Capítulo 6

Remus Lupin estava acostumado a ver garotas atiradas – literalmente. Elas caiam aos pés dos seus dois melhores amigos - já que Sirius e James nunca fizeram o tipo celibatário - usando táticas como falsos tropeços ou abordagens mais diretas, tais como se jogarem nos braços dele ou os puxarem para armários vassouras vazios. E, apesar de saber que as mulheres o consideram atraente, esse tipo de situação nunca lhe aconteceu. As garotas Lupin, como se chamava - e Remus achava essa alcunha ridícula - eram mais comportadas do que as fãs de seus amigos. Foi por isso que, quando a loira mais bonita em que aquele garoto já colocara os olhos disparou correndo em sua direção e o agarrou em um abraço de urso, o jovem não poderia ter ficado mais chocado. Nem mesmo havia a possibilidade da garota tê-lo confundido com alguém porque ela repetiu o nome dele mais de uma vez.

Ele não conseguiu reagir, os braços inertes ao lado do corpo enquanto olhava para os rostos igualmente atônitos de Potter e de Black. Depois de alguns segundos, a garota pareceu perceber o silêncio esquisito que caíra sobre eles e Remus sentiu ela se retesar e lentamente se afastar dele.

Selene quis se chutar por mais um erro infantil cometido. Ela não devia nem mesmo conhecer Remus, muito menos abraçá-lo como se ele fosse o irmão perdido dela. As mãos dela pararam nos ombros dele para lentamente, quase que simultaneamente com a cor que fugia de seu rosto, afastá-las para longe dele. Deu um passo para trás e encontrou o bonito rosto de Lupin contorcido em uma careta de desentendimento.

Imbecil, totalmente imbecil, mas ela não pode evitar. A morte dele foi uma das que ela mais sentiu. Apesar da diferença original de idade entre eles, o último maroto a morrer se tornara um amigo muito querido e os vários anos em que Selene sentiu a falta dele culminaram naquele momento. Realmente não pode evitar. Agora era hora da contenção de danos.

Passou a mão pelas vestes novas e se concentrou naqueles olhos gentis que agora estavam cheios de perguntas.

- Digo... – limpou a garganta – Você é o Remus, certo?

Ele apenas assentiu, atônito demais para falar.

- É um prazer conhecê-lo. – falou formalmente.

- E que prazer, hein, Kitten? – Sirius se intrometeu, a voz mais ríspida do que o normal – Mas, diga-me, você agarra assim todos os caras que conhece? Por que se a resposta for "sim", ainda estou esperando minha vez.

A loira reprimiu uma revirada de olhos.

- Mas não parece que eles se conhecerem agora, não é mesmo, Padfoot?

Virou a cabeça para encontrar James de braços cruzados e me encarando com a sobrancelha arqueada.

- Agora que você mencionou, Prongs, parecem que eles já se conheceram. – Sirius, como sempre, rapidamente se apressou em concordar.

Droga. Droga. Droga.

O cérebro da garota entrou em ritmo frenético repetindo de novo e de novo: "pensa rápido, pensa rápido, pensa rápido."

- Selene?

Alguém a chamou outra vez e Selene percebeu que agora tinha seis pares de olhos me encarando com expectativa.

- Eu.. hmm... eu fiquei muito feliz em conhecê-lo. Agora – enfatizou.

- Não parece que você acabou de conhecê-lo, Kitten.

- Você já disse isso, Black. Está ficando repetitivo. E – aumentei o tom antes quando o vi abrir a boca para interrompê-la – de onde exatamente o conheceria?

- Mas você estava muito receptiva. – foi James quem comentou dessa vez.

A jovem Potter mordeu um sorrisinho. Ele era ciumento, assim como Harry. Apostava que Lily teria que passar pelas mesmas crises de ciúmes pelas quais Ginny passou.

- Só estou feliz por conhecer alguém com algum nível de maturidade.

- E como você sabe que ele tem algum nível de maturidade? – Black perguntou.

- E o que quer dizer com isso? – Gideon se intrometeu, fingindo indignação.

- Nós dois somos exemplo de maturidade, não é, gêmeo? – o outro Weasley também se pronunciou.

