Capítulo Um
- Hey, calma. Está tudo bem. – o garoto tentou se aproximar e outra vez Selene se arrastou para longe. – Está tudo bem. – parou de tentar alcançá-la, mantendo-se em uma distância segura – Você está segura agora.
- Q-quem é você? – sussurrou.
Selene sabia a resposta para aquela pergunta, mas rezava desesperadamente a Merlin que estivesse errada.
- James Potter. – sorriu.
Foi como se alguém tivesse chutado seu estômago quando ouviu a confirmação para suas suspeitas.
- James Potter?
Assentiu, muito sério.
- Mas... mas e Harry? – suas palavras foram um tom acima do mínimo audível.
- Desculpe. Eu não sei quem é Harry.
E de repente era demais para aguentar. A energia gasta para o feitiço e na viagem juntou-se ao choque da descoberta de que sim o feitiço funcionara - mas que mesmo assim alguma coisa deu muito errado – e foi demais. Seus olhos reviraram e seu corpo caiu inerte outra vez, desmaiada.
Dessa vez, Selene acordou por conta própria e em uma superfície muito mais macia e confortável do que o áspero chão em que se encontrara pela primeira vez com James Potter. A recordação do pai de seu melhor amigo trouxe de volta aquele problema. Ela cobriu os olhos com a mãe e tentou controlar a respiração para se concentrar. Como alguma coisa poderia dar tão certo e tão errado ao mesmo tempo? Onde ela havia cometido aquele erro? Depois de se concentrar tanto! Repassou tudo mentalmente duas vezes sem encontrar nada. Foi só na terceira que percebeu um erro tão imbecil que teve vontade de se chutar.
Ela recitou "achtundawanzig" e não "elf". Como ela poderia ter confundido o número 28 com o número 11 estava além de sua compreensão. Eles eram tão diferentes. Tão absolutamente diferentes. Ela se sentia o mais idiota dos seres.
Aqueles malditos números! Hermione insistira para que ela aprendesse a contagem correta, mas Selene tinha dispensado a ajuda da amiga, dizendo que tinha coisas mais importantes com as quais se preocupar, coisas que diziam respeito à Guerra. A ironia da situação não lhe passou despercebida. Justamente o detalhe mais importante para salvar o futuro bruxo dependia do conhecimento específico que ela dispensou propositalmente por achar supérfluo.
Lágrimas de frustração desceram por seu rosto e ela se permitiu essa fraqueza por alguns segundos antes de passar as costas da mão com força sobre os olhos, limpando aquela umidade. Era chegado o momento de encarar aquela nova realidade. Abriu os olhos, analisando atentamente os arredores. Estava em um quarto amplo e muito bem decorado. Tudo ali gritava riqueza. Depois de se assegurar que o ambiente não representava uma ameaça, ela passou a se analisar. Um diagnóstico rápido mostrou que não havia nada fisicamente errado, mas ela instintivamente sabia que aquele seu corpo não tinha 25 anos. Sua varinha, contudo, era necessária para determinar quantos anos exatamente tinha sua estrutura óssea agora.
SUA VARINHA! Por Merlin! Onde estava sua varinha?
Mais uma vez os exercícios de respiração foram necessários para que o desespero não a tomasse. Ela pesou suas opções por um instante. Ela poderia convocar sua varinha até mesmo usando um feitiço silencioso, mas isso poderia trazer implicações. Alguém poderia ver a varinha voando em sua direção e isso geraria perguntas sobre como uma adolescente poderia fazer mágica tão avançada. Então essa não era uma opção. A alternativa era sair e buscá-la manualmente.
