Capítulo Oito
Selene Potter conhecia o ódio. Era um sentimento quente que tinha o poder de avermelhar seu rosto quase tanto quanto queimava seu peito e embrulhava seu estômago. Como se uma mão de dedos longos e cruéis apertassem seu coração, tirando seu fôlego e te machucando por dentro. Todos os pensamentos ruins possíveis passam por sua mente. Você quer machucar a pessoa odiada seja de maneira física ou mental. Qualquer coisa para tirar aquela sensação ruim de si e transferi-la a outrem.
Era isso que ela conhecia como ódio.
Foi o que sentira em relação a cada um dos Comensais quando era obrigada a assisti-los matar seus amigos durante uma batalha sem que pudesse fazer algo para ajudá-los.
Impotência é um dos maiores combustíveis do ódio.
Naquele momento, contudo, a loira percebeu que nunca tinha sentido ódio antes. Não como agora. Nada poderia possivelmente chegar perto da repulsa, do nojo, da raiva e do instinto assassino que ela sentia agora. Nem as vezes em que ela ficara cara-a-cara com Voldermort em pessoa. Potter nunca quis matar tanto uma pessoa como ela queria tirar agora sua varinha e torturar aquele rato nojento até que ele morresse. Ele era o pior de todos porque ao menos Lord das Trevas assumia abertamente suas inimizades enquanto Wormtail traiu seus amigos, aqueles que lhe protegeram a vida inteira, aqueles que o amavam.
Os pensamentos lhe rondavam a cabeça com tanta força que, antes que ela pudesse perceber, antes que pudesse se controlar, ela estava em pé e segurando sua varinha contra a garganta dele.
Várias vozes diferentes chamaram pelo nome dela, mas Selene estava surda para o resto do mundo. O ódio a cegava para tudo mais exceto o fato de que ela poderia acabar com todos os problemas agora, com apenas uma única palavra, uma única maldição.
Seus olhos brilharam malignamente e ela podia sentir a mágica correndo por seus dedos, apenas esperando pelo sussurro que a libertaria para tirar uma vida. A loira estava tão envolta que chegou a abrir a boca. Um segundo antes da tragédia, contudo, ela ouviu aquela voz aveludada dizer:
- Kitten.
Virou a cabeça para encará-lo, sem mover o braço, contudo. O moreno tinha os olhos arregalados, um brilho entre horrorizado e preocupado tomava o belo azul. A realidade, entretanto, só penetrou sua mente quando ele sussurrou, como se fosse uma súplica, mais uma vez o apelido que criara para ela. Selene olhou para frente, para o rosto completamente aterrorizado de Pettigrew, e depois novamente para Black. Dessa vez os olhos azuis acinzentados foram bem sucedidos em trazê-la de volta à realidade.
Assim que ela conseguiu piscar o ódio para longe de sua visão, sentiu o desespero tomar conta de si. Aquilo não seria fácil de explicar. Se continuasse agindo de maneira tão inesperada, logo a internariam no St. Mungus.
De repente ela forçou uma gargalhada, afastando a varinha e aguardando de volta. Seus joelhos tremiam, então ficou mais do que satisfeita em sentar-se.
Ela teve que pensar rápido e não estava nem um pouco satisfeita com a saída que tinha encontrado, mas aquele parecia ser a única opção. Por isso, depois de se acomodar em seu assento mais uma vez, Selene encarou rapidamente todos os seis pares de olhos incrédulos antes de puxar seu copo de suco de abóbora para mais perto.
- Ora! Por que estão me olhando assim? – por mais que se esforçasse, sua voz saiu um tom mais agudo do que o normal – Que foi? Por acaso pensaram que eu fosse matá-lo ou algo assim?
- Pra ser bem sincero... – Frank começou, incerto depois de alguns segundos – foi exatamente o que eu pensei que você faria.
Remus e Alice assentiram enfaticamente.
- Bem. Então preciso dizer que isso é bem bobo da parte de vocês. – olhou para baixo para observar seu dedo deslizar pelo vidro do copo por um segundo antes de voltar sua atenção para eles – Eu estava apenas me divertindo um pouco.
- Divertindo? – James falou, exasperado – Como isso poderia ser divertido?
- Esse é Peter, não é mesmo?
Foçou o nome a sair de sua boca da maneira mais amigável possível, mas quando se virou para ele, o baixinho se encolheu um pouco, aterrorizado.
- Sim. – sua resposta saiu como um gritinho.
- Pois é isso. Reconheci-o como sendo o outro amigo de quem vocês falaram e queria me apresentar de maneira tão inesquecível quanto como tinha feito com Remus.
