Prólogo
A mulher olhou desolada ao seu redor. Estava tudo quieto e o ar pesado da noite esfriava ainda mais o coração daqueles ali presentes no meio das ruínas do que um dia havia sido Hogwarts, mas agora era apenas uma massa de concreto totalmente disforme. Aquela visão das ruínas do que foi "o lar longe do lar" de tantas gerações piorava tudo mais, se é que aquilo era possível. Ninguém tinha força nem mesmo para se desesperar, os choros eram silenciosos assim como as lágrimas que desciam pelo rosto dela. Eles ganharam. Finalmente. Depois de anos de luta.
Mas não havia o que comemorar. Os poucos sobreviventes estavam devastados demais pela perda de seus entes queridos para sequer
A chama de esperança por dias melhores sem Voldemort e seus seguidores, a qual guiou a maioria deles pela guerra, tinha se apagado. Afinal o Lorde das Trevas já não mais existia e mesmo assim o horror perpetrava pelos corações dos sobreviventes.
Sobreviventes. Era isso que eles eram. Eles sobreviviam porque já não havia mais pelo que viver. O que os tinha mantido ali, lutando enquanto assistiam tudo que amavam perecer, havia sido a vontade de vingança, o desejo de que outros não passassem o inferno pelo qual passaram, mas agora... agora não havia mais nada. Nem mesmo alívio. Só o vazio.
Selene Potter começou a andar, desviando das várias das dezenas de corpos estirados de qualquer jeito no chão. Já fazia duas horas que a batalha final daquela maldita guerra terminara, mas ninguém tinha força ou vontade para começar a contagem das baixas ou as preparações para os velórios.
O cheiro de morte era muito forte, rondando a todos e enojando a mulher a cada passo que ela forçava suas pernas a darem. Uma garota passou por ela, andando como uma zumbie, o olhar tão perdido quanto Selene apostava que o seu estava. Reconheceu-a vagamente como uma Hufflepuff de 15 anos. Nova demais para conhecer tantos horrores. Mas não o eram todos ali? Afinal os aurores mais velhos foram os primeiros a cair e no final só havia os adolescentes para lutarem as piores batalhas. Crianças que tiveram que crescer e amadurecer ou morreriam assim como o resto da família.
Família. Tantos órfãos. Tantos que agora estavam sozinhos no mundo porque nem mesmo seus amigos sobreviveram.
Potter apertou a varinha com mais força em sua mão e se obrigou a continuar e a ignorar todo o resto enquanto se focava em uma única coisa. Ela não podia parar. Precisava encontrar seu primo. Ele era a única coisa que lhe restava. Mas quando o encontrou, quase desejou que não o tivesse feito. Harry Potter estava agachado ao lado do corpo ensanguentado de uma jovem ruiva. Posteriormente, quando Selene se lembrasse daquele momento, ela provavelmente perceberia que foi ali que sua última centelha de esperança se despedaçou por completo. Ginny Potter, sua amiga e a esposa de seu primo, também estava morta e, com ela, toda a linhagem Weasley. Não sobrara nenhum daqueles ruivos adoráveis.
Os joelhos dela cederam e Selene caiu ajoelhada ao lado de seu primo. Sua mão tremia tanto que mal conseguiu se controlar o suficiente para apertar o ombro do amigo no que esperava fosse um gesto reconfortante. Aquele Potter, contudo, estava preso demais em seu próprio pesadelo para sentir qualquer coisa que não aquela pura agonia de ver que a pessoa que mais se ama se foi para sempre. Tão pouco ouviu quando Selene murmurou um quebrado "eu sinto muito".
Também não sentiu quando ela jogou os braços ao seu redor e o abraçou, procurando um pouco de calor humano. Qualquer coisa que lhe recordasse um pouco da humanidade que ela havia perdido entre uma luta e outra, entre um cadáver e outro.