Essa parecia ser a melhor ideia, afinal Selene também precisava saber exatamente onde estava. Empurrou os cobertores para longe e se levantou. Suas pernas felizmente estavam firmes enquanto ela, descalço, abriu a porta do quarto e se aventurou pelo longo corredor, buscando alguém ou alguma coisa que pudesse esclarecer suas dúvidas, mas a casa parecia totalmente deserta. A sorte dela só começou a mudar quando desceu as elegantes escadas para o segundo andar da casa, pois, ao passar em frente ao primeiro cômodo, ouviu vozes:
- Já disse que não sei, pai.
A voz de James fez Selene se encolher um pouco. Era apenas um tom mais grave do que a de Harry e isso trazia lembranças. Silenciosamente ela se aproximou mais da porta para escutar melhor. Os anos lhe ensinaram a colher o máximo de informações antes de fazer o seu movimento. Era quase um jogo de xadrez onde se analisava cuidadosamente os movimentos do adversário.
- Nós estávamos saindo para dar uma volta e de repente ela surgiu do nada, desmaiada. Nós não fizemos nada!
- Tem certeza, James querido? – uma voz suave e feminina perguntou, preocupada – Vocês dois têm essa... mania de pregar algumas peças. Claro que não achamos que vocês propositalmente derrubaram inconsciente uma garota, mas precisamos saber o que aconteceu para que possamos ajudá-la.
- James está dizendo a verdade, senhora P. – foi a vez de uma voz rouca entrar na conversa – Dessa vez não foi nossa culpa.
O silêncio pesou por alguns instantes e Selene deu mais alguns passos em direção à porta, com medo de que eles estivessem falando baixo demais para que ouvisse.
- Certo. Certo. Tudo bem. Nós acreditamos em vocês. – uma terceira voz masculina se fez presente – Mas isso nos deixa totalmente as cegas de quem ela é, porquê de essa garota estar aqui e como ela reconheceu você, filho.
- Talvez nós devêssemos ver se ela já acordou. – a voz mais rouca sugeriu – É o único jeito de conseguir algumas respostas.
Aquilo a colocou em alerta. Não havia nenhuma maneira de ela, no estado zonzo atual em que se encontrava, correr o suficientemente rápido para voltar ao quarto antes de algum dos ocupantes daquele cômodo saísse para procurá-la. Sua única chance de não ser pega espionando era se fazer presente antes de ser descoberta. Selene passou a mão pelo cabelo e pela calça jeans e blusa azul que usava, tentando ajeitá-los, antes de bater de leve na porta e entrar naquela que descobriu ser uma enorme biblioteca.
Todos os quatro imediatamente viraram-se para encará-la. O cérebro de soldado da garota primeiro analisou os possíveis oponentes. Ali, sentados em um sofá de dois lugares, estava um casal muito elegante e, aparentemente, na faixa dos cinquenta anos; já nas duas poltronas individuais ao lado, se encontravam dois adolescentes. O primeiro era obviamente James Potter - uma cópia perfeita de Harry com seus cabelos desgrenhados – e o segundo era o cara mais lindo em que Selene já colocara os olhos. Ele tinha os cabelos sedosos tão pretos que quando o sol batia pareciam azuis, seus olhos eram azuis acinzentados e lhe lembrava de alguém vagamente familiar. Depois sua mente fez uma varredura rápida para encontrar possíveis rotas de fuga de emergência e só então Selene voltou a olhar para os quatro. Ninguém tinha se mexido para falar, o que significava que o primeiro passo teria que ser dela.
- Oi. – sussurrou.
Imediatamente a outra mulher presente abriu um sorriso gentil e respondeu:
- Olá, querida. Como você se chama?
- Selene.
- É ótimo conhecê-la, Selene. Meu nome é Dorea Potter, mas talvez você já saiba disso. - não havia nem uma gota de presunção em seu tom.
- Já saiba? – franziu o cenho.
- É, querida. – foi o senhor ao lado de Dorea quem respondeu – Quando nosso James trouxe você para dentro, não podemos deixar de notar o seu anel.
