A ferida aberta que ela esconde
Ela apenas a mantém bem guardada
E nunca mostra
Ela não aguenta mais isso
Mas não consegue deixar pra lá
E está certo... Ela não quer o mundo
Esse amor que ela sente
Todas as coisas que ela não soube ou alguma vez acreditou serem reais
Parecem que foram jogadas fora, agora como ela viverá?
Está certo... Ela não quer o mundo
Capitulo 9 –Como as estrelas no céu
Ela chegou à biblioteca ofegante e desabou em uma carteira vazia. Estava amolecendo e sabia disso. Esse era o principal perigo de permanecer em um mesmo lugar por muito tempo.
"Mentira" – A voz interior traiçoeira sussurrou dentro dela. "Esse é o principal perigo de se aproximar tanto de alguém".
Perto demais. Passou os dedos levemente nos lábios, onde a língua dele estivera provocando antes e sentiu-se corar.
Ridículo. Ela nunca corava. Já tinha beijado antes.
Mas tinha sido diferente.
Balançou a cabeça. Não podia ficar pensando nisso. Não tinha tempo pra ficar pensando nisso. Além do mais, analisar muito tornaria tudo mais perigoso, mais íntimo, pessoal. Não pensaria mais. Não pensaria. Não pensaria.
Droga.
- Sakura?
Olhou para cima, praguejando internamente não ter sentido a aproximação dela. Qual era o nome dela mesmo?
"Incrível como essa mulher bagunça até mesmo a minha memória" – pensou com uma gota.
- Ahn... Er, oi. Sensei.
- Eu vim parabenizá-la pelo seu desempenho hoje. Sabia que não me decepcionaria. Aqui está a autorização do passeio.
Sakura torceu a boca, evitando uma careta e esticou a mão para pegar o papel. Viu Sasuke atrás da professora, quando ele fingiu tossir e percebeu que ele tentava esconder o riso.
Idiota.
A professora olhou de um para o outro se dando conta da "situação" – uma rosada com os olhos em fendas e um moreno com um meio sorriso no rosto – piscou para Sakura.
"Oh, Kami" – pensou com uma gota – "ela não fez realmente isso, fez?".
Exceto que ela fez, é claro que ela fez.
- Eu já entreguei a do Sasuke. Espero que gostem do passeio. – disse muito satisfeita consigo mesma, enquanto ia para a sala dos professores.
Sakura rolou os olhos e Sasuke riu, sentando-se de frente pra ela.
- Eu já disse que adoro a Kurenai-sensei?
Ela arqueou a sobrancelha.
- Eu a detesto.
Sasuke balançou a cabeça.
- Você a adora. E gosta de contrariá-la não porque quer provar algo a ela, mas porque está tentando convencer a si mesma.
- Obrigada pela consulta gratuita "doutor Uchiha", mas quando quiser receber um diagnóstico eu vou procurar um profissional e não um aspirante.
- Ai, assim você pode ferir meus sentimentos – zombou com o meio sorriso sarcástico, tão característico.
- Oh, sim? Meu coração se entristece pela sua dor – disse se movendo pela biblioteca e pegando um livro que falava sobre judô.
Ele a seguiu e leu o título sobre seu ombro e ela o sentiu balançar a cabeça, ansiosa para colocar distância entre eles, ela voltou para a mesa com o livro.
- Ainda não entendo como você pode aprender a lutar só lendo isso.
Ela o olhou, enervada.
- Eu não só leio, eu…
- Vê vídeos pelo youtube, yeah, ok, porque isso explica tudo.
Ela suspirou.
- Como você sabe, meu pai foi policial, isso é genética. Está no sangue, além do mais o controle do corpo apenas treinamento físico constante, mas também da mente. Talvez principalmente da mente. O comando enviado pelo cérebro é o que faz o corpo trabalhar. Você pode me mandar levantar agora, mas minhas pernas só vão se mover quando o comando vindo a partir do meu cérebro chegar com a ordem até elas. Todas as nossas ações são comandadas pelo cérebro. O comando é enviado rapidamente, às vezes antes que você pare pra pensar sobre isso, quando você encosta-se a uma superfície muito quente e se move pra longe pra bloquear o contato, mas o seu cérebro deu a ordem. A dor está na mente.
Ele parecia tão admirado que ela sentiu-se presunçosa.
- Você é tão nerd.
O sorriso dela se transformou em uma carranca ao registrar as palavras, mas apenas rolou os olhos, voltando para a leitura.
Ele riu.
