Capítulo Quatro

Selene sentiu o impacto direto daqueles azuis. Foi só por um momento, mas parecia que o loiro, por sob o olhar de desprezo, estava vasculhando-a, examinando-a. Reagindo contra aquela análise, a garota voltou a abaixar a cabeça e a puxar o capuz, praticamente correndo para longe dele. Seu coração estava acelerado quando finalmente alcançou um beco a uma distância segura. Malfoy era muito esperto. Esperto demais para o bem de Selene. Precisava tomar cuidado. Não podia arcar com certos erros.

Erros seus poderiam custar vidas.

Respirou fundo e apontou a varinha para o rosto, desfazendo os feitiços dali. Abaixou o capuz e foi encontrar a família. O problema é que estava, considerando o horário combinado, ela estava quinze minutos atrasada, por isso não foi muita surpresa encontrar sua tia andando de um lado para o outro em frente ao Boticário. James e Sirius também pareciam preocupados, olhando para todos os lados. Black foi o primeiro vê-la quando se aproximou. Mesmo de longe a loira pode ver o alívio brilhando em seus olhos cinza por um segundo antes de ser substituído por raiva.

– Onde diabos você estava? – rosnou, atraindo a atenção dos outros dois Potter.

– Selene! Graças a Merlin!

– Prima! Onde você estava?

– Eu me perdi. Desculpe. – murmurou, o mais inocente possível – A senhora tinha razão, tia Dorea. Talvez não devesse ter saído sozinha em minha primeira visita aqui, mas foi interessante.

A matriarca Potter soltou uma gargalhada.

– Você é mesmo uma Potter! – deu uns tapinhas na bochecha dela – Impaciente, independente e mesmo quando está errada ainda arruma um jeito de sair por cima.

Selene mordeu um sorrisinho.

– Não poderia ter dito melhor, mãe.

A loira concordava com o primo.

– Mas não nos assuste assim de novo. – bagunçou meu cabelo.

– Não faça isso de novo. – estapeou a mão dele para longe.

– Como não? É minha obrigação como seu irmão mais velho.

– Meu irmão? E mais velho? Como pode saber que é mais velho do que eu?

– Seu irmão, é claro! Nós somos família e moramos juntos. Só posso ser seu irmão. Assim como Sirius é meu irmão. – maneou a cabeça na direção do amigo – E claro que sou seu irmãozão. Sou mais alto.

Selene revirou os olhos.

– A primeira parte, tudo bem. Mas isso da altura não tem lógica.

– Ok, crianças. – Dorea interrompeu a muito produtiva discussão deles – Vamos logo buscar os ingredientes que estão nas listas de vocês.

A senhora Potter entrou no Boticário e James sorriu para prima antes de acompanhá-la. Selene se mexeu para seguir aquele caminho quando uma parede de mais de um metro e oitenta de altura interceptou seu caminho. Sirius Black estava de braços cruzados e muito sério.

– Onde você estava?

– Já respondi essa pergunta.

– Eu ouvi. Só não acreditei.

– Isso não é problema meu, não é mesmo, Black?

– Na verdade, é problema meu se afeta minha mãe. Ela ficou muito preocupada.

– Sua mãe? – agora ela estava confusa.

A pergunta trouxe um tom avermelhado para as bochechas dele.

– A senhora Potter é como se fosse minha mãe, e ela insiste que eu a chame assim.

Aquilo era muito adorável e a resistência dela cambaleou um pouco.

– Eu me perdi. Sério. – amaciou o tom.

– Certo. Vamos dizer que acredito. – falou condescendente – Ficaremos atentos para que não volte a acontecer, certo?

Selene estreitou os olhos, frustrada e o contornou para entrar na loja. O dia não chegara nem na metade e ela já encontrara duas pessoas enxeridas com as quais se preocupar.

Seria um longo dia.

