Levi saiu do laboratório de Hange e foi para seu quarto, fez uma pequena mala contendo algumas roupas, artigos de higiene e aproveitou para pegar alguns livros para se entreter enquanto estivesse no porão.
Ele definitivamente estava irritado, muito irritado.
Como aquele pirralho imundo podia ter sido designado para lhe vigiar e o pior, ele havia concordado com isso! Não estava certo, aquele pirralho nunca seria capaz de acabar com o "mais forte da humanidade", isso era fato.
Mas realmente, diante das circunstâncias ele era o mais indicado...
Bufou com raiva, aquilo o irritava imensamente, odiava que um subordinado sob sua responsabilidade precisasse vigiá-lo... Hange pagaria por isso e com certeza Eren também não sairia ileso.
Saiu do quarto, estava percorrendo o corredor em direção ao porão quando encontrou com o pirralho, ele estava com um lenço na cabeça e carregava uma pilha de roupas.
– Capitão!– disse Eren apressadamente, já esperava a inspeção do mais velho e sabia que se as roupas não estivessem lavadas devidamente, seria castigado e teria que refazer o trabalho.
– Eren, deixe essas roupas em algum lugar e procure pela Hange, é uma ordem.– Levi continuou seu caminho sem ao menos dirigir o olhar.
– Um pirralho que não sabe nem lavar roupa.. me vigiar... – murmurou para si mesmo, inconformado.
– Desculpe, disse algo Capitão? – Eren achou que havia ouvido algo.
– Vai logo procurar a Hange, Eren! – falou rispidamente.
– Sim, senhor!– Eren estranhou aquela atitude, o capitão parecia estar muito zangado.
"Algo muito ruim deve ter acontecido", pensou.
Eren imediatamente deixou as roupas em cima de um móvel qualquer e saiu correndo em direção ao laboratório de Hange.
Chegando lá viu que ela estava sentada em uma escrivaninha finalizando uma carta.
– Tenente Hange-san. – Eren chamou, saudando respeitosamente com o punho no peito.
– Ohh! Eren, bem na hora! Acabei de finalizar a carta que será enviada para o Erwin. Por favor, peço que se encarregue de deixá-la com o mensageiro, é importante que essas informações sejam entregues ainda hoje. – disse entregando a cara selada para Eren.
– Entendido. – pegou a carta e a guardou.
– Agora, por favor, sente-se, precisamos conversar. – disse sinalizando uma cadeira a Eren.
– O que aconteceu Hange-san? – perguntou enquanto se sentava, estava bastante curioso e preocupado.
Hange colocou Eren a par da situação.
– Por isso Eren, precisamos que você nos ajude, que mantenha Levi sob vigilância pelos próximos 3 dias.
– Então é isso... – Eren estava preocupado, Levi era o soldado mais forte da humanidade, o que fariam se algo acontecesse a ele? Ele seria mesmo capaz de pará-lo? Talvez ele não fosse a pessoa certa para essa missão, não tinha certeza...
– Você será capaz de fazê-lo Eren? As próximas horas serão as mais críticas, os efeitos devem aparecer em breve, preciso que tome sua decisão agora! Estamos lhe fazendo essa oferta por que confiamos em sua capacidade. O ponto é, você também confia?– ela havia percebido a confusão nos olhos do garoto, mas aquele não era momento de hesitar.
Hange estava certa, ele não podia duvidar de sua capacidade, o capitão Levi estava precisando dele. Ele o havia salvado no tribunal, agora era sua vez de retribuir. Precisava ser forte.
– Sim, eu consigo fazê-lo!– disse com convicção.
– Certo... Preciso de mais um favor, chame o Levi e o acompanhe até aqui, gostaria de fazer alguns testes e colher algumas amostras antes que os efeitos apareçam. – disse Hange com um sorriso suspeito no rosto.
– Sim, senhora! – Eren virou-se em direção a porta, mas antes de sair notou uma caixa metálica nas mãos de Hange, não sabia o que era aquilo, mas não parecia uma coisa boa.
Eren saiu do laboratório, estava descendo as escadas quando encontrou com Mikasa.
– Eren, estava te procurando, por onde esteve? – perguntou, enquanto se aproximava.
– Estou com algumas questões para resolver agora Mikasa, fui designado a uma missão.– disse animado por demonstrar para a "irmã" que também era útil ao esquadrão.
– Vai sair para o exterior? Eles vão fazer experimentos estranhos com você?! – segurou as mãos de Eren enquanto falava, preocupada.
– Claro que não! Não posso falar a respeito. É confidencial... – Soltou suas mãos das delas, não entendia por que ela era tão super protetora, isso o irritava.
Mikasa suspirou, Eren não mudava, parece que nunca perceberia seus sentimentos por ele...
– Vim me despedir, devo ficar fora durante uns dias, fui designada para uma missão de exploração aqui dentro do território. Vamos dar a volta na muralha Rose, ver se há mais fissuras ou algo anormal, se acharmos algo talvez possamos contribuir para a pesquisa da Tenente Hange. – disse cabisbaixa.
