Capítulo Dois
- Harry? – sussurrou, franzindo o cenho.
- É. Quem é Harry? – perguntou, curioso, mas educado – E por que você me chamou assim?
A pessoa mais importante da minha vida, minha única família, o salvador do mundo bruxo, seu filho, o menino-que-sobreviveu. Fique a vontade para escolher entre um dos títulos mais conhecidos dele. - Pensou ironicamente.
Claro que ela não poderia dizer nada daquilo, então, outra vez Selene forçou seu cérebro a trabalhar rápido em busca de uma resposta plausível. Felizmente aquela não era uma questão muito difícil e rapidamente vocalizava a mentira:
- Eu pensei que seu nome fosse Harry.
- O quê?
- A carta falava sobre tio Charlus e tia Dorea e, depois de uma pesquisa, eu descobri que eles tinha um filho. Acho que li em algum lugar que seu nome era Harry. Devo ter me enganado. – deu de ombros.
Ele não parecia totalmente convencido.
- Se é assim, então por que você ficou decepcionada quando te disse que meu nome era James?
Perceptivo. Muito perceptivo. Aquilo poderia ser perigoso. Selene não poderia se descuidar.
- Porque pensei que tinha errado o endereço e ido parar em frente à casa de outro membro da família Potter que não a dos meus tios. E a viagem foi muito longa. Você também ficaria frustrado.
Ele pensou por um momento, mas assentiu. Acreditava nela. Aquela reposta parecia bem lógica.
- Infelizmente não há outros Potter além de nós. Para ser bem sincero, nem mesmo sabia que meu pai tinha um irmão mais novo antes de hoje.
- Eu também não fazia ideia antes de ler aquela carta. Acho que é um assunto muito delicado. – falou, cuidadosamente – Essa briga entre eles, digo.
- Concordo. – assentiu solenemente – Você sabe o porquê de eles terem cortado relações?
- Não. Não faço nem ideia. Mas e isso de não haver outros Potter? – mudou de assunto – É só a gente então?
- Só a gente. Mas não se preocupe. Eu valho por vários! – sorriu, convencido.
Ela respondeu com uma revirada de olhos.
- Ok. Agora que já esclarecemos isso. Você vai me apresentar o seu amigo aí?
- "Amigo"? Como não sabe que também não sou um Potter?
- Minha pesquisa disse que Charlus e Dorea Potter têm apenas um filho.
- E disse também que o nome dele era Harry.
Raciocínio rápido o dele. Interessante.
- Touché. – Selene sorriu – Então, você é um Potter? – perguntou, condescendente.
- Não. Meu nome é Sirius Black.
Selene arregalou os olhos. Sirius. Claro! Era óbvio agora que se analisava os detalhes da figura dele. O Black em sua frente estava extremamente diferente do pobre homem que ela conhecera quando tinha 14 anos. Os anos em Azkaban visivelmente roubaram toda aquela beleza, juventude e esperança presentes no Sirius adolescente.
Ela não iria deixar isso acontecer novamente. Dessa vez Sirius não seria enterrado vivo e inocente naquele inferno na Terra. Não iria permitir aqueles que aqueles fantasmas horríveis voltassem a assombrar o olhar dele.
- Sirius é um Potter honorário. – James completou, orgulhoso.
- Então, para sua felicidade, não somos parentes sanguíneos, Kitten.
Kitten?
A loira não sabia se ficou mais surpresa pelo tom de flerte que ele usou, pelo apelido idiota ou por esse apelido idiota ser tão... apropriado e, mesmo assim, ninguém nunca tê-lo usado antes para ela.
- Meu nome é Selene, Black. – arrastou as palavras - Fique a vontade para usá-lo.
- E qual seria a graça nisso?
A garota Potter lhe lançou um olhar significativo e ele fingiu pensar por um momento.
- "Selene"? – murmurou, batendo o dedo indicador no queixo.
