Capitulo 4

Todos trocam seus princípios, todos se renovam.


Já havia perdido as contas de quantas vezes tinha escutado sua conversa com Mike Tevee. Algo naquela conversa parecia errado e Charlie sabia que Tevee deveria ter mais e mais cartas na manga, uma vez que Tevee era mais esperto do que aquilo e era estranho ele ter saído da fábrica com tamanha facilidade.

Se Charlie tivesse tirado todas as formas de vingança, Mike Tevee teria socado seu rosto e não encenado um simples ataque de raiva. Os olhos de Tevee eram transparentes demais para Charlie e era fácil notar quando o garoto estava bolando algo, então porque ele não encontrava a armadilha?

– Maldição!

Berrou enquanto jogava o aparelho contra a parede. Havia se irritado e sua cabeça já não tinha mais como administrar tantos sentimentos ao mesmo tempo. As preocupações quanto a administração da fábrica, a morte de sua mãe, as fórmulas do novo chocolate e o sumiço de Willy ferveram em seu corpo, tal como uma receita Wonka, e consagraram-se na mais profunda ira.

Ofegante e tentando se controlar, olhou para o aparelho caído no chão e percebeu a burrice que havia feito.

– Ótimo Charlie, e como você vai descobrir algo sem o aparelho? - Murmurou ainda mais irritado, enquanto virava de costas para o aparelho e socava a mesa diversas vezes. - Maldito Tevee! Maldito Willy! - Gritava entre os socos.

Ele parou de falar, respirou fundo e completou:

– Que some quando eu mais preciso dele! - Sussurrou com pesar e tristeza, porem mais calmo.

Sentou na poltrona roxa que havia em seu quarto e ligou a televisão. Retirou os sapatos perfeitamente lustrados e puxou a coberta da cama se aninhando na poltrona e por fim, pegou o chocolate sorridente de pelúcia, que Willy Wonka havia costurado e lhe dado de presente.

O chocolate era extremamente torto e também estava surrado, mas Charlie amava aquele ser inanimado, e considerado feio, como seu bem mais precioso. Afinal havia ganhado de Willy em seu primeiro aniversário depois da grande visita.

"Eu sei que não parece muito bonito, mas é a única coisa que poderia te dar e que meu dinheiro não poderia 'comprar'" dizia o chocolateiro de forma encabulada. "Posso ser bom com chocolates, mas na costura..."

Charlie, aninhado na cadeira, suspirou. Precisava descobrir os planos de Mike Tevee e tinha que fazer isso antes de anoitecer, pois sabia que o inimigo era um jogador e não ia querer agir sem, antes, enlouquecer Charlie.

O programa que passava foi interrompido por um plantão, mas Charlie só prestou a atenção quando ouviu o nome de Veruca Salt ser pronunciado por uma jornalista que dizia:

– A senhorita Salt, em uma entrevista ofertada ao Notícias da Tv, disse que as pessoas deveriam analisar as fontes que fornecem notícias.

Uma imagem gravada de Veruca mostrava ela dizendo:

"Todos sabem que Mike Tevee desejava ter o lugar de Charlie Bucket e, se não sabiam, agora sabem. Então, antes de julgar o novo dono da maior fábrica do mundo, pensem se Mike Tevee é uma fonte confiável, uma fonte realmente confiável. Se gostam tanto assim do senhor Wonka, então deveriam confiar em sua decisão de escolher Charlie como seu sucessor."

A imagem voltou para a jornalista e Charlie sentiu a esperança pulsando em suas veias.

Olhou para o aparelho jogado no chão e decidiu pegá-lo.

– Viu, senhor Tevee, nem tudo sai como você deseja.

Mas assim que Charlie se aproximou do aparelho despedaçado, percebeu que Mike Tevee já havia previsto as atitudes do herdeiro. Havia uma mensagem justamente onde ficava as pilhas do gravador:

"Acha mesmo que eu usaria uma tecnologia tão perceptível?"

– Merda!

O grito de Charlie correu por toda a fábrica.

O sobretudo não era pesado, mas nem precisava. Augustus Gloop era gordo, ele não negava, mas se havia uma vantagem em ser gordo, era a de sentir menos frio que as outras pessoas.

Agradeceu ao taxista e nunca encontrou tantas dificuldades em entrar na fábrica. O pai de Charlie, o senhor Bucket, estava disposto a deixar o filho descansar e não queria deixá-lo entrar de forma alguma.

– Hoje, quero que ele tenha um pouco de paz. - Disse o senhor Bucket.

