma música? Prometo que vai ser rapidinho!

- Claro, escolha a música.- Era o mesmo som suave.

- Mas você tem que cantar para mim, tudo bem?

O corredor se encolheu diante daquele silencio, o que acontecia lá dentro? E por que não falavam em japonês? Sesshoumaru estava perturbado, mas se acalmou ao ouvir instrumentos, uma batida triste. Durante 15 segundos, no máximo, apenas ouvia os instrumentos, mas a voz da psicóloga inundou o corredor, não entendia a letra da música, mas percebia que não era uma música muito feliz. Se ele novamente conseguisse ver dentro da sala, se surpreenderia. A garota era careca e muito magra, com traços europeus, os olhos muito verdes estavam inundados de lágrimas. Veria Rin cantando para a menina e quando se surpreendeu quando a pequenina se jogou no colo dela e se pôs a chorar. Cerca de 5 minutos depois, ouviu uma nova conversa e logo a porta se abriu.

A pequenina menina o encarou por poucos segundos, finalmente ele a via. Baixou a cabeça perante o rosto vermelho e molhado da menina, e aquele pequeno encontro com sua própria finitude fora levado por uma enfermeira qualquer. Logo Rin saia com as mãos manchadas de tinta, mas sorria. Sesshoumaru percebeu pontos em que a roupa da mulher estava molhada, mas ela não parecia se importar, ela apenas conseguia sorrir.

- Me perdoe Taishou-sama. – Ela começou com seu japonês impecável. O empurrou para dentro da sala. – Não esperava que essa sessão durasse tanto, mas coisas imprevisíveis acontecem.

- Não peça desculpas. – A voz saiu indiferente.

- Bom, onde prefere se sentar? – Sesshoumaru virou o pescoço para encará-la, confuso, mas ao perceber o sorriso dela apontou para um lugar próximo a janela.

Por algum tempo, encarou a paisagem do lado de fora. Rin tinha uma visão privilegiada, já que sua sala era voltada para o jardim lá embaixo, mas Sesshoumaru não passou muito tempo fantasiando com o mundo lá fora, o tempo era algo precioso. Sondou a sala e viu inúmeros desenhos enquadrados, uma estante extensa cheia de brinquedos, um rádio e uma porta que levava para um banheiro, até que parou na mulher sorrindo a sua frente. Baixou a cabeça.

Mistaken, always second guessing
Underestimated, look I'm still around

- Antes de realmente começarmos. – Ele suspirou. – Eu nunca fiz isso antes, não sei exatamente como começar. Quando me formei em direito, Sara já trabalhava em uma empresa e foi me ajudando a crescer. Ela me ensinou a sempre pedir o histórico do cliente, ensinam isso na faculdade, mas ela falou que temos que procurar por questões especificas.

- Sim... – Rin concordou, entendendo o ponto em que ele queria chegar.

- Bom... - Por que estava se barrando tanto para falar? Pigarreou.

- Você gostaria de saber sobre minha formação e minha experiência, é isso?

- Exatamente. – Sentiu-se aliviado ao ver o sorriso dela aumentando.

- Me formei em psicologia em Harvard, nos Estados Unidos e fiz minha especialização em Gestalt Terapia. Minha tese foi sobre Psicologia e Morte, nesse meio tempo eu trabalhava em um hospital nos EUA. Voltei para Tokyo há cinco anos. Fiz minha pós-graduação aqui mesmo, me aprofundando no assunto de Psicologia e Morte, mas indo para a vertente de pacientes infantis terminais. – Parou de falar por um momento e pareceu pensativa. – Bem, eu falo inglês, italiano e francês, hoje em dia estou estudando alemão.

- A paciente que acabou de sair...

- Ela é italiana. – Sorriu.

Sesshoumaru não queria admitir, mas ela estava o impressionando cada vez mais. Não conseguiu deixar de perguntar como Hakudoushi havia conhecido aquele ser surpreendente e como ele havia a cativado. Afinal, Sesshoumaru e Hakudoushi cresceram praticamente juntos, com a mesma filosofia e agiam igual, apenas a sorte levou Sesshoumaru a Sara. Bem, ser preso não é muita sorte, mas... tantas coisas aconteceram. Talvez Hakudoushi tivesse tido sua brecha e, com um pouco de sorte, conheceu a mulher a sua frente. Balançou a cabeça levemente, afastando aquelas divagações. Rin percebeu o desconforto dele e seu sorriso se tornou tão doce quanto o chocolate em seus olhos.

- Hoje você recebe alta, não é mesmo? – Ela perguntou tão calma, ele apenas acenou positivamente. – Como se sente em voltar para casa?

- Não sei exatamente. – Sentia-se extremamente desconfortável ao falar de si mesmo. – Por muitos anos eu morei em outra cidade, voltei para Tokyo com 22 anos e com 24 anos me casei com Sara, só então voltei para a casa que meu pai me deixou. – Suspirou pesadamente. – Ela encheu aquela casa com... bem, a casa ficou irreconhecível e com Sara por todo o canto. Quando Yume nasceu a casa se encheu de lembranças.

A mulher o olhava com um fino sorriso nos lábios, ele estava falando, ele estava deixando-a entrar. Mas ele não a via, seu olhar estava desfocado e mirado nos desenhos que preenchiam a parede, estava refletindo e não acreditando em como as palavras saiam de sua boca.

- Por um lado, me sinto aliviado de sair do hospital. Não vou ficar nesta rotina tediosa, não ficarei sendo observado dia e noite pelas enfermeiras e pelos meus familiares. Por outro lado, não sei se vou suportar encarar aquela casa, não suportarei ver todos os traços da família que perdi. – Se mexeu desconfortável novamente. – Mas acredito que ficar aqui, não entrando em contato, não é uma boa punição.

- Punição?

- A morte delas foi minha culpa. – Rin ficou o encarando calmamente. Como se questionando aquela linha de pensamento. Enterrou seu rosto entre as grandes mãos. – Elas não deveriam ter ido comigo.

- Me conte sobre essa viagem. – Ela cruzou as pernas e um fino sorriso triste se abriu em seus lábios.

