Fuckin' Perfect
By: Jubs.
To: Debs-chan, por todos as reviews, pelo carinho e pela amizade.
Music by: Pink
[3º Tomo – Novas descobertas.]
"Mudar significa ser exatamente quem você é."
IX
Sesshoumaru saiu do consultório sentindo-se ligeiramente zonzo, confuso e inseguro. As poucas palavras dela o abriram para um novo questionamento de sua vida, mas que não se ligavam com seu atual problema. Aliviar a culpa de seu passado não aliviaria a culpa de ter estado em um acidente e causar a morte de Sara e Yume. Não tinha o direito de sentir, nem por um instante, alivio, não era justo.
Sentou-se nos degraus da estranha casinha verde, esperava o carro que viria buscá-lo, percebeu sua inutilidade no mundo. Nem mesmo podia se locomover pela cidade livremente, estaria sempre precisando de terceiros? Isso era revoltante. Fechou os olhos, tentando conter a crescente irritação contra si mesmo, mas voltou a abri-los ao ouvir o som de um carro parando. Não encontrou o carro vermelho de Kagome, os vidros estavam fechados e por alguns instantes, acreditou que seria apenas um outro paciente.
- Vam'bora Sesshoumaru? – Miroku abriu a janela do carro, sorria.
- Você demorou. – O youkai se levantou e entrou no veiculo. Antes que o automóvel voltasse a se mover, observou a psicóloga saindo do consultório, Rin falava seriamente no telefone. Era estranho vê-la sem um sorriso nos lábios.
- Kagome viria te buscar, mas ela ficou enrolada no trabalho e pediu que eu viesse. – O moreno deu partida no carro, ignorando o olhar – que quase beirava a tristeza - que Sesshoumaru lançava para a figura esguia da psicóloga, ela agora se distanciava. – Eu estava do outro lado da cidade e cheguei em um ótimo tempo! Só me atrasei meia hora.
- Eu fiquei sentado ali por meia hora? – Sesshoumaru olhou assassinamente para Miroku.
- Nem vem, eu tive que atrasar meus planos de reconquistar Sangô.
- Eu não queria ser um fardo, acredite. – Desviou seu olhar para a janela novamente.
- Desculpe Sesshoumaru, não foi isso que eu quis dizer. – O moreno parou o carro no farol vermelho e sorriu para o amigo. – Na verdade, você faz parte do meu plano.
- O que você fez agora? – Seu tom continuava irritadiço.
- Eu fui visitar ela no hospital esses dias e tropecei, - Miroku voltou sua atenção para o transito. – e sem querer eu acabei passando a mão em lugar que eu não deveria...
- Sem querer?
- Bem, sim... – Voltou a sorrir. – Ela não quer mais falar comigo, então, tem como você falar bem de mim? Que eu não faço esse tipo de coisa, que sou um cara legal...
- Você sempre faz isso, Houshi.
- A culpa é da minha mão amaldiçoada!
- A culpa é sempre da sua mão. – Sesshoumaru relaxou no assento. – Não vou mentir para Matsuo.
- Então estou perdido. – O moreno suspirou pesadamente.
- Lembre-se, não vou mentir, mas não me neguei em ajudá-lo.
- Sério, Sesshoumaru? – Falou surpreso. – Muito obrigado! Mesmo, obrigado, obrigado, obr-
- Porém, Houshi, tudo tem um preço. – Sorriu imperceptivelmente ao ver o olhar assustado de Miroku.
O moreno fez inúmeras perguntas sobre o que o youkai faria, mas Sesshoumaru nem ao menos se dignou a responder, apenas observava a paisagem que continuava a correr. Miroku conseguiu tira-lo de seus pensamentos, mas seu único medo ainda se mostrava presente. Temia voltar para casa, talvez aquele medo nunca partisse, nunca se curasse. Sabia que elas não estariam lá, então por que ainda se segurava na esperança de que tudo aquilo fosse um vívido pesadelo?
O veiculo parou na entrada da casa, desceu do carro e parou em frente da porta de entrada, Miroku ainda demoraria uns cinco minutos para estacionar o carro, tempo o suficiente para suprimir seu medo, sua dor. Todo o alivio que sentiu após a sessão de terapia havia morrido. Respirou profundamente tentando acalmar as batidas desenfreadas de seu coração, ouviu o moreno se aproximando, cantarolando uma música qualquer. Não estava preparado, mas abriu a porta.
Escutou o som de risadas vindas da sala de televisão, caminhou calmamente, sentindo o temor ficando para trás, mas sabia que o medo logo voltaria. Reconhecia as risadas de Hakudoushi e Kagome, percebendo os costumeiros resmungos de Inuyasha. Entrou na sala, vendo Kagome estirada no sofá enquanto os rapazes permaneciam sentados no chão.
- O que estão fazendo? – Sesshoumaru perguntou erguendo uma sobrancelha.
- Estou destruindo o Inuyasha em Sengoku Jidai Battle. – Hakudoushi respondeu animado, ignorando os crescentes resmungos do mais novo.
- Mas eu nem tenho um videogame. – O youkai sussurrou enquanto se sentava em uma poltrona.
- Inuyasha estava discutindo com Miroku sobre o jogo e decidiram trazer o videogame para cá. – Kagome se ajeitou no sofá. – Mostraram o jogo pro Hakudoushi e, ao que parece, estão na frente da televisão por quase duas horas.
- Você não estava no trabalho?
- Sim, cheguei há uns dez minutos. – Ela sorriu. – Se eu soubesse que sua sessão iria demorar, eu nem teria pedido para Miroku ir buscá-lo.
- Rin é sempre muito pontual, Miroku acabou se atrasando. – Sesshoumaru sorriu em retorno.
- Pronto Inuyasha! Seu guerreiro vai parar de sofrer em: três, dois... – Hakudoushi movimentos os dedos novamente. – A VITÓRIA É MINHA!
- DE NOVO! – Inuyasha gritou nervoso. – VOCÊ ESTÁ ROUBANDO!
- Quer jogar novamente, Inuyasha? – Sesshoumaru perguntou calmamente, vendo o jovem se calar e acenar positivamente. – Então seu oponente será este Sesshoumaru.
- Isso vai ser fácil, você nunca jogou mesmo. – Inuyasha falava com um tom extremamente convencido, sorria.
- Eu ganho de você mesmo sem saber jogar e sem um braço.
Eles tentavam tanto tornar a situação mais fácil, confortável e acabar com a tensão que surgia pelo mau humor crônico de Sesshoumaru, eles estavam conseguindo, pela primeira vez. No hospital, era fácil desviar a atenção de suas feridas, pois o local não o fazia se recordar de todos os momentos de sua antiga vida, mas ali? Na casa que dividira com Sara? O pior era dormir, sabendo que todos estavam ali, e acordar sozinho, com a crescente impressão de tudo ter sido apenas um sonho. Mas aquela quarta-feira era o inicio de algo novo. A culpa que se desvanecia, o sorriso que surgiu facilmente em seus lábios, agora aquela sensação de estar se divertido pela primeira vez na vida.
Jogaram por toda a madrugada, foram inúmeros torneios entre os cinco amigos, porém, os vencedores apenas se alternavam entre Sesshoumaru e Hakudoushi. Ao fim daquela longa maratona, o que deveria ser quase sete horas da manhã, todos ligaram doentes para o trabalho com o intuito de descansar pelo resto do dia. Sesshoumaru não precisou tomar o sonífero, a exaustão fez com que ele dormisse rapidamente. Sentia-se confuso e cansado, sentia-se péssimo por estar se sentindo bem, confiante.
Mesmo assim, não teve pesadelos.
So complicated
Look how we are making
Acordou no inicio da tarde de quinta-feira e, pela primeira vez desde o acidente, não sentiu-se sozinho. Estava descansado e o alivio voltou à sua mente, mesmo tendo perdido Sara e Yume, sabia que não passaria o resto de sua vida acordando em uma silenciosa casa assombrada pelas memórias, ainda sofria, mas sentia paz e certo conforto com está certeza.