Mas Augustus Gloop era insistente e contornou a situação, passando a conversar sobre a falecida mãe de Charlie.

–"Ele deve estar muito mal não é?

Logo, o senhor Bucket estava lhe revelando o quão doloroso havia sido a morte de sua esposa e o quão preocupado ele estava com Charlie. Aparentemente o herdeiro estava estressado pela quantidade de sentimentos que havia, recentemente, lhe invadido e nenhum deles era bom. Era a raiva e confusão misturadas pelo abandono de Willy, somado com a tristeza pela morte de sua mãe e o estresse de descobrir o que Mike Tevee estava planejando algo quando ele visitou a fábrica sozinho.

Enquanto conversavam, o senhor Bucket criava um falso laço de confiança em Augustus. Gloop. Gloop sabia deste laço e o intensificou, fazendo mais perguntas que impulsionavam o desabafo do senhor Bucket.

Então o gordo começou, em determinado momento, a conversar calmamente, como se ambos fossem grandes e velhos amigos.

Somente quando viu Charlie indo de encontro ao senhor Gloop, é que o senhor Bucket percebeu que fora dominado pelo poeta.

– Não estou de bom humor. - Charlie alertou assim que olhou para o Augustus.

– Não quero te estressar, mas eu, Veruca e Violete precisamos saber o que você quer que falemos para a imprensa.

Charlie, com as mãos apoiadas no encosto da poltrona que ficava em frente a Augustus Gloop sorriu com escarnio. Augustus nunca imaginou que o garoto poderia fazer algo como aquilo, mas compreendeu que deveria ser efeito colateral do momento.

– Veruca já disse o que queria, então por que se preocuparem com o que vão dizer?

– Bom, queremos te ajudar e foi por isso que chegamos a conclusão de que alguém deveria falar algo. Alguma coisa com significado. Sabemos que não será bem-visto se todos nós falarmos coisas vagas como ela. Se continuarmos, Tevee vence.

– A senhorita Salt já disse que não deveriam confiar em Mike Tevee. - Insistiu Charlie.

Augustus percebeu que o garoto estava desconfiado, tenso. Ele não estava agindo como agiu no dia do café e parecia pronto para atacar Gloop. Na verdade, Charlie, estava desnorteado por causa do estresse e isso era visível. Augustus queria ajudar o dono da fábrica, assim como Veruca e talvez Violete – afinal ela não disse nada além de "o que eu devo fazer?" - mas como passar essa mensagem para o herdeiro?

– Charlie, queremos te ajudar. - O garoto chiou e Augustus Gloop continuou, antes que ele falasse algo. - Você não vai acreditar e nós sabemos, mas eu gostaria de saber o por que te atacaríamos se você não fez nada para nós? Mike sonha em destruir você e a fábrica porque vê você como um campeão e ele como segundo lugar, mas para nós, você é apenas uma pessoa que foi digna de ser vencedora do prêmio de Wonka.

– Por que querem me ajudar? - Charlie perguntou com os dentes cerrados, igual as falas de Mike Tevee, mas a voz ainda tinha um tom suave. - O que vocês vão querer em troca? Minha cachoeira de chocolate? Algum chiclete que não tenha efeitos colaterais? Meus esquilos? - O ataque saiu sem aviso prévio. - Vocês não tem um motivo para me ajudar, então saia daqui! Saiam por estas ruas e falem o que bem entenderem! Sou o herdeiro legítimo de Willy e posso fazer o que bem entender! Que a sociedade me odeie! Eu sei que ela ainda consumirá meus doces.

O gordo arregalou os pequenos olhos e perdeu a coloração das bochechas rechonchudas. As palavras feriam.

– Você está falando igual ao Mike e talvez esteja ficando como ele. - Augustus Gloop levantou-se e colocou o sobretudo. - Sei que você está estressado por causa dele e eu sei que não consegue entender, neste momento, que as pessoas mudam.

Ele ainda caminhou um passo na direção de Charlie e concluiu:

– Sabe, você é mais esperto do que Tevee e não queremos que ele te faça mal, afinal você nunca fez mal para nós.

Augustus movimentou a cabeça em despedida e partiu pela porta da frente.

– Nunca vi tantas pessoas entrando nessa fábrica! - O herdeiro resmungou.

Mas quando parou para pensar, Augustus Gloop estava certo, Charlie estava parecendo e agindo como seu inimigo e isso não era bom. Estava arrogante e prepotente. E por um segundo, acreditou realmente que a sociedade era sua escrava, mesmo sabendo que ele dependia dela e do amor dela.