- Bem, eu acabei me tornando advogado como Sara, mas trabalho com Direito Comercial. A sede de uma das empresas com a qual eu trabalho fica no interior, mesma cidade que meu pai mora, fui chamado para uma reunião e aproveitaria para mostrar que estou vivo para meu pai e madrasta, iria sozinho para lá, mas Sara e Yume insistiram que queriam ir. Tivemos uma grande discussão, mas acabei cedendo, afinal, Yume queria passar mais tempo com os avôs. Fomos na sexta de manhã, minha reunião seria na parte da tarde, Sara e Yume saíram com Izayoi, minha madrasta. Enfim, até domingo, foi uma boa viagem.

- O que aconteceu no domingo?

- Nós tivemos uma tola discussão. – Finalmente levantou o olhar para ela. – Sara falava que eu não tinha muito tempo para a nossa família, que eu ficava muito pouco em casa e que estava sempre viajando. – Passou a mão nos cabelos exasperadamente. – Quis voltar logo para casa, falei que tinha trabalho a fazer e ela concordou. Jantamos com eu pai e Izayoi, mas não me apressei para sair, Yume ficou brincando com Sara e eu conversei bastante com meu pai. Não bebi, não estava irritado, não estava cansado. E ainda não sei como aconteceu o acidente.

- O que você sabe?

- Foi como eu falei para Suikotsu. – Tentou manter o olhar duro, mas este ficou tremulo pela tristeza por alguns segundos. – Já estávamos na estrada, não era nem meia-noite ainda e não estava com sono... e mesmo se estivesse, Sara estava cantando uma música no radio e aquilo me mantinha alerta. Estava tudo tranqüilo, poucos carros na estrada.

Era pior falar com ela do que com que Suikotsu, não sabia como agir, não conseguia se expressar direito. Tinha medo de realmente se expor, de mostrar que tinha sentimentos. Okay, havia sido o homem irritado e a criança mimada, porém era só aquilo. Nada de tristeza, nada de felicidade, nada. Mas não, precisava falar do medo de voltar para casa, da tristeza que seria olhar o quarto de Yume entulhado de brinquedos, ou o quarto que dividiu com Sara.

- O caminhão veio do nada. – Finalmente falou. – Tinha me virado para comentar alguma coisa com Sara, nem lembro o assunto, apenas que ela sorria feliz. Ao invés de me ouvir, ela simplesmente continuou cantando, animada, foi como se nem tivéssemos brigado. Quando voltei a olhar para a estrada uma luz estranha surgiu do lado direito. Não me lembro de mais nada, mas acho que o carro capotou. – Foi quando notou que ela abria um pequeno sorriso.

- Se sente desconfortável em falar sobre isso, não é?

- Muito.

- Por não estar acostumado a falar sobre você, por falar sobre isso comigo ou por se sentir culpado?

- Por tudo.

-Por que se sente culpado?

- Para entender minha culpa, eu vou precisar falar mais sobre a minha pessoa. – Se moveu novamente de forma desconfortável.

- Já entendi. – Ele poderia se acostumar com aquele sorriso doce. – Bom, vou mudar o seu horário para o fim da tarde, meu escritório fica mais perto da sua casa do que o hospital e fica mais fácil para você.

A pequena psicóloga se levantou e foi para uma mesa completamente bagunçada. Anotava alguma coisa em um bloco de papel e parecia cantarolar alguma coisa, pela primeira vez naquele dia, se sentiu confortável e mais calmo, abriu aquele sorriso imperceptível. Ela se virou para ele, com a roupa manchada de tinta, mas seca das lágrimas, pela primeira vez, Sesshoumaru a olhou como mulher realmente.

- Fique a vontade para me ligar se sentir necessidade, e aqui está o endereço do escritório e o horário.

- Estarei lá. – Pegou o papel e o guardou.

- Obrigada, Sesshoumaru. – Ela o empurrava até a porta.

- Pelo que? – Observou os graciosos movimentos dela ao abrir a porta, mostrando o silencioso corredor.

- Você falou.


VI

Sentia-se confiante em voltar para casa, a sessão de terapia havia o relaxado, talvez fosse por que finalmente tinha admitido sua culpa e não fora julgado. Mas Rin não tinha julgado porque ainda não conhecia sua história, sua personalidade, toda a sua relação com a psicóloga poderia mudar drasticamente quando contasse tudo. Não podia estragar mais as coisas. Se estragasse a terapia também, Kagome, Inuyasha e Miroku o matariam.

- Pronto para ir? – Kagome sorria.

Respondeu com um aceno. Olhou uma ultima vez para o hospital, estava livre. Então porque se sentia tão oprimido? Entrou no carro e esperou Kagome começar a dirigir, aquele silêncio o machucava então decidiu ligar o radio. A música que tocava apenas aumentou a dor, era a mesma música que Sara cantava... parecia que haviam se passado anos desde que ouviu ela cantar aquela música, ela cantava como se estivesse tudo bem. Desligou o radio com um gesto irritadiço.

- E então... como foi a terapia? – A mulher dirigindo arriscou.

- Normal. – Sua voz saia fria.

- Falou alguma coisa desta vez?

- Falei Kagome, isso te deixa melhor? – Se virou para olhar as casas e prédios correndo pela janela.

- Sesshoumaru. – Ela estava nervosa. – Não podemos nos preocupar?

- A preocupação não me ajuda. – Se sentia pior magoando a amiga. – Eu simplesmente não quero falar sobre isso. Não quero falar sobre Sara e Yume, não quero falar sobre o acidente e não quero falar sobre a terapia... até aquela mulher conseguir entender e me ajudar vai demorar muito.

- Geralmente é assim... – Ouviu o sussurro pesaroso, mas não podia olhar para ela, não conseguia.

- Sim, mas até chegarmos a parte da ajuda, vai continuar essa situação.

Kagome apenas o olhou momentaneamente e guardou suas palavras. Não entendia pelo o que ele passava e ele não conseguiria falar sobre isso, não agora pelo menos. Não seria bom ficar o pressionando por informações, apenas dar o tempo que ele precisava. O resto do caminho fora um doloroso silêncio. Sesshoumaru via famílias passeando em plena segunda feira, como se estivesse tudo perfeito, como se o mundo fosse um lugar bom. Gostaria de voltar para esse lugar. Pensou angustiado, queria voltar e arrumar sua vida, fazer as coisas certas, escolher os melhores caminhos.

Apenas acordou de seus devaneios quando Kagome abriu a porta do passageiro, a olhou confusamente por pouco tempo, seu olhar captou a imensa mansão que morava. Ele vinha de uma linhagem extremamente rica, assim como Sara. Quando se casaram ele voltou para a casa do pai, a qual Sara sempre fora apaixonada. Voltara a primeira vez para a casa paterna após ter perdido seu apartamento, depois voltara quando se casou com Sara, agora voltava novamente sem nada.