Levantou da cama e abriu as grossas cortinas, de sua janela, Sesshoumaru podia ver a leve chuva que molhava o pátio de entrada, conseguia perceber seu reflexo – pela primeira vez – saudável no vidro. Tomou um longo banho, movimentando mais facilmente os dedos da mão esquerda, ainda doía e, por algumas horas, parecia que aquela ferida era irreversível, mas então ele mexia levemente um dedo e todo seu esforço valia a pena. E era assim que superaria os traumas do acidente, valorizando todo e qualquer esforço de melhora. Secou-se e colocou uma roupa qualquer, desceu para almoçar. Sorriu imperceptivelmente ao encontrar Kagome e Inuyasha, sentados no sofá de entrada, conversando.
- Boa tarde, Sesshoumaru. – A morena falou com um delicado sorriso.
- Dormiram bem? – Perguntou indiferente.
- Inuyasha ficou reclamando até cair no sono. – Kagome olhou para o namorado que permanecia emburrado.
- É só um jogo, irmãozinho. – O youkai sorriu e sentou-se na poltrona em frente ao sofá em que eles estavam sentados.
- Pra você. – O rapaz o encarou assassinamente.
- Não deveria levar as coisas tão a sério, Inu-chan. – Kagome descansou a cabeça no ombro de Inuyasha.
- Inu-chan? – Sesshoumaru questionou em uníssono com Hakudoushi, que havia acabado de entrar na sala.
- Droga, Kagome. – O rapaz sussurrou enquanto se levantava, corado. - Podem esquecer, vocês estão proibidos de me chamar assim! – Inuyasha quase cuspia as palavras.
- Inu-chan está irritado? – Sesshoumaru perguntou com uma falsa expressão preocupada.
- Ah, Sesshoumaru, nosso querido Inu-chan não deve ter dormido bem esta noite. – Hakudoushi tinha a mesma expressão do primo. – Posso pedir para Kaede-san te fazer um leitinho quente, Inu-chan.
O rapaz ficava cada vez mais vermelho de irritação, falou um palavrão e saiu do aposento a passos largos. Kagome e Hakudoushi riam divertidos, Sesshoumaru piscou e um brilho mais animado tomou conta de seus olhos.
- Acho que Inu-chan acordou do lado errado da cama. – Falou simplesmente, apenas ouviu as risadas aumentarem.
Sesshoumaru sorriu tranquilamente, porém, sentiu um aperto no peito. Por alguns míseros segundos, havia visto Sara, com seu vestido vermelho favorito, encostada na porta, ela sorria para ele. Mas a figura esguia dela se desvaneceu com a chegada de Miroku. A calmaria que havia se apossado dele ao ver a esposa, desapareceu e se transformou em uma crescente irritação contra o amigo, tentou não deixar aquela onda de agressividade transparecer.
- O que vocês pretendem fazer hoje? – Perguntou em um tom rouco por tentar controlar a raiva.
- Antes de vocês chegarem eu estava discutindo isso com Inu-
- Chan? – Hakudoushi acrescentou com um sorriso divertido.
- Quer que eu te dê um apelido também? – Kagome perguntou ameaçadoramente erguendo uma sobrancelha.
- O que decidiram? – O rapaz desviou o olhar para os quadros na parede.
- Eu queria sair, fazer alguma coisa diferente, mas a chuva estragou meus planos. Inu – A garota olhou nervosamente para Hakudoushi, que ainda fingia ignora-la. – yasha só falava em uma nova revanche de videogame.
- Podemos ver alguns filmes. – Miroku se pronunciou. – A gente faz pipoca, compra uns refrigerantes e pega filmes de terror!
- Achei que iria tentar falar com Matsuo hoje. – Sentiu sua raiva diminuindo.
- Vou esperar você falar com ela primeiro. – Sorriu inocentemente.
- Kagome, - Hakudoushi voltou a encarar a mulher. – Chame o Inu-chan para a revanche e, Miroku, vá cuidar dos preparativos para a marota de filmes.
- Inu-chan? – O moreno perguntou enquanto saia da sala com a garota.
Sesshoumaru se viu à sós com o primo, Hakudoushi sentou-se no sofá, lugar que Kagome ocupava anteriormente. Encarou o rapaz longamente, parecia que ele não sentia mais aquela aversão de estar com Sesshoumaru, talvez o fator que afastou Hakudoushi fosse o hospital. Suspirou e se permitiu sorrir, era bom estar novamente com o primo. Hakudoushi sentiu o olhar penetrante de Sesshoumaru sobre si, era o mesmo olhar analítico de antigamente, mas ele sorria. Era desconfortável sentir aquele olhar, mas ao ver o sorriso dele...
- Como se sente?
- Meu braço ainda dói, mas a perna está bem melhor.
- Mas estar aqui, nesta casa, não te perturba?
- Sim e não. – Se ajeitou na poltrona. – Eu vejo Sara e Yume em tudo que existe nesta casa e é confortante de certa forma, mas vê-las, também é ruim, pois me lembra de tudo o que eu tinha e agora perdi.
- Deve ser difícil.
- Muito. – Seu sorriso se tornou triste. Iria comentar mais alguma coisa, porém a campainha da casa tocou, se levantou lentamente da poltrona. – Eu encontro com você na sala de televisão, okay?
Andou até o hall de entrada sentindo seu corpo ficar cada vez mais pesado, não queria conversar sobre aquilo com Hakudoushi, não queria nem mesmo pensar naquilo. Não podia voltar para aquele sentimento calmante do inicio do dia? Suspirou profundamente e abriu à porta, o ar faltou em seus pulmões ao ver a pessoa do outro lado da porta. A garota sorriu sem graça e isso a tornou belíssima ao olhar dele, estava desarrumada, molhada pela chuva e aquele sorriso era perfeito para os lábios dela. Balançou a cabeça levemente, tentando se lembrar que ela era apenas sua psicóloga e namorada de seu primo.
- Me desculpe, Sesshoumaru. – Ela continuava a sorrir. – Mas Hakudoushi não voltou para casa ontem e não nos falamos o dia inteiro, fiquei preocupada.
- Ele dormiu aqui. – Sua voz estava novamente rouca. – Quer entrar?
- Não é necessário, só preciso conversar com ele.
- Rin, você está completamente molhada e o vento está forte, você quer ficar doente ou é simplesmente teimosa? – Tomou controle de suas cordas vocais e deu passagem para ela entrar na casa.
A jovem não respondeu, apenas o seguiu para dentro da casa, abraçou seu próprio corpo, não queria admitir, mas o frio estava a congelando. Sesshoumaru percebeu ela estremecendo e notou, novamente, o quão frágil a mulher era, lembrou-se da noite em que a ouviu chorando no hospital e a força que ela demonstrou para Hakudoushi. Balançou a cabeça novamente, percebendo o quão corada ela estava por seu fixo olhar.
- Vou chamá-lo e pegar uma muda de roupas, tudo bem? – Sesshoumaru desviou seu olhar.
- Não se preocupe, só vou falar com ele rapidinho e vou voltar para casa, tomo um banho lá.
- Não tente discutir comigo Rin.
Nem ao menos esperou uma resposta, apenas saiu da sala e andou em direção à sala de televisão, encontrando o primo deitado em um dos sofás. Inuyasha estava sentado ao lado de Miroku no chão, estavam jogando desesperadamente um contra o outro, Kagome lia um livro em uma poltrona no canto da sala.
- Hashi, Rin está aqui. – Falou calmamente.
- Droga! – O homem exclamou, pulando do sofá. – Eu esqueci dela completamente! Rin deve estar furiosa!