Não sabia quanto tempo eles ficaram ali, Harry totalmente imóvel e indiferente a tudo enquanto ela continuava a chorar silenciosamente. O tempo não era importante ali. Não havia para quem voltar, não havia ninguém preocupado em casa, pois não havia mais ninguém para eles e só havia uma casa porque a Muito Nobre e Antiga Casa dos Black se mostrou impenetrável até mesmo para Voldemort. Acontece que magia negra antiga era mais poderosa que magia negra atual. E os escudos dos Black definitivamente eram muito antigos.
Em algum momento, quando o sol já começava a surgir no horizonte e alguém finalmente apareceu para tentar colocar alguma ordem naquele caos, Selene discretamente apontou sua varinha para as costas de seu primo e silenciosamente o colocou para dormir usando um feitiço. Eles precisavam sair dali.
A garota segurou no braço daquele que um dia foi conhecido como "o menino que sobreviveu" e aparatou os dois na frente do número 12 de Grimmauld Place. Suspirando, Selene fez um movimento com a varinha e levitou seu primo até um quarto qualquer no segundo andar. Propositalmente evitou o antigo quarto dele, pois era o que ele dividia com sua esposa. Selene não queria mais nenhum choque desnecessário. Talvez assim ele pudesse começar a se recuperar.
Infelizmente, como tudo o mais na sua vida, as coisas não ocorreram como aquela Potter esperava, como ela rezava para que acontecesse. Nos primeiros dias depois da batalha final, Harry ficou deitado, olhando para o teto. Não queria comer nada, mas bebia os líquidos que sua prima forçava por sua garganta. Esse estado mórbido do primo levou Selene à biblioteca Black em busca de qualquer coisa que pudesse ajudar. Não que seu estado também não fosse lastimável, mas Harry estava pior e com razão. A mulher nem poderia imaginar como ele se sentia ao perder sua família uma segunda vez. Primeiro os Potter e agora os Weasley.
Ela precisava fazer alguma coisa para ajudar. Por enquanto, o máximo que conseguia era preparar aquela poção, que encontrara no terceiro dia de pesquisa, para mantê-lo saudável enquanto ele se recusava a se alimentar. Por sorte, não era uma preparação complicada e tudo ficava pronto em menos de oito horas senão Harry também já estaria com a saúde seriamente comprometida.
Na segunda semana, o entorpecimento deu lugar à raiva e Selene teve que estuporá-lo mais uma vez antes que ele terminasse de destruir a casa com suas próprias mãos.
A terceira semana trouxe consigo a negação e tentativas da parte dele de saírem de casa para visitar a Toca porque "Ginny o esperava lá". Selene obviamente teve que impedi-lo de colocar o pé para fora da Casa dos Black porque a pressão da impressa poderia facilmente ser o estopim para que o herdeiro dos Potter sucumbisse de vez.
Na quarta semana, ele só se mexia pela casa, silenciosa e desesperadamente procurando qualquer coisa para fazer como varrer toda a mansão. E foi o que ele fez.
Selene tentava viver cada dia enquanto se preocupava com seu primo e lia cada livro possível na biblioteca Black tanto para se distrair da realidade triste em que os dois se encontravam quanto para tentar encontrar alguma coisa. Ela não sabia o que estava procurando, e isso era o mais frustrante. Mas era como se houvesse alguma coisa empurrando-a hora depois de hora sobre diversas páginas amareladas.
Na quinta semana que tudo terminou de desmoronar. Foi quando Harry sucumbiu. Foi quase como voltar a primeira semana só que dessa vez ele nem mesmo tomava as poções e se limitava a murmurar incoerência sobre Ginny e às vezes sobre Ron e Hermione como se os três ainda estivessem ali com ele. Selene ficou ao seu lado, observando impotente seu melhor amigo perder o vínculo com a realidade a cada novo dia que passava.
Não havia palavras para descrever como era assistir seu melhor amigo se perder. Harry Potter, o homem mais corajoso que conhecera, estava perdido entre seus fantasmas. Ele tinha ganhado a Segunda Guerra Bruxa e era vítima de depressão.
Ela não conseguia pensar em nada mais triste naquele momento. Na verdade, por vezes, Selene só queria deitar ao lado dele e esperar o próprio fim, assim como Harry fazia. Contudo, a biblioteca continuava atraindo-a, quase que sussurrando seu nome e, por algum motivo, ela continua respondendo àquele chamado sedutor.