O nome rolou pela língua dele e a loira sentiu um arrepio descer por suas costas, mas permaneceu impassível.
- Não. – sacudiu a cabeça, rindo - Prefiro Kitten. Combina mais com você.
Ela revirou os olhos e pensou em discutir, mas havia tópicos mais importantes no momento.
- Tanto faz, Black. – voltou seu olhar ao seu mais novo primo – James, onde está minha varinha? Você pe-pegou ela, certo? - sua voz tremeu por um instante.
A possibilidade de sua varinha ter se perdido no meio da viagem não lhe passara pela cabeça até agora. Por um momento, a chance de ter perdido sua mais preciosa posse lhe causou um pânico paralisante. Felizmente, James não demorou para assentir e pular da poltrona em que estava, murmurando que iria buscar "suas coisas". Selene não entendeu o uso do plural, mas estava aliviada demais para se importar com esse pequeno detalhe. Mais calma, Selene se voltou para o moreno e começou uma conversa fiada:
- Então, você e James são amigos?
- Pode-se dizer que sim. – colocou os pés sobre a mesinha de centro e cruzou os tornozelos, seu olhar nunca abandonando a garota.
Selene abaixou a vista para aquelas coturnos pretos sobre a madeira cara e depois voltou para ele, arqueando a sobrancelha.
- Preocupada com as minhas maneiras, Kitten? Talvez você possa me ensinar uma coisinha ou outra. Não me oponho a ser treinado... desde que receba algumas recompensas em troca.
Estreitou os olhos e tinha uma resposta na ponta da língua, mas foi poupada de usá-la por James voltando ao cômodo.
- Deixa de ser cachorro, Padfoot. – deu um tapa na nuca do amigo.
- Não me bate, seu viado.
Eles se encararam, sérios por um momento, para logo depois caírem na gargalhada, rindo da coincidência de suas palavras com suas formas animagas. Selene também não pode evitar um sorrisinho. Era interessante ver a maneira como eles interagiam.
- Aqui, priminha. – estendeu o que tinha em suas mãos.
Selene teve que disfarçar a surpresa ao receber junto com a varinha, aquele conhecido livrinho verde.
- Kitten, eu já te disse que garotas que falam uma língua estrangeira têm um apelo especial? Apesar de não entender nada.
- Vocês mexeram nas minhas coisas? No meu livro?
Os dois tiveram a decência de parecerem envergonhados. Ela não estava brava dessa vez - porque a felicidade por aquele artefato importante ter viajado junto com ela, o que claramente facilitaria um pouco seu trabalho graças aos diversos feitiços e porções poderosos contidos nele – mas isso não a impedia de atormentá-los um pouco.
- Desculpe por isso. – James coçou a nuca.
- Mas foi com boas intenções. Estávamos tentando descobrir mais sobre você.
- Para ajudar.
- É. Afinal garotas caindo do céu não é normal, mesmo no mundo da magia.
- Já vi que esse é um complô que não posso vencer. – respondeu, revezando o olhar de um para o outro – Tudo bem. Dessa vez passa porque a desculpa é boa. Mas não se acostumem e não tentem fazer isso de novo. Eu tenha essa... mania – propositalmente usou a mesma palavra que Dorea usara para descrever o comportamento deles – de guardar meus pertences com algumas azarações a fim de evitar intrometidos. Então não muito seguro para vocês. – estalou a língua, divertida.
Sirius umedeceu os lábios antes de murmurar:
- Eu adoro um desafio.
- E eu adoro ver um pretencioso tendo exatamente o que merece. – falou no mesmo tom que o dele.
Sirius pareceu surpreso por um segundo antes de abrir um sorriso sincero. James, por sua vez, caiu na gargalhada de novo e disse:
- Você vai se encaixar direitinho nessa família, prima.
A loira também sorriu. Ela não se sentia tão leve assim em muito tempo.