Hakudoushi saiu em disparada para o hall de entrada. Sesshoumaru não ouviu a conversa que se seguiu, subiu para o quarto que Inuyasha ainda tinha na casa e pegou algumas roupas velhas que Kagome deixará lá. Parou em frente à porta de seu quarto, viu Sara novamente, ela usava o mesmo vestido vermelho, sorriu para aquela doce lembrança e se afastou do aposento. Desceu as escadas e encontrou Rin e conversando com seu primo, ela não parecia nem um pouco nervosa.
- Vocês podem conversar assim que Rin tirar essas roupas molhadas. – Sesshoumaru falou, interrompendo o assunto.
- Sesshoumaru, - Ela sorriu sem graça. – eu já estou indo para casa.
- Rin, vá tomar um banho e nós pedimos pizza, você precisa se alimentar. – Hakudoushi tinha um tom suave para a pequena psicóloga.
- Querido, você pode ir pegar uma toalha para mim, então? – Ela sorriu para ele, o rapaz apenas acenou positivamente e se afastou. – Eu vou tomar o banho, mas apenas para não ficar doente.
- Fique Rin, se aqueça e jante com a gente. Tenho certeza que Miroku vai pedir sua ajuda para melhorar a imagem dele com Sangô.
- Eu não posso ficar, Sesshoumaru. Nós temos que ter uma certa distancia, o que já é difícil pelo fato de que eu estou com o seu primo, não posso abusar.
- Coma com eles então, eu estou cansado de qualquer forma.
- Você acha que isso é justo? – Ela balançou a cabeça negativamente. – Está é sua casa, sua família, fique com eles, eu como alguma coisa em casa.
- Hakudoushi vai com você? – Sesshoumaru perguntou preocupado.
- Não, eu preciso fazer alguns relatórios e ele ficaria entediado. Se divirtam na maratona de videogames e filmes de terror.
- Rin? – Hakudoushi apareceu novamente.
- Obrigada pelo banho, Sesshoumaru. – Tocou o braço dele levemente, sorrindo. – Nos vemos na segunda-feira.
Ela seguiu Hakudoushi para o banheiro e sumiu pelo corredor mal iluminado. Voltou para onde Miroku, Inuyasha e Kagome riam divertidos, sentou-se ao lado da cunhada – que agora estava no sofá - e fixou seu olhar no jogo, no qual Inuyasha estava perdendo até para Miroku. Cinco minutos depois, Hakudoushi entrou na sala e se sentou no chão.
- Estou de próximo!
X
Acordou na sexta-feira com seus batimentos cardíacos acelerados, suava frio e sentia todo o seu corpo dolorido. Percebeu que havia dormido na poltrona, observou a sala e viu a televisão ainda ligada, Kagome e Inuyasha dormindo em um dos sofás e Miroku no outro. Voltou seu olhar para o relógio na parede e constatou que ainda eram cinco horas da manhã. Balançou a cabeça em uma tentativa de clarear seus pensamentos para encontrar a razão de seu estado altamente ansioso. Não se lembrava de seu sonho, a única imagem era de Yume em meio às trevas. Levantou-se com dificuldade e caminhou para o pátio de entrada, se sento nos degraus que separavam a porta de entrada e um pequeno jardim. Esperava alguma coisa, mas o que?
Seus longos cabelos encobriram sua face e suas lágrimas, era a segunda vez que chorava, se permitia sentir todos aqueles sentimentos que tentara guardar em uma pequena caixa em sua própria mente. Suas lágrimas não eram apenas por sua esposa e filha recentemente falecidas, elas se estendiam até a perda de uma mãe que não conhecera, seguiam para os anos de tortura psicológica pelos avós e por todos os anos em que se culpou intensamente na presença do pai. Sua mão direita vagou por sua face em uma tentativa frustrada de secar as lágrimas que teimavam em cair.
A porta de entrada fora aberta, mas Sesshoumaru se controlou para não olhar para trás, focou seu olhar nos raios de sol que tocavam a grama molhara. Aquele era o tempo de renovação?
- Sesshoumaru? – Miroku o chamava cautelosamente.
- Sim? – Sua voz saiu em um sofrido sussurro.
- Tudo bem, cara?
- O que você quer Houshi?
- Nada... – O moreno respondeu com uma voz tremula. – Bom, vou para o trabalho, te vejo de noite.
- Antes de você ir, - Sentiu Miroku passando ao seu lado e reprimiu sua pergunta inicial. – que horas são?
- Já são sete horas. – Ouviu um tom mais animado do rapaz enquanto via os pés dele se afastando.
Estivera sentado ali por duas horas? Lágrimas silenciosas caiam por todo aquele tempo? Sua dor era tão grande assim? A ansiedade voltou, fazendo sua respiração se tornar cada vez mais difícil e penosa, nunca aprenderia a lidar com aquele fardo. Braços o envolveram em um singelo, mas quente, abraço.
Por alguns segundos, tentou acreditar que era Sara, que ela havia voltado para deixá-lo completo. Tentou recusar e afastar a imagem de Rin, que havia sobreposto à figura de sua falecida esposa, mas não conseguia. Via claramente o doce sorriso da psicóloga, os olhos chocolate brilhando com ternura, não queria, não podia fantasiar com aquilo. Ao reabrir os olhos, encontrou um par de olhos azuis, marejados de tristeza e lágrimas.
- Kagome? – Perguntou confuso.
- Quer que eu fique aqui com você hoje? – A voz dela era abalada.
- Isso é desnecessário. – Sentiu os braços dela se afastando de seu corpo, mas as quentes mãos dela acariciavam docemente seu rosto, secando suas lágrimas.
Kagome se sentou ao lado de Sesshoumaru nos degraus, tomando a mão direita dele por entre as suas, as lágrimas cessaram após o gesto compreensivo da garota, mas seu coração ainda parecia oprimido. Olhou levemente para sua mão entrelaçada com as mãos de Kagome, levantando seu foco para a imagem contemplativa da garota, sorriu imperceptivelmente.
- Vai ficar bem com Sangô aqui? – Ela tornou a encará-lo.
- Sim, vou descansar até ela chegar.
- Okay, vou trabalhar então. – Ela o beijou no rosto e se levantou. – Inuyasha vai trazer pizza para a janta!
- Até de noite. – Suspirou e voltou para o ambiente quente dentro da casa, tentaria dormir novamente.
Algumas horas depois a casa, que se encontrava fechada e soturna, se preencheu por luz e sons. As cortinas e janelas foram abertas e, em um antigo quartinho, uma jovem morena falava ao celular. Sesshoumaru observava atento a nova sala de exercícios, o quartinho, antigamente era pequeno e escuro, mas tudo havia mudado. A jovem se virou para a porta e sorriu para o youkai, desligando o celular.
- Boa tarde Sesshoumaru.
- Boa tarde Sangô. – Atravessou a porta e entrou na sala, sentindo a ansiedade se retraindo. – Não é complicado você sair do hospital , vir até aqui e voltar para lá?
- Não. – O sorriso dela se abriu mais. – Fiz um acordo no hospital e de sexta-feira eu atendo na casa dos pacientes.
- Entendo. – Sentou-se em uma maca no centro do quarto. – Bem, eu prometi para Houshi que conversaria com você.
- Por favor, não faça isso. – O sorriso de Sangô se desvaneceu.
- Ele mudou, Sangô. – Trincou os dentes ao sentir a pressão em sua mão esquerda, mas a dor causada pela fisioterapia não era nada comparada com a da terapia. – Você não conhece ele ou como ele era.
- E agora você vai, teoricamente, me contar todas as maravilhosas qualidades que ele tem.
- Qualidades? – Riu por entre a dor do braço esquerdo. – Entenda, eu conheço Miroku há um bom tempo e ele sempre foi apaixonado pelo gênero feminino. Nós já passamos feriados em bares de strip-tease, ele era apaixonado, mas não tinha respeito algum pelas mulheres.
- Nossa Sesshoumaru, que bela história. – Ironizou.
- Não terminei, Sangô.
- Mas eu sei o que você vai falar. – A jovem suspirou. – Vai falar que ele mudou e que merece uma segunda chance.
