Ino

Olhou para a terceira dose de saque e deu um suspiro. Apertou fortemente o copo em sua mão e suspirou novamente. Colocou a mão na cabeça e viu uma lagrima cair na mesa. Estava chorando, pensou, então ficou braba e deu um soco na mesa, não tão forte como gostaria para não chamar a atenção dos demais, afinal, sempre fora de chamar a atenção mas não para situações como esta. Queria gritar, mas fazia tempo que não fazia isso, nunca ouve mais situações apropriadas desde a morte da mãe. Então, seu coração se apertou e novamente viu uma lagrima cair na mesa, e pensou num lamento, "De todas as pessoas que poderiam perceber, a última que gostaria que percebesse era seu filho."

Ele havia perguntado se ela fingia e verdadeiramente não sabia a resposta. Fazia tempos que não se lembrava mais da Ino de verdade. A última vez que a vira em sua plenitude havia sido no fim da guerra, logo após perceber sua solidão mesmo cercada de pessoas. Era como estivesse com o mundo em suas costas e, ao mesmo tempo, sentia como se ninguém pudesse lhe ajudar, afinal, as únicas pessoas que ela confiava o bastante para admitir fraqueza real e expressar seus verdadeiros sentimentos, seu pai e Asuma, estavam mortos. Claro que já havia chorado na frente de todos, diversas vezes pelos mais diferentes motivos, porém, o choro era como uma casca de futilidade que assumiu desde a infância, onde seus sentimentos poderiam se transformar rapidamente e assim, nunca precisava preocupar os demais e conseguia apoiar os outros em sua dor.

Anos depois soube que poderia ter gritado ou chorado para qualquer um que iria ser socorrida, porém, mascarar os sentimentos era quase como um vicio. Assim, ficou em luto por algum tempo pelas mortes da guerra e voltou a sorrir, mesmo que por dentro estivesse cansada e estilhaçada. Ninguém percebeu seus sentimento e a vida continuou o que acabou a tornando uma mulher que não sabe quem é, nem o que sente; se finge ou se é verdadeira.

"Será que estou morta por dentro?" Perguntou a si mesma enquanto pagava a conta do restaurante. Não estava bêbada, mas as doses de álcool haviam permitido que os pensamentos que havia evitado por um longo tempo viessem a tona "Era uma casca de futilidade sem mais nada por dentro?"

Talvez fosse e tudo estaria bem, afinal, poderia viver com isso, mas o que não poderia suportar era o fato de que seu filho fosse capaz de entender sua casca. Afinal, Inojin era seu legado e sempre lutara para ele ter uma família feliz, mesmo que fosse preciso mentir para ele, ao final parece que o esforço havia sido em vão.

Caminhando pelas desertas ruas de Konoha no meio da noite soltou uma gargalhada. "Ele percebeu tudo, ou quase tudo" pensou "Percebeu tudo aquilo que eu não queria perceber. Esse é meu filho, esse é meu sangue Yamanaka". Estava triste e feliz, ou fingia estar.

Dirigiu-se, então, para a tumba do pai, local que sempre ia quando estava descontrolada, sentindo o vento soprando rapidamente fazendo até mesmo a grama se mover. Olhou para as estrelas com os olhos marejados e sorriu calmamente. Fechou os olhos e então deu um suspiro e pensou que tudo estava bem novamente.

Foi só quando dirigiu o olhar para a lápide do pai que seus pensamentos tristes retornaram. "Porque você teve que ir? Me deixou sozinha. Eu era uma menina de 16 anos cuidando de um clã e por dois anos eles sentiam que os iria abandonar"

- Porque eu era mulher! Eu sabia de tudo, ouvia seus pensamentos! E se ela se casar com alguém de outro clã? E se ela se apaixonar? E se ela for fraca? E se ela for muito mulher!? - Falou com a voz alterada, mas sem gritar, somente uma lagrima escorria pelo seu olho - Mostrei pra eles pai, mostrei que podia ser forte, que sabia escolher com quem me casar.

Ficou de joelhos em frente ao tumulo do pai, mais por estar cansada do que por desespero e olhou o pedaço de roxa fixamente quase sem piscar. Suas mãos estavam tremendo, assim como seus lábios e o vento continuava batendo em seu rosto. "Esta feliz não é?" Novamente as poucas lágrimas caiam de seu rosto "Eu o amo, mas não sou Hinata, não sou Sakura ou Temari. Eu sei que meu amor não chega nem perto do delas, ele também sabe, mas não importa, não é? Isso é coisa da mamãe".

Não obteve resposta, nunca a teria e finalmente se levantou. Caminhava lentamente em direção a cidade sentindo o vento secar seus olhos marejados e percebendo seus joelhos doloridos cheios de terra. Quando finalmente estava chegando perto das casas sentiu uma presença de chaka que não esperava e que não queria sentir. Em seguida ouviu passos e o barulho da espada em suas costas, ele estava logo atrás dela. Parou abruptamente e sentiu-o parando também "Porque não fala nada?". Se virar com os olhos arregalados, mãos e boca tremendo e pode encarar um olho negro penetrante enquanto o outro ficava coberto pela franja. Ficou sem ar.

- Você esta bem? - falou com a voz calma e baixa de sempre - Voltou de missão também? Parece meio cansada - seu rosto parecia confuso com a aparência de Ino, estava de certo modo intrigado.

