Capítulo V
Três dias depois já estava conseguindo comer e andar melhor. Ficar duas semanas deitada em coma fez com que minhas pernas ficassem um pouco fracas, mas agora está começando a melhorar.
Jasper está vindo com Alice trazendo minhas malas. Tive alta hoje, estou indo para a clínica do Dr. Cullen.
Estou um pouco nervosa. Minhas mãos estão tremendo. Sento-me na poltrona que tem ao lado da cama.
Edward pede licença e entra no quarto. Ele está com o uniforme azul do hospital e uma prancheta nas mãos. Tem sido assim todos os dias. Além da clínica, ele também trabalha aqui. Ele puxa uma cadeira e se senta de frente para mim
É a primeira vez que vejo ele de óculos. Ele parece extremamente mais gostoso com eles.
Não faço comentários. Tenho evitado muito contato com ele. O homem é bonito demais para minha sanidade. Preciso manter distância se pretendo cumprir com o tratamento absurdo que Carlisle sugeriu. Me pergunto se ele sabe sobre a proposta do pai.
- Bom dia, Bella. Como está se sentindo?
Com tesão. Não respondo a verdade, é claro.
- Bem - olho para baixo, não posso olhá-lo nos olhos quando tudo que eu quero fazer é chegar mais perto e lamber qualquer parte dele.
Ele chega mais perto. Sinto o coração batendo mais forte. Ele segura minha mão. Elas estão tremendo, muito.
- Está nervosa? - ele pergunta.
- Um pouco. Não gosto de estar em hospitais.
Tento retirar minha mão da dele e me afastar, mas ele a segura.
- Você pode me contar qual é o seu problema com hospitais. Falar sobre isso pode ajudar.
Eu abaixo a cabeça mais ainda. Não sei se consigo contar para ele a verdade. Ele faz círculos com os dedos nas costas das minhas. Onde está aquela Bella destemida agora?
- Não precisa falar se não quiser.
Respiro fundo e decido que não me fará mal falar um pouco sobre meus problemas.
- Meu irmãozinho, Taylor. Ele tinha 4 anos quando... quando sofreu o acidente que matou minha mãe e meu padrasto. Ele não morreu na hora...
Sinto as lágrimas descendo pela minha face. Não sei se consigo continuar.
Edward enxuga minhas lágrimas com o dedo e volta a segurar minhas mãos. Ele continua fazendo massagem com os dedos. De certa forma isso é relaxante. Sei que ele está apenas cumprindo o papel dele como médico. Mas isso não deixa de ser reconfortante.
- Ele... ele foi trazido para o hospital com vida, mas estava todo quebrado. Mesmo se sobrevivesse, as chances de ficarem sequelas eram enormes. Mas ele... ele não resistiu aos ferimentos. Passou dois meses no hospital. Em seu último dia de vida eu queria ficar ao lado dele, mas os médicos não permitiram. Eu pedi para me despedir, eles disseram que ele não estava morrendo.
Mas eu senti aqui - coloquei as mãos no peito - que ele não iria resistir mais. Ele estava lúcido, mas sentia muita dor. Eu insisti em ficar mais um pouco, Taylor teve uma parada cardio-respiratória. Os médicos correram para socorrê-lo, dois guardas me tiraram à força da UTI. Eu gritava e esperneava enquanto eles me arrastavam pelos corredores do hospital. Quando mais tarde me deram a notícia de que ele havia morrido, eu já sabia de certa forma.
Eu senti isso chegando. Meu coração doía por ele. Deveria ser eu naquele carro. Eu deveria estar lá com eles. Eu deveria ter morrido naquele dia. Ele só tinha 4 anos. Eu poderia dizer que minha mãe e meu padrasto mereceram o que tiveram, mas ele não. Ele mal começou a viver a vida. Isso me tirou toda a esperança. É por isso que não consigo ficar em hospitais. Eles me lembram aquele dia.
Levantei a cabeça e encarei aqueles olhos verdes.
- Eu sou uma pessoa ruim, Edward. Eu fiz coisas no meu passado que me arrependo. Eu não consigo sequer repetir em voz alta, mas acredite em mim. Eu merecia morrer naquele dia.
- Todos podem ter direito a uma segunda chance, Bella.
- Esse é o problema, eu não sinto que eu tenho esse direito. Eu não mereço isso. Eu não tenho pelo que lutar. Eu não tenho motivo para viver.
Ele segurou meu rosto com delicadeza e chegou mais perto.
- Não diga isso. Me deixa te ajudar.