Seu braço e perna latejavam, não se queixou quando Kagome abriu a cadeira de rodas e o fez se sentar, não agüentaria entrar ali aparentando força. Precisava ser fraco, pelo menos uma vez na vida, pelo menos naquele momento. A quase cunhada o empurrou por um caminho no jardim, um jardim tão vazio e tão mais mórbido do que o jardim do hospital. Não se sentia mais em casa, afinal, ela nunca fora sua realmente. Porém o intitulavam 'dono' e modificações foram feitas para o 'senhor da casa'. Por exemplo: nos degraus que levavam a porta de entrada tinha uma rampa e corrimãos mais baixos, para caso ele quisesse subir sem ajuda. Estavam parados na porta da frente e se sentia o ser mais fraco do universo.

- Deixe-me Kagome, sei que tem que trabalhar. – Falou em um cortante sussurro.

A morena fez menção de discutir aquela ordem, mas deve ter visto algo na aparência de Sesshoumaru que a fez recuar. Nem mesmo se despediu, apenas voltou pelo caminho que fizera e pulou para dentro do carro. Por quanto tempo ficou encarando aquela gigantesca porta de madeira? Os vitrais laterais eram os mesmos, a maçaneta, analisava tudo o que tinha na porta para não confrontar seus sentimentos. Para não precisar sentir toda aquela dor. Tirou o celular do bolso e o encarou por alguns momentos, ligaria mesmo para Rin? Admitiria para aquela mulher que era realmente fraco? Não podia ser tão fraco assim, podia? Mas o celular tocou antes de discar os números.

- Já chegou em casa? – Ouviu a voz de Hakudoushi, não podia ser fraco agora.

- Estou na porta da frente, Kagome acabou de me deixar aqui.

- Ela não ficou com você? – Por que o primo parecia nervoso com isso? Por que diabos todos estavam tão preocupados com aquela volta para casa?

- Não, Hakudoushi. – Falou rispidamente. – Eu pedi para que ela fosse embora.

- Se quiser eu posso sair mais cedo e ficar com você. A gente pode jogar videogame ou ver um filme, tomas umas cervejas...

- Não se preocupe, eu quero ficar sozinho hoje. Avise para os outros não me incomodarem.

- Sesshoumaru, eu não pretendo discutir isso com você. – Pela primeira vez naquele mês (e nos anos que ficaram afastados) Sesshoumaru escutou aquele tom frio e cortante, bem parecido com o seu. – Mas você é um idiota por pensar que pode agüentar tudo isso sozinho.

- Tenho a ajuda de Rin. – Ouviu o primo soltar um rosnado instintivo.

- Ainda assim você precisa de apoio e da família.

- Eu sei. – Suspirou cansadamente, aquela conversa estava se prolongando. – Preciso descansar. Me liga amanhã e conversaremos melhor.

- Não vou ligar.

- Você vai aparecer aqui com Miroku, Kagome e Inuyasha, talvez até arraste Sangô junto.

- Exatamente.

- Então nos vemos amanha. – Desligou.

Agora só precisava atravessar a porta e ser fraco novamente. Uma hora teria que entrar, certo? Tinha que enfrentar aquela tormenta de lembranças, não iria agüentar, não, não, não, não. Mas abriu a porta. A dor fora maior do que imaginara. Sim, Kagome e Inuyasha fizeram um ótimo trabalho em tirar qualquer objeto com algum significado emocional, mas ainda se lembrava de Sara lendo um livro no sofá de couro, enquanto ele revirava a lenha na lareira. Dos rabiscos que Yume fizera na parede, que ainda permanecia manchada.

Mas as lágrimas não vieram, elas nunca vinham.

Pretty, pretty, please if you ever, ever, feel
Like you're nothing, you're fucking perfect, to me

-Por favor, a senhorita Sekime Rin está?

- Ela está no banho, quem gostaria?

- Aqui é Kaede, a governanta de Sesshoumaru, um dos pacientes dela.

- O que aconteceu?

-Hakudoushi? – Então ela ainda se lembrava da voz do rapaz.

- Sim, Kaede-san.

- Por que você esta com o celular de Sekime-sama?

- Kaede-san, o que aconteceu com Sesshoumaru?

- Não sei exatamente. Liguei para Kagome e ela falou para chamar Rin. – Suspirou. – É urgente, Hakudoushi. Assim que ela sair do banho, corra para cá.

Não ouviu o resto da conversa, apenas continuava ali, sentado na entrada do quarto de Yume. Aquela maldita cadeira de rodas era desconfortável, mas talvez fosse melhor assim, mais uma punição. Porém não agüentou por muito tempo, se levantou com dificuldade e cambaleou para dentro do quarto. Sentou-se em meio a bagunça de brinquedos da filha, sabia que Rin estaria a caminho logo, mas o que ela poderia fazer? Como ela afastaria a vontade de se juntar a esposa? De brincar com a filha no além?

Depois de tantos anos, queria chorar, sentia-se sufocar com as lágrimas, porém não se permitiria. Não era fraco como Inuyasha, não choraria como Kagome, então por que sentia que fingia ter toda aquela força? Por que não havia sobrevivido. Realmente, não havia escapado do acidente, para Sara e Yume havia o sofrimento que foi rapidamente apaziguado. Enquanto ele sofreria eternamente, afinal, como youkai, viveria por muito tempo.

Estava tão entrelaçado com seus pensamentos que não percebeu o tempo passar, não percebeu a girafa de pelúcia favorita de Yume em suas mãos, não percebeu Rin sentada serenamente a sua frente. Percebeu as lágrimas, não conseguia ser forte novamente, mas queria tanto. Permanecia de olhos abertos, mas nada enxergava, apenas avistou a pequena psicóloga quando ela tocou seu rosto, tocando suas patéticas lágrimas e não conseguia parar. Abriu um de seus sorrisos imperceptíveis ao ver Rin, que sorria tristemente. Naquele momento a amou e a odiou em uma intensidade que nem sabia que existia. Ela agora sabia que Sesshoumaru era fraco e mostrava que não existia problema em sê-lo.