Era um desses dias particularmente ruins. Os pensamentos deprimentes estavam mais fortes do que o normal e nem mesmo os livros pareciam distraí-la. Selene queria dormir. Dormir e nunca mais acordar. Por um segundo ela realmente se levantou da estofada cadeira, onde passava a maior parte do dia, com a intenção de fazer justamente aquilo. Foi quando um raio de sol da única e enorme janela artificial da biblioteca iluminou um ponto em particular das estantes abarrotadas.
Um som histérico soou por aquele cômodo e por um segundo ela chegou a acreditar que Bellatrix Lestrange estava ao seu lado. Selene chegou a se mexer para puxar a varinha e se proteger, os instintos de sobrevivência adquiridos com a guerra aflorando instantaneamente. Isso até ela perceber que era ela mesma quem ria daquele jeito maníaco e não outra pessoa.
E como não rir!? Aquela era uma situação patética. No instante em que ela também entregava os pontos, um raio de sol aparecia?! Quase como um sinal de Merlin aparecia para iluminar seu caminho! Era de rir mesmo.
Talvez ela também tivesse perdendo a sanidade. Deu de ombros e foi para onde o raio apontava. Ela já estava meio louca mesmo. Uma idiotice a mais não iria fazer diferença. Seus passos eram pesados sobre o assoalho de madeira nobre. Por razões desconhecidas, sua atenção foi imediatamente dirigida ao livro de uma capa verde escura e páginas muito amarelas. Selene puxou-o para fora da estante e passou os dedos sobre a capa. Só havia três palavras ali: Morgana Le Fay. Decepção varreu por seu corpo ao pensar que perdera tempo em mais uma biografia idiota sobre a maior bruxa da história. Dando de ombros e ligeiramente curiosa para saber quem tinha feito um trabalho tão porco em uma capa, ela abriu em uma página qualquer só para ter um súbito arrepio descendo por sua coluna ao ver a escrita à mão e em germânico. Rapidamente informações antigas voltaram à sua mente. Informações como a lenda de que Morgana, na verdade, tinha nascido na Alemanha e outras como a certeza de que a família Black era uma das mais antigas existentes.
Era ambicioso demais acreditar que aquele poderia ser um diário de Morgana, mas sabia que valia a pena ler. Nada mais estava ajudando e a cada nova página que ela virava, aquele sussurro que anteriormente a chamava em direção à biblioteca agora parecia mais e mais excitado. Como se ela tivesse achado o que estava procurando...
Seus joelhos pareciam fracos demais enquanto o sangue corria furiosamente por suas veias. Abaixou-se até sentar-se no chão, as pernas cruzadas. Seu alemão estava enferrujado, mas ela conseguia distinguir a maior parte das palavras. Os feitiços e poções ali presentes, se possíveis de serem executados, eram incríveis. Todos inéditos. Selene nunca nem mesmo ouvira falar de nenhum deles e ela havia ouvido, aprendido e feito muita coisa durante os anos da Guerra. As páginas passavam rapidamente, pulando as frases que não entendia, se contentando com o que conseguia desprender daqueles textos. Ela precisava chegar àquela página, mesmo não sabendo exatamente qual era. Selene só sabia que estava ali e que ela precisava achar. Era essencial que ela encontrasse.
Foi quase no final que por fim encontrou-a. As palavras "das Lied" e "die Zeit" imediatamente a deixaram em alerta. A canção do tempo. Os olhos dela varriam cada palavra, desprendendo por cima o sentido já que ela não tinha certeza da tradução exata de algumas palavras. Quando terminou a última instrução, sua cabeça rodava tão forte que o ar em seus pulmões parecia envenená-la. O livro escorregou por entre seus dedos entorpecidos e ela fechou os olhos, tentando controlar a respiração. Era como se estivesse de volta em um dos campos de batalha. Estava assustada. Quase tanto quanto da vez em que Yaxley apontou a varinha para sua garganta e teria terminado com sua vida se Hermione não tivesse interferido.