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Na hora do jantar, Selene se sentou ao lado de Dorea, que estava ao lado direito de Charlus, sentado na cabeceira da mesa, e de frente para Sirius, que estava ao lado de James. Eles apreciavam uma deliciosa refeição preparada por elfos domésticos enquanto discutiam amenidades. Sel tinha certeza de que Voldemort já começara a recrutar e a se fazer presente – não poderoso o suficiente para inspirar aquele medo todo, mas o bastante para já ser considerado, pelo Ministério, uma ameaça e Charlus trabalhava no ministério – mas ficava grata por aquele não ser o tópico em questão ali. A sensação de normalidade era muito bem-vinda.
- Querida, eu mandei uma coruja para Dumbledore, o diretor de Hogwarts, contando a situação. Amanhã de manhã provavelmente já teremos a resposta, mas tenho certeza de que não haverá problema nenhum com a sua transferência para cá. – sorriu, amável como sempre – Agora tem outra coisa sobre a qual gostaríamos de conversar com você. Sua tia – olhou para a esposa – e eu que ficaríamos honrados se você nos aceitasse como seus guardiões legais. Nós entendemos que, como você nasceu nos EUA e lá a idade legal é 16, não há uma necessidade jurídica para isso, mas significaria muito para nós.
A garota piscou rapidamente para afastar as lágrimas. Era tocante a maneira como eles a acolheram em sua família. Sem fazer perguntas, confiando nela e em sua palavra. Claro que havia fato de ela poder usar uma joia Potter, o que inegavelmente a reconhecia como membro daquela família, mas os três ou, melhor, os quatro não precisavam tê-la aceito tão fácil e amorosamente. Eles o fizeram porque eram ótimas pessoas. E por um segundo Sel se entristeceu ao pensar que Harry nunca teve esse amor incondicional por parte de seus avós. Ao invés de todo aquele carinho, ele recebeu desprezo por parte daquela nojenta família trouxa.
Mas dessa vez seria diferente.
Doença bruxa o caramba. Selene tinha certeza de que Voldemort tinha alguma coisa a ver com a morte dos avós do menino-que-sobreviveu. Só que não dessa vez, não sob a supervisão de Selene.
Com esse pensamento em mente, ela abriu um sorriso fraco e murmurou baixinho:
- Isso seria ótimo, tio Charlus. Eu adoraria. Muito obrigada. – virou-se para a tia – Obrigada, tia Dorea.
- Excelente. – a senhora Potter sorriu e colocou sua mão sobre a da sobrinha, apertando-a de maneira reconfortante – Nós já estamos familiarizados com o processo. – sorriu para Sirius – Então vai ser tudo feito rapidamente. Nem precisamos de todos aqueles pergaminhos. É só apresentar o anel na data que será marcada pelo Ministério. Certo, querido?
O patriarca assentiu, tomando um gole de seu vinho.
- Outra coisa, querida. Estava querendo comprar umas vestes novas e os meninos precisam comprar os livros desse ano. Talvez você queira ir conosco e aproveitamos para comprar algumas roupas britânicas para você? O clima na América deve estar um pouco diferente do daqui nessa época do ano.
Dorea estava elegante e sutilmente criando uma oportunidade para que Selene fizesse compras sem ter que precisar pedir por isso. Ela não apontou para a óbvia falta de bagagem da sobrinha e se prontificou para ajudá-la a reparar esse fato. Uma verdadeira dama.
- Parece ótimo. – falou após uma garfada – A que horas saímos?
- Estava pensando em irmos às dez da manhã.
- Perfeito. – sorriu.
- Isso é para vocês também, meninos. Dez horas. Não se atrasem.
Os dois resmungaram alguma coisa sobre acordar muito cedo, mas depois assentiram resignadamente.
Selene Potter sorriu outra vez, observando sua recém-encontrada família. Aquele foi um dia para aproveitar, para conhecê-los melhor, mas amanhã seria um novo dia. Amanhã ela daria o primeiro passo concreto para mudar o futuro do mundo bruxo.
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