Depois de mais algumas horas de compras, nas quais Dorea insistira em pagar por tudo que Selene precisava, eles finalmente voltaram para a Mansão Potter e para um almoço tardio com o patriarca da família. Durante a refeição, eles contaram à sobrinha que Dumbledore tinha escrito de volta, informando que ela seria muito bem-vinda para ingressar em Hogwarts no dia 1° de setembro e anexara a lista de material escolar – que, como o esperado, era exatamente igual ao dos meninos e, portanto, o que Dorea comparara para ela. Bom, ao menos em parte, já que Selene tinha convencido sua tia a comprar alguns ingredientes extras dizendo que queria testar algumas poções mais avançadas que tinha aprendido em sua antiga escola. Depois da refeição, a loira pediu licença e se retirou para seu quarto. Eles tinham duas semanas antes do começo das aulas e ela queria ter algumas garrafas prontas antes disso.

Ela transfigurou um tapete em uma mesa grande e colocou os ingredientes e o livro, os quais tirou de sua bolsa nova, sobre ela. Lançou, então, alguns feitiços de confundir para esconder aquele canto de "trabalho" das vistas do resto dos ocupantes da casa, incluindo um para mascarar o cheiro. E estava tudo pronto.

A primeira a ser preparada seria Veritaserum porque era mais demorada. Para cortar os ingredientes, Selene puxou o canivete que sempre deixava escondido dentro da bota – nunca se sabe quando uma boa ferramenta trouxa pode salvar sua vida – a esterilizou com a varinha e começou a trabalhar. A primeira parte do processo de preparação passou em algumas horas, agora era preciso deixar descansar pelos próximos dias. Selene se concentrou, então, em cozinhar a Poção Wiggenweld, a qual era simples, fácil e rápido. Ela tinha acabado de despejar a poção pronta em um frasco quando um uma batida firme na porta a fez cambalear de leve, surpresa. Soltando um suspiro, depositou o frasco fechado sobre a mesa e foi ver quem chamava. Entreabriu a porta o suficiente para ver que estava do outro lado, mas não para que a pessoa pudesse observar sua mesa de trabalho.

– Olá, Black. Posso ajudá-lo?

– Vim te chamar para jantar, Kitten.

Ele falou, revezando seu olhar entre a pose em que ela se encontrava – o corpo escorado no batente – e a porta encostada em si.

– O que você está fazendo?

– Como assim?

– Passou o dia inteiro no quarto. Fazendo o que?

– Você é muito curioso para o seu próprio bem, Black.

– Então que dizer que tem alguma coisa para a qual ser curioso.

Selene arqueou a sobrancelha.

– Nunca disse isso.

– Mas deu a entender.

Abriu um sorrisinho forçado.

– Eu estava meditando.

– Meditando? – perguntou, divertido.

– É. Algum problema?

– Você não parece o tipo de pessoa que medita.

– E você não parece o tipo intrometido. Mas logo vemos que as aparências enganam, não é mesmo? – falou, forçadamente adocicando o tom.

Abriu um sorrisinho de lado e apoiou a mão sobre a porta. Selene se preparou para forçar a mão e segurar aquela barreira entre eles caso Sirius tentasse entrar no quarto.

– Certo. Agora por que não me conta o que realmente estava fazendo aí?

– Você é surdo? – perguntou, começando a se irritar - Quantas vezes preciso responder a mesma pergunta?

– Ao contrário, Kitten. Meus sentidos são bem aguçados, obrigado. Estou até começando a desenvolver um sentido extra. Algo como farejar mentiras.

– Que bom para você, Black. É bom saber que tem gente que se orgulha de ser esquisito.

– Esquisito ou não, esse meu sentido extra parece disparar sempre que você está por perto.

– Agora está me chamando de mentirosa?

– Isso foi você quem disse.

– Você está me irritando, Black. Já veio aqui, deu seu recado. Por que não se manda?

– Sabe, Kitten. Acho que você tem razão. – seu tom era falsamente calmo e a loira soube que ele estava planejando algo – Desculpe. Vamos tirar a prova então.

Selene o sentiu fazer exatamente o que ela temia: empurrar a porta para entrar. Pânico se espalhou pelo corpo dela. Não possuía força física o suficiente para impedi-lo de entrar se ele assim o quisesse. Seu canto de trabalho estava protegido por um feitiço de confundir, mas ela não queria correr nenhum risco desnecessário de ele passear por aquele lado do quarto e tropeçar em sua escrivaninha.