- Ele realmente mudou, mas não por você. – Sorriu diante ao choque nos olhos dela. – Ele reencontrou uma amiga de infância, pelo o que ele conta, ele tinha feito uma promessa de se casar com ela e Koharu nunca esqueceu.
- Então Miroku já foi casado?
- Não, eles começaram a sair, mas Houshi nunca conseguiu sentir nada demais por ela. – Relaxou o braço esquerdo e seu sorriso desapareceu. – Eles acabaram terminando e Miroku percebeu o quanto as atitudes dele poderiam machucar os outros.
Sangô se afastou para pegar mais alguns instrumentos em sua maleta, Sesshoumaru se permitiu afundar naquelas lembranças. Naquela época já estava casado com Sara e Yume tinha pouco mais de um ano, sorriu ao se lembrar de como a esposa tinha discutido com Houshi e da forma como ela consolou o rapaz. Fora na mesma época que Hakudoushi se mudou para Kyoto e Kagome se mudou para o apartamento de Inuyasha.
- Nós falamos que ele tem uma "mão amaldiçoada". Não importa o quanto ele mude, sempre vai ter recaídas.
- Então eu devo dá-lo mais uma chance?
- Você faz o que você quiser. – Voltou a trincar os dentes pela dor no braço esquerdo. – Mas ele nunca sentiu o que ele sente por você.
O rosto da fisioterapeuta se tornou corado e um sorriso curvou seus lábios avermelhados, Sesshoumaru voltou sua atenção para o exercício que seu braço esquerdo realizava. Ficaram em um reflexivo silencio por cerca de dez minutos, observou o dia quente e iluminado através da janela e, pela primeira vez, sentiu-se aliviado por estar vivo. Mas foi apenas sentir aquela calmaria que sentiu raiva de si mesmo, como podia sentir-se feliz ou aliviado depois de tudo o que havia ocorrido?
- Bom, agora que você cumpriu sua promessa, como está se sentindo?
- Melhorando, apenas irritado...
- Irritado com o que? – Sangô o ajudou a se levantar para iniciarem o exercício com a perna.
- Começo a achar que o tolo do meu irmão, Higurashi e Houshi estão parando com suas vidas por minha causa. – Suspirou profundamente. – Hakudoushi faz o mesmo, em certa medida.
- E por que você acha isso?
- Inuyasha e Kagome dividem um apartamento no centro da cidade, mas eles passam todas as noites na minha casa. Houshi esta alugando a casa dele por passar mais tempo aqui do que lá.
- Você está esquecendo de Hakudoushi...
- Ele não gosta de me ver neste estado, mas também tem passado as noites aqui... menos ontem. Rin veio conversar com ele e Hakudoushi simplesmente foi embora com ela.
- Rin veio até aqui?
- Sim, mas apenas para conversar com Hakudoushi, ela parecia transtornada e ele não queria deixá-la sozinha.
- Entendo...
Passaram o resto da sessão em conversas banais, mas confortáveis, Sangô era uma boa pessoa, uma boa fisioterapeuta e, em um futuro próximo, grande amiga. No fim do dia, lá estavam Inuyasha, Kagome e Hakudoushi, prontos para distraí-lo , para cuidarem de Sesshoumaru. O youkai não conseguia entender que eles só queriam ajudar, mas aquilo o sufocava, sentia-se uma criança contrariada e a raiva o comia internamente, porém, seus olhos sempre se mostravam impassíveis.
No entanto, se recuperava.
Filled with so much hatred
Such a tied game
O fim de semana passou em uma torturante luta entre a raiva e a gratidão pelos amigos, que permaneciam em sua casa, não o deixando com um minuto de paz. Eles não estavam ali por Sesshoumaru, afinal, eles deviam saber que o youkai ia preferir ficar só e que a presença constante deles o sufocava. Eles estavam ali por seus próprios motivos, também tentavam enfrentar a perda de Sara e Yume.
Não queria lidar com o luto deles, queria sentir sua própria dor, queria refletir sobre aquela – que parecia tão longínqua – sessão de terapia. Precisava entender que ele não era o culpado, mas sua angustia e raiva o cegava. Precisava sair dali, pensar sem a pressão daqueles que o amavam. Se trocou e saiu, sem se despedir dos amigos. Pegou um taxi e parou no centro da cidade e vagou, andou até encontrar um parque vazio. Era uma ensolarada, mas fria, segunda-feira.
Sentia-se dividido por tudo aquilo e sua cabeça parecia querer explodir com tantos pensamentos e lembranças. Seu braço formigava, mas ao menos continuava a se recuperar, mesmo que lentamente, já sua perna estava melhor, ainda com os pinos. Não se importou com as mães e crianças o observando, apenas conseguia sentir o cheiro da grama, sentir os raios de sol, a falta de sua família e a culpa, aquela intensa e torturante culpa.
Ao levar os olhos ao relógio, não se surpreendeu ao perceber que o dia já tinha passado e que sua sessão com Rin começariam em vinte minutos. Levantou-se com dificuldade, sentindo todo o corpo dormente, mas ainda permanecia impassível, rígido. Pegou o taxi e não olhou para trás, em nenhum momento. Parou novamente em frente a aconchegante casinha verde, podia ver a esguia silhueta de Rin na janela, ela parecia arrumar a sala. Bateu levemente na porta e fora recebido por uma sorridente Rin.
- Boa tarde Sesshoumaru. – Abriu passagem para o homem.
- Boa tarde. – Sussurrou em resposta, enquanto entrava na sala de atendimento e sentava-se em uma poltrona.
- Antes de começarmos, eu queria me desculpar. – A psicóloga sorria sem graça, o que chamou a atenção de Sesshoumaru.
- Se desculpar pelo que? – Ele ergueu a sobrancelha.
- Por ter invadido a sua casa e sequestrado Hakudoushi. – Rin sentou-se na poltrona em frente ao youkai.
- Não se preocupe.
- Foi anti-ético da minha parte e nunca acontecerá novamente.
- Acontece, Rin. – Estranhamente, Sesshoumaru abriu um meio-sorriso imperceptível.
- Bom, como tem passado?
- Não sei. – Desviou o olhar. – Me sinto estranhamente irritado e culpado.
Rin aguardou pacientemente Sesshoumaru continuar sua linha de pensamento, mas isso não ocorreu. Ele apenas observou indiferentemente os desenhos na parede, sabendo que Rin o observava com um doce sorriso nos lábios, ela não o irritava.
- Quer me contar o porquê tem se sentido assim ultimamente? – Ele voltou a encara-la ao ouvir a suave voz dela.
- Eu mesmo não entendo. – Admitiu contra a vontade. – A culpa é obviamente pelo acidente, mas a raiva... – Ajeitou-se na poltrona e refletiu por alguns segundos. – Eu sempre gostei de ficar sozinho, não me preocupar com ninguém, mas desde que o acidente aconteceu, eu não passei uma noite sozinho. Não sei se eles tem medo que eu me mate ou faça qualquer loucura, mas chega uma hora que irrita.
- Então você só sente a raiva quando está com a sua família?
- Minha família morreu. – Sesshoumaru não desviou o olhar. – As pessoas que sempre me aceitaram e ficavam realmente felizes em me ver morreram. – Percebeu que a psicóloga não desviou o olhar ou ficou chocada, apenas suspirou e continuou. – Acho que a raiva não é tanto por eles, mas pela constante vigilância e preocupação. Até mesmo com Hakudoushi, não é normal dele fazer essas coisas desnecessárias.
- O que aconteceu com você e sua família foi algo trágico, mas que não afeta apenas você. – Ela sorriu tristemente. – Essa preocupação excessiva por parte deles nem deve ser por você, mas por eles mesmos. Você perdeu sua esposa e filha, mas eles perderam duas pessoas importantes para eles também.
- E eu sou obrigado a cuidar das feridas deles? – Respondeu ironicamente, mas com um forte tom de irritação.