Aquela desculpa era péssima e até mesmo Selene podia perceber isso. Entretanto, a loira também havia aprendido, ao longo dos anos de guerra, que a maioria das pessoas acreditava naquilo em que queriam acreditar, mesmo que para isso ignorassem os fatos bem diante dos seus olhos. Foi assim que o Ministério "convenceu" a maioria das pessoas que os avisos sobre o retorno de Voldemort eram apenas boatos de crianças sedentes por atenção, ainda que esses mesmo crentes presenciassem desaparecimentos diários de bruxos e bruxas que lhe eram conhecidos. E era assim que ela estava convencendo seus novos amigos agora. A mentira que ela inventara era uma porcaria, ela sabia que eles sabiam disso, mas não havia qualquer outro motivo racional para que eles acreditasse que Selene realmente gostaria de matar Peter, então suas próprias mentes começaram a ponderar que haviam visto demais... que aquilo tudo provavelmente era uma grande brincadeira. Ela quase podia ver as engrenagens nas cabeças deles rodando para adaptar a realidade à sua história.
Eles acreditariam porque queriam acreditar. Queriam que sua nova amiga não fosse uma maluca com tendências homicidas, mas apenas alguém com o senso de humor um pouco distorcido.
- Oh, certo.
Por mais incrível que pudesse parecer, o primeiro a se pronunciar foi o próprio rato.
- Você certamente conseguiu o que queria. – murmurou, passando a mão pela garganta, como se estivesse se certificando de que ela ainda estava intacta – É realmente... impactante conhecer você, Selene Potter.
- Não se preocupe. Não vai acontecer de novo. Dá próxima vez eu pego mais leve. Só vou transfigurar o seu cabelo para que ele fique rosa. – deu uma piscadinha.
Alguns deles soltaram uma risadinha e, fácil assim, a tensão desapareceu. Selene agradeceu Merlin por eles ainda estarem em um contexto não tão paranoico como o que ela viveu em seu próprio tempo, pois, caso assim fosse, aquele tropeço não teria sido esquecido tão fácil. Em tempos de paz as pessoas perdoam deslizes mais facilmente, mas, quando a guerra chega, cada passo é uma possível munição que você fornece ao outro para que ele desconfie de você.
- Sabe, Kitten, se você não fosse bruxa, poderia tentar ser atriz como num daqueles filmes que o professor Carterpaulr tanto fala na aula sobre estudo dos trouxas. Por um segundo você convenceu a todos nós. Parecia até minha prima Bella e um dos seus surtos.
A loira sentiu a bile subir em sua garganta ao ser comparado àquela vadia psicótica.
- Não exagere, Pads. Nada pode parecer Bella a não ser Bella. Ninguém mais é sádico aquele ponto.
Selene engoliu em seco e assentiu, olhando para o lado. Felizmente Alice comentou alguma coisa sobre o tal professor Carterpaulr e toda atenção se voltar para ela. Ninguém viu, assim, quando a viajante do tempo teve que colocar as mãos sobre o colo para esconder o quanto elas tremiam.
Quinze minutos torturantes minutos depois, ela finalmente conseguiu escapuliu para longe do salão principal. Suas pernas ainda estavam bambas enquanto caminhava pelos corredores da escola. Supostamente ela deveria estar procurando a sala para sua primeira aula, mas estava disposta a usar a carta "sou nova aqui, me perdi" para escapar caso alguém a visse. A loira não estava em condições de assistir a uma aula.
Merlin! Ela mal conseguia andar sem precisar se apoiar nas paredes. Parecia que todo o peso do que vinha acontecendo havia desabado de uma vez sobre seus ombros. Sem fôlego faltava, seu coração estava disparado e a vontade de chorar era tão forte que travava sua garganta.
A jovem Potter não podia acreditar que quase pusera tudo a perder... de novo. Aquela já era seu terceiro erro grande desde que chegara a Hogwarts. Primeiro a afeição inesperada e totalmente inoportuna para com Lupin, depois a briga com Evans e agora o quase assassinato de Wortmail. Por um segundo suas pernas falharam e ela teve que se apoiar na parede. O pouco de sorte que ainda lhe restava apareceu naquele momento quando ela visualizou uma sala vazia para onde rapidamente cambaleou. Selene só teve forças para fechar a porta antes de cair sentada contra ela.
Abraçando os joelhos, abaixou a cabeça e chorou. Chorou como quando perdia um dos seus amigos queridos porque, se ela falhasse, era isso que aconteceria. Com o adicional cruel, contudo, de que agora ela era responsável não só pelo futuro dos amigos que tivera em outra vida, mas também pelo de todos aqueles heróis de guerra que caíram tão jovens.