Pensando rápido e impulsivamente, Selene soltou a mão que apoiava no batente e o agarrou pelo colarinho da camisa. Puxando-o para baixo, colou os lábios nos dele.

Funcionou. Sirius ficou tão surpreso que demorou para reagir quando, depois que se separaram daquele selinho demorado, a loira o empurrou para trás e bateu a porta em sua cara, trancando-a.

– Já estou descendo, Black. – gritou do outro lado, as costas coladas na porta fechada, respirando fundo.

No final das contas, ela não sabia se sua adrenalina estava alta pelo medo de Sirius descobrir o que ela estava fazendo ou pelo pseudobeijo que eles compartilharam. O que ela sabia, com certeza, é que Black era perigoso. Em mais um quesito.

###

O tempo voou depois do dia das compras no Beco Diagonal. Selene dividiu seu tempo entre planejamento e o resto dos ocupantes da Mansão Potter. Ela tomou chá todas as tardes com sua tia, algumas noites lendo com o tio na biblioteca e boa parte do resto do dia conversando com James e Sirius. A loira queria poder dizer que só fazia isso para despistá-los a fim de que não soubessem que estava cozinhando poções secretamente em seu quarto, mas a verdade é que gostava daquelas horas que passava com eles. Gostava das conversas maternas com Dorea, dos tópicos interessantes de Charlus e dos momentos divertidos que passava com James e Sirius. E, por falar em Black, ele continuava vigiando-a como um falcão, mas não dizia nada já que ela cobria seus rastros.

E os beijos roubados continuavam. Tornaram-se, aliás, ainda mais frequentes. No começo era Sirius quem se aproximava todas as noites antes de eles irem dormir e aproveitava um momento em que ela estivesse distraída para lhe roubar um selinho. Agora, contudo, Selene estava tão acostumada – tão bem acostumada – que, ao entardecer, quando ele se aproximava, a loira oferecia os lábios para receber seu beijo de boa noite.

Ela sabia que aquilo não era normal, mas parecia tão natural... tão certo que Selene simplesmente parou de lutar contra a corrente e abraçou aquela rotina deles.

Era o pedacinho de normalidade – sim, que ironia – diária dela e que a mantinha com os pés no chão em meio a todo o estudo e planejamento caóticos aos quais ela se dedicava todas as noites. Selene não tinha ideia de quanta energia era necessária para manter tantos segredos. Era extenuante. E cada vez que Black encostava os lábios nos seus, suas baterias eram recarregadas.

Foi assim que os dias passaram até 1° de setembro. James e Sirius aparataram com tio Charlus e as duas mulheres foram juntas. Claro que Selene poderia aparatar sozinha, mas era mais uma coisa que não poderia explicar, então ficou quieta. Sua tia chorou ao abraçá-los para as despedidas, já seu tio sorriu, triste, e deu alguns tapinhas nos ombros deles, murmurando alguma coisa sobre se divertirem. James, como o bom cavalheiro que foi criado para ser, carregou a bagagem da prima junto com a sua para o compartimento de carga do Expresso de Hogwarts. Sirius acompanhou o melhor amigo. A loira aproveitou, então, esse tempo sozinha para entrar no trem, dizendo que iria procurar um compartimento vazio, mas, na verdade, estava começando a fase dois do plano: conexões. E a sorte parecia lhe sorrir nesse aspecto em particular.

Potter mordeu o sorrisinho esperto em seus lábios e deu uns tapinhas no ombro da garota na sua frente e, quando ela se virou para encará-la, o ar ficou preso na garganta da viajando do tempo.

Aqueles olhos...

– Olá. – falou, com dificuldade – Será que você poderia me ajudar? - sorriu - Vim transferida da América e acho que estou meio perdida aqui. Meu nome é Selene. – estendeu a mão.

A garota sorriu e a cumprimentou de volta.

– Lily Evans.

###

N/a: Hey babe. Que tal o capítulo? Gostaram 3