- Você não é obrigado a nada.
- Sou apenas obrigado a vir nessas sessões de terapia. – Desta vez, ele permitiu que ela visse o sorriso dele, o que fez com que o sorriso de Rin ressurgisse. – A questão é que essas "reuniões" diárias são algo que eles mais precisam do que eu.
- Mas elas te fazem mal? – O sorriso desvaneceu.
- De certa forma, por isso que eu digo que são sentimentos estranhos... – Não entendia como conseguia falar livremente com a psicóloga, mas ela tinha um efeito calmante. – Eu cresci excluído da minha família e, de repente, as mesmas pessoas que permitiam que eu me excluísse, passam a ir todos os dias em casa. A raiva surge por me lembrar dessa época e saber que, agora que eles precisam de mim, eles estão lá... porém, agora eu tenho a chance de realmente conhecê-los.
- Então você nunca se interessou em se aproximar deles? Mesmo depois de tantos anos?
- Achei que lidaríamos com a minha raiva hoje. – Sesshoumaru falou francamente.
- E quem disse que não estamos lidando?
Aquele sorriso enigmático de Rin o surpreendeu. Maldita. Sesshoumaru sempre fora perfeito em ler as pessoas, nunca esteve no lugar da pessoa que está sendo analisada e era estranho, beirava a tortura psicológica. Estava tão ligado as suas emoções e lembranças no momento que nem mesmo havia parado para refletir no que estava acontecendo, mas Rin tinha razão.
- Na semana passada eu contei sobre minha infância e isso fez com que eu pensasse muito. – Falou depois de alguns minutos. – Eu queria ser a ovelha negra da família, esse era meu objetivo e a única pessoa que tentou "mudar o meu destino" foi Izayoi. Inuyasha, Kagome e Miroku se mantinham afastados de mim e Hakudoushi sempre apoiava as loucuras que eu tinha em mente.
- Você enterrou esses sentimentos por todo este tempo?
- O que eu deveria falar? – Ajeitou-se novamente na poltrona de forma impaciente. – Que a culpa de eu ter me tornado assim é deles? Isso é injusto e eu sei que eu posso ser insensível, frio, mas eles precisam de mim.
- E você precisa deles. – Rin voltou a sorrir docemente. – Mas para que vocês possam se ajudar, você tem que começar a falar e não só comigo. Além disso, você tem que aceitar de quem a culpa realmente é...
- Eu sei que a culpa é minha. – A olhou de forma nervosa, odiava ser o culpado.
- Você precisa entender o que fazer agora para diminuir esta culpa, pois pelo o que eu estou entendendo, sua raiva não é por eles. O objetivo da sua raiva, no meu ponto de vista, é contra você mesmo.
Sesshoumaru agora sabia e sentia-se aliviado ao perceber aquela dura verdade. Rin, sorrindo, se levantou da poltrona e abriu a porta do pequeno consultório, sendo seguida por um olhar intrigado do youkai, ainda faltavam vinte minutos da sessão.
- Vamos acabar mais cedo hoje? – Perguntou se levantando.
- Não, mas eu tive uma ideia.
XI
Ele a seguiu até o quintal no fundo da pequenina casa verde. O sol ainda estava se pondo, tornando o céu alaranjado, mas o que surpreendeu foi a beleza e simplicidade daquele pequeno recanto. Era gramado, com poltronas confortáveis e uma iluminação suave, olhou para a psicóloga impressionado, afinal, numa cidade grande como aquela, era raro pessoas ainda terem quintais. Ela ainda sorria, o que permitia que tudo não parecesse tão profissional ou obrigatório. Sesshoumaru sentou-se em uma das poltronas, ao olhar para a porta Rin havia sumido.
Conseguiu sorrir naquele pequeno momento. A raiva havia sumido, assim como a dor da perda, que já estava se desvanecendo. Não queria que aquela dor fosse embora, ou a culpa, pois era como se aqueles sentimentos fossem a única coisa que o ligava a Sara e Yume e abrir mão daquilo? Permitir que sua vida seguisse o rumo? Era como se elas não tivessem sido importantes e, o pior de tudo? Tinha medo de contar aquilo para Rin e receber a confirmação de que não tinha problema se sentir melhor, que não tinha problema seguir em frente. Foi quando voltou a olhar para a porta e constatou que a psicóloga realmente estava mudando sua vida.
Rin o observava silenciosa, calma e com aquele tentador sorriso doce. Não queria interromper as reflexões do youkai, então se manteve afastada, nos fundos, esperando que a terapia estivesse fazendo algum efeito. Era tão estranho conseguir ler aquilo por um simples olhar, mas Sesshoumaru entendia e conseguiu se sentir feliz de alguma forma, feliz por saber que, mesmo sendo um paciente, ela se importava genuinamente. A psicóloga voltou a se mover em direção as poltronas, fazendo com que ele notasse a beleza pura da pequena mulher e sentir-se extremamente desconfortável com tal pensamento.
- Aqui fora é mais tranquilo. – Ela começou, deixando uma bandeja com chá e xícaras na mesa que os separava. – Não é comum, mas parecia que você precisava de um pouco de ar puro.
- Tem certeza que não lê mentes?
A risada dela era diferente de qualquer coisa que já ouviu e era ainda mais contagiante que a risada de Sara. Observou o rosto avermelhado dela, os olhos fechados e a mão cobrindo os lábios avermelhados e sentiu um estranho medo, a mulher a sua frente era extremamente sedutora.
- Essa necessidade de ar puro era pela raiva? – Rin falou após alguns minutos.
- Também, acho que pensei muito no passado, na minha vida antes de conhecer Sara. Não sei, olhar para trás e ver tudo o que aconteceu, eu já não sou mais aquela pessoa e não suportaria fazer o que ele fez.
- Então além de fechado, como você era?
- Eu não te contei toda a minha história... – Agora o temor era por revelar aquela parte obscura de sua vida e ser julgado.
- Se você não quiser contar, eu vou entender. – Rin serviu o chá sorrindo. – Você deve me contar quando estiver preparado.
- Acho que estou preparado. – Ele sorriu imperceptivelmente e pegou uma das xícaras.
Olhou novamente para o céu, que começava a se encher de estrelas, não se preocupou se o tempo de sua sessão havia acabado ou não, a questão é que estava pronto. Pronto para compartilhar com alguém um capitulo de sua vida que não se permitia olhar. Voltou a olhar para Rin, que também olhava para o céu calmamente, começava a ver o que Hakudoushi havia visto nela e sentiu-se novamente estranho.
- Quando eu era adolescente, passei pelo meu momento de revolta, como todos. – Começou, sendo observado pela psicóloga. – Não sei, talvez eu quisesse chamar a atenção do meu pai ou talvez fosse uma forma de extravasar toda a raiva que eu sentia. A questão é que eu acabei fazendo parte de uma gangue e por isso eu fui mandado tantas vezes para a policia. A medida que o tempo passou, eu fui crescendo dentro dessa gangue e fazendo trabalhos cada vez mais horríveis, me tornei uma pessoa que me enojava.
- E como saiu disso?
- Sai com a ajuda de Izayoi e Hakudoushi, conheci Sara na mesma época. – Baixou a cabeça. – As coisas começaram a ficar muito complicadas, eu saia de casa na sexta-feira e voltava apenas na quarta, brigava muito... ainda tenho pesadelos dessa época. – Tomou um gole do chá e percebeu que os olhos castanhos de Rin continuavam tranquilos como sempre, sem uma sombra de julgamento.
- Você mudou por eles ou por si mesmo?
- No começo por eles, a culpa começou a ficar maior do que a raiva. – Não conseguia mais encara-la. – Mas comecei a me envolver mais com Sara e quis mudar, mas não é fácil. Deixar para trás todos aqueles sentimentos e tentar ser algo a mais.
- Pelo que eu estou entendendo, ao invés de lidar com tudo o que você sentia, você simplesmente os enterrou e tentou se recriar?