- Eu já tenho um médico, Edward.
- Não como seu médico, como seu amigo. Eu quero te ajudar. Você precisa enxergar as coisas boas da vida. Eu sei que você não está me contando a história toda, mas eu vejo que te fizeram muito mal no passado. Você precisa ver a bondade dentro de si mesma. Se reencontrar e ser feliz.
Dei um sorriso fraco. Como dizer não a uma proposta dessas.
- Você pode se decepcionar comigo. E se eu não tiver esse lado bom que você diz. Eu estou quebrada, Edward. Pode ser que não haja reparo para mim.
Ele sorriu.
- Sempre há, Bella. Sempre tem um jeito de reparar um coração.
Hoje faz um mês que me trouxeram para a clínica. Meu quarto é muito claro e muito limpo. Todas as enfermeiras são simpáticas. Carlisle continua sendo o mesmo santo de sempre.
Participo de grupos de ajuda com problemas de vícios. Carlisle diz que sou viciada em drogas e sexo. Eu sempre dou risada quando ele diz isso.
Estou conseguindo me controlar. Descobri que o chuveirinho da minha suíte cumpre muito bem o papel de me manter entretida. Desde então estou um pouco mais relaxada para ficar ao redor das pessoas. E, é claro, sonho todas as noite com ele. Quando estou me dando prazer apenas um nome vem à minha boca. Poderiam dizer que estou trapaceando, mas tenho certeza que Carlisle não falou nada sobre masturbação. E ele não pode controlar os meus sonhos. Mesmo que todos sejam com o filho dele.
Não tenho visto muito Edward por aqui. Ele mandou Carlisle me dizer que não esqueceu o que me prometeu, apenas está preso no hospital com muito trabalho. Começo a pensar que ele se arrependeu e não tem coragem de me dizer.
Mesmo que eu possa sair daqui, não tenho ânimo para isso. Rose e Emmet vieram me visitar no último fim de semana. Eles estão pensando em largar o clube de swing e formar uma família de verdade. Fico feliz por eles estarem felizes.
Mike me ligou mais cedo, disse que vem me visitar esta tarde.
Estou neste exato momento em frente ao espelho colocando um vestido bonito. Eu poderia dizer que ele é decente, sem deixar de ser sensual. É azul marinho e cobre meu colo e minha coxas, coloquei um cinto fininho vermelho de fivela dourada na cintura, marcou um pouco a silhueta. Ficou perfeito. Estou tentando encontrar um meio termo entre a roupa de puta que eu costumava usar e as roupas comportadas que Alice me trouxe. Carlisle diz que eu sou bonita naturalmente, que não preciso me vestir como uma prostituta para chamar atenção. Ele diz isso como uma brincadeira, mas sei que está falando a verdade, tento acreditar nele. Penteio os cabelos e resolvo deixá-los soltos. Passo uma maquiagem leve e calço sandálias de tiras douradas sem salto. Mike vai levar um susto. Pareço uma pessoa normal. Muito bonita, mas ainda normal.
- Com licença, Bella. Seu namorado chegou - Ângela, uma das enfermeiras mais legais daqui me avisa.
- Já estou indo Angie, como estou?
- Uau, está linda Bella. Desde que chegou aqui que não te vejo arrumada assim.
- Pois é - dou um sorriso tímido.
Outra coisa que eu não falei. Desde que não tenho usado os calmantes e não tenho bebido ando muito mais tímida do que costumava ser.
- O Dr. Cullen pediu para avisar que vem te ver mais tarde.
- Claro Angie. Fala para ele que estarei lá fora com Mike, quando ele chegar é para me chamar.
Mike continua o mesmo de sempre. Com aquele sorriso que deixa todas as mulheres loucas. Todas menos eu.
- Olá, linda!
Ele me dá um abraço apertado e eu retribuo.
- Senti sua falta Mike.
Não estou mentindo, eu realmente senti.
- Tem algum lugar onde possamos conversar? - ele pergunta.
- Claro, vamos para o jardim.
Ele me oferece o braço e eu seguro. Quem olha de fora nem imagina o que nós dois já aprontamos juntos.
Encontramos um banco bem afastado, perto do lago da propriedade. Eu não sei se já falei, mas a clínica do Dr. Cullen mais parece uma mansão. É bem maior que a minha. Tem um jeito mais aconchegante como uma casa. Não tem aquele miasma de hospital. Talvez seja por isso que estou ficando mais à vontade aqui.
- Você parece melhor do que quando te visitei na semana passada - ele começa.
- Eu me sinto melhor.
