CAPÍTULO COMPLETO

Dentre todas as conversas que Lana tinha passado em sua cabeça, dentre todas as respostas planejadas e perguntas formuladas, aquelas palavras foram inesperadas. O olhar de sua mãe apesar de transparecer uma coisa, pareciam querer dizer muito mais, pareciam esperar uma resposta, uma negação.

Mas ela não sabia mentir pra mãe, não pra ela.

- Responda Lana! – falou autoritária. – Isso não era da minha conta?

- Mamãe... – sua voz soou quase inaudível.

Dolores de aproximou da filha olhou nos olhos dela e disse numa única frase.

- Não, não me chame assim... Você não é mais aquela menininha indefesa que acabou de fazer uma besteira. Aquela menina que precisa de mim, que me contava tudo! – as lágrimas escorriam pela face da mulher. – Eu nunca esperei uma atitude dessas de você. Nenhuma delas. – e deixou a cozinha.

Um tapa, uma surra, um eu te odeio teria doido mesmo. Lana não conseguiu sustentar o próprio corpo depois do que ouviu, não conseguiu gritar ou clamar pela mãe. Sentou-se sobre as próprias pernas e levou as mãos na boca. As lágrimas eram grossas e não pareciam ter fim... Aquela dor parecia nunca teria um fim.


Deena e a mãe estavam almoçando em pleno silêncio.

- Está tudo ok por aqui? – perguntou se referindo ao fato de Lana não ter saído do quarto pra comer.

- O que? – Dolores respondeu confusa, como se não estivesse realmente ali.

- O que aconteceu mãe? Você e a Lana brigaram?

- Está tudo bem.

- Esse jogo pra cima de mim? É mais fácil você falar que não quer conversar, mas mentir, não é seu forte.

- Achava que não era o de vocês também.. – sussurrou.

- Do que está falando? – Deena estava confusa.

- Não precisa mais mentir por ela. Eu acabei escutando a conversa de vocês ontem e sei o que esta acontecendo. – encarou a filha mais velha.

- Oh Droga! - arregalou os olhos. – Mãe, não é o que a senhora pensa. Não foi culpa da Lana! Bom, foi, mas não desse jeito. Não a julgue.

- Julgar? – sorriu triste. – Eu não sei o que estou pensando ou imaginando sobre sua irmã agora.

Deena tenta explicar de uma forma sutil o que tinha acontecido, mas Dolores não parecia se importar muito, estava muito chateada.

- Sua irmã não confiou em mim Deena. Nenhuma de vocês!

- Eu não podia falar nada! Era um segredo dela mãe, não era meu. – se defendeu. – Por favor, conversa com ela, não a menospreze. Ela não vai saber lidar com isso.

- E eu tenho que fingir não estar magoada?

- Não, mas pelo menos procure saber o que realmente aconteceu. Não faça ela se fechar novamente. Mesmo que ela tenha cometido um erro agora, e por medo, não por não querer contar.


Lana estava perdida em pensamentos quando escutou a porta do quarto ser aberta.

- Trouxe um pouco de comida. Não é bom você ficar tanto tempo sem comer.– Dolores disse entrando.

- Obrigada. - respondeu sentando no meio da cama.

Dolores fechou a porta devagar, se sentou na beirada da cama, e entregou a bandeja para filha.

- Mãe, eu realmente sinto muito, por favor, não me odeie.– a voz dela saiu agonizante.

- Eu não odeio você Lana! Acha mesmo que conseguiria odiar minha própria filha? Nem se eu desejasse isso. – explicou. – Só estou muito magoada.

- A senhora tem direito de estar mãe, mas é a minha vida entende? Eu estava pisando em ovos. E ainda estou...

- Por que não me contou? Por quê?

- Medo! Fiquei apavorada e insegura só de pensar na sua rejeição. Sei que você deve estar com nojo de mim pelo que fiz. – falava encarando as próprias mãos.

- Nojo? – a olhou surpresa. – Não tenho nojo de você.

- Não? – respondeu confusa. – Mesmo que eu tenha me envolvido com uma mulher?

Lana viu a mãe passar as mãos pelo rosto, e depois ajeitou o cabelo. Estava nervosa.

- Não tenho nojo de você por nenhum motivo, mas sei que foi um momento fraco, curioso e repentino. – desviou o olhar do dela. – Você é bem resolvida, não é como se gostasse de mulher.

Muitas pessoas dizem que alguns pais são cegos em aspectos como esses, que não querem ver ou aceitar a preferência sexual de seus filhos. Mas nunca, nenhum deles, espera que os mesmos escolham amar, se apaixonar, ou se envolver com alguém do mesmo sexo. E a mãe de Lana era um desses pais.

Não se trata de preconceito, ou ignorância, é apenas inesperado. Mas depois da "descoberta", cada um age da forma que acha certo, ou apenas seguindo os "bons costumes" que lhes foram pregados.

- Sim, foi um momento de fraqueza. Um momento em que eu mesma havia parado de ter amor próprio e graças a ela, graças ao amor que ela me deu naquela noite, ao amor que compartilhamos, vi que ainda podia ser amada, compreendida e desejada!? E ela me deu tudo isso.

- Amor? Você não fez amor com ela. – rebateu.

- Sim eu fiz, e foi lindo! Foi mágico, revigorante e nunca, nunca ninguém me amou e me teve como ela me teve. E tem.

Dolores transpareceu um olhar tão duro que Lana se sentiu diminuída, mas não estava arrependida.

Não havia mentido!

Dolores se levantou e começou a andar pelo quarto, pensando, até que sua voz se fez presente novamente.

- Você não deve se lembrar apesar de tudo, mas quando você tinha uns seis anos, você tinha uma amiguinha chamada Melanie. – sorriu se lembrando da menina. – Nunca se desgrudavam, nunca mesmo! Então um dia, você chegou chorando muito em casa. Chorava tanto, que pensei que alguém tinha lhe feito algum mal, e indiretamente fizeram. Melanie tinha se mudado e ninguém falou nada, nenhum dos pais comentou alguma coisa. Você passou quase mais de um mês perguntando por que ela tinha te deixado. E eram sempre essas palavras. – sorriu de novo. – Podia não fazer muito sentindo naquela época, mas agora vejo que você a amava. Mesmo tão pequena.

- O que isso tem a ver mãe?

- O olhar que você fazia cada vez que se lembrava dela, é o mesmo que estