Capítulo IV

Estou em estado de semi-consciência. Ouço vozes à minha volta, mas não consigo responder.

Não entendi ainda onde estou, mas desconfio que seja internada na clínica. Tento me lembrar como foi que fugi da última vez. Porque se eles pensam que vão me manter aqui por muito tempo, estão enganados. Não vou ficar enjaulada novamente. Sinto algo tocar minha testa, meus olhos ainda estão fechados. Não tenho controle sobre eles.

- O que houve com você, Bella?

Edward sussurra no meu ouvido. Eu quero correr, quero fugir mais rápido que nunca. Mas meu corpo não me responde.

- Ela não reage, pai. O que estão dando a ela?

Pai? O Dr. Cullen também está aqui?

- Apenas soro. Ela ainda está se recuperando. O namorado dela disse que usaram cocaína, maconha e whisky.

- Ele esteve aqui?

- Sim, Alice, a empregada dela disse que Bella estava vindo da casa dele, liguei para ele e perguntei o que havia acontecido. Embora pelos sintomas eu suspeitasse que fosse uma overdose, ele só confirmou. Acho que ela está apenas descansando, quando estiver pronta ela vai acordar. Mas você não me contou ainda de onde a conhecia.

Essa resposta eu queria escutar.

- Eu dormi com ela na semana passada.

Como eu queria estar de olhos abertos para ver o rosto dele enquanto diz isso ao pai.

- Onde... onde a conheceu? - É claro que papai Cullen está surpreso, o filhinho dele perfeito não dorme com pessoas como eu.

- Em uma festa - a voz dele é baixa e sinto o arrependimento, não preciso estar de olhos abertos para entender isso, e dói. Eu sei que não mereço ele, mas isso não impede que as palavras arrependidas dele me machuquem.

- Ela é uma menina especial, Edward - a voz emocionada de Carlisle me surpreende - Quando assumi o caso ela tinha acabado de tentar fugir de uma clínica após ter tentado suicídio. Nenhum outro psiquiatra quis assumir o caso. Eu me responsabilizei por ela e ano após ano me frustro vendo como ela sempre encontra novas formas de camuflar os sentimentos. Já estava pensando em desistir dela quando finalmente ela começou a se abrir um pouco e me contar o que houve com ela na infância e adolescência. Ela foi ferida de todas as piores formas possíveis por aqueles que ela mais confiava.

Sigilo médico para ele não significa nada, pelo visto.

Eu queria muito continuar ouvindo a conversa e saber o que Edward iria dizer, mas justo nesse momento uma enfermeira entrou e os chamou para atender uma emergência.

Assim os próximos dias se passaram. Eu entrava e saía da escuridão. Muitos pesadelos me assombravam. Lembranças de um passado trancafiado no fundo do subconsciente estavam voltando e eu simplesmente não conseguia lidar com eles. Senti a respiração difícil, um aperto no peito. Quis gritar por socorro, mas a voz não saía.

Ouvi a porta se abrindo com um baque forte.

- Pai, corre. Ela está tendo uma parada respiratória.

O aperto no peito aumenta e eu sei que vou morrer. Não há nada mais para mim. A expectativa da morte é até animadora. Alice e Rose vão sentir minha falta. Mas elas tem seus maridos para consolá-las. Eu não tenho ninguém que se importe comigo o suficiente. Mike vai ficar triste, mas em pouco tempo se consolará nos braços de outra. Se já não está. Ele pensa que eu não percebo como ele trata Jéssica de forma diferente. Não diria que ele está apaixonado porque acho que ele não sabe o que é isso.

Amor, na perspectiva da morte senti falta de algo que eu nunca tive. Como pode isso ser possível?

- Fica comigo, Bella.

Ouço uma voz baixinha. E eu quero responder, eu quero ficar. De repente sinto as forças renovadas. É como uma epifania, é por isso que a minha vida não faz sentido. Eu não sei o que é o amor. Eu não tenho um motivo para respirar. Se eu sair dessa tudo vai ser diferente. Vou levar à sério o que Carlisle me diz e vou tentar me curar dos meus demônios. Eu posso, eu vou conseguir.