Não tinha controle de si, queria falar alguma coisa, porém seus lábios não se moviam e seu cérebro não encontrava nada apropriado para falar. A única coisa que se passava em sua mente era a fraqueza, a saudade e como aquela mulher conseguia captar tudo aquilo. Que os deuses fossem bons, pois nunca havia chorado – ao menos parou de chorar quando aprendeu a se controlar – e, agora, o fazia em frente a alguém que mal conhecia, mas que o aceitava.

Viraram quase a noite inteira naquele calmante silencio, Sesshoumaru ainda tinha lágrimas caindo por sua face. Em algum momento Rin tentou tirar sua pequenina mão do rosto dele, mas ele a segurou. Precisava de calor naquela hora, queria se sentir parte do mundo e ela... ela... Sangô tinha razão. Rin tinha um efeito estranho em seus pacientes, mas o efeito nele... como uma mulher, uma humana, uma maldita psicóloga conseguia deixá-lo tão aberto a sentimentos que ele nem sabia que existiam. Precisava falar alguma coisa, tentou articular alguma coisa, mas Rin foi mais rápida.

- A girafa tem nome?

A olhou sem realmente compreender e o sorriso dela aumentou. Os olhos castanhos de Rin se desviaram para a mão dele que ainda segurava a pelúcia, Sesshoumaru riu. Não aquele riso sarcástico que usava com Inuyasha, ou o riso seco para as piadas de Miroku, mas o genuíno riso que tinha para Sara. Soltou a mão dela e segurou a girafa com as duas mãos.

- Tem. – Respondeu calmamente quando o riso chegou ao fim. – Ela ganhou a girafa quando era um bebê ainda, vivia agarrada com ela. Ela falou mamãe, depois papai e sua terceira palavra foi Kaku, que era a girafa. Tentamos dar outros nomes, mas, mesmo sem entender, ela defendeu o nome Kaku, não existia nada que pudéssemos fazer.

- Personalidade forte?

- Extremamente forte. – O sorriso aumentou. – Ela era um doce de criança, mas, ainda com seis anos, não aceitava desaforo. Inuyasha geralmente fazia brincadeiras que ela não gostava, ela não chorava para mim ou para Sara e para mandar ele parar, ela tinha seus discursos e, quando não dava certo, ela batia nele.

- Por que você não fala o nome dela?

Estancou e a olhou chocado. Não tinha falado o nome da filha? Revisou a curta conversa e não, não tinha. Por que estava se barrando em falar Yume? Afinal, o nome dela vivia em sua mente, assim como sua imagem risonha, mas o nome simplesmente não conseguia sair de seus lábios. E queria falar o nome dela, queria falar Yume, seu pequeno sonho que não desejava ter, mas quando o teve, não desejou abrir mão.

- Por que não consigo falar o nome dela?

Rin era uma psicóloga, deveria ter aquela resposta. Ou o senso-comum estava errado? Os psicólogos deveriam ter todas as respostas, tinham a habilidade de ler os movimentos corporais, expressões faciais e o que se ocultava nas palavras. Tudo aquilo era um equivoco?

- Por que você não consegue falar o nome dela? – Aquilo o irritou, porém, Rin, percebeu e sorriu. – Eu não leio mentes, tudo o que sei sobre você é o que você me dá, Sesshoumaru. Se você não sabe, não tem como eu saber.

- Eu não acredito que ela tenha morrido. – E então a compreensão chegou. – Se eu falar o nome dela aqui, no lugar que ela foi mais feliz e que nunca mais vai voltar a ver, apenas tornaria tudo muito mais doloroso. Ela nunca mais vai brincar com Kaku, ou com suas Barbies, ou me convidar para tomar chá com as bonecas.

Rin tocou a mão de Sesshoumaru que segurava Kaku e seu olhar se tornou infinitamente triste. Sesshoumaru e Rin não estavam acostumados com aquela situação. Ela trabalhava com crianças a beira da morte, que aceitavam a morte e não com homens que sobreviviam eventos traumáticos, lidava com a morte e não com a vida. Enquanto ele nunca precisou daquilo, nunca esperou aquilo, não queria aquilo.

- Yume.


VII

Quando acordou na terça-feira, Rin já não estava lá. Ninguém estava lá. Não queria acordar sozinho todas as manhãs, Sara deveria estar ao seu lado, ou Sesshoumaru deveria despertar com o som do chuveiro e a esposa cantarolando, porém tudo aquilo estava no passado. Mas o que martelava em sua mente era como havia acordado em sua cama, em seu quarto. Desceu as escadas com dificuldade e encontrou Kaede arrumando a mesa para o almoço, era tão tarde assim?

- Sente-se melhor, Sesshoumaru-sama? – Um pequeno homem entrou na sala. Há quanto tempo não via Jaken?

- Sim. – Apenas se sentou e esperou o almoço.

A mulher nada falou, apenas saiu para a cozinha, Jaken a seguiu. Kaede o vira vulnerável, ela nunca mais o respeitaria como antes. Escondeu o rosto entre as mãos, tudo estava desmoronando, nem mesmo a sua situação com seus empregados seria a mesma. Precisava se sentir como o antigo Sesshoumaru, o Sesshoumaru responsável e respeitável. Se fosse o Sesshoumaru adolescente, seria um serio problema, mas a questão era a necessidade de se mostrar útil.

Kaede voltou com um belíssimo prato de entrada, porém Sesshoumaru já não sentia mais fome. Só de olhar para a salada seu estomago embrulhou, empurrou o prato e não falou nada, apenas se levantou e saiu da sala de jantar. Podia ouvir Kaede e Jaken sussurrando atrás de si, mas aquilo já não era importante, certas coisas nunca voltariam a ser como antigamente. Havia perdido o medo, o respeito deles em relação a sua pessoa e não tinha energia para trabalhar aquelas questões no momento.

Subiu para seu escritório, aquele cômodo nunca fora tocado pelos doces dedos de Sara, Yume nunca coloriu nas paredes daquela sala. Era o lugar de Sesshoumaru, apenas dele, completamente impessoal e sério. O único elemento que quebrava aquela seriedade era o porta-retratos sobre a escrivaninha. Uma única foto, foi tirada por Inuyasha na primavera do ano passado. Sesshoumaru estava sentado em meio a grama, indiferente, com Sara ao seu lado sorrindo serena e uma menina de 5 anos, cabelos prateados e orelhas idênticas a do tio. Ela sorria animada e feliz enquanto tentava trançar o cabelo do pai.