Tantas vidas dependiam dela e mesmo assim ela continuava cometendo os erros mais básicos, deixando pistas que não poderiam ser deixadas. Ninguém poderia saber o que ela sabia, ninguém merecia ter que carregar um fardo tão extenuante. Porque era assim que ela se sentia com cada pequena mentira que tinha que contar, cada novo amigo que ela tinha que manipular, não em benefício próprio, mas para salvar o dito amigo. E havia ainda todas as pessoas que ela não conhecia e que tiveram suas vidas furtadas ou dilaceradas durante os períodos de guerra. Sel podia salvar todos eles se ela agisse corretamente.
O problema era que a garota não havia calculado o quão difícil aquilo seria. Não conseguia afastar aquele caleidoscópio de emoções que a atingia a cada novo dia. Era literalmente carregar o peso do futuro do mundo nas costas enquanto você mal podia carregar seus próprios problemas pessoais.
Selene Potter sabia, entretanto, que não havia escolha. Ou, que mesmo que houvesse, ela ainda preferia estar ali, tendo a possibilidade de construir um contexto onde todos teriam uma vida melhor. Ela não podia desistir.
Não.
Mesmo tendo toda aquela saudade em seu peito do seu querido primo e da vida relativamente mais fácil que teve quando da primeira vez de seus dezesseis anos.
Engolindo o novo soluço que ameaçava passar por seus lábios, ela levantou a cabeça e secou suas bochechas com a manga de suas vestes. A partir de agora ela melhoraria sua estratégia. Por Harry, por James, por Lily... por Sirius. E por todos os outros que merecem uma vida melhor.
A vontade de continuar chorando ainda pesava com força em seu peito, mas outra vez foi lembrada de que não tinha o direito de ser fraca, então finalmente se levantou e saiu para voltar ao salão comunal de sua casa. Já era tarde. Não sabia quanto tempo tinha passado chorando no escuro, mas certamente perdera as aulas da manhã e também o almoço. Talvez fosse conveniente passar na ala hospitalar e pedir alguma coisa para dor de cabeça, assim ela não teria problemas por ter matado todas as primeiras aulas. Ainda havia o bônus de que uma poção realmente ajudaria, visto que Selene começava a sentir a dor crepitando em sua cabeça. Talvez por chorar demais, talvez por todas as preocupações que finalmente caíram sobre ela. Não sabia o motivo. Sabia, entretanto, de que a tal poção realmente seria necessária. Já podia sentir pontos pretos turvando sua visão. Estava a meio caminho, contudo, quando ouviu alguém chamar por ela:
- POTTER! HEY, POTTER! Espere um pouco.
Ela reconheceu a voz e, justamente por isso, quase não parou. Não fosse a resolução a que tinha chegada momentos atrás, ela teria deixado Evans falando sozinha. A loira simplesmente não estava em condições físicas para enfrentar uma briga agora. Então, soltando um suspiro, ela girou em seus calcanhares para lhe dizer exatamente isso.
- Não. É... não é isso. – murmurou, arrastando o pé devagar e olhando para baixo por um segundo – Na verdade, eu vim me desculpar. – falou depois de um segundo, buscando coragem.
Lily Evans se sentia péssima desde o momento em que Selene gritou com ela por ser uma pretenciosa arrogante. Sentia-se mal porque sabia que a outra garota tinha razão. James Potter nunca manipulara nada para conseguir o tão sonhado encontro pelo qual implorava há anos. Ele sempre havia sido honesto sobre suas intenções. E, mesmo sabendo disso, a ruiva o acusara de envolver sua prima em uma tramoia ridícula para conseguir sua atenção.
Ela se sentia tão patética quanto aquela acusação havia sido.
- Desculpar? – Selene repetiu lentamente tanto pela surpresa que aquilo lhe causara quanto pela dor que a deixava mais devagar.
- É. – a ruiva mudou o peso de um pé para o outro, encabulada – Não deveria tê-la acusado de nada, ainda mais sem conhecê-la direito. Foi muito errado da minha parte.
Selene assentiu, e imediatamente se arrependeu, pois o movimento fez com que sua cabeça latejasse um pouco mais. Fechou os olhos com força e tentou conter a náusea.
- Você está bem?
