Ela sentia o olhar sobre si, mas fingiu dormir. Estava encolhida no sofá, debaixo de um cobertor. Renne apenas observava a filha, sem qualquer intenção de acorda-la. Ela e Bella nunca foram de sentar e terem uma conversa. Mas conversavam o básico: falavam sobre o almoço, um pedido de Renne para que ela comprasse alguma coisa na cidade, coisas desse tipo. Mas desde aquele acontecimento há três semanas, Bella se fechou completamente. Renne nunca mais ouviu o som da voz dela. Ouvia apenas seu choro baixo todas as noites. Estava realmente começando a ficar preocupada. Entretanto, ela sabia que Bella não iria se abrir com ela. E ela não podia culpar outra pessoa se não ela mesma. Nunca teve nada contra a filha, pelo contrário. Ela a amava. Ela só não sabia como mostrar isso. Ela não estava preparada para ser mãe, nunca quis ser. Rezou tantas vezes para que fosse um menino, mas Deus não ouviu suas preces. Renne mal sabia escrever o nome. Foi abandonada pelos pais com apenas quatro anos de idade e viveu num abrigo onde as crianças sofriam mais do que se estivessem nas ruas. Aos dezesseis anos ela foi para as ruas. E foi ai que começou a se prostituir. Em sua cabeça, o destino da filha seria o mesmo que o dela. O que poderiam esperar da vida? Pouco tempo depois que começou a se prostituir ela engravidou. Quem iria dar emprego a uma pessoa analfabeta? Talvez de doméstica, já que ela era boa em limpeza. Mas a sociedade de Forks era hipócrita demais. Mãe solteira e ainda sendo prostituta não entrava na casa deles. Renne pensou seriamente em ir a Port Angeles e entregar a filha aos cuidados das freiras. Mas ela se apaixonou pela garotinha assim que a viu... não poderia abandona-la como seus pais fizeram. Mas nesse caso, era melhor ter feito isso. Ela teria uma vida mais digna, com certeza.

E agora... Renne conseguiu desgraçar ainda mais sua vida. A cidade inteira estaca comentando sobre ela e o Cullen. O pior era eles dizendo que Bella foi incompetente pois o homem fechou negócio com Billy Black. No final das contas, são uns burros. Pelo que ela entendeu da prefeita, ele prometeu não destruir a reserva, mas provavelmente iria adquiri-la. Billy Black simplesmente caiu no mundo e nem ao menos levou o filho. Algumas pessoas da reserva que tinham parentes em outros lugares já tinham saído de lá.

E ao passar pela cidade, Renne notou as máquinas trabalhando no terreno do Cullen. Uma semana foi tempo suficiente para erguerem as paredes do que seria sua empresa. Mas era só o que ela sabia, mais nada. Suspirando, ela foi até a cozinha e colocou o dinheiro no pote onde sempre deixava, caso a filha precisasse de algo. Deu uma última olhada nela e saiu.

Só então Bella abriu os olhos. Estava em total estado de torpor, sentindo-se agora, além de suja, enganada. Ela pensou que o Cullen não compraria as terras... mas ele já tinha fechado negócio antes mesmo de se deitar com ela. Quis morrer... nojo e vergonha a corroendo. Não colocou mais os pés na cidade, pois já imaginava os comentários. Porém, hoje, ela teria que ir até lá. Há dois dias sentia dores no corpo, de cabeça e estava mais quente que o normal. Só poderia estar com febre. Só não sabia se conseguiria chegar até lá. Estava tão fraca. Há dias não comia.

Mesmo assim ela se levantou, arrastou-se até o banheiro e tomou um banho para ver se baixava a febre. Vestiu-se e foi até a cozinha pegar dinheiro para comprar algum remédio. Pegou uma blusa de moletom da mãe e colocou o capuz, tentando se esconder das pessoas.

Andou pela reserva, sentindo seus olhos arderem. Para onde iriam se aquele sujeito destruísse tudo? Ela não ouviu falar nada dele nas últimas semanas. E nem poderia, já que não saia de casa. Mas se ele estivesse na cidade, com certeza sua mãe teria dito alguma coisa.

Ao chegar à cidade, atravessou rapidamente a rua, passando pela praça. Suas pernas fracas doíam pelo esforço em andar rápido. Ao entrar na farmácia, duas moças que estavam lá escolhendo produtos para os cabelos a olharam com evidente nojo e se afastaram. Foi até o balcão e pediu um antitérmico, recebendo um sorriso debochado de Paul, funcionário da farmácia.

— Pensei que fosse comprar um teste de gravidez... ou preservativos... quem sabe algum remédio para doenças venéreas?

