Capítulo Três
Selene não dormiu aquela noite. Havia energia demais acumulada em seu corpo. Como não tinha que se preocupar com o fato de estar fazendo magia fora da escola porque conhecia o truque para desativar o rastreador ministerial em sua varinha, usou-a para silenciosamente fazer um diagnóstico mais preciso de como estava fisicamente. Não havia nada quebrado, contundido ou gravemente lesionado – exatamente como ela havia afirmado para os Potter quando Dorea, horrorizada por não ter pensado nisso antes, sugeriu uma visita à St. Mungus para uma consulta médica a fim de garantir que não havia nada errado em consequência da viagem, mas Selene conseguiu contornar a situação e convencê-la de que não era necessário. Depois mediu sua idade óssea e concluiu que tinha voltado a ter 16 anos. Como isso havia acontecido ela não tinha ideia... talvez graças a uma palavra mal pronunciada ou alguma coisa assim, mas pelo menos havia sido um golpe de sorte já que agora ela iria estudar junto com os Marotos e Lily Evans.
É. Eles estavam no 6° ano e "aquele ano os Marotos deixariam mais uma marca inesquecível", como os dois fizeram questão de contar e repetir várias vezes. Eles também contaram várias das peças que pregaram ao longo dos anos, em uma tentativa de impressiona-la. Não conseguiram alcançar aquele objetivo, afinal Selene convivera com Fred e George, mas ela riu bastante. Foram momentos divertidos e de descontração.
Agora, contudo, era hora de trabalhar. Aproveitou aquelas horas de silêncio para se concentrar no livro de Morgana. E, mais uma vez, a bruxa mais famosa da história não a decepcionou. Entre as páginas amareladas estava uma poção de viés obscuro. Potter não tinha dado muita atenção a ele da primeira vez porque estava mais preocupada com outras questões e com A Canção do Tempo. Agora, contudo, Selene enxergava o potencial nela - só restava saber se era poderosa o suficiente para destruir uma horcruxe.
Amanhã ela daria um jeito de escapar da presença dos três e se esgueirar pela Travessa do Tranco. Com certeza Herthort teria os componentes necessários para essa e outras porções que ela pretendia cozinhar e deixar de sobreaviso caso viesse a precisar. Aquele velho esquisito era mestre em contrabandear ingredientes perigosos e ilegais – exatamente os tipos que Selene precisava. Alguns galeões e um feitiço glamour sobre o rosto para disfarçar sua idade e identidade, contudo, seriam necessários.
Por sorte havia alguns pergaminhos, uma pena e um tinteiro sobre e nas gavetas da escrivaninha no canto direito do quarto. Sentou-se lá, colocou o livro ao lado e começou a anotar a lista do que compraria. Faltava um par de horas para amanhecer quando finalmente terminou aquela tarefa. Por motivos de segurança, Selene puxou a varinha e bateu a ponta da varinha de leve sobre aquele pergaminho e murmurou um feitiço e repetiu o mesmo gesto sobre o livro. Se outra pessoa tentasse ler qualquer um dos dois encontraria nada além de uma lista de produtos supérfluos de beleza.
Selene esticou a coluna cansada e decidiu descansar um pouco.
Na manhã seguinte, a loira desceu meia-hora antes do horário combinado para tomar café-da-manhã e encontrou Dorea fazendo o mesmo. Elas compartilharam uma conversa leve sobre amenidades e a mais velha descreveu algumas das lojas que visitariam logo o mais. Terminaram mais aquela refeição e se dirigiram para a sala de estar e, mesmo assim, não havia nem sinal dos dois garotos que as acompanhariam.
– Esses meus filhos são inacreditáveis. – lançou um olhar exasperado para as escadas vazias – Querida, - voltou-se para a sobrinha – você poderia, por favor, ir apressá-los enquanto dou instruções sobre o almoço para nossos elfos?
A loira assentiu.
– Muito obrigada. – sorriu – O quarto de Sirius é do lado do seu e o de James é de frente com o dele.
Assentiu de novo e começou a se mexer para fazer o que lhe foi pedido. Bateu primeiro na porta do primo, mas não houve resposta. Selene sacudiu a cabeça e silenciosamente entrou no quarto, encontrando seu primo só de cuecas e esparramado na cama de casal. Tão previsível. Aproximou-se da cama e sacudiu o ombro do primo. James virou para o outro lado, deitando de bruços na cama e resmungou com o rosto contra o travesseiro e a voz rouca pelo sono:
– Já estou indo, mãe.
Ela cruzou os braços e olhou para ele, divertida.
– Não sou sua mãe e você não esta indo.
A curiosidade fez o moreno levantar um pouco a cabeça e olhar em direção a voz desconhecida. Não pode ver mais do que uma sombra borrada devido à falta de luminosidade naquele quarto e à falta de seus óculos. A preguiça matinal foi a responsável por levar alguns momentos além do necessário para reconhecer a figura ao seu lado.
– Ah! Oi, priminha!