- Teoricamente...
- Talvez por isso você continue tendo pesadelos e sentindo tanta raiva. – Sesshoumaru ergueu os olhos âmbares para a psicóloga, que tomava um pouco de chá. – A perda de Sara e Yume trouxeram uma grande dor, com isso, você pode ter desenterrado – inconscientemente – todos os rancores e erros que queria esquecer.
- E o que eu devo fazer então?
- Tente sentir e confrontar seus temores. – Ela pousou a xícara na mesa e sorriu. – A dificuldade em mudar é conseguir lidar e integrar as partes negativas da sua personalidade e da sua história no que você deseja ser. Se você simplesmente enterrar o que não é aceitável em você, tudo o que você vai estar fazendo será usar uma mascara.
- Mas eu sou bom em usar mascaras.
- Isso é o que você pensa. – Ela sorriu divertida.
Sesshoumaru surpreendeu-se, mas sorriu. Rin estava se mostrando uma mulher surpreendente, uma pessoa inacreditável, isso porque ele nem mesmo queria contato com ela no inicio de tudo. Invejou seu primo por estar com ela, mas calou aquela pequena voz irritante, apenas ouvindo a voz de que sentir aquilo era errado, era uma desonra pela memória de Sara e Yume. Seu celular tocou, o que despertou de todos os devaneios. Percebeu que sua sessão havia se estendido por mais de uma hora.
- Acho que passamos um pouco do horário... – Comentou.
- Então nos vemos na quarta? – Rin se levantou e passou os longos dedos pelo vestido branco.
Acompanhou o youkai até a porta da casa e, pela primeira vez, se surpreendeu com uma atitude dele. Ao se despedirem, ele a beijou no rosto, algo que nunca esperava que ele fizesse, mas Sesshoumaru apenas sorriu com a expressão surpresa da psicóloga. Afastou-se da casa sentindo-se mais leve do que poderia imaginar.
Aquilo parecia mais do que certo.
It's enough, I've done all I can think of
I've chased down all my demons
I see you do the same
- Onde você estava? – Kagome perguntou irritada ao ver Sesshoumaru entrando na casa.
- Na terapia?
- Você passou o dia inteiro no consultório de Rin, então? – Porque tinha a impressão de que Kagome agia como mãe?
- Não, Kagome. Eu precisava sair um pouco e, depois, fui na terapia. – Falou cansado.
- E demorou quase duas horas lá? – A jovem parecia mais calma.
- Não sei, acho que sim... Enfim, vou jantar e deitar, não comi nada o dia inteiro...
Ainda ouviu Kagome reclamando na sala de entrada, mas foi para a cozinha, claramente ignorando a amiga. Um estranho sentimento de culpa se apossou dele ao relembrar o doce sorriso da psicóloga, ela era tão diferente de Sara. Amava sua esposa mais do que tudo, mas não podia negar que o sorriso de Sara escondia algo malicioso. Comeu algo direto da geladeira e subiu para seu quarto, tirou a roupa cansadamente e deitou na cama que, anteriormente, dividia com sua esposa.
Afastou a imagem frágil de Rin e lembrou-se da imagem feroz de Sara no tribunal, ou o sorriso infantil de Yume. A verdade é que sentia mais falta de Yume com sua girafa de pelúcia do que de qualquer outra coisa, a morte dela deixou um imenso vazio, sua vida havia perdido o sentido. Todo o seu trabalho, daquele dia em diante, não tinha propósito. Não percebeu, mas chorava. Cobriu o rosto com suas grandes mãos e acabou por adormecer.
Sonhou e, em seu sonho, conseguia sentir a imensa e esmagante raiva, era o mesmo pesadelo de todas as noites. Ouvia a voz de Sara, cantando aquela tola musica do radio, a risada de Yume e os gritos. Os gritos eram a maior tortura. Piscou e o cenário mudou, era aquele beco escuro de tantos anos atrás e, novamente, suas mãos estavam manchadas de sangue. O corpo... deuses... o corpo no chão...
Acordou suando frio, ao menos não havia gritado. Suspirou profundamente, mas a raiva ainda estava lá e ainda mais forte, era desesperador. Precisava dar vazão para aquela raiva, não suportaria viver com aquilo. Pegou o primeiro objeto que viu e o jogou contra a parede, o som era ensurdecedor, mas abafava a ira. Sorriu e fechou os olhos, jogando outros objetos contra a parede, até que sentiu o porta-retratos em suas mãos, a foto em família. Abriu os olhos e sentiu as lagrimas ao ver os sorrisos felizes de Sara, Yume e, até mesmo, o seu.
- Senhor Sesshoumaru! – A porta fora aberta por Jaken, que era seguido por Kaede, Kagome, Inuyasha e Miroku.
- Sim? – Virou o rosto para as sombras tentando esconder as lágrimas.
- Bem... – Kaede reparou nos objetos quebrados no chão. – Não é nada... – Sentiu o tom da pena e se levantou.
- Inuyasha, Kagome e Miroku, precisamos conversar. Chamem Hakudoushi, Taishou e Izayoi. – Se levantou, ainda de costas. – Agora, saiam.
Terça-feira passou lentamente. Havia passado o dia trancado em seu escritório estudando os casos que Bokuseno havia lhe passado, se aprofundar no trabalho não lhe deu espaço para planejar a reunião familiar que ocorreria a noite. Sufocou a ansiedade com os complexos e complicados casos, fez anotações, ligações, marcou encontros com clientes, fez o possível para não pensar na família, mas, o estranho, é que retirava certa coragem ao se lembrar do doce sorriso da psicóloga.
Tentou se afundar no trabalho pelo tempo que conseguiu, mas o dia passou tão rápido que se surpreendeu quando Jaken veio lhe avisar que os familiares haviam chego e o esperavam na sala. Se levantou, sentindo o braço dormente e pinicando e sorriu ao perceber que o dia inteiro ele não sentiu a sombra do acidente sobre si. Não havia sentido nada, nem as dores físicas ou emocionais. Tomou um breve banho, colocou uma roupa qualquer e desceu. Logo o nervosismo se apossou dele.
- Boa noite. – Falou calmamente, escondendo todos os temores que o atormentavam. – Peço desculpas por tê-los chamado tão urgentemente, sei que são ocupados. – Izayoi sorriu em resposta.
- Não se preocupe, Sesshoumaru. – Taishou falou seriamente. – Sabemos que tem sido difícil para você.
- Hoje não gostaria de falar sobre o acidente. – Apontou para o sofá e finalmente percebeu a presença de Inuyasha, Miroku e Kagome. – Vou falar com eles primeiro, se quiserem, o videogame está na sala de TV.
Esperou pacientemente os três saírem da sala, Taishou e Izayoi se sentaram no sofá, lado a lado, de mãos dadas. Um fino sorriso escapou de seus secos lábios. Sede... Não se sentou, andou até a mesinha de bebidas e se serviu de uma dose de whisky, olhou para o pai e madrasta e serviu uma dose para Taishou e uma taça de vinho suave para Izayoi. Entregou as bebidas e se sentou em uma poltrona, não sabia como começar, então tomou um gole para lhe dar coragem. Whisky e um doce sorriso...
-Eu sempre senti muita raiva. – Começou desconfortavelmente. – Muita culpa também. – Respirou profundamente e colocou o copo de whisky na mesinha ao seu lado. Riu nervosamente. – Eu me culpo por tudo o que acontece. Me culpei pela morte da minha mãe, me culpei por não ser o filho que você queria que eu fosse e, principalmente, eu me culpei pelo acidente. A minha real culpa é pela raiva que eu senti, é por ter me afastado e ter tido ações que afastassem vocês. E eu peço perdão, especialmente para você Izayoi.
Levantou os olhos e encontrou o rosto molhado da madrasta, que chorava silenciosamente, e um pequeno sorriso de seu pai. Não era aquela a reação que esperava. Respirou profundamente uma segunda vez, reunindo a pouca coragem que lhe restava.