Por mais feliz que Selene estivesse de que aquela pequena discussão pudesse desviar o foco de si, ela sabia que era apenas temporário. Para acabar de vez com aquele assunto e para que eles se esquecessem daquela indiscrição seria preciso um ponto final:

- Eu sei por que presto atenção. Ouvi o par ternura – apontou para o primo e o melhor amigo dele – comentando sobre Remus. Sobre como ele era o responsável do grupo. Acho que me identifiquei, sabe? Um pouco de companhia de alguém que age de acordo com a idade que tem é o que eu preciso depois de tanto tempo tendo só a dupla maravilha como companhia.

- Como assim? Você tem noção de quantas garotas queriam ter a chance de passar tempo conosco. Prongs e eu fazemos um sucesso danado.

- Isso é verdade. Até fã-clube eles têm. – Ben revirou os olhos.

- Oh! E eu aqui pensando que as britânicas eram tão inteligentes quanto falam. – falou ironicamente, colocando a mão sobre o peito.

James e Sirius resmungaram alguma coisa enquanto os outros riam.

- Gosto de você, pequena Potter. – Benjamin passou o braço sobre os ombros dela e a puxou para perto – Vem. Vamos. Vou te apresentar a melhor escola de bruxaria do planeta.

Selene sentiu o alívio percorrer seu corpo enquanto se deixava conduzir pelo garoto. Sua manobra tinha dado certo e ela estava livre da armadilha que armara para si própria. Agora só precisava se lembrar de ser mais cuidadosa.

- Melhor do planeta? Mas já conheço Salém. – brincou.

- Salém? Salém que nada! Bem-vinda a Hogwarts. – gesticulou para frente.

Aquele foi o momento em que a viajante do tempo, pela primeira vez desde que chegara, encarou o castelo. E outra vez ela teve que conter a náusea. Estava tão diferente da última vez que o vira. Nada de fuligem, fumaça ou ruínas. Somente imponência de anos de história sobre concreto e pedra. Selene teve que se controlar para não deslizar as mãos pelas paredes daquele lugar que um dia – muitos anos no futuro – fora sua casa e guardião de tantas memórias boas.

Engolindo a vontade de chorar, a loira se concentrou em manter o foco, em manter a mente na ideia de que tudo seria diferente agora porque, mesmo que ela não pudesse consertar tudo, só o fato de ela estar ali agora já mudava as coisas.

Benjamin acompanhou a garota até onde os alunos do primeiro ano estavam e ficou na companhia dela, jogando conversa fora, até que McGonagall apareceu por ali para mandá-lo para a mesa Gryffindor. Selene manteve os olhos no chão ao sentir a análise atenta da professora sobre si. Sempre era difícil mentir para aquela bruxa, então melhor evitar as armadilhas.

Despois de alguns segundos, a professora de transfiguração se afastou e foi para frente, chamando os novos alunos para serem selecionados. Era o ritual de sempre acontecendo mais uma vez. Dumbledore se levantou, deu as boas-vindas a todos e recitou alguns avisos sobre proibições nos terrenos da escola.

- Agora temos um caso excepcional em nossa amada escola hoje. Gostaria de dar às boas-vindas à senhorita Selene Potter, transferida do sexto ano da nossa escola irmã Instituo Salém. Infelizmente não pudemos fazer sua seleção antes do início do ano, então, por favor, senhorita Potter. – ergueu a mão direita e gesticulou para que se aproximasse.

Selene sentiu que a atenção de todos no salão principal estava sobre ela, mas, como uma orgulhosa Potter que era, a loira levantou o queixo e caminhou com dignidade até o banquinho, onde, com classe, sentou-se. Mantendo os olhos fixos na parede do outro lado do cômodo.

Assim que o Chapéu Seletor foi colocado sobre sua cabeça, ele pode ouvir aquela voz conhecida ecoar dentro de sua cabeça:

"Ora, ora, jovem, você não é desse tempo. Ou será que talvez seja...?"

"O que você quer dizer com isso?", pensou, confusa sobre a última parte.

"Ah! Então você não me pergunta sobre a primeira parte, apenas para a segunda. Interessante, senhorita Potter."

"Sei a resposta para a primeira parte. O que me confunde é a segunda."