Mas assim que percebeu sua arrogância, uma ideia mirabolante e excêntrica passou por sua mente e Charlie gritou pela fábrica para que um Oompa Loompa ligasse para a impressa e agendasse uma entrevista ao final da tarde.

– Como ele pôde dizer isso? - Veruca estava irritada com a coragem que Charlie havia tido de falar que ela ia querer um esquilo treinado. - Eu vou destruir o rosto impecável dele! - E se arrependeu assim que terminou de falar.

Não precisava ser um gênio para perceber que todos, Augustus e Violet estavam lhe olhando, curiosos quanto ao "rosto impecável dele" e sedentos por maiores explicações. Mas Violete Beauregarde lhe salvou quando disse:

– Ele está irritado demais, com tantas preocupações.

O trio estava reunido em um dos quartos, bolando o que deveriam fazer para ajudar Charlie. Em uma mesa estava alguns chocolates quentes e na televisão ligada uma repórter, embrulhada em um casaco pesado e com o símbolo da empresa que trabalha, anunciava:

"Isso mesmo Márcia, estamos aqui, na frente da maior fábrica do mundo, esperando para ouvir o novo dono. Hoje, ligaram avisando que o jovem tinha algumas coisas a nos dizer. Toda a imprensa do país e alguns jornalistas de outros, estão estrategicamente posicionados para que não percam nada."

– O que este doido está planejando? - Veruca perguntou irritada.

Aproveitou o calor aconchegante da banheira. Os sais utilizados relaxavam o corpo e Charlie continuava repassando o texto que deveria falar para todos. Ah sim, acabaria com a festa de Mike Tevee sem dó nem piedade.

Ergueu o corpo e enrolou-se na toalha. Secou-se lentamente e colocou a roupa que Willy havia planejado para ele usar quando fosse aparecer para alguém, mas que Charlie só usava quando saia da fábrica para ir até alguma reunião. Secou os cabelos com o secador e, por fim, colocou a gargantilha com pingente em forma de W.

Depois, caminhou até o elevador onde a velha bengala de Willy permanecia, marcando o local e não permitindo que Charlie se machucasse como Willy sempre fazia.

O Senhor Bucket andava de um lado para o outro no hall de entrada. Seu filho estava maluco!

– Charlie! - Exclamou assim que ouviu o barulho que os sapatos faziam. - Me conte, que loucura é essa?

– Depois papai, depois. - Charlie suspirou quando viu seu pai fixar o olhar em si. - Eu tenho que acabar com a alegria de Mike Tevee antes que ele acabe com a reputação da fábrica. - Explicou sem entusiasmo. Foi direto, pois não gostava quando seu pai ficava irritado.

– E posso saber o por que ele disse aquelas coisas horríveis para a imprensa?

O pé esquerdo batucava no chão enquanto os braços permaneciam cruzados.

Foi neste momento que Charlie quis concordar com Willy: os pais sempre nos impedem de fazer as coisas.

Mas Charlie instantaneamente lembrou-se do que Willy repetia sempre que Charlie se irritava com seus familiares:

"Estrelinha, foi você que me ensinou que eles fazem isso porque desejam nosso bem. Reconsidere, se você estivesse no lugar deles, faria a mesma coisa ou até pior."

– Papai, Willy não morreu, eu sei. Mas eu preciso de uma explicação e aproveitei a raiva de Mike para chamar a atenção de Willy, independente de onde ele estiver.

– E você perdeu o controle. - O senhor Bucket completou.

Sorrindo para o filho o abraçou. Charlie suspirou rendendo-se ao abraço de seu pai.

– Sim, papai.

– Eu sei que você vai conseguir contornar esta situação. - Beijou a testa do pequeno e continuou – Sabe que se precisar, pode contar comigo.

– Eu sei.

Charlie sorriu de forma confortável.

Os jornalistas olhavam para os relógios ansiosos para saber o que Charlie B. Wonka queria comunicar. Um murmúrio irritante tomava conta do exterior da fábrica, e claro que Charlie não abriu os portões.

Dois Oompas Loompas observavam o herdeiro sorrindo, mas, na verdade, estavam apenas tentando confortá-lo.

– Vai dar tudo certo, tudo certo! - Charlie repetia enquanto andava em círculos.

Seu pai apenas o observava. Um suspiro e Charlie olhou para a porta. Ele odiava aparecer em público – talvez fosse resquícios de Willy -, mas estava na hora.