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Chegou em casa, sentindo um sorriso idiota espalhar-se por seu rosto, mas não podia evitar. Essa era a consequência do aparecimento de Sakura em sua vida. Mesmo não podia lamentar. Adorava estar perto dela. Fascinava-o com seu modo de pensar, com o raciocínio rápido e lógico ao qual chegava sempre que era questionada, desafiada ou testada. Cada faceta que descobria em sua personalidade era algo a ser observado e preservado. Nunca pensou que pudesse se sentir assim por alguém e em tão pouco tempo de convivência. E certamente não alguém com uma personalidade tão forte. Mas… Parecia que sempre que desvendava algo, descobria algo sobre ela, descobria também sobre si mesmo. Como o poema que encontrara enquanto pesquisava o que usaria na apresentação… Aprendo acerca de mim em você mais que em mim mesmo.
Tinha um pouco de vergonha quando às vezes se achava perguntando-se o que Sakura acharia desse ou daquele filme, ou o que faria ou falaria se estivesse ali. Ela gostaria disso? Gostaria daquilo?
Teria se apaixonado tanto assim em tão pouco tempo?
"Assustador" – decidiu. Tinha que levar as coisas mais devagar, acabaria assustando-a e fazendo com que se afastasse. Inferno, ele estava assustado. Mas não queria se afastar e não queria que ela se afastasse tampouco. Era… Ela era importante pra ele. Nada tinha tido importância em um longo tempo. "Muito assustador".
Quando estava quase no fim da escada ouviu a voz de seu pai, chamando por ele. Retrocedeu confuso.
- Pai? O que faz em casa essa hora? Não devia estar na delegacia? – ao observá-lo se aproximar, ele sentiu o coração martelar. O rosto do pai estava rígido de tensão. – O que aconteceu?
- Sasuke. – Repetiu Fugaku sério. – Precisamos conversar.
- Aconteceu alguma coisa?
- Não quero mais que veja a garota. Não o quero perto dela, entendeu?
- Garota? Que garota? O que está falando pai? Não está fazendo sentido, eu…
- Quero que pare de andar com a garota – repetiu – Haruno Sakura. Quero que se afaste dela imediatamente.
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O que diabos estava havendo com ela? Desde quando Sasuke surgira tudo em sua vida, que já era ferrada, se complicara ainda mais. E ela sequer sabia que isso poderia ser possível. Sempre que estava com ele esquecia os motivos que existiam para não se envolver com alguém. Ela não tinha sofrido o bastante? Já não tinha tido o suficiente? Ela sabia o que o amor havia feito à sua família. Havia visto o lado mais sombrio do amor e não era bonito. As pessoas costumavam pintar algo belo e duradouro. Algo fantástico e cheio de pequenos e grandes milagres. Uma intriga aqui e outra ali, mas no final: o amor vence. Ela estava apostando que a maioria dessas pessoas nem sequer tinha conhecimento do que era o amor. Pessoas que só conheciam o lado "bom" da vida. O lado bonito. E ela as invejava profundamente. Eram tão felizes, tão… vivas. Não tinham que viver fugindo (fugir de quê?), estavam quase sempre rindo, cheias de amigos e amigas, tinham um lugar que podiam chamar de lar e parentes irritantes que os visitavam às vezes. Irmãos implicantes, comemorações de final de ano em família, datas festivas cheias de brincadeiras idiotas e zoações típicas, risos… felicidade. No começo tinha sido assim. E havia os livros e as séries na TV. E elas, essas pessoas ingratas viviam reclamando de suas vidas tediosas, chatas e sem emoções. Praguejavam por ir à escola, ficavam chateadas quando os pais não permitiam que fossem a uma determinada festinha. Ela as odiava. Tinham tudo, tudo e não respeitavam isso, sequer suspeitavam, não valorizavam o quanto era importante, o quanto era especial.
Uma vez viu um desenho em que o pai punha o filho para dormir e lhe contava uma história, um daqueles contos de fadas… Ela conhecia todos, porque os lera para si mesma quando era bem mais nova. Às vezes lia em voz alta, quando seu pai estava fora por várias noites por causa de algum trabalho "extra", e fingia que era a voz dele. Idiota, é claro. Absolutamente inútil. Contos de fada eram para os muito jovens, muito ingênuos ou muito afortunados; como lera em um dos livros da Nora Roberts.
Uma vez à tempos atrás quando via os romances que sua mãe lia, perguntara o porquê de fazê-lo. Ela havia dito que eram lindos, cheios de emoção e desafios e não importava o que acontecia, havia um final feliz. Na época concluíra que os romances eram contos de fada para adultos.