- Eu errei, sou culpado de muitas coisas, mas minha esposa e minhas filhas morreram. É uma pena pensar que elas precisaram morrer para que eu finalmente entendesse que eu não sou o culpado de tudo, que eu também posso ser bom. Parte da minha família morreu, mas a outra ainda esta viva e eu não desejo passar o resto dos meus dias me culpando por não ter tentado. Eu sei que vai ser um processo demorado, mas eu quero tentar. Quero conhecê-los, quero me aproximar e quero ser filho de vocês, coisa que eu nunca aceitei. Este acidente mudou minha vida por completo e eu tenho que reconstruir tudo novamente, por que não começar com a minha família?
Izayoi sorriu por entre as lagrimas, deixou a taça de vinho no chão, se levantou e abraçou Sesshoumaru. Taishou continuava sorrindo e o filho conseguiu ler em seus lábios algo como: Vamos tentar. Sem aviso prévio, sentiu os braços de Kagome o enlaçando também e as figuras de Inuyasha e Miroku ao lado do pai, sorte. Não teria coragem de falar mais alguma coisa.
Esta noite conseguiria dormir.
XII
Quarta-feira chegou pontualmente no consultório da psicóloga. Rin ainda não havia chego do hospital, então sentou nos pequenos degraus que separavam a entrada da calçada e ficou observando os pedestres. A vida parecia mais simples sem toda aquela raiva acumulando dentro de si, mas a culta em relação à Sara e Yume prevalecia. Tentava encontrar soluções em sua mente, se tivesse prestado mais atenção à estrada, ou ter mudado de faixa, mas de que tudo aquilo valia? O acidente ainda aconteceu e sua família morreu, ficar preso naqueles pensamentos apenas lhe angustiavam ainda mais, porém, não conseguia ignorar aquelas ideias, bloquear aquela vil voz que lhe soprava no ouvido.
Começou a prestar atenção nos pedestres e a figura miúda da psicóloga se sobressaia das pessoas comuns, sim, ela era comum, mas estava se tornando tão importante que era difícil confundi-la. Rin não sorria enquanto andava, parecia mais séria do que o normal, mas continuava adorável. Sesshoumaru não sorriu ao vê-la, mas sentiu-se mais calmo. Ela levantou os olhos castanhos para ele e sorriu sincera.
- Estou muito atrasada? – Ela perguntou enquanto ele se levantava com dificuldade.
- Não. – Sua voz era fria, mas não a chocou. Abriu espaço para que Rin pudesse abrir a porta e a seguiu para o consultório.
- Quer se sentar no jardim como na sessão passada? – Sua voz era doce.
- Sim. – Sesshoumaru segurou o sorriso que seus lábios queriam dar.
- Vou fazer um chá e já começamos.
Rin saiu e deixou Sesshoumaru na entrada para o jardim, foi quando ele se permitiu sorrir. As vozes insistiam que aquilo era errado, que sentir-se aliviado ou feliz era uma desonra à imagem de sua família, entretanto, ignorou as pequenas vozes. Precisava seguir em frente e superar, mas não esquecer. Sentou-se em uma das poltronas no meio do jardim e ouviu as vozes se calando, lentamente, mas era tranquilizante. Aquele era o lugar que se sentia a salvo do mundo, a salvo de si mesmo.
Levantou os olhos e notou que Rin servia o chá, silenciosa, preocupada em não atrapalhar os pensamentos do youkai. Deuses, a presença dela lhe fazia bem, o mantinha são e ela tinha que ser tão bela? Não, eram as vozinhas o enganando para fazê-lo sentir-se mais culpado. Mas ela se sentou, olhou para Sesshoumaru e sorriu. Não eram as vozes, era a verdade, Rin era o que precisava no momento, a única coisa positiva e certa no caos que era seu mundo.
- Como está se sentindo hoje? – Ela perguntou, calma como sempre.
- Melhor. – Sesshoumaru permitiu-se sorrir sutilmente. – Na segunda-feira eu cheguei transtornado em casa, tive pesadelos e assustei todos. Nisso eu convoquei uma reunião familiar na terça-feira e comecei a resolver meu passado.
- E como foi isso?
- Taishou e Izayoi viajaram para me escutar, contei tudo o que discutimos aqui. – Desviou o olhar e pegou a xícara de chá. – Eles me aceitaram. Izayoi e Kagome choraram, mas tudo correu bem.
- Entendo. – Rin pegou a outra xícara e bebericou o chá quente. – Como você sentiu durante essa conversa?
- Eu estava nervoso, pensei em desistir, mas fui me acalmando. – Sesshoumaru nunca poderia revelar que fora o sorriso de Rin que lhe dera forças. – Mas em relação a isso eu ainda tenho muito o que fazer, me aproximar de novo, manter contato. A raiva esta mais acalmada, mas ando me sentindo estranho...
- Estranho?
- As vezes... é difícil... – Suspiro e tomou o chá, tentando acalmar a crescente ansiedade. – É como se eu não pudesse mais ser feliz. Fico tentando encontrar formas de solucionar o que aconteceu com Sara e Yume, assim como solucionei minha relação familiar, só que eu não posso... Nunca vou ter a chance de melhorar com elas e todas as vezes que eu me sinto bem, penso em tudo o que eu não poderei ser para elas e isso...
Parou. Não podia, simplesmente não podia deixar Rin entrar e conhecer todos os seus obscuros segredos. Não era justo, Sara nunca havia chegado tão longe quanto aquela psicóloga e Yume nunca teria a chance. Por que Sara e Yume perderam a chance e deram aquilo para uma desconhecida? Não percebeu que tremia, nem mesmo que olhava irritado para a inocente xícara de chá. Não sentia-se bem.
E Rin o olhou, os olhos castanhos brilhavam de preocupação e encorajamento. Ela era... de Hakudoushi. Rin sempre seria apenas sua psicóloga, não teria a chance de tê-la como sua amiga, como parte de sua vida. Ela nunca iria comer pizza e jogar videogame com Sesshoumaru, Rin se tornou a pessoa em que mais confiava, mas sua relação iria acabar e ela seguiria em frente, se esqueceria dele. Aquilo também não era justo.
- Sesshoumaru? – Ela sussurrou calmamente. O youkai a olhou friamente. – No que esta pensando?
- No quão injusto esta situação é. – Seu timbre era distante.
- Qual situação?
- Você. – Sussurrou sem notar, Rin sorriu desconfortável.
- Eu? – Sesshoumaru a olhou surpreso.
- Sim. – O youkai baixou a cabeça. – Eu venho aqui, te conto tudo, absolutamente tudo, confio em você. Quando acabar, eu vou perder uma pessoa que esta se tornando importante para mim.
- Nós vamos lidar com isso quando a hora chegar, o importante é você vivenciar e passar pelo luto.
- Não quero que a hora chegue. – Não conseguia encara-la. – Agora que aceitei a terapia, percebi que não quero uma psicóloga, quero uma amiga, o que é ridículo.
- Não acho que seja ridículo, mas é algo que teremos que passar. – A face de Rin era séria.
- Como as coisas deverão ser depois disso? – Sesshoumaru a encarou com raiva. – Se você se casar com Hakudoushi eu não poderei estar no casamento? Nas reuniões familiares eu não vou poder falar com você? Isso é injusto, ter que fingir que nada disso aconteceu.
- São muitas as alternativas, mas lidaremos com isso quando a hora chegar. – A expressão da psicóloga foi suavizando. – Temos que nos focar no que está acontecendo agora e esperar para ver como o fim da nossa relação vai acontecer.
- Mas é isso o que está acontecendo agora. – Respondeu rispidamente. – Quando fui conversar com meus pais, foi em você que pensei, pensei em todas as coisas que conversamos e no quanto você me dá forças para continuar.
- Eu não fiz nada, quem fez foi você. – Sussurrou.