- Yume. – Tocou o quadro e sorriu calmamente.

Mas aquela nostálgica sensação durou por apenas alguns segundos. Ligou o laptop, puxou algumas pastas espalhadas sobre a escrivaninha e pegou o telefone. Antes de ligar para Bokuseno ou Naraku, queria voltar naquela antiga impessoalidade, será que Bokuseno havia passado seus trabalhos, seus clientes, para Naraku? Era o provável, mas o pensamento o encheu com uma revolta amarga, não se importaria se fosse passado para qualquer outro advogado, porém já não existia sorte em seu mundo.

- Bokuseno?

- Como está, Sesshoumaru?

- Pronto para voltar ao trabalho.

- Nem pensar. – Realmente, aonde estava sua sorte? – Sua licença médica apenas vence daqui a dois meses, neste tempo nem se preocupe em me ligar.

- Eu preciso disso. – Não gostava de falar sobre si, mas Bokuseno estava praticamente o obrigando. – Não agüentaria ficar parado por dois meses com todos sentindo pena de mim. – Socou a mesa. – Droga, só quero que as coisas voltem ao normal.

- Sesshoumaru, apenas pense em ficar melhor e voltar ao trabalho. Enquanto isso, eu e Naraku estaremos cuidando de seus clientes.

- Meus clientes devem ter perdido o respeito por mim, assim como meus empregados. – Rosnou.

- Perder o respeito?- O homem riu. – Ninguém perdeu o respeito, apenas estão se preocupando com sua saúde. Você realmente acha que um acidente, que não foi sua culpa, atingir o que você conquistou duramente?

- Nos falamos depois. – Desligou.

Como Bokuseno tinha coragem de falar aquilo? É lógico que aquele maldito acidente atingiu o que havia conquistador, o acidente lhe roubou tudo. Socou a mesa até a raiva passar, quando finalmente começou a respirar normalmente, sua mão direita estava completamente machucada. Saiu do escritório e bateu a porta. Hakudoushi, Inuyasha, Kagome, Miroku e Sangô demorariam pra chegar e, como não havia nada para fazer no meio tempo, tomou um sonífero.

Aquela era a melhor forma de lidar com a solidão, com aquele vazio. Riu de si mesmo, sempre fora vazio, insignificante, mas só agora conseguia sentir a dor naquele buraco vazio que o consumia. Não conseguiria suportar todo aquele tempo sem fazer nada, esperando as sessões de fisioterapia, de terapia, esperando os amigos no fim do dia e fingir que se entretinha com as brincadeiras e discussões entre eles.

Por que Bokuseno achava que aquilo era o melhor para ele? Ficar dois meses esperando o sono chegar para passar os dias, enquanto podia se sentir útil. Aquilo era tortura! Já não havia sido torturado o suficiente? Não percebeu quando adormeceu, apenas que alguns momentos sem sentir sua mente trabalhando era um alivio. Mas o passado o perseguia em formas de pesadelos nebulosos, quando encontraria a claridade novamente?

Despertou ao sentir mãos delicadas, porém fortes, o balançando, mas não conseguia abrir os olhos, as pálpebras estavam pesadas demais. Ouvia uma voz, mas não a compreendia. Longos minutos se passaram até finalmente vencer o peso e levantar as malditas pálpebras, as mãos ainda o segurava.

- Kagome? – Não era sua voz, era um sussurro rouco.

- Graças aos deuses! – Ela o abraçou.

- O que aconteceu? – Era um estranho comportamento o de Kagome, ela nunca havia o abraçado, por que fazia aquilo agora?

- Sai do trabalho mais cedo e decidi ver como você estava. – A mulher o soltou parecendo apreensiva. – Kaede falou que você não havia se alimentado e que fora dormir...

- E por que está tão nervosa?

- Sesshoumaru... você estava gritando. – A olhou surpreso, mas ela desviou o olhar. – Gritava que... bem, gritava que não queria matá-lo, que eram ordens... e então riu de uma forma tão... macabra.

- Era só um pesadelo. – Passou a mão pelos cabelos espantando os pensamentos.

- Tem certeza?

A incerteza pairou em sua mente, mas não em seus olhos. Acenou positivamente para ela e se sentou na cama. Pela primeira vez no dia sentiu a fome, mas também se sentiu molhado, suado, passou a mão pelos cabelos nervosamente. Kagome parecia esperar alguma palavra dele, alguma afirmação de que tudo realmente estava bem. Mas não está bem, nunca estarão bem novamente.

- Vou tomar uma ducha, peça para Kaede fazer alguma coisa para comermos.

- Mas... Sesshoumaru...

- Kagome. – Falou irritado. – Eu terei pesadelos pelo resto da minha vida pelo o que aconteceu. Agora tem como você, por favor, descer e pedir para Kaede cozinhar alguma coisa?

- Estou indo...

You're so mean when you talk

About yourself, you're wrong

Tomou uma ducha rápida, mesmo que em sua mente tivesse passado horas em torturantes pensamentos, vestiu uma roupa qualquer e desceu para a sala. Esperava encontrar Kagome sentada no sofá lendo uma revista enquanto Kaede preparava algo para comerem, mas ela não estava lá. O recinto parecia deserto e escuro, isso se não fosse um senhor, usando um terno caríssimo, se servindo uma dose de whisky. Por que ele estava ali?

- Não deveria ter desligado o telefone na minha cara, Sesshoumaru.

- Como sabia que era eu?

- Bem, você está sozinho em casa.

- Teoricamente. – Arqueou uma sobrancelha e sorriu para as costas do homem. – Quantas vezes errou?

- Duas. – O senhor se voltou para ele, abrindo um sorriso em seu rosto enrugado. – Uma com Jaken e outra com uma gracinha de olhos azuis.

- Namorada de Inuyasha, Kagome.

- Uma pena.

- Diga logo ao que veio, Bokuseno. – O sorriso se desvaneceu, abrindo espaço para a tão costumeira expressão fria.

- Saber como esta. – Tomou um longo gole do whisky.

- Não me venha com desculpas, já sabe como estou.

- Bem, - o sorriso não abandonou os lábios do homem. – tem certeza que quer voltar ao trabalho?

Se tinha certeza? Claro que não tinha certeza, mas era melhor do que ficar em casa, sentado no sofá, vendo televisão o dia inteiro. Precisava daquilo mais do que Bokuseno pensava, do que qualquer um pensava. Se não trabalhasse, enlouqueceria com seus pensamentos e lembranças.