"Sasuke" pensou ela "Sasuke é tudo que representa a Ino antes da guerra" continuou apertando as mãos que seguiam tremulas "Ele é ingenuidade, paixão, amor de arrebatar o coração." Ela o havia amado antes de fingir, antes de criar a casca. "E como havia amado! Amor de criança, amor burro, mas amor, sem fingimento nem futilidade, apenas aquela emoção e mais nada" Ela estava sentindo saudades, ela estava desespera, ela queria voltar a ser aquela Ino, queria sentir de novo, sentir de verdade. "Porque de todos os momentos justamente ele tinha que aparecer aqui na minha frente, ele que é tudo que representa a dor do passado. Eu sempre soube lidar calmamente com ele, mas hoje, justamente hoje…"

- Você esta bem? Quer que eu chame alguém? Esta machucada? - Falou Sasuke ao se deparar com aquela figura tremula, descabela pelo vento, com os joelhos cobertos de terra, olhos arregalados e lagrimas escorrendo pelo rosto. "O que era tudo aquilo? Ela sempre foi calma. Gritona, faladeira, mas equilibrada"

Estava machucada, muito machucada e somente fora perceber isso agora. Caminhou lentamente para perto dele, ao ficar centímetros de distancia parou, achou que ele poderia sair dali, ou se mover de algum modo, mas ele não havia feito nada, somente a olhava confuso. Sentia a lágrima salgada em sua boca, respirava profundamente e então lhe deu um beijo.

Ela não amava mais, porém doía não se permitir o amar mais. Queria ser Sakura e também Temari e Hinata, queria ser todas elas, queria fazer o almoço da família, queria dar beijos nos machucados de Inojin, falar que Sai havia sido seu único amor e que o amou desde criança, mas não podia e se pudesse seria infeliz. Ela era Ino, que trabalha 24 horas por dia, que faz tudo por seu clã, ela é aquela que mantém seu legado e que busca o melhorar sendo exigente e por vezes cruel com o filho, ela é a única que se importa com a formação do Ino-Shika-Chou. Ela é tudo isso e doí, queria ter uma vida que não doesse mas simplesmente não pode.

Estava segurando o pescoço de Sasuke com as mãos, enquanto pressionava seus lábios nos dele. Então percebeu que ele não havia se afastado como havia previsto e sentiu o braço dele na sua cintura a pressionando. Ele também a estava beijando. "Mas ele amava Sakura, sabia disso, então por quê?"

O beijo era salgado e doía, quando se afastou colocou as mãos nos olhos e chorou como nos dois dias após a morte de Asuma onde enterrara a cabeça no colo do pai.

Sasuke a abraçou e quando viu estava chorando no peito dele, agarrada nas suas roupas; ele não falava nada. Quando ela finalmente se afastou alguns centímetros do peito dele não aguentou mais e despejou todos seus sentimentos:

- Quando Asuma morreu era meu papel dar suporte emocional para o Ino- Shika - Chou; quando você foi embora novamente era eu que consolava Sakura e ouvia seus lamentos; quando meu pai morreu fui eu que tive que reerguer minha mãe que sempre fora uma mulher frágil, ao mesmo tempo em que tinha de liderar meu clã após uma guerra que deixou diversas famílias Yamanaka sem aqueles que a sustentavam. Eu estava acabada e ninguém via, por quê? - Seguiu chorando desesperadamente no peito dele

- Eu sei que doí ter o peso do mundo nas suas costas e se sentir sozinho, e sei que doí imaginar que esta gritando por ajuda e não ter ninguém para te ajudar. - Falava por fim Sasuke com sua voz baixa e calma de sempre mas também fria e distante. Ino, então, se esquivou dos braços dele e este pode ver o rosto cansado e coberto de raiva dela.

- Eu não sou que nem você! Eu não fiz mal aos outros! Eu não fugi da minha vida, nem do meu legado por anos que nem você fugiu de Konoha, da Sakura e de todas as pessoas que te apoiavam e admiravam, pelo contrario eu lutei pelo meu legado, eu me destruí por ele! Você não sabe o que eu sinto, nem nunca vai saber, assim como eu nunca vou te entender - Falou enquanto sua voz se transformava de berros a um tom sem folego, seu peito se movia com a respiração agitada e cansada. Por um momento Sasuke ficou sem expressão, então deu um sorriso sarcástico para ela, enquanto as lagrimas de Ino voltavam a escorrer rapidamente pelo seu rosto. Ele então novamente a abraçou e ela seguiu chorando no seu peito.

- Cansa não é? Além de doer da raiva - Ele disse. Então encostou a mão na cabeça loira dela e começou a lhe dar carinho, ela seguia chorando no peito dele - Não você não é igual a mim, você não fugiu desse inferno de responsabilidade nem por um segundo, não é?

Ino, então com as pernas fraquejadas caiu no chão de joelhos. Percebeu que Sasuke deveria ter caído sentado junto com ela, pois apesar da queda seguia chorando no peito dele, sendo que a única diferença era que ele colocara novamente o braço em sua cintura.

- Você pode chorar, afinal não precisa ser forte para mim. Mal trocamos palavras não é? Então você pode seguir sendo fraca, não fará nenhuma diferença - a voz dele era séria, fria e distante. Ino não se importava, por alguma razão entendeu que a voz era um reflexo do relacionamento dos dois, sem significado nem afeto. Mesmo assim era bom estar com alguém para chora, pois seu coração começava a esquentar enquanto seu choro se transformava em soluços.

As pálpebras de Ino foram ficando cada vez mais pesadas e a dor foi diminuindo, sendo que a última coisa que se lembra são os lábios de Sasuke novamente nos seus, mesmo que neste momento não soubesse mais o que era realidade e o que eram lembranças.


Esse capítulo é dramático de mais para mim mas gosto de momentos de desabafo, de sempre gostei da dinâmica da Ino e do Sasuke em minha mente sabe, porém nunca a pensei como romance, talvez tenha ficado não sei realmente kk