Oh, Hermione... Seu peito se contraiu mais um pouco ao se lembrar de sua querida amiga. Sua querida amiga que fora torturada com várias doses de cruciatos antes de ser assassinada por Bellatrix Lestrange em Hogsmeade pouco depois de ela e Ron terem localizado e destruído a taça de Hufflepuff. Se Harry e Selene não tivessem aparatado minutos depois e arrastado o mais jovem dos irmãos Weasley para longe, Ron também teria morrido naquele dia. E quem sabe tivesse sido melhor, pois logo depois da morte de sua noiva, o ruivo entrou em parafuso, preso entre o absoluto ódio e o desejo de vingança. Alguns dias e riscos desnecessários depois, ele também caiu, levando consigo outros quatro comensais.
Selene sacudiu a cabeça, tentando espantar aquele passado e se concentrar no presente. Foram necessários vários minutos para que se recuperasse o suficiente para voltar a atenção às folhas amareladas. Suas mãos tremiam ao voltar a página, com medo de ter sido apenas uma ilusão. Mas a releitura provou que as palavras eram bem reais. O feitiço continuava ali. Era obviamente magia negra e muito, muito antiga. E, ironicamente, era a única coisa que agora trazia esperança para os dois Potter.
Tomando extremo cuidado, ela fechou o livro e o segurou contra o peito, levantando-se e foi de encontro ao primo. Harry Potter continuava deitado naquela cama no quarto escuro, imóvel e encarando o teto – assim como ele tinha feito no dia anterior. Ela se agachou ao lado da cama e sussurrou:
- Hey, Harry. Como você está hoje?
Nenhuma resposta. Era como se ela não estivesse ali. Exatamente como das outras vezes. Tentou de novo:
- Que tal descer um pouco para comer alguma coisa?
Nada.
- Quer dar uma volta no Beco Diagonal ou em Hogsmeade? Nós podemos tornar você loiro e eu morena. Ninguém vai nos reconhecer. Pode ser divertido.
Ainda nada.
Selene engoliu o choro. Nem nos momentos mais cruéis da Guerra ela se sentiu tão perdida porque seu primo estava lá como seu alicerce. E agora sua rocha estava desmoronando bem na sua frente e não havia nada que ela pudesse fazer.
Fechou os olhos.
Na verdade havia. Mas junto com aquela possibilidade existia também o risco enorme de falhar e assim deixa-lo completamente sozinho. O que, todavia, havia para deixar? Aquele homem deitado não era o seu primo, mas apenas uma sombra opaca e triste do grande bruxo que Harry Potter um dia havia sido. Ele esta definhando cada dia mais. Eles estavam definhando.
Pensou por um segundo. Aquela decisão não era só sua.
- Harry. – começou, lutando para manter a voz estável – Eu achei uma coisa na biblioteca... um fe-feitiço. É pesado. Muito antigo e obscuro. – sua voz ficava mais baixa a cada palavra – Nunca foi testado e é muito arriscado. Mas ele garante a possibilidade de... – se engasgou nessa parte – ...de voltar no tempo. E-eu poderia tentar mudar as coisas já que manteria minhas lembranças e habilidades de agora. Só que existe a chance de dar tudo errado e eu estou disposta a correr esse risco, mas preciso saber sua opinião. Não quero te deixar sozinho. - passou a mão trêmula pelos fios rebeldes do cabelo dele - Por favor, por favor, converse comigo.
Esperou por uns segundo, mas ainda assim não houve resposta. Selene suspirou e estava prestes a se levantar, derrotada, quando lentamente ele voltou a cabeça para olhá-lo. No segundo em que os olhos avelã dela encontraram os verdes dele, a mulher soube que a decisão estava tomada. Aquele pequeno brilho que surgiu era uma fagulha de vida que há muito faltava nele. Mas, além disso, havia uma pergunta em seu olhar e Selene sabia exatamente o que era.