- Quando eu penso em você ou no que estamos fazendo aqui, eu me sinto mal, por que é você que me dá forças para superar a morte de Sara e Yume. Me sinto mal por pensar em você e não nelas.
- É natural sentir-se assim ao pensar em alguém que não seja sua família.
- Não, não é natural. – Suspirou cansadamente. – Só me sinto assim quando penso em você.
- Você quer que eu te indique outra pessoa?
Pretty, pretty, please if you ever, ever, feel
Like you're nothing you're fucking perfect, to me
Seria mais fácil daquela maneira? Simplesmente se afastar de Rin e do lento progresso que faziam? A verdade era que sentia-se confortável ali, em meio a um belo jardim florido, tomando o chá quente que lhe acalmava. Sentiu sua raiva diminuindo e um triste sorriso cruzou em seus lábios. Olhou para Rin e percebeu que tudo aquilo havia a entristecido, aquele não era o seu objetivo, mas não conseguiu conter todas aquelas palavras e sentimentos.
- É complicado. – Voltou a falar serenamente. – Quero continuar com você. Eu estou conseguindo fazer coisas que eu não fazia e, na maior parte do tempo, me sinto bem. Não posso impedir o que penso ou sinto, porém, às vezes é difícil falar tudo isso pra você.
- Nossa situação é realmente complicada, mas somos adultos e somos capazes de resolver tudo. – Ela finalmente sorriu. – Não quero que me esconda nada, okay?
- Sim senhora. – Sesshoumaru responde sarcasticamente.
- Como tem dormido?
- Mal... O remédio que Mukotsu me passou para dormir é forte, e eu consigo dormir na maioria das noites, mas me sinto mal ao acordar. Sinto como se alguma coisa estivesse errada, sabe? – Voltou a tomar o chá. – Me sinto desconfortável, pesado e, às vezes, vazio.
- Mas você sonha quando toma os remédios?
- Não, talvez, se eu sonhasse, eu saberia o porquê me sinto tão mal ao acordar. – Um triste sorriso escapou de seus lábios. – Eu li a bula, sei que é um dos efeitos colaterais, mas algo esta me falando que não é apenas isso.
- Se você esta pensando assim, provavelmente não é apenas um efeito colateral. – Rin sorriu para ele. – É difícil para você falar tão francamente sobre você mesmo, não é?
- Sempre é, mas é algo que eu realmente preciso fazer, não? Exorcizar os demônios que estão em mim?
- Exorcizar? Não... – Ela riu baixamente. – Os demônios fazem parte de você, a ideia é entende-los, saber o que eles significam e usa-los.
- Isso sim deve ser difícil.
- Você supera suas dificuldades, por que não essa?
- Uma coisa é simplesmente falar, outra é confrontar... saber o que sou exatamente.
- E o que você é exatamente? – Rin o encarou com um sorriso no rosto e bebeu seu chá.
Sesshoumaru não sabia responder. Aquilo era terrível, sempre teve em sua mente coisas tão bem estruturadas e, agora, aquele vazio. Sempre fora o Sesshoumaru delinquente, ou Sesshoumaru advogado, Sesshoumaru marido, Sesshoumaru pai... o que era agora?
- Se eu falar que não sei, seria isso algo ruim? – Falou seriamente.
- Não. – O sorriso nunca a abandonava? – Isso significa que você tem um longo trabalho pela frente. O nosso objetivo é o processo de luto, mas podemos trabalhar nisso depois, em conhecer a si mesmo. É algo necessário.
- Você realmente quer me ajudar com isso? Afinal, o seu foco é o trabalho com as crianças, não?
- Mas eu também trabalho com adultos e, trabalhando com crianças com câncer, aprendi a trabalhar muito bem com os pais em luto. – O sorriso triste de Rin cortava seu coração. – Faz tempo que eu não trabalho diretamente com adultos, porém, acredito que não perdi o jeito.
- Rin... – Falar o nome dela lhe causava arrepios. – Você tem feito um ótimo trabalho, mas eu não posso continuar. – Sesshoumaru se levantou irritadamente. – Sangô tinha razão e eu não quero ser apenas mais um louco que fica atrás da psicóloga. Espero que tudo de certo e podemos nos ver em reuniões familiares...
- Hakudoushi se foi. – Rin falou após alguns minutos de silencio. – Ele falou que estava começando a ficar sério demais e, ao mesmo tempo, ele recebeu uma proposta para viajar pela empresa. Ele não queria contar para ninguém...
- E quando ele vai viajar?
- Meia-hora atrás. – Ela se levantou também e Sesshoumaru percebeu que os olhos castanhos da psicóloga estavam marejados. – Ele falou que ligaria para você quando chegasse.
- Para onde ele foi?
- Ele não me disse. – E novamente o sorriso incrivelmente triste. – Acho que nosso adeus realmente chegou. Vou te indicar para um outro psicólogo, você tem feito um ótimo progresso e acho que seria bom continuar.
- Farei isso... – Sesshoumaru se aproximou e tomou a mão de Rin. – Como esta com tudo isso?
- Eu ficarei bem. O importante é a sua recuperação.
- Espero vê-la novamente, Rin. Tudo o que eu te disse é verdade, mas nossa relação esta ficando difícil para mim, essa proximidade é complicada demais.
- Quem sabe no futuro... podemos ser amigos algum dia, talvez...
Rin saiu para buscar o cartão de um colega seu, ainda não entendia que a causa da desistência de Sesshoumaru era a afeição que ele sentia por ela. Simplesmente acreditava que as complicações eram decorrentes de seu envolvimento com Hakudoushi e, mesmo que isso havia acabado, ela havia perdido Sesshoumaru. Ao voltar, Sesshoumaru ainda estava no jardim, apreciando pela ultima vez aquele lugar e foi quando ela o viu como homem pela primeira vez. Não era o Sesshoumaru paciente ou o primo de Hakudoushi, mas um belo homem, viúvo e que nunca poderia ter.
- Ligue para ele amanhã no fim da tarde, vou conversar com ele antes... ele é muito ocupado e sua agenda esta sempre cheia, mas se eu o recomendar, ele abrira um horário para você.
- Muito obrigada, Rin. – Sesshoumaru sorriu suavemente. – Então adeus... por enquanto.
- Adeus. – E ela também sorriu. Virou-se de costas e o levou para a entrada da casa.
Era quase absurdo pensar que nunca mais entraria naquela pequena e aconchegante casa verde, mas assim era melhor. A imagem de Rin o torturava e os sentimentos que nutria por ela o tornava miserável, precisava superar a morte de Sara antes de qualquer coisa, por a imagem de sua esposa também o assombrava. Mas ao apertar a mão da psicóloga na despedida, finalmente percebeu que ela chorava silenciosamente.
- Rin... – Tocou levemente o rosto dela.
- Me perdoe... muitas coisas aconteceram hoje e eu não esperava que nossa relação fosse terminar.
- Voltaremos a nos ver e, quem sabe, poderemos ser amigos.
- Isso seria bom.
E aconteceu. Sesshoumaru e Rin não sabem exatamente como aquilo poderia ocorrer e nem pensavam na total falta de ética e o quão completamente errado aquilo era, mas fora tão bom... Sesshoumaru havia abraçado a psicóloga, se afastaram, apertaram as mãos... mas então Sesshoumaru a puxou e, estranhamente, Rin o segurou, foi quando os lábios de ambos se encontraram. Ele a segurava fortemente e ainda assim delicadamente pela cintura, enquanto ela enlaçava o pescoço dele, acariciando sua nuca.
Ficaram naquela proximidade por um bom tempo.
A demora foi absurda! Mas essa fic dá trabalho, muito trabalho... Como ela não é dividida normalmente por capitulos (são 4 capitulos em uma só postagem) fica meio complicado e bem trabalhoso, mas tento fazer o meu melhor.
Espero que gostem deste 3º tomo e notem que as coisas finalmente começaram a acontecer!
E Debs, seu presente continua!
Beijos!