– Bom-dia. Agora levanta e vai trocar de roupa. Você está atrasando nosso passeio.
– Você é meio mandona, sabia?
– Ninguém nunca te ensinou a não ficar no caminho entre uma dama e suas vestes novas?
– Não, ninguém nunca me falou nada sobre isso. Mas vou manter em mente quando encontrar uma dama.
Selene revirou os olhos e empurrou-o de testa de volta contra o travesseiro.
– Alguém já te falou que essas suas respostas espertinhas um dia vão lhe trazer problemas? – perguntou quando ele levantou a cabeça, rindo.
– Isso já me disseram!
– Bom. Pelo menos você já tem essa ciência. Agora vou acordar sua cara metade. Você tem cinco minutos para se apresentar descentemente lá embaixo. – determinou, incisiva, saindo do quarto.
Deu dois passos no corredor e bateu no outro quarto. Não se surpreendeu quando ali também não houve resposta. Selene empurrou a porta destrancada, entrou no quarto e estacou no lugar, surpresa. Sirius estava numa posição e vestimenta muito parecidas com as de James, mas não foi isso que a surpreendeu e sim sua reação àquela visão. E que visão impressionante!
Seu olhar passeou pelo tórax bem definido e por seus braços fortes. Um corpo gostosamente moldado pelo quadribol.
Merlin abençoe aquele esporte!
Um arrepio de excitação desceu por suas costas.
A loira afundou os dentes no lábio inferior.
Por um instante ela ponderou se deveria considerar toda aquela situação esquisita, afinal aquele era o padrinho de seu melhor amigo, mas logo descartou essa possibilidade. Aquele garoto que tanto lhe chamava a atenção não era o mesmo homem que um dia ela conhecera. Ele tinha amigos e esperança, diferentemente do homem solitário e totalmente desiludido. Selene chegou à conclusão de que não poderia pensar nele como alguém do seu futuro. Não seria justo com nenhum dos dois se o tratasse de acordo com os conceitos antigos que tinha. Eles se conheceram no dia anterior e era assim que aquela relação seria tratada, como nova, fresca e não cheia de marcas deprimentes do passado.
Logo, não era estranho o fato de Selene considerar Sirius Black extremamente delicioso.
Ela sacudiu a cabeça para desanuviar seus pensamentos e fazer o que tinha se proposto. Repetiu exatamente o mesmo gesto que tinha feito para acordar James, as consequências, contudo, foram bem adversas. Assim que encostou no ombro dele, Selene sentiu os dedos de Black se fecharem ao redor de seu pulso e no segundo seguinte se encontrou presa embaixo daquele corpo que há segundos admirava.
Foi tão rápido que nem mesmo seus reflexos de guerra foram o suficiente para "salvá-la". Seu instinto de alcançar a varinha em seu bolso e apontar para a garganta daquele que a prendia foi tão forte que por um segundo Selene sentiu sua vista embaçar. Felizmente conseguiu se controlar antes de agir de uma maneira que não conseguiria explicar depois. Respirou fundo para se acalmar e seu pulmão imediatamente foi preenchido por aquele perfume incrível que o garoto sobre si usava.
Ainda meio tonta por aquele cheiro maravilhoso, Selene se contorceu, tentando afastá-lo. Contudo, os braços fortes que anteriormente a fascinavam, agora a prendiam como barras de aço. Ela levantou a cabeça e encontrou olhos cinzentos encarando-a, divertidos.
– Você se importa? – ironizou, tentando abrir os braços.
– Na verdade me importo sim. – seu tom, de manhã, era ainda mais rouco – Detesto acordar cedo.
– E eu detesto gente convencida, mas você não me viu te imobilizando assim que nos conhecemos, não é mesmo? – arqueou a sobrancelha.
Soltou uma gargalhada que soou muito como um latido.
– Como se você conseguisse me imobilizar usando a força, Kitten.
Selene abriu um sorrisinho irônico.
– Você não faz nem ideia, Black.
Ele ignorou o último comentário dela.
– Mas o que você está fazendo aqui, Kitten?
– Vim acordar você. Não é óbvio?
– Essa parte eu entendi. Estou perguntando o porquê.
– Nós vamos ao Beco Diagonal, lembra-se? E você está atrasado.
– Ah! É verdade. Então vamos. – afundou o rosto nos cabelos dela.
Selene encarou o teto, incrédula e esperou alguns segundo.
– Você tem que se mexer para isso, Black.
– Eu adoraria. – respondeu, galante, seus lábios dançando contra a pele do pescoço dela, aquecendo-a – Mas nós estamos atrasados. E você merece mais do que uma rapidinha.
Agora ela ficou chocada, o queixo até mesmo caindo um pouco.
– Por Merlin, Black! – inutilmente empurrou seus ombros – Você é nojento.
Agora ele se gargalhava.
– Brincadeira, Kitten. – levantou a cabeça e pressionou os lábios firme contra os dela para logo depois se levantar e começar a caminhar para o banheiro da suíte.