Mergulho na escuridão novamente.

Bip.

Bip.

Bip.

Isso é um bom sinal. Se estou escutando o monitor cardíaco é porque ainda não morri.

Bip.

Bip.

- Bella.

Me esforço e dessa vez consigo abrir os olhos.

Tem um par de incríveis olhos verdes me encarando. Ele abre um sorriso.

- Eu sabia que você ia acordar.

- Edw... ard - minha garganta dói.

- Bem vinda de volta.

- Onde eu estou? - forço meus olhos à volta.

É óbvio que é um quarto de hospital. O desespero bate. Preciso fugir. Não posso ficar aqui.

- Você está no hospital. Foi trazida para cá há duas semanas e está em coma desde então. Já avisei ao meu pai. Ele é o seu médico e pediu para ser avisado quando você acordasse.

Observo ele com atenção. Edward parece cansado e não está com roupa de médico, apenas uma calça jeans e um casaco de moletom preto. Olho para o sofá que está ao lado da cama e tem cobertas sobre ele.

- Você... você dormiu aqui?

Ele olha para os próprios pés e parece envergonhado. É a coisa mais linda que eu já vi. Ele passa as mãos nos cabelos.

- Sim.

- Por que? Você costuma dormir no quarto com seus pacientes?

Ele parece uma criança que foi pega fazendo arte. É tão fofo. Antes que ele responda, Carlisle entra no quarto.

- Isabella! É tão bom vê-la de olhos abertos novamente. Como está querida?

- Sinto como se tivesse sido atropelada, mas acho que vou ficar bem.

- Certo, precisamos conversar - Carlisle pega a prancheta e começa a escrever - Por que não vai para casa descansar um pouco, Edward?

- Claro, eu volto depois para ver como você está.

Ele beija minha testa e sai. Foi um gesto tão pequeno, mas tão grande para mim. Além de Alice nunca ninguém me tratou com esse carinho antes. Fico observando quando ele sai e fecha a porta. Continuo olhando para a porta por algum tempo mesmo depois que ele já se foi. Lembro que o Dr. Cullen está no quarto. Ele está de cabeça baixa ainda anotando algo, mas tem um sorriso no rosto.

- Bella, eu sinto muito, mas desta fez não posso fazer nada. Você vai precisar se internar por um tempo.

- Eu sei Carlisle, eu quero ficar internada.

Carlisle me olha com descrença, mas não comenta.

- Ok, o que eu posso fazer por você é te levar para a minha clínica.

- Eu gostaria de ir.

Ele parece surpreso, acho que ele percebeu a mudança.

- Mas eu tenho algumas condições para te aceitar lá - ele continua.

- Quais?

- Estaria disposta a ficar lá por três meses pelo menos?

- Sim.

- Bella, eu estou falando sério. Se você tentar fugir eu não vou mais me responsabilizar por você. Eu preciso que você queira se tratar e se esforce para ficar bem.

- Eu quero melhorar, não quero mais ser assim.

- Você está disposta a ficar esses três meses sem sexo?

Meu olhos se arregalam.

- Eu vou estar presa na sua clínica Dr. Pode deixar que eu vou tentar não fazer sexo com nenhum outro paciente.

- Você não vai ficar presa. Vai ter liberdade para sair. E aí é que está. Estou te dando um voto de confiança, mas preciso que você prometa que vai ficar esse tempo sem sexo e sem drogas. Você pode se comprometer a isso? Se você não estiver disposta a se comprometer não estou disposto a confiar em você novamente.

- O que mais eu posso fazer? Se o Dr. acha que isso é importante, eu me comprometo. Três malditos meses na seca.

- Estou falando sério, Bella. Eu sou psiquiatra, se você fizer sexo ou usar drogas, eu vou saber. É importante, faz parte do seu tratamento.

- Sim papai. Eu entendi. - falei com ironia

Ele abriu um sorriso.

E foi assim que eu fiz a mais fodida merda da minha vida. Como no inferno papai Cullen espera que eu consiga passar três meses sem sexo?