Ela o abraçou.
– Tome cuidado Eren, não deixe que eles façam nada de ruim com você. – falou enquanto o abraçava.
– Sim. Você também, tome cuidado Mikasa – ele retribuiu o abraço de forma torpe, ficou sem graça, não estava acostumado a essas demonstrações de afeto.
O abraço de desfez. Ela acenou e se foi.
Ele pensou em como ela era admirada por todos, ele a invejava... Não gostava de depender tanto dela...
Estava perdido em pensamentos quando percebeu que precisava retomar seu caminho. Repreendeu-se mentalmente por se distrair tão facilmente. Foi até o mensageiro, deixou a carta e se dirigiu ao porão.
Ao chegar, percebeu que Levi já havia se acomodado, estava sentado na cama que costumava ser sua, lia um livro, notou que havia um colchão no chão ao lado da cama.
– Eren já troquei os lençóis, o colchão no chão está à sua disposição. – falou sem tirar os olhos do livro.
– Q-QUE? Mas...– Eren percebeu que Levi realmente havia trocado os lençóis, mas só arrumou o próprio, nem ao menos teve a decência de arrumar o colchão, seu lençol e cobertores estavam embolados, jogados em cima do colchão de qualquer jeito, isso o irritou.
– Algum problema soldado? Não achou que eu fosse dormir nesse chão imundo, achou?– cortou Levi, lançando um olhar aterrador.
– S-Sim, senhor!... Quero dizer... Não, senhor! – Eren gelou, perdeu as palavras quando viu aquele olhar, não queria que o capitão se enfurecesse.
– Seja mais específico soldado! – continuou fitando o rapaz.
– Não, não vejo problemas em dormir no chão, senhor!
– Que bom...– voltou sua atenção para o livro.
Eren suspirou aliviado, não queria que o capitão se zangasse com ele.
Levi achava aquele porão pouco cômodo, pois, como costumava ser uma cela, nunca houve manutenção. Do teto pendiam algemas que pareciam estar a ponto de se soltar e por causa da umidade as paredes estavam mofadas e descascando. Aquilo o enojava, aquele cheiro de bolor... Não via a hora de voltar para seu próprio quarto.
– Aproposito, a Hange-sanpediu que o senhor comparecesse ao laboratório, poderia me acompanhar?
– Tch... de novo? O que ela quer?
– Não sei dizer, senhor. Creio que quer colher algumas amostras.
– Ótimo. Agora virei cobaia daquela maluca. Mas pelo menos vou sair desse quarto imundo e respirar um pouco. Vamos.
Ele se levantou e acompanhou Eren ao laboratório, chegando lá, perceberam que não havia ninguém.
– Err... Creio que ela precisou se ausentar...
– Essa quatro olhos, me fazendo de idiota... Deve estar presa no banheiro cagando.
Eren segurou o riso, o capitão podia ser engraçado com seu mau humor de vez em quando.
– Vamos voltar Eren.
– Sim, senhor.
Estavam saindo da sala quando Hange chegou esbaforida.
– Haa, que bom que cheguei a tempo! Vamos, entrem e se acomodem. – disse enquanto os empurrava para dentro e fechava a porta.
– Se acomodar aonde nessa bagunça? – criticou Levi. - Vou ficar em pé mesmo.
Hange apenas o ignorou e começou a explicar como seriam os testes e as amostras que precisaria colher.
Levi passou cerca de uma hora fazendo exames. Até que se cansou.
– Hange, não vou fazer mais risquinhos consecutivos no papel e também não penso em colher esse tipo de material, de jeito nenhum eu vou ejacular em um pote! Nem mesmo tenho disposição para isso. – disse irritado.
Eren corou, realmente não conseguia imaginar seu superior se masturbando e ejaculando em um pote.
– M-mas Levi...– retrucou Hange.
Ele a ignorou e se dirigiu a porta.
– Estou saindo, venha Eren.
– Sim! Até mais Hange-san. – ambos saíram de lá.
– Ela me fez perder tempo! Tenho certeza que ela estava me enrolando lá por algum motivo. – Levi comentou enquanto andava.
– Capitão, ela estava colhendo amostras para análise, é pelo bem da humanidade. – defendeu Eren.
– Tenho minhas dúvidas.
Eles foram até a cozinha e pegaram alguns alimentos para deixar no porão, pois não era seguro que o capitão ficasse perambulando pelo castelo nos próximos dias.
Enquanto desciam as escadas em direção ao porão, Levi falou:
– Eren não fique se achando só por que foi designado para me vigiar e não importa o que aconteça, tome a decisão correta para que não hajam arrependimentos.
– S-sim senhor, darei meu melhor. – o comentário o fez lembrar-se de quando seus companheiros foram mortos por sua escolha errada... Sentiu-se deprimido, não podia errar novamente. Precisaria saber agir na hora correta e fazer o necessário para parar Levi, se precisasse, mesmo que isso significasse ter que matá-lo. Preferiu afastar esse tipo de pensamentos da cabeça. Não queria pensar nisso agora...