– Por que diabos você fez isso? – resmungou, saltando da cama.
Parou de andar e olhou por sobre o ombro.
– Parecia certo. – deu uma piscadinha e entrou no banheiro, fechando a porta.
E a loira nem pode discutir porque realmente parecia certo, como se alguma coisa a puxasse para perto dele com uma intensidade desconcertante.
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Selene Potter parou no meio das escadarias para admirar o grande e antigo prédio branco para o qual se dirigia. Ela nunca gostou de Gringotes. O lugar lhe dava arrepios, mas era reconfortante vê-lo inteiro e não em ruinas - como final da Guerra - ou infestado de comensais da morte - como no início. Um dos primeiros lugares que Voldemort atacou foi aquele banco, apossando-se do ouro não só para uso próprio, mas também para impedir que outros o fizessem para fugir. Era puro terrorismo. Ele tentou se apossar das escolhas das pessoas ao se apossar do poder de torná-las realidade.
A loira soltou um suspiro e continuou a andar. Não podia se demorar. A desculpa qualquer que tinha inventado para se afastar dos três não iria lhe render muito tempo e havia coisas demais a fazer. Aproximou-se da bancada de um dos duendes.
– Bom-dia, senhor. Eu gostaria de, por favor, visitar o cofre 903.
Olhou para a garota, surpreso pela educação com a qual aquela jovem bruxa se dirigia a ele. Bruxos não tinham o costume de usar um tom tão respeitoso quando conversavam com outros seres mágicos – isso quando se dignavam a lhes dirigir a palavra.
– Claro, senhorita... – deixou a palavra no ar, esperando que ela completasse.
– Potter.
– Claro, claro. Senhorita Potter. Esse cofre está no seu nome? – perguntou, mexendo em algumas fichas.
– Não. Está no nome "Potter, Anthony".
Selene sabia que era mesquinho, mas por um segundo a garoto ficou grata por seu avó ter rompido todas as relações com Charlus e ter se mudado para EUA sem ter olhado para trás. Deixando, assim, também sua parte britânica da herança dos Potter intacta – exceto por uma pequena quantia suficiente para começar seus próprios investimentos na América. E Grace usaria os fundos americanos de sua herança, ignorante para a montanha de ouro ao qual ela tinha direito em Gringotes.
Felizmente Selene também tinha aquele direito. Direito garantido pelo anel em seu dedo, o qual ela mostrou quando o funcionário do banco pediu pela chave. Aquela joia foi o suficiente para garantir seu acesso aos cofres e ao dinheiro. Selene pegou uma quantidade boa e a colocou na bonita bolsa de grife roxa que Dorea insistira em comprar para ela e na qual a loira colocara um feitiço extensível. Depois de agradecer e se despedir, Potter se esgueirou para um beco escuro, apontou a varinha para o rosto e mudou o avelã Potter de seus olhos para um azul escuro, seus fios amarelos para pretos, aumentou seu nariz e envelheceu um pouco em geral. Mesmo assim, puxou o capuz para ocultar-se ainda mais. Só então caminhou pelas vielas mal iluminadas que levavam à Travessa do Tranco.
Herthort continuava no mesmo lugar escondido, com a mesma aparência velha e suja de sempre. Mesmo durante os anos de Guerra, aquele rato de esgoto conseguiu continuar vendendo seus produtos como se nada estivesse acontecendo. Alguns o consideravam um esperto que se adaptava ao lado de quem estivesse no poder, Selene o considerava um sanguessuga inescrupuloso da pior espécie. Infelizmente só ele vendia o que ela precisava. Mantendo a cabeça baixa, a loira parou em frente àquele homem.
– Ouvi dizer que você vende o que eu preciso. – forçou a voz a sair mais fina.
– Depende de quem te disse isso, princesa.
A loira conteve a náusea. Até a voz dele era nojenta.
– Não interessa quem me disse. Não teria te achado se não fosse alguém de confiança, não é mesmo? – colocou a mão por dentro do casaco e puxou sua lista, já sem o feitiço para confundir o leitor – Aqui o que preciso.
O velho pegou a lista e arregalou os olhos.
– Muita coisa obscura para alguém tão jovem.
– Essa jovem tem dinheiro o suficiente para pagar por eles.
– Não vai sair barato.
– Não é problema. Eu preciso desses produtos para hoje. Se você puder começar a se mexer para pegá-los, eu agradeceria.
Herthort se surpreendeu com o tom ríspido e imperativo dela, mas imediatamente começou a fazer o que disse. Dez minutos depois, ele voltou com um saco preto pesado e o valor cobrado. Selene entregou o dinheiro e colocou os produtos dentro da bolsa, caminhando depressa para longe daquele lugar. Estava prestes ao dar o último passo para voltar ao Beco Diagonal quando seu ombro esbarrou forte contra o braço de alguém. Por reflexo, ela levantou a cabeça e se deparou com os olhos azuis que lhe eram familiar. Era o azul Malfoy. A diferença, contudo, era que aquela não era Draco.