- Eu preciso disso, Bokuseno.

- Ótimo, se assim prefere, segunda-feira te enviarei os arquivos referente aos seus clientes, verá algumas modificações, mas acredito que ficará satisfeito.

- Não seria mais simples deixar meus arquivos em minha sala?

- Entenda uma coisa, Sesshoumaru. – O olhar do homem ficou afiado e ele terminou a bebida. – Não o quero no escritório, apenas para reuniões. Quer trabalhar? A escolha é sua, mas sou eu que defino as condições.

- Como quiser.

Observou o homem saindo e não pode conter um suspiro desanimado. Ao menos poderia focar sua atenção para outros assuntos, mesmo permanecendo entre aquelas paredes que pareciam tentar o sufocar. Sentou no sofá, desejando mais que nunca uma dose do whisky, mas os remédios não o permitiria. Odiava aquela nova vida que permanecia no modo de sobrevivência. Socou o braço do sofá irritado.

- Não foi uma boa conversa? – Ouviu a voz de Kagome atrás de si.

- Não foi um bom mês. – Quase rosnou em resposta.

- Nem posso imaginar. – Sorriu docemente enquanto se sentava ao lado dele. Ao menos Kagome era sincera.

- A comida vai demorar muito? – Mudou de assunto rapidamente.

Não queria falar sobre aquilo, já não bastava pensar? Reviver quase todas as noites? A morena acenou negativamente e o guiou até a sala de jantar. Sentaram-se em silencio, mas a apreensão de Kagome se desvaneceu ao ouvir a gritaria que se aproximava. Inuyasha, Miroku, Sangô e Hakudoushi haviam chego. Discutiam por qualquer bobagem, mas aquilo era bom, talvez ajudasse Sesshoumaru a se distrair de tudo aquilo. Porém, os gritos que ele deu durante o sono, a risada, aquilo a perturbava sobremaneira, fazendo-a acreditar que os demônios do youkai eram bem maiores do que imaginava.

- Parecem crianças, já estão discutindo? – O youkai sussurrou enquanto comprimia as têmporas.

- JÁ DISSE PARA TIRAR A MÃO DAÍ, MIROKU! – Ouviu Sangô gritando, o som de um tapa e de algo pesado caindo.

- Mas Sangô, não é isso que você ta pensando! – Miroku choramingava no chão.

- Eles não estavam saindo? – Sesshoumaru sussurrou para Kagome.

- Sim, mas Miroku é precipitado, como bem sabe... – Ela sorriu, ao menos ele parecia interessado em alguma coisa.

- LOGO SE VE POR QUE SESSHOUMARU TE CHAMA DE INCOMPETENTE! DIRIGE A QUANTO TEMPO?

- EU NÃO TENHO QUE TE RESPONDER ISSO, MAS DIRIJO MELHOR DO QUE VOCÊ, HAKUDOUSHI!

- VOCÊ QUASE ME MATOU E AQUELA VELHINHA!

- EU NÃO TINHA VISTO ELA! – Os gritos ficavam cada vez mais próximos, fazendo as veias de Sesshoumaru saltar de irritação.

- CLARO QUE NÃO VIU! QUEM DIRIGE A 150KM/H DENTRO DA CIDADE?

- Vocês poderiam ser mais silenciosos? – A voz do youkai encerrou a discussão. Realmente, Inuyasha precisava ser descuidado no transito depois de ver o que havia acontecido com ele?

- Desculpe, Sesshoumaru. – Todos responderam em uníssono, mesmo Inuyasha falando a contragosto.

Se comportaram pelos primeiros dez minutos, tentaram jantar em calma. Mas Inuyasha e Hakudoushi estavam em uma briga silenciosa por chutes em baixo da mesa, todas as vezes que Miroku tentava falar com Sangô, ela o ignorava cantando a entrada de Shin-chan e Kagome tentava disfarçar os olhares preocupados, mas Sesshoumaru os percebia. Ao menos ficaram lá até tarde da noite, o que desviou os pensamentos de Sesshoumaru, que agora temia dormir por poder revelar seus segredos mais obscuros.

Sangô fora embora cedo, mas o restante descansou na grande casa. Inuyasha e Sesshoumaru cresceram naquela casa e muitos parentes os visitavam, haviam quartos de sobra para aqueles que decidiam descansar ali. Porém, mesmo todos dormindo ali, ao acordar, Sesshoumaru estava novamente sozinho na casa, apenas percebendo a presença de Kaede e Jaken quando era necessário.

Tentava ocultar de si mesmo a ansiedade pela sessão de terapia no fim da tarde. As três horas da tarde, Sangô regressou à casa com uma maleta. Talvez a fisioterapia o ajudasse a parar de pensar um pouco, se concentrar na perna que não doía tanto, ou os dedos que conseguia mover sem empecilhos. Porém as duas horas que passou se exercitando, conversando com Sangô, passaram rápido demais e a ansiedade se transformou em temor. A fisioterapeuta o deixou no hospital.

Tinha a primeira consulta mensal com Asai Mukotsu e não estava nem um pouco feliz em ter que tomar medicamentos. Mas talvez ajudasse, certo? Não podia ser tão mal. Mas ao olhar para o grande prédio branco, não pode deixar de arquejar, buscar por ar. E toda aquela confusão, toda a dor que sentiu – física e mental – voltaram a aflorar. Não que tivesse esquecido, mas a dor era apenas uma lembrança, não era tão viva assim.


VIII

Não era fácil voltar para lá. Não era fácil ver as pessoas sofrendo na sala de espera, ou sorrindo aliviadas com boas noticias. Andar por aqueles corredores tão conhecidos era angustiante, era duro demais, difícil demais, porém, sua marcara de imparcialidade nada revelava, o que era bom. Alguns enfermeiros acenaram, ele apenas acenou positivamente com a cabeça. Subiu ao terceiro andar e conversou rapidamente com uma das atendentes.

- Tenho uma consulta com Asai Mukotsu às 16h30, mas não sei aonde é a sala. – Sua voz saiu segura, calma.

- Oh Taishou-sama, Jinenji poderá te levar até a sala de espera. – A enfermeira sorriu docemente.