Ele respira fundo, nós dois observamos as garças voando sobre o lago. Eu sei o que ele quer falar, mesmo assim. Deixo que ele leve seu tempo.
- Queria te pedir desculpas, Bella. Estava criando coragem para tocar no assunto.
Suas palavras me surpreendem, não era o que eu esperava.
- Eu sabia que você estava em tratamento e mesmo assim te ofereci drogas naquele dia - continuou - Eu sei que foi errado. Não sabe como fiquei quando Alice me ligou me dando aquela bronca por ter permitido que você se drogasse. Quando ela me disse o que aconteceu com você fiquei desorientado.
- Eu sou adulta, Mike. Poderia ter negado, se alguém é culpada, sou eu. Não se torture.
- Eu sei que você poderia ter negado, mas mesmo assim. Fiquei triste por ter sido eu a te oferecer. Jéssica eu eu conversamos bastante no último mês, ela é uma garota legal. Também é quebrada como nós dois fomos.
Sim, é esse o rumo que eu esperava para nossa conversa.
- Ela também ficou super mal quando soube o que houve com você. Nós dois nos comprometemos a não usar mais drogas também. Isso não nos ajuda a enfrentar nossos problemas.
- Fico feliz em ouvir isso.
- Você sabe o quanto eu gosto de você e o quanto eu te admiro como mulher, Bella. Em todos esses anos que estivemos juntos você foi uma parceira incrível. A melhor amiga que eu poderia ter. O fato de termos passado por problemas parecidos nos aproximou. Você sabe do que eu estou falando, não sabe?
- Sei, Mike. Eu sinto o mesmo.
- Você foi minha amiga, minha amante, minha cúmplice. Me ouviu quando ninguém mais poderia. Aceitou todos os meus demônios e procurou me ajudar. Só continuei a terapia por sua causa. Sempre irá fazer parte da história da minha vida, sempre vou lembrar de você com carinho.
Peguei a mão dele. Uma lágrima desliza pelo meu rosto.
- Eu também, Mike.
Beijo o rosto dele.
- Eu só quero que você seja feliz, Bella. E eu também quero ser feliz. Nós dois nos enganamos por tempo demais. Eu gosto da Jéssica e ela gosta de mim. Eu sinto por ela o que nunca senti por você. Você sempre foi e sempre será minha melhor amiga.
- Eu percebi desde a primeira vez que me falou sobre ela.
Eu sorrio para ele em meio às lágrimas.
- Você está triste? - ele pergunta.
- Não, estou feliz. São lágrimas de felicidade. Eu quero que vocês dois sejam felizes juntos. Você é uma pessoa especial, você merece isso.
- Você também merece, Bella. Ei não faça essa cara. Você é uma mulher linda por dentro e por fora. Não deixe que te digam o contrário.
Ele me abraça e eu choro no ombro dele. Ele chora também. Choro por todos os anos desperdiçados. Choro por tudo de ruim que nos fizeram. Choro por tudo de ruim que a vida nos ofereceu. Enfim choro por 27 anos de vida sem amor.
- Desculpe interromper - Mike e eu ainda estamos abraçados, Edward está parado de pé na nossa frente.
Mike olha Edward da cabeça aos pés, ele está com roupa de médico. A postura dele é séria. Ele parece cansado.
- Eu já estava de saída - Mike fala.
- Eu achei que tinham te avisado que eu estava vindo - Edward ignora Mike.
- Ângela me disse que o Dr. Cullen queria me ver.
Ele sorri e relaxa um pouco.
- Sim, esse seria eu. Não é a primeira vez que fazem essa confusão. Já disse para me chamarem de Dr. Edward, ou simplesmente Edward, mas elas não obedecem.
- Bom, Bella. Já que você tem que falar com seu médico - ênfase em médico - eu estou indo. Qualquer coisa me liga. Eu volto na semana que vem.
- Adeus, Mike.
Dou mais um abraço nele.
- Ele está com ciúme - Mike sussurra no meu ouvido.
Levanto a cabeça e Edward está olhando para o outro lado, a mandíbula travada. Será?
- Seja bonzinho - eu sussurro de volta.
Mike vai embora sorrindo. Me deixando sozinha com um muito sério Dr. Cullen filho.
Nota da Autora:
Muito obrigada pelas reviews, fico muito feliz de saber que estão gostando. Elas, mesmo que poucas, me impulsionam a continuar.
Me digam o que estão achando, vocês são o meu termômetro. Eu preciso saber se está bom assim.
Beijos! Volto assim que puder!