"Você tem a mente afiada demais para uma jovem de vinte e poucos anos. Compreensível, contudo. Os descendentes direitos dos Peverel sempre foram muito voláteis, agindo antes de pensar. Foi isso que você fez, não foi, viajante no tempo? Viajou mais de vinte anos para o passado sem pensar nas consequências temporais que isso traria e-"

"Eu não tinha opção! Não havia mais nada lá. Tudo pelo que lutamos estava destruído!"

"Não me interrompa novamente, jovem. Ainda não terminei.", a voz na cabeça dela ficou mais firme e Selene se encolheu um pouco.

O Chapéu Seletor também podia ser bem intimidador.

"Como estava dizendo antes de ser rudemente interrompido, você não considerou muito bem as consequências quando resolveu fuxicar em uma das bibliotecas mais sombrias e antigas do mundo bruxo. Temos sorte, contudo, por você ter sido encontrada pelo livro Le Fay."

Aquilo confundiu ainda mais a jovem.

"Ah! Vejo que você não tinha considerado essa ideia. Pensou que tinha encontrado aquele livro? Não, não. O livro encontrou você. Ele só pode ser lido por aqueles que realmente devem lê-lo. É poderoso demais para ser encontrado por qualquer um. Chegamos, pois, finalmente à parte que você questionava. Vejo aqui que você pensa ter errado a pronúncia do feitiço. Mas não era tão difícil assim, não é mesmo? Não, não tão difícil. Simples. Ainda mais para uma jovem inteligente como você, criança. Então por que está aqui agora? Por que não está onde planejou estar?"

Selene estava ficando cada vez mais impaciente, cada célula de seu corpo rogando para que aquele ser inteligente respondesse as perguntas que ele próprio havia feito e que devorava a viajante do tempo mesmo que de maneira inconsciente.

"Você é poderosa, jovem Potter. Muito poderosa. Existem, contudo, forças ainda mais poderosas que regem o Universo. E é por isso que você está aqui agora. Exatamente onde deveria estar desde o começo. Boa sorte em sua jornada. Você vai precisar."

Depois dessas palavras enigmáticas, houve silêncio na mente dela. Nada de falatório do Chapéu e nem um único pensamento conseguia se formar em seu cérebro que agora estava confundido demais.

- GRYFFINDOR! – gritou para que o resto do salão principal ouvisse.

Aquilo tirou a garota do estado de estupor. Ela não podia ir embora assim. Ele não podia jogar todas aquelas questões incompreensíveis e depois simplesmente sumir para dentro do escritório de Dumbledore como se nada tivesse acontecido.

Precisava de respostas.

Selene fez menção de se agarrar no Chapéu e mantê-lo sobre a cabeça, mas não foi rápida suficiente e logo McGonagall estava segurando seu braço e gesticulando para que ela fosse sentar-se à mesa de sua nova casa. Aceitando a derrota, a loira fez o que mandavam e tentou agir de maneira simpática com as pessoas desconhecidas que estavam ao seu redor, mas seus pensamentos estavam longe demais para isso. De maneira mecânica, então, ela enfiou alguma comida garganta à baixo e respondeu à perguntas aleatórias que lhe eram atiradas. O único momento realmente agradável, contudo, foi quando seu James bateu de leve em seu ombro, anunciando que eles estavam subindo para os dormitórios e perguntando se ela gostaria de acompanhá-los para conhecer o caminho.

A jovem Potter agarrou-se àquela desculpa perfeita e despediu-se rapidamente das pessoas com quem previamente conversava, seguiu, então, o primo e seus dois amigos. Sirius deu um jeito de se esgueirar para o lado dela e imediatamente passou o braço sobre os ombros da garota.

- Então, Kitten? – a voz gostosa dele soou ainda mais incrível ao pé do ouvido dela - O que achou desses minutos na melhor escola de magia do planeta?

- Passei mais do que alguns segundos no Instituto Salém, Black. – falou com um sorriso de lado.

O garoto nunca falhava em distraí-la de seus problemas.

- Engraçadinha você, Potter.

Dessa vez ela soltou uma risada e pensou por um segundo em continuar com aquelas pequenas provocações, mas estava cansada demais, então resolveu responder com a verdade:

- Estou apaixonada.

- Compreensível. Eu sou totalmente apaixonável mesmo. – falou, passando a mão livre pelos cabelos pretos.

- Pouco convencido, Black. Pouco convencido. – empurrou-o para o lado, gargalhando.