Anel? Selene ergueu a mão, analisando-a. E, realmente, lá estava, em seu dedo anelar direito, o brasão da Casa dos Potter belamente encrustado em um rubi enorme rodeado de pequenos diamantes. A garota se esquecera completamente daquela joia que sua mãe lhe dera, como manda a tradição bruxa, em seu aniversário de quinze anos. Simbolizava que pertencia àquela antiga família, pois só alguém com o sangue Potter poderia usá-la.
Ela precisava de uma história sobre quem era e porque estava ali, uma que contivesse uma razão crível para se manter perto da família Potter já que seu plano original de voltar à adolescência de Harry não tinha funcionado. Seu cérebro trabalhou furiosamente procurando algo e quando achou, ao recordar as histórias que sua mãe lhe contara sobre a família, o alívio foi instantâneo.
- Sim, acho que sabia. Mesmo sem nunca tê-la conhecido, tia Dorea. – murmurou, tentando soar o mais inocente possível.
Ao ouvir como a garota chamara a senhora daquela casa, todos arregalaram os olhos, incluindo a pessoa a quem o cumprimento foi dirigido.
- "Tia"? – sussurrou James, incrédulo.
- Sim. – assentiu outra vez – Meu nome é Selene Potter.
Eles sabiam que ela era uma Potter, mas ouvir a confirmação tão incisiva ainda os surpreendeu visivelmente.
- Prongs, por que você nunca me disse que tinha uma prima? – o belo moreno cochichou baixinho para o amigo.
- Porque eu não sabia! – exclamou de volta, o olhar ainda fixo na garota.
- Talvez você devesse explicar um pouco melhor, querida. Por que não se senta aqui? – Charlus Potter também foi muito gentil ao falar e apontar para o assento ao lado de seu filho.
Abrindo um sorrisinho amarelo, ela fez o que lhe fora indicado. Estava na hora de começar a atuação.
- Tio Charlus, eu sinto pela maneira como apareci em sua bela casa. Foi muito indelicado da minha parte.
Ele piscou, surpreso.
- Não tem problema, querida. Agora porque não me conta um pouco sobre sua família. Eu sinto muito, mas não me recordo do seu rosto. Talvez tenhamos nos conhecido quando você era muito pequena? – sua afirmação soou mais como uma pergunta.
- Sim, sim. Vou esclarecer tudo, mas antes preciso saber uma coisa. Hoje é dia 23? – chutou um número qualquer, torcendo para estar próxima do dia certo.
- Dia 21, na verdade. – Dorea respondeu – 21 de junho de 1977
Ao menos nisso sua sorte lhe sorrira. Esse dado cairia como uma luva para complementar sua mentira.
- 21! É claro. Desculpe. Fiquei um pouco confusa por causa da viagem. Foi muito longa. – virou-se para o senhor Potter e sentiu-se mal pela notícia que iria ser obrigada a lhe dar – Tio Charlus, eu sinto muito, mas, há exatas duas semanas, seu irmão Anthony, meu pai, faleceu.
O ar no cômodo ficou tão pesado que era possível cortá-lo com uma faca.
- Anthony está morto? – sussurrou, a voz embargada com lágrimas contidas. – Como?
Dorea, que tinha perdido toda a cor do rosto ao ouvir aquela notícia, rapidamente se aproximou mais do marido, oferecendo conforto. Ela não era muito próxima do cunhado. Sempre o considerara impulsivo demais, mas seu coração se contraia de tristeza ao imaginar o que seu querido marido sentia ao perder pela segunda vez aquele que um dia fora seu melhor amigo.
- Eu sinto muito, tio Charlus. Ele contraiu pneumonia aguda e se espalhou rápido demais.
Tudo isso era verdade. Sua mãe lhe contara isso. A diferença era que Anthony Potter não era seu pai, mas sim seu avô.