Só agora Evans dava uma boa olhada na aparência da outra garota. As poucas vezes que tinha visto a jovem Potter, Lily havia percebido quão bonita ela era e quão impecavelmente perfeita, sem parecer se esforçar nem um pouco, ela sempre estava. Agora, contudo, os bonitos cabelos loiros dela estavam desgrenhados, seus olhos meio inchados e seu uniforme, amarrotado. Por falta de definição melhor, Selene tinha a aparência de quem tinha sido atropelada por um Hipogrifo.
- Sim, sim. – até sua voz saia fraca – Só preciso chegar à Poppy. Po-podemos conversar depois? – dizendo isso, voltou a caminhar para seu destino.
Não havia dado nem dois passos quando sentiu uma mão amparar seu antebraço direito.
- Vou com você. – a ruiva falou, decidida.
Por um momento o lado independente de Selene floresceu e ela quis dispensar a ajuda, dizer que conseguiria muito bem sozinha. Sua vulnerabilidade, contudo, falou mais alto e tudo que ela conseguiu murmurar foi:
- Obrigada.
Agora que havia alguém para se preocupar por ela, a loira abaixou sua guarda e, talvez por isso, não se lembre muito bem do caminho até a ala hospitalar ou da conversa que teve com Poppy. Tinha noção apenas de que a mulher havia empurrado por sua garganta um líquido de gosto horrível antes de mandar Evans escoltá-la de volta para a Torre Gryffindor. O salão comunal vermelho estava vazio, como era o esperado para o período de aulas, exceto, entretanto, por três jovens. Assim que a passagem se abriu, revelando as duas garotas, James parou de andar freneticamente de um lado para o outro; Sirius levantou em um salto da cadeira onde estava sentado como uma estátua, os cotovelos sobre os joelhos e as mãos segurando sua cabeça abaixada, havia intermináveis minutos e Remus deixou de encarar a vista da janela como se ela tivesse alguma resposta. Todos os três correram para elas. O capitão Gryffindor foi o primeiro a alcançá-las. Ele ignorou completamente a ruiva, toda sua atenção voltada para a prima que ele já considerava como sendo sua irmã mais nova. Pegou-a no colo e caminhou para um dos sofás, sentando-se com a loira ainda no colo.
Sirius seguiu o amigo, tomando o lugar ao lado dele, ambos olhando preocupados para ela. Remus foi o único que manteve racionalidade o suficiente para se lembrar de perguntar a Lily o que tinha acontecido.
- Encontrei-a andando para ala hospitalar. – murmurou, observando atentamente como os outros dois garotos tentavam gentilmente conversar com Selene – Parecia que ela iria desmaiar a qualquer instante, Remus. Decidi que seria melhor acompanhá-la, então. Madame Pomfrey lhe deu uma poção para dor de cabeça e disse que ela deveria descansar e que ficaria muito sonolenta.
- Quando foi isso, Evans? – Sirius perguntou.
- Há cerca de vinte minutos. – franziu o cenho – Por quê?
- Nós não a víamos desde o café-da-manhã. Ninguém sabia onde ela estava. – foi Remus quem respondeu – Estávamos muito preocupados que alguma coisa pudesse ter acontecido.
Lily ficou completamente surpresa, observando curiosamente quando Selene abaixou a cabeça contra o peito de James e fechou os olhos. A primeira refeição do dia havia sido a cerca de cinco horas. Tempo demais para uma pessoa ficar sumida em Hogwarts, onde centenas de pessoas circulavam.
- Não sei onde ela estava. – sussurrou, não querendo atrapalhar o sono da outra garota – Mas, onde quer que estivesse, não parecia ser um lugar bom.
Deixou de acrescentar como seus olhos estavam vazios quando a encontrou. Não queria interferir demais na situação, pois tinha a nítida impressão de que a loira não gostaria que os garotos soubessem como ela estava antes. Não queria voltar para lista negra de Potter justo agora que tinha conseguido se desculpar.
Lupin assentiu, pensativo e preocupado, antes se juntar aos seus amigos. Sentindo-se esquisita e como uma intrusa naquele momento, Lily murmurou uma desculpa qualquer e caminhou para saída do salão. Estava passando pelo portal quando ouviu James chamá-la.
- Sim? – parou no meio do caminho entre o lado de fora e o lado de dentro, virando a cabeça para poder olhá-lo.
- Obrigado. – ouviu-o dizer.
A ruiva assentiu, um pequeno sorriso nos lábios, antes de sair e deixá-los sozinhos. Embora não fosse admitir nem para si mesma, um sentimento caloroso aquecia seu peito.
###
N/a: Olá, jovem. Como você está hoje? *-* Desculpe a demora para atualizar. As coisas estão meio corridas ultimamente. Mas o que vocês acharam do capítulo novo? ;)