- Sinto muito, Harry. Você não pode vir comigo. O feitiço tem que se feito pela própria pessoa que vai viajar e exige muito energia. Sua mágica está em níveis muito baixos pela luta e por seu próprio ânimo. O fato de você ter se fechado em si mesmo está afetado a sua saúde e, com ela, sua mágica. Não tem nenhuma maneira de você conseguir concentrar e, mesmo que consiga, não vai ser capaz de completar a viagem.
Franziu o cenho, triste, e outra pergunta silenciosa flutuou entre eles.
- Minha magia vai ser o suficiente. – afirmou, forçando um sorriso fraco.
Mentira. Não tinha como ela saber ao certo, o risco, porém, valia a pena. Ela devia isso ao primo e a todos os outros que morreram em nome de um mundo bruxo melhor.
O olhar dele se suavizou – ainda havia o temor pela segurança dela, mas também esperança - e ela teve certeza de que estava fazendo o certo.
- Harry, eu sinto muito por ter falhado com você.
Ela sussurrou, verbalizando aquela tristeza. Selene queria ter feito mais para ajudar, para proteger a única família que lhe restara. Mesmo tendo feito tudo o que podia, ainda sentia que tinha falhado em algo.
- Vou consertar tudo. Eu prometo. – suas palavras eram tão intensas quanto o sentimento queimando em si.
Deu um beijo na testa do primo e apertou o livro contra seu peito.
Estava na hora. Selene precisa se preparar e executar aquele feitiço de uma vez antes que o medo e a incerteza a tomassem de assalto. O feitiço não era muito complicado em si, ao menos não depois de tudo que ela aprendera durantes seus anos lutando, mas envolvia a maldição da morte, o que era capaz de trazer arrepios mesmo àqueles mais bem treinados.
Suas pernas pareciam feitas de geleia quando se endireitou para sair do quarto. Seus passos eram pequenos e o chão tremia, mas, quando já estava passando pelo batente da porta, Selene teve a nítida impressão de ouvir um fraco "obrigado" e de repente sua força de vontade estava presente outra vez. Marchou escada abaixo e se trancou dentro da biblioteca.
- Kreacher. - chamou e imediatamente um suave estalo anunciou a chegada do elfo doméstico.
- A senhorita chamou Kreacher? – fez uma reverencia - O que Kreacher pode fazer pela senhorita?
- Kreacher, você tem servido lealmente a Casa dos Black e por isso lhe sou grata.
- Não, não. A senhorita não precisa agradecer. É o dever de Kreacher.
Assentiu com a cabeça, deixando-o dizer o que precisava.
- Eu sei que sim e é por isso que tenho uma última coisa para lhe pedir. Eu vou... – sua voz ficou presa na garganta por um minuto – Eu preciso fazer uma viagem muito arriscada. Não sei se conseguirei voltar.
Se não desse certo, ela estaria morta, mas não queria usar essas palavras e assustá-lo.
Engoliu em seco e tirou um papel cuidadosamente dobrado de dentro do bolso de suas vestes.
- Se eu não voltar em 24 horas, contando a partir do momento em que você sair dessa sala, você deve entregar esse papel a Draco Malfoy. – estendeu a carta em direção a ele.
O herdeiro e último membro da família Malfoy era um dos únicos aliados que sobreviveram a Guerra. No final, o loiro se provou tão digno de confiança quanto seus mais próximos amigos.
- Sim – sacudiu a cabeça repetidas vezes – Kreacher promete.
Selene precisava de mais do que uma promessa.
- Você jura em nome da Casa do Black e da honra que essa nobre Casa carrega ao longo dos séculos?
Os olhos dele se arregalaram ao ouvi-la pedir pelo juramento mais sagrado entre os elfos domésticos.
- Kreacher jura em nome da Casa dos Black e da honra que essa nobre Casa carrega ao longo dos séculos que entregará esse pergaminho ao jovem senhor Malfoy segundo as especificações da senhorita Potter.
A mulher assentiu, solenemente.
- Obrigada, Kreacher. Isso é tudo.