As portas se abriram e o herdeiro saiu rápido. Os flashes começaram como uma tempestade desavisada. Charlie manteve a pose. Os repórteres tinham perguntas, muitas perguntas e o herdeiro sabia, mas ele não permitira nenhuma.

– Vejam, vai começar.

Violete Beauregarde disse apontando para a televisão. Augustus Gloop e Veruca salt mantiveram sua atenção voltada para a televisão, assim como metade da população do mundo.

Mike Tevee estava curioso, ele havia parado para tomar um bom café em um bar e viu o plantão de notícias do canal em que haviam deixado.

– Boa noite. - Começou, Charlie, e os repórteres calaram-se. Charlie apoiou-se na bengala para conseguir apoio emocional, mas todos acharam um ato charmoso. - Sim, eu disse que Willy Wonka é um covarde por ter abandonado a fábrica, ao ver que nossas ideias estavam em níveis diferentes.

Talvez o mundo tenha começado a julgá-lo naquele exato instante e Charlie deixou que os jornalistas gritassem coisas que ele não escutava.

– Eu também gostaria de alertar que: ao entrar nesta fábrica é assinado um termo em que nenhuma informação deverá ser dita. O senhor Tevee visitou esta fábrica e carregou informações proibidas. Se, de alguma forma, alguém aceitar estas informações e divulga-las, ou utilizá-las eu, Charlie Bucket Wonka, herdeiro de Willy Wonka, processarei a empresa que divulgar a informação, o repórter que editar e Mike Tevee. Entrarei no jogo dele, mas garanto que serei o único que terá condições de se reerguer.

Novamente os repórteres levantaram suas vozes e talvez o mundo comentava sobre as atitudes agressivas de Charlie.

A marca principal de Willy, era a doçura. Nas poucas vezes em que ele apareceu para as mídias, ele sorria, brincava. Mas Charlie, depois de tanto tempo sem surgir porta à fora, estava rude, seco, armado.

Atirava crueldade com suas palavras de forma que ninguém, jamais, imaginou ser possível. Nem mesmo os antigos visitantes da fábrica, que sabiam do lado sádico de Willy, imaginavam que Charlie podia ser mais assustador e ainda em público.

– Por fim, como meio de punição, pararei de distribuir meus doces pela localidade e tomarei medidas para que o produto não acesse o local que receber e usar a informação.

Ele havia quebrado suas armas. Mike Tevee estremeceu e sua ira cresceu ao ponto de quebrar xicara com o café que havia pedido. Isso não vai acabar assim, pensou com os dentes cerrados.

– Eu aviso que o senhor Tevee vai tentar contratar alguém para espalhar essa informação por isso, acredito que vocês devessem fazer como Veruca Salt alertou: verifiquem sua fonte.

Charlie observava cada reação como um todo. Os repórteres estavam com um semblante irritado e incrédulo. Não conseguiam mais achar algo que quebraria a pedra de gelo que Charlie estava usando para se proteger.

– Gostaria também de me desculpar com Augustus Gloop, Veruca Salt e Violete Beauregarde pelo que eu disse hoje. Agradeço a presença de todos. Sem mais.

E a população ficou boquiaberta com o que Charlie Bucket havia acabado de fazer. Ele havia sido rude, mas era notável o motivo por ter sido tão seco. Talvez os jornalistas tivessem muito o que perguntar, mas o garoto entrou pelas portas da fábrica sem dizer mais nada.

Ele havia iniciado e terminado. E todos deveriam aceitar.

E, querendo ou não, Mike Tevee estava sem um carro, sem um meio de destruir aquela fábrica. Ele tinha as munições, mas suas armas estavam destruídas. Charlie e Mike sabiam que aquela velha guerra estava terminada, e o garoto herdeiro havia terminado como um campeão invicto. Venceu todas as batalhas e ainda havia deixado, por um pequeno momento, a felicidade, da vitória garantida, atingir Tevee.

Naquele momento, quando aparecera em frente as mídias mais influenciadoras, Charlie B. Wonka provou o quão acima estava, em quesito poder, de Mike Tevee.

"Estrelinha, algumas vezes temos que ser rude com as pessoas ou nossos atos não terão valor algum."

Charlie havia compreendido o que Willy tanto tentava lhe ensinar.

Aliás, todas as semanas, Willy trazia um ensinamento avulso e o pequeno herdeiro nunca entendia o motivo, mas agora... Agora Charlie compreendia que Willy já havia passado por todas aquelas situações.

E o louco criador da fábrica sabia que elas se repetiriam.