Gostava deles. Envergonhava-a admitir que, apesar de não reconhecer, gostava deles. Em sua opinião, era uma fascinação meio mórbida na verdade. Eles eram uma afirmação do que no fundo, bem no fundo, desejava e nunca poderia ter.
Justificava a si mesma que, já que não tinha tempo para o amor ou o romance na vida real, podia ter na ficção.
Acreditava que o amor podia ser bom para alguns. Que poderia dar certo se a pessoa tivesse uma vida estruturada, uma base sólida para se firmar. Uma pessoa com uma base poderia se dar ao luxo de se aventurar no amor, afinal se não funcionava podia voltar atrás. Teria uma decepção, mas Kami bem sabia como algumas pessoas precisavam de experiências que a fizessem amadurecer.
Com ela, sempre havia sido diferente. Porque era diferente. As crianças às vezes a rejeitavam por não entenderem o que a fazia tão boa em certas coisas. Sua inteligência e capacidade intimidavam até mesmo pessoas mais velhas e experientes. "As pessoas temem o que não compartilham" – lembrou.
Por isso estava sempre sozinha… Tão, tão sozinha. Em todos os lugares.
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- Isso não é negociável Sasuke – discutiu Fugaku inflexível.
- Pai, os meus sentimento também não são.
- Não me desafie, menino – ralhou. – Desde quando você sabe que essa garota é filha do homem que matou sua mãe?
- Pouco tempo – disse vagamente, sentindo a raiva chegando lentamente, junto com a frustração. – De quem ela é filha não me importa e também não devia importar ao senhor!
- Como pode dizer isso? – bradou, transtornado. – Já esqueceu de tudo que passamos por causa dos Haruno?
- Pelo amor de Kami, foi o pai dela, não a família inteira! – explodiu o moreno – Sakura é uma vítima das atrocidades do pai dela. Não vou me afastar dela só por ela ter tido a infelicidade de nascer com o sangue daquele bastardo nas veias.
- E como sabe que essa garota não é uma isca, Sasuke? Eu já perdi a sua mãe. Não vou perdê-lo também!
- Ela não é pai. Eu vi os hematomas no braço dela, ninguém se machuca daquela forma só pra atrair alguém. Além do mais com que objetivo?
Sabia, no fundo, que o filho tinha razão e estava sendo irracional, mas a vinda dessa garota e da mãe para a cidade havia feito com que revivesse aquele tormento todo novamente, a dor, a angústia e a solidão que nem o trabalho nem os filhos puderam apagar. Os filhos, por Kami nem queria ver quando tivesse que conversar com Itachi sobre aquela bomba. Nenhum deles nunca mais havia sido o mesmo, mas Itachi havia sido o mais afetado. Só pensando em escuridão e vingança desde a morte da mãe.
O pânico vindo com a descoberta o abalara, imagine ao filho mais velho? Além do mais não queria correr riscos com Sasuke. Não com ele.
- Você vai me desafiar, Sasuke? Vai desobedecer seu Otou-san?
- Se for preciso – respondeu Sasuke com pesar, mas irredutível. Não deixaria Sakura sozinha, nem mesmo a pedido de seu pai. – Pai, por favor, escute. Ela e a mãe já passaram anos fugindo. Elas estão tentando se estabilizar aqui. Eu conversei com elas. Confiam em nós. Quando a mãe dela soube que eu era filho de um policial entrou em pânico, assim como Sakura. Elas já estavam prontas para partir. Até eu revelar que era na verdade, um Uchiha. E mesmo assim Sakura não queria ficar, se sentiu doente só de saber o que… o que o pai dela fez. Eu prometi a mãe dela que elas estariam seguras aqui. Que nós iremos ajudá-las. O senhor sempre me disse o quão importante era defender aqueles com quem nos importamos. Eu me importo com a Sakura. E com a mãe dela também, ela é uma mulher muito boa e lutou muito para estar aqui agora. O seu dever é proteger, se isso é verdade então me ajude a protegê-las. É a sua chance de fazer justiça e pegar o homem que matou mamãe e ajudar mais duas vítimas desse mesmo homem. Por favor, pai.
As palavras do filho o comoveram e sentiu os olhos rasos de lágrimas, enquanto o puxava, abraçando-o fortemente.
"Nós fizemos um bom trabalho meu amor, minha Mikoto".
- Eu vou ajudar filho, vou ajudar.
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