Com uma última reverência, ele se foi. Soltando um suspiro pesado, Selene empunhou sua varinha e começou a lançar feitiços pela sala. Feitiços para que o barulho não fosse ouvido nos outros cômodos, para que uma possível explosão ficasse confinada em um pequeno quadrado onde ela iria realizar o feitiço e mais alguns extras só por segurança. Quando se deu por satisfeita de que Harry não seria atingido por um ricochete, a mulher sentou-se no chão e abriu o livro outra vez.
Segurando firme a varinha com a mão direita, se concentrou para canalizar toda sua magia ali naquele momento. Então Selene começou a murmurar as palavras em alemão, entoando a Canção do Tempo. Felizmente sua pronúncia continuava perfeita e tudo fluía bem até que chegou o momento de definir o tempo que pretendia voltar. Os números em alemão sempre foram motivo de confusão para Potter, então ela teve que pensar um pouco, procurando a palavra "onze" em sua memória. Mais alguns palavras e finalmente chegara a parte final.
Selene virou a varinha para si e, por mais firme que tentasse se manter, sua mão tremia perceptivelmente. Ela fechou os olhos, segurou firme o livro e sussurrou:
- Avada Kedavra.
Por um instante nada aconteceu. Tudo parecia suspenso no ar, como se até mesmo a Terra tivesse parado de girar. E, de repente, tudo voltou em uma velocidade ainda maior, Selene pensou que o cômodo ao seu redor estava girando, mas inconscientemente sabia que era ela mesma quem estava me mexendo – se mexendo tão rápido que sua visão ficou borrada e o ar não entrava em seus pulmões. Ela estava sufocando. Abriu a boca, tentando desesperadamente puxar o ar para dentro, mas não foi bem sucedida. O mundo escureceu ao seu redor e já não havia mais nada.
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Selene podia sentir alguém chacoalhando seu ombro e aquilo incomodava. Todo o seu corpo doía. Doía como se tivesse recebido a maldição cruciatus. Abriu os olhos, mas sua visão ainda estava embaçada e seus ouvidos zumbiam. Às cegas, ela empurrou a pessoa desconhecida para longe, virou para o lado, se apoio no cotovelo e esvaziou o conteúdo do seu estômago revolto bem ali.
- Shiu. Calma – uma voz masculina sussurrou, segurando meu cabelo.
Com a pouca dignidade que lhe restava, ela passou as costas da mão pela boca e se virou em direção ao desconhecido. Ela precisava saber quem era, precisava saber se o feitiço tinha funcionado. Quando o rosto do garoto entrou em foco, Selene sentiu seu coração falhar uma batida e decepção varrer por seu peito.
- Harry... eu sinto muito. Eu pensei que funciona-
Interrompeu-se quando prestou atenção no rosto do amigo. Ele estava mais novo e não havia aquele brilho terrível que um sobrevivente de guerra tinha nos olhos.
Só havia... confusão... e juventude.
Mas Selene estava feliz demais para se preocupar com a surpresa dele.
Ela havia conseguido! Tinha voltado e iria consertar as coisas.
Jogou os braços envolta do pescoço dele, murmurando "Harry! Graças a Merlin!" diversas vezes. Alguns minutos depois, finalmente conseguiu se controlar um pouco para se afastar e encará-lo outra vez. Agora, contudo, o garoto tinha uma expressão totalmente atônita, mas não era isso que chamou a atenção de Selene. Tinha alguma coisa errada ali. Seus olhos expressavam várias coisas. Curiosidade e surpresa principalmente, mas não havia nenhum reconhecimento; como se nunca a tivesse visto antes e aquilo não era possível porque os dois tinham se conhecido no segundo ano de Hogwarts.
Foi quando Selene percebeu o que havia de errado. E o esclarecimento a atingiu com a força pulverizadora de um raio.
Ela cambaleou para trás. Para longe do garoto. Para longe daqueles olhos, os quais definitivamente não eram verdes.
Não eram os olhos de Harry Potter. Aquele garoto não era Harry Potter.
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N/a: Hey, love. Se você estiver lendo essa fic e gostando, por favor, comente. Obrigada 3