As moças gargalharam e Bella sentiu as lagrimas escorrendo pelo rosto. O rapaz pegou o remédio e ao receber o dinheiro, perguntou se aquele era proveniente de seu programa com o Cullen. Bella saiu dali correndo, sem ao menos esperar pelo troco. Ao chegar à praça, trombou com alguém e foi ao chão.

— Olha se não é a putinha.

Era Jacob Black, acompanhado de dois rapazes e duas moças. Eles riram.

— Está tão acabada... o cara deve ser bom hein?

— Me deixe em paz.

— Uhuhu... quem pensa que é para nos dirigir a palavra hein sua puta? Nem deveria estar aqui na cidade.

Disse uma das moças que Bella sabia se chamar Lauren.

— Ah...deixem ela... assim poderemos nos divertir um pouco. A vida é assim... comemos as vadias e nos casamos com moças como vocês.

Falou Sam, enquanto se aproximava e enfiava a mão entre as pernas de Bella.

— Pare... pare com isso.

— ah... você gosta putinha.

— EI QUE PALHAÇADA É ESSA?

Bella estremeceu ao ouvir uma voz grossa. Viu que um homem alto e forte, acompanhado por uma mulher baixa se aproximavam correndo.

— Seus covardes... deixem a garota em paz. Vão procurar o que fazer.

A moça se aproximou e estendeu a mão, ajudando Bella a se levantar. Ela cambaleou e foi amparada. Bella reparou que ela usava uma espécie de chapéu ou capacete, assim como o homem.

— Ah... os capangas do Cullen vieram salvar a putinha dele.

— SAIAM DAQUI SE NÃO QUISEREM LEVAR UMAS PORRADAS.

O grandalhão gritou e os covardes rapidamente se afastaram.

— Meu Deus... que cidade é essa?

— Onde você mora, moça?

— Po...pode deixar. Obrigada por tudo.

— Você não está em condições. Esta febril e mal consegue ficar de pé.

— Não é nada. Eu...

— Emmett... pegue o carro. Vamos leva-la. Onde mora?

— Na reserva.

— Vamos leva-la. É bem capaz de esses abutres irem atrás de você. A propósito... meu nome é Alice.

— Eu... me chamo Bella.

— Aquele grandão é o Emmett. Só tem tamanho, ta? Só faz mal a quem merece.

Diante do silencio da moça, a baixinha Alice voltou a falar.

— Somos engenheiros. Estamos trabalhando na construção da empresa de Edward Cullen.

Bella estremeceu e isso não passou despercebido a Alice. Algo estranho aconteceu e ela já imaginava o que poderia ser, já que os rapazes disseram que eram capangas do Cullen e que foram salvar a putinha dele.

Alice e Emmett eram irmãos que trabalhavam há anos para Edward. Conheciam muito bem aquele homem e Alice tinha certeza que ele aprontou. Como ele teve coragem? Com uma garota tão simples e parecendo tão inocente e pura?

Emmett chegou com o carro e a levaram até a reserva. Ao chegarem à entrada, Bella apenas agradeceu e saiu correndo, deixando os dois paralisados no mesmo lugar.

— Coitada dessa garota.

— Pelo jeito essa é a filha da prostituta que tanto falam.

— Sim... a ralé que eles disseram para não nos aproximarmos. Cidadezinha de merda... bando de hipócritas.

— Vamos, Emmett. Já deu pra mim hoje. Quero voltar logo para Port Angeles. Essa cidade fede... e a culpa nem é da garota e da mãe. É dos outros moradores.

O carro se distanciou e enquanto isso Bella chegava em casa e se jogava novamente no sofá. Até quando? Até quando iria sofrer daquele jeito? Se já era ruim, piorou depois daquele desgraçado. Por mais que tentasse esquecer, as imagens daquela noite passavam em sua mente como um filme. Ela só admitia uma coisa... ele não foi tão depravado quanto imaginou. Ela não sentiu tanta dor como sentiu com Jacob. Pelo menos isso. Não precisava de dor física. A dor da alma já era o bastante para deixa-la desejando a morte.

Seattle – uma semana depois.

O escritório estava silencioso. Vez ou outra ele ouvia o telefone tocar na recepção, mas Giana sabiamente não repassava nenhuma ligação. Há dias o chefe estava em estado lastimável e seu humor não era dos melhores.

Edward olhava para os croquis em sua mesa sem qualquer emoção. Parecia cada dia mais oco, sem nada por dentro. As palavras lidas naquele papel ainda dançavam diante de seus olhos, assim como a imagem da menina adormecida na cama. Por que não conseguia tira-la de sua mente? Por que não conseguia desejar outra mulher como a desejava? Naquela manhã, após ler a carta, ele saiu do motel completamente abalado, os olhos vermelhos como se fosse chorar a qualquer insntante. Passou numa empresa de taxi e solicitou uma mulher para levar a garota em segurança. Não iria confiar em um homem, que pudesse se aproveitar dela.