O grande meio-youkai apareceu e o guiou pelos corredores do terceiro andar. Não queria encontrar o pequeno psiquiatra, não era louco, apenas tinha perdido a família. E não conseguia comer, dormir, mas isso seria normal em um processo de luto. Jinenji pediu para ele esperar nas cadeiras do corredor e lá permaneceu. 10 minutos depois o baixo psiquiatra saiu.

- Taishou Sesshoumaru, entre. – Ele não sorriu, não foi gentil, apenas abriu espaço para o youkai passar.

Ele se sentou em uma poltrona e observou o escritório. Era mais impessoal que seu próprio escritório, e tão diferente da sala de Rin no hospital, onde era cheio de desenhos e coisas coloridas. Se sentiu mais confortável na sala de Mukotsu.

- Então, como você está, Sesshoumaru? – O homem mal o olhou.

- Não consigo dormir, apenas durmo quando tomo algum remédio que induz ao sono e ainda assim tenho pesadelos e acordo no meio da noite. Não tenho fome, só de ver a comida me embrulha o estômago. Não tenho vontade de fazer nada, mas acredito que seja melhor voltar ao trabalho do que ficar sem fazer nada o dia todo. Isso me faz perder a perspectiva das coisas.

- Vou te receitar alguns medicamentos que vão te ajudar com a provável depressão que você está e um remédio que te ajude a dormir. – Ele olhou para algumas coisas pela mesa, procurando o receituário. – Fluoxetina, pode ter alguns efeitos colaterais como ansiedade, tremores, disfunção sexual, náuseas, boca seca, sudorese e transtorno de sono. Mas para sua falta de sono, vou te passar o Dormonid, os efeitos dele podem ser visão turva, instabilidade, diminuição do estado de alerta, confusão, hipotensão, distúrbios gastrintestinais, erupção cutânea, retenção urinária, alterações na libido. - Mukotsu nem parecia prestar atenção ao paciente a sua frente. Nem mesmo o escutou direito, seriam os psiquiatras tão diferente dos psicólogos assim?

O psiquiatra era objetivo, distante, assim como Sesshoumaru fora outrora, mas agora se sentia intimidado, com medo do julgamento e de suas palavras. Seus clientes se sentiam daquela mesma forma quando o encontrava? Sim, provavelmente. Mas agora tudo havia mudado. De intimidados eles foram para a pena. Logo se entendia sua notória depressão, porém, Rin o ajudaria mais do que aqueles remédios, afinal, ela o ouvia, ela não tentava enquadrá-lo em alguma patologia, enquanto Mukotsu parecia querer diminuir aqueles sentimentos que ele precisava sentir. Porém – pois existe sempre um porém – seria melhor se seguisse o que os médicos falassem, precisava melhorar. Precisava ficar bem, assim Sara e Yume não teriam morrido em vão. Tinha que acreditar naquilo pelo bem de sua sanidade.

- Só esses dois remédios? – Não reconheceu seu próprio tom frio.

- Por enquanto. – Ele terminou de anotar algumas coisas no receituário e o entregou para Sesshoumaru. – Fale para Sekime-san sobre os medicamentos que você vai tomar e manterei contato com ela, pra saber como você esta lidando com os remédios. Qualquer problema ela me avisa e marcamos uma nova consulta. Cuide-se.

Mukotsu não se levantou ou o acompanhou para fora da sala, apenas entendeu que qualquer assunto que tinha para tratar com o psiquiatra tinha terminado quando o pequeno homem o olhou e olhou para a porta. Se levantou com certa dificuldade e saiu. Aquilo fora sufocante. Olhou para o receituário enquanto perambulava pelos corredores, anotando mentalmente os horários para tomar os medicamentos, tentar desviar os pensamentos.

Parou na farmácia do hospital e se sentiu mais seguro com os remédios em mãos. Ainda tinha um tempo para matar e se dirigiu ao jardim aos fundos do hospital. Sentou-se no mesmo banco que Sangô havia sentado há tantos dias atrás, mas nem mesmo percebeu. Fazia sentido voltar ali, sentir que o mundo não havia mudado com todas as coisas ruins que tinham acontecido. Porém o momento entorpecente foi mais breve do que esperava, logo Inuyasha estava ao seu lado, pronto para levá-lo para a terapia.

- Quantos remédios vai ter que tomar? – Inuyasha falou enquanto tirava o carro do estacionamento.

- Dois. – Suspirou. – Vou deixá-los com você, assim não fico carregando essa sacola.

- Como preferir.

O resto do caminho fora em silêncio. Sesshoumaru observava a cidade, em sua visão, tudo tinha mudado, enquanto Inuyasha prestava atenção no trânsito. Não tinha animo para falar, mas teria que encontrar a vontade de falar, a facilidade de se expor, se não encontrasse, como seguiria a sessão de terapia? Finalmente o carro parou, Sesshoumaru se despediu friamente do irmão e desceu, olhou para a numeração das casas e encontrou a numeração que Rin havia passado.

Subiu as escadas que o separavam da fachada da pequena casa. Era uma casinha verde, mas bem pintada, com uma grande janela, era convidativa, aquilo dizia muito sobre Rin, certo? Tocou a campainha e esperou pacientemente a terapeuta atende-lo. Ela sorria costumeiramente, o que apenas fez o temor dele aumentar. Foi um cumprimento rápido e logo o youkai foi introduzido na sala de atendimento. Era cheio de figuras como a sala no hospital, mas era maior e um pouco mais organizado.

- Como foi com Mukotsu? – Ela perguntou.

- Não gosto dele, mas foi tudo bem. – Suspirou. – Ele pediu para que eu te avisasse que estou tomando fluoxetina e dormonid. – Ela meneou com a cabeça e um curto silencio se fez presente.

- E como você está, Sesshoumaru? – Ela sorriu, se sentando em uma confortável poltrona após vê-lo se acomodar em um sofá.

- Mal, mas é o que mereço.

- Não deveria se punir tanto.

- Apenas me escute e entenderá.

E ela escutou.

Change the voices in your head

Make them like you instead

-Nunca fui uma boa pessoa. – Começou, mas não se dignava a olhá-la, suas mãos pareciam mais interessantes. – Minha mãe morreu logo que nasci, complicações no parto, não sei, mas meus avós sempre me culparam por aquilo, por tudo na verdade. E talvez seja minha culpa realmente, ela morreu por minha causa, certo?