Quando chegaram ao porão, Levi percebeu que algumas coisas em cima da cômoda estavam em posições diferentes das que havia deixado, mas não se incomodou, devia ser apenas impressão...
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Estava anoitecendo, Levi havia se deitado, não se sentia muito bem, seu corpo parecia não responder normalmente e era difícil colocar as ideias em ordem, talvez fosse melhor dormir um pouco. Fechou os olhos.
Eren estava no colchão ao lado, viu quando o capitão fechou os olhos, ele estava com uma roupa leve para dormir, estranhou, nunca o havia visto tão... desleixado. Ficou observando, ele parecia tão tranquilo assim com os olhos fechados, nem parecia a pessoa ranzinza que costumava ser normalmente...
Levi sentiu-se incomodado, o pirralho não parava de fitá-lo.
– Tem algo no meu rosto, soldado?
– Hha! Não, senhor! – Eren disse sem graça, achava que o capitão não estaria tão atento tendo aquele semblante tão tranquilo...
– Estava pensando, é verdade que o senhor viveu na cidade subterrânea? – Eren se recriminou internamente, o que ele tinha na cabeça para perguntar isso, ele seria castigado com certeza...
– Sim... Fui criado lá. – respondeu Levi.
– Fiquei sabendo que era um criminoso... Como o senhor entrou para Tropa de Exploração? O senhor tinha companheiros? – Deveria ter mantido a boca fechada, mas a curiosidade era maior.
– Isso é um interrogatório, soldado? – Levi não gostava de falar sobre esses assuntos, não queria continuar, mas quando olhou para o Eren, aqueles olhos tão verdes, expectantes, o olhar de admiração, o fez lembrar-se de sua pequena companheira no submundo, Isabel, ela era como uma irmã... Sentiu saudades.
Eren achou que ele não responderia. De repente os olhares se encontraram, ele percebeu que a mente de Levi estava em outra época... Nostalgia, era isso que via em sua feição.
– Sim, eu tive companheiros, dois na verdade. Você me lembra muito um deles, o jeito rebelde, a ânsia pela liberdade e... esses olhos tão verdes.
– E o que aconteceu com eles? – a resposta o surpreendeu, queria saber mais.
– Eles estão mortos.
– Sinto muito... Foram os titãs?
– Sim... Mas isso aconteceu por causa de uma escolha errada, uma escolha minha.– Tudo ficou em silêncio, Levi parecia... triste.
– Foi uma grande perda, eles eram jovens, ela principalmente, uma criança como você. – continuou.
"Não sou uma criança" – Eren pensou, mas não ousou falar.
Passaram se alguns momentos em silencio, cada qual fundido em seus próprios pensamentos.
Levi achou que não estava raciocinando direito, se estivesse em sã consciência, nunca diria essas coisas tão pessoais a um subordinado. Precisava parar e se controlar.
– Capitão, qual sua idade? – perguntou Eren, interrompendo os pensamentos de Levi.
– Sou mais velho do que você imagina. – disse enquanto o fitava.
Percebeu que Eren estava com aquela expressão frustrada, fazendo um pequeno bico com a boca, ele já a havia visto antes. Foi então que se lembrou de quando Isabel havia feito aquela mesma pergunta e ele havia dado a mesma resposta, sim... era a mesma expressão.
Levi sorriu.
Eren abriu os olhos, surpreendido, não podia crer, Levi havia sorrido, um sorriso sincero, ele ficou feliz de poder ver algo tão raro, mesmo que não fosse para ele. Sentiu que queria ver mais daqueles sorrisos, na verdade não entendia muito bem seus sentimentos naquele momento, mas queria ver o capitão sorrir mais.
– O senhor deveria sorrir mais vezes... – assim que falou, desejou voltar no tempo e não ter dito nada. Mas, foi algo tão espontâneo... ele simplesmente soltou aquele comentário.
Levi o olhou surpreendido, ninguém nunca teve a audácia de dizer esse tipo de coisas a ele.
– Não tenha tanta confiança soldado, não sou um de seus amiguinhos para me dizer o que eu devo ou não fazer! -quem era ele para dar esse tipo de opinião? Não deixaria que ele agisse e falasse com tanta confiança. Ele deveria colocá-lo em seu próprio lugar, era seu superior afinal.
– Sim, senhor! Desculpe senhor! -Eren achou que Levi estava certo. Aquele comentário foi inapropriado, recriminou-se mentalmente.
– Agora cale a boca e me deixe dormir. – concluiu, fechando os olhos.
– S-si...– Eren achou melhor se calar, afinal era essa a ordem.
Ele ficou mais tranquilo em saber que o capitão também tinha sentimentos, que afinal, ter sentimentos era algo normal, mesmo durante toda aquela situação... Afinal, ter sentimentos e emoções era o que os diferenciavam dos titãs. Era algo tão... humano...
Eren sabia que não podia dormir, tinha que estar atento vigiando as reações do capitão Levi, mas enquanto olhava para ele, descansando tão tranquilamente, acabou adormecendo também.