O chefe da Casa dos Potter estava muito abatido ao passar os dedos pelo cabelo e desviar o olhar, encarando o teto por um segundo. Selene ficou quieta, chateada por ter que ser a portadora de más notícias. O fato de que aquelas informações eram necessárias para sua história não significava que ela tinha que gostar de usá-las.
- Nós também sentimos muito por sua perda, querida, - Dorea murmurou depois de um tempo.
- Tudo bem, tia. Já comecei a me acostumar com a ideia. – sussurrou, olhando para o chão.
- Por favor, Selene, continue.
Ela limpou a garganta antes de continuar:
- Eu não sabia que vocês existiam até um dia depois que ele faleceu. Meu pai me deixou uma carta explicando que vocês romperam relações há muito tempo e as orientações para chegar aqui.
Aquilo era mentira.
- E-eu sinto muito por ter aparecido de surpresa. É só que... eu não tenho mais ninguém.
A sra. Potter lhe lançou um olhar tão maternal e amoroso que a aqueceu por dentro e, ao mesmo tempo, a fez sentir mal por estar, de alguma maneira, se aproveitando da bondade deles. A única coisa que lhe reconfortava era o fato de ela estar mentindo por um motivo nobre e não por maldade.
- Oh, querida! Você é muito bem-vinda em nossa casa.
- Muito obrigada, tia Dorea. Mas eu não quero me impor. Só estava pensando em fazer uma visita e conhecê-los melhor e depois ficar em algum hotel até o começo do ano letivo em Hogwarts. – dei de ombro, tentando parecer tímida.
Mentira. Eu queria ficar ali com eles, esse era o plano, mas não poderia deixar isso tão explícito. Se essa parte não saísse como o planejado, teria que protegê-los de longe, o que dificultaria tudo. A resposta dela trouxe quatro reações diferentes:
- Não seja absurda, querida. Você vai ficar conosco, é claro!
- Hogwarts?
- Em qual ano você está?
- Você fica conosco! Nós Potter valorizamos nossa família.
Selene jogou a cabeça para trás, surpresa com a intensidade da resposta do casal Potter.
- Eu realmente não quero causar mais problemas.
- Por favor, Selene. – foi o patriarca Potter quem falou, determinação escurecendo seus olhos – Eu já perdi meu irmão. Não quero perder minha sobrinha também. Você fica na Mansão Potter.
- Eu... Eu adoraria, tio Charlus. Muito obrigada. – falou baixinho.
- Ótimo! – Dorea se levantou, puxando o marido pela mão - Já que estabelecemos isso, eu vou arrumar um quarto para você, querida, enquanto vocês três se conhecem melhor.
Selene sabia que ela estava saindo para buscar privacidade confortar seu marido.
Dorea se abaixou e envolveu a garota em um abraço maternal.
- Nós ficamos muito felizes por você estar aqui conosco. – sussurrou, afastando-se para dar espaço para que o marido também abraçasse a sobrinha.
Charlus Potter não disse nada ao abraçá-la. Apenas sorriu para ela, carinho em sua expressão e Selene sentiu seu coração se contrair um pouquinho ao ver aquele que se parecia tanto com as fotografias do avô que ela nunca conheceu. Anthony Potter realmente morrera há duas semanas, mas ele nunca deixou uma carta para sua filha. Grace só descobriu sobre o resto de sua família quando Selene decidiu voltar para Londres para estudar em Hogwarts e conheceu Harry. Então ela não tinha que se preocupar com sua mãe aparecendo a qualquer momento para desmenti-la porque simplesmente não tinha como Grace saber.
Quando os dois Potter mais velhos saíram, os dois adolescentes se viraram para ela, analisando-a intensamente. Selene nem precisou se esforçar para manter a expressão neutra, esperando uma conversa mais leve dessa vez. O que ela não esperava era que James disparasse:
- Quem é Harry? – arqueou a sobrancelha.
Selene sentiu empalidecer.
xxx
N/a: What's up, amorzinhos? Será que tem alguém lendo? ;)