Ele deixou que ela se afastasse apenas alguns centímetros antes voltar a colá-la a si.

- Do que vocês dois tanto riem ai atrás? – James virou a cabeça para olhá-los enquanto perguntava.

- Da sua cara, Prongs. – o maroto respondeu sem nem mesmo piscar, completamente sério - Do que mais seria?

O herdeiro dos Potter soltou uma risada fingida e sarcástica, caminhando até os dois.

- Muito engraçado, Padfoot. Muito engraçado. – colocou a mão entre os dois e os forçou para separá-los – Vá se abraçar com Moony, Sel. Ele é bem mais descente.

A garota lançou um olhar incrédulo para ele devido suas ações e depois para Remus, que agora estava corando. Mordendo a reprimenda sobre ele não mandar nela, a loira caminhou para junto daquele que um dia fora um dos seus melhores amigos. Não que a jovem não quisesse ficar perto de Lupin, não era isso. É só que ela estava desacostumada a ter alguém lhe dizendo o que fazer. Estava, contudo, cansada demais por aquele dia cheio de acontecimentos para discutir por qualquer coisa. E realmente gostava da presença do garoto, então não era uma situação ruim.

Não mesmo.

Exceto que obviamente as coisas não poderiam ser tão simples. Os outros dois não pareciam ter chegado a um acordo assim tão fácil.

- Deixa de ser estraga prazeres, Prongs.

- Ela é minha prima!

- Não estava fazendo nada... ainda. – completou.

- Nojento! – resmungou - Ela é minha prima.

- Exatamente. – uma nova voz feminina surgiu – Sua prima.

Os quatro pararam de andar e se viraram bem a tempo de ver uma ruiva marchar em direção a eles.

- Lily! – James imediatamente esqueceu-se da "discussão" que estava tendo e se preocupou em assanhar os cabelos já absolutamente desgrenhados.

- Sua prima. Prima do Potter. – falou, ignorando o cumprimento.

Selene arregalou os olhos, surpresa quando a outra garota parou na sua frente, fulminando.

Um silêncio esquisito caiu sobre aqueles estudantes, todos esperando pela resposta da jovem.

- Sim. – Selene respondeu finalmente, a voz firme – Prima do James. Uma Potter. Algum problema com isso? – arqueou a sobrancelha.

- Por que você negligenciou esse pequeno detalhe quando conversou comigo no trem? De propósito? Faz parte de algum plano?

- Como é?

- É. Você e seu primo. – apontou para ele – Isso é algum tipo de plano de vocês dois para que ficássemos amigas e depois você me convencesse a sair com ele?

Dessa vez os resmungos incrédulos vieram dos garotos, Selene, por sua vez, estava completamente furiosa. Ela tinha tido um dia difícil e agora, quando finalmente estava indo descansar, uma garota histérica aparecia para jogar acusações ridículas em si e em seu primo.

Oh! Seu primo! James devia estar magoado ao ouvir a garota que amava lhe acusando de manipulações. Não era justo.

- Escuta aqui, garota. – Selene deu um passo para frente, o dedo indicador em riste – Fui conversar com você porque gostaria de fazer novas amizades. Não tive nenhum motivo oculto para isso.

Apesar de suas palavras serem meia-verdades, ainda eram verdades completas, pelo menos frente àquilo que estava sendo responsabilizada por.

- E quer saber? Me arrependo de ter puxado conversa com você. Vejo agora que você não passa de uma garota arrogante que pensa que o mundo gira ao seu redor. Sim, sou uma Potter. E sim, sou prima do James. Com muito orgulho. – aquelas últimas palavras saíram com tanta convicção que a ruiva até deu um passo para trás.

Selene ainda lançou um último olhar de desprezo para a outra antes de falar:

- Vamos, garotos.

E eles a seguiram, chocados demais para dizer qualquer outra coisa, quase tão chocados quanto Evans ficou. A ruiva estava chocada demais para se mexer enquanto muitos pensamentos corriam por sua mente e a vergonha enchia seu corpo.

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N/a: Hey, babes. Como vcs estão? :D Que tal o capítulo? ;)

Respondendo:

Guest: Thank you, love *-*

Motoko: Isso é verdade. Personagens "novos" são interessantes. E a explicação? Pouco convincente ou não? Obg por comentar, love *-*