Sesshoumaru ouvia aquilo desde pequeno, certas palavras e frases entraram em sua mente e de lá nunca saíram. As vozes de seus avós ecoavam e assombravam suas noites insone, era algo que não conseguia superar. Sabia que não era sua culpa, coisas da biologia e da anatomia humana, mas ainda conseguia se ver culpado, manchado, estigmatizado pela própria família.

- Eu morei um bom tempo com eles. – Continuou sem nem mesmo perceber que falava. – Deixei que eles mexessem com a minha cabeça, minha segurança e tudo o mais. Meu pai me levou para morar com ele quanto eu tinha dez anos, depois de ter me renegado por todo esse tempo. Acho que nunca fui aceito em algum lugar.

Ergueu a cabeça e encontrou o atento olhar de Rin, ela não sorria, mas transmitia a calma que só ela possuía. Sesshoumaru não entendia como estava conseguindo falar tudo aquilo, realmente mostrando para alguém o que era, nunca conseguiu isso, nem mesmo com Sara.

- Quando fui para a casa do meu pai, ele já estava casado com outra mulher e Inuyasha era o centro das atenções, como se ele fosse o personagem principal e eu fosse um simples vilão que mata mulheres grávidas... – Suspirou. – Mas acredito que ele era um alivio para Taishou.

- E por que acha isso? – A voz dela era calma e Sesshoumaru abriu um meio sorriso.

- Pelo obvio. – O meio sorriso se tornou triste. – Ele não matou Izayoi ao nascer...

Sesshoumaru baixou a cabeça e pressionou as têmporas, não queria pensar naquilo, não queria lembrar, não queria enfrentar. Queria dormir pelo resto de seus dias e viver em sonhos que sua vida tivesse sido fácil, calorosa, ou que ao menos Sara e Yume ainda estivessem lá... que tivesse conhecido sua mãe. E ainda tinha mais coisas para falar, tantos acontecimentos que faziam a culpa se expandir ainda mais. Para falar a verdade, não queria ouvir o que Rin teria para falar. Tinha medo da analise dela. Porém, Rin acenou com a cabeça e falou suavemente.

- Continue. – E sorriu.

- Bem... – Não se sentia como Sesshoumaru, se sentiu como uma criança que fez algo de muito errado. – Nunca fui parte dessa família e, se fui, era a ovelha negra. Cresci com atitudes questionáveis, era violento e fechado, sempre me metia em problemas com Hakud... er, com um amigo. Chegava em casa machucado ou com advertências, avisos de expulsão. Estava sempre mudando de escola, mesmo com as notas perfeitas. No colegial me envolvi com uma gangue, bem... com a yakuza. – Procurava algum sinal de desaprovação da psicóloga, mas não recebia nada. – Acabei saindo de casa cedo, culpa de algumas prisões e entradas no hospital.

"Acho que, no fundo, eu queria ser a ovelha negra, ser a paria da família. Em todo o caso, depois de ter feito um grande erro, fui preso e meu pai decidiu não pagar a fiança, algo justo. Isso me deu tempo para pensar e conversamos... falei tudo o que tinha para falar e começamos a resolver esses problemas. Entrei em uma boa faculdade, mas ainda tinha meus desvios. Fui preso uma ultima vez e o advogado do meu pai apareceu, com sua estagiaria. Era Sara.

"Desde então eu me esforcei pra superar todas estas questões e ser um bom homem para merecer Sara, tentar superar o passado e ser um bom filho, um bom irmão para Inuyasha. Eu estava conseguindo, mas acho que criar uma consciência e me esforçar para melhorar não era o bastante para saldar as minhas dividas."

Não tinha mais o que falar, entregou parte de sua vida em uma bandeja de prata. Finalmente levantou o olhar para ver a expressão de Rin, mas ela mantinha uma expressão impassível, mas... era impressão dele ou os olhos castanhos de Rin brilhavam com compaixão? Sesshoumaru não conseguiria falar mais do que aquilo, teria que esperar pela sentença da psicóloga, mas ela demorou para falar alguma coisa.

Ela primeiro sorriu. Passou a mão pelos longos cabelos negros. Mas a avaliação, o julgamento não veio. Não esperava que ela sorrisse, esperava que ela falasse algo de negativo, não esperava o silencio. Mas ele era reconfortante, quase podia esquecer tudo o que havia falado. Porém, o sorriso teve que chegar ao fim, assim como o silencio.

- Como era a sua relação com o seu pai e madrasta? –Ela falou calmamente, sem julgamento.

- Vai dar uma de psicanalista e falar que todos os meus problemas são por um complexo de Édipo mal resolvido? - Sesshoumaru ergueu uma sobrancelha.

- Fez uma pesquisa para tentar analisar o que eu poderia falar? – Ela ergueu uma sobrancelha também, divertida.

- Queria estar preparado. – Deu um meio sorriso.

- Bem, não vou dar uma de psicanalista. – Ela se ajeitou na poltrona.

- Eles não eram como os meus avôs, meu pai não brigava comigo abertamente pela morte de minha mãe. – Movimentou levemente os dedos da mão esquerda. – Mas eu sabia que ele também me culpava, então eu ficava em meu quarto ou fora de casa. Eu era educado, eles eram bons para mim. Minha madrasta era doce e tentava me incluir na família, mas eu simplesmente não conseguia cooperar.

- Então seu pai nunca realmente te disse que você era o culpado?

- Não, mas eu... – Sesshoumaru parou e percebeu o que ela queria dizer.

Ela tinha razão? Será que seu pai não o culpava pelo que tinha acontecido? Não tinha parado, realmente, para pensar naquilo. Apenas deixou que o culpassem, era mais fácil que o culpassem e fazê-lo o vilão. Não podia conversar com Rin agora, precisava deixar na cama que dividiu com Sara outrora, Rin percebeu e sorriu.

- Acho que foi muito para uma real sessão, não é?

- Acredito que sim. – Sesshoumaru abriu seu meio sorriso.

- Mesmo horário, segunda-feira? – Ela se levantou, sendo seguida por ele.

- Sim. – Murmurou, ainda com o meio sorriso.


Ae ae ae, segundo tomo postado, mas sem revisão... Postei assim que finalizei pra não ficar me demorando ainda mais.
To sem idéias pra Yellow, mas não vou abandonar... Agora, a Renegade ta ficando pronta também \o/

Mais uma vez, Debs, obrigada por tudo! E galera que comentou, muuuuito obrigada! Se não me engano, respondi todo mundo xD
Até o proximo capitulo!

Beijos!