Dali ele partiu diretamente para Seattle e após duas horas de viagem, ele não parou para descansar. Foi direto ao tumulo dos pais, onde caiu de joelhos e pela primeira vez em muitos anos... ele chorou. Chorou e pediu perdão por desonrar todos os ensinamentos deles. Seu pai sempre lhe disse para lutar para ser alguém na vida, conseguir chegar ao topo, mas nunca usando ou pisando nas pessoas. Sua mãe lhe ensinou a respeitar as mulheres, respeitar os sentimentos delas. E o que ele fez? Totalmente o contrário. Por isso agora se sentia tão infeliz. Aquela garota humilde, sem qualquer experiência de vida praticamente lhe deu um tapa na cara com aquelas palavras.

Depois de passar horas no cemitério, ele foi pra casa onde a noiva Kate o esperava. E ai foi uma discussão. Kate queria sexo e ele recusou. Ele não queria, não podia. Ele era apenas a carcaça. Parecia que sua alma tinha sido arrancada de dentro dele.

Três dias depois, ele pediu a Kate que se retirasse de sua casa e de sua vida. Não iria enganá-la mais. Não a amava. Nunca amou. Jurando não desistir, ela saiu de casa. E Edward voltou a viver como nos primeiros anos após a morte dos pais: sozinho.

Covardemente ele não voltou a Forks. Tinha medo de ver o estrago que fez na vida da garota.

Suspirando, ele puxou um dos croquis e analisou. Não serviria de nada. Ele não iria destruir a reserva, jamais foi sua intenção destruí-la. Queria obviamente tirar algumas famílias de lá, mas agora nem isso.

A porta de sua sala foi aberta violentamente e uma baixinha arrogante entrou, andando rapidamente e parando à sua frente, espalmou as duas mão sobre sua mesa. Edward ergueu a sobrancelha cinicamente. Alice trabalhava pra ele desde quando assumiu os negócios. Sempre foi atrevida e falava verdades na cara de Edward sem medo algum. Ele já estava mais que acostumado com ela e o irmão Emmett. Agora, ele entendia que no fundo eles eram amigos.

— Alguém acordou mal humorada hoje?

— Que merda você andou fazendo naquela cidade?

— Do que está falando?

— Estou falando daquela cidade do demônio chamada Forks. Serio mesmo, Edward...desista de colocar uma filial lá.

— Era o sonho do meu pai. Ele queria proporcionar uma boa vida aos moradores da cidade onde nasceu.

— Foda-se. Eles não merecem. São pessoas mesquinhas, arrogantes e hipócritas.

— Eu sei. Só não sei por que está dizendo isso e com tanta raiva.

— Por que eu odiei aquelas pessoas. E eu sei que você fez alguma merda por lá com uma garota chamada Bella.

Edward empalideceu e seu coração disparou ao ouvir o nome dela. Se Alice estava sabendo de algo... então alguma coisa aconteceu com ela. Merda.

Ele nem precisou responder. Alice enxergou a culpa em seus olhos e deu um tapa na mesa.

— Porra, Edward. Eu sei como você é viciado em sexo, mas tinha que ser com uma garota como ela? Já pensou como ela deve estar? Tem tanta vadia metida a besta e travestida de moça de família naquela cidade. Por que não pegou nenhuma delas?

— E quem garante que o que fiz não foi com o consentimento dela?

— O que eu vi me faz pensar que não. Eu vi rapazes e moças rindo dela, tratando-a como uma verdadeira prostituta. A moça estava lá, caída no chão da praça servindo de chacota pra eles. Eu e Emmett a tiramos de lá.

Foi como se uma faca atravessasse o peito de Edward, parando diretamente em seu coração. Tudo culpa dele... era mesmo um desgraçado.

— Aliás... sabe como eles a chamam?

Edward engoliu em seco.

— Como?

— A putinha do Cullen.

Edward fechou os olhos e duas lagrimas escorreram pelo seu rosto. Alice se empertigou, a testa franzida por causa de sua confusão. Ele estava mesmo chorando?

Ele se sentia abaixo do chão. Era um porco asqueroso. Sabia que Bella jamais o perdoaria, mas ele tinha que tentar reverter isso. Além do mais... ele não sabia por que não conseguia esquece-la.

Alice suspirou, cruzando os braços em frente ao peito e Edward abriu os olhos.

— O que pensa em fazer?

— Voltarei a Forks... e calarei a boca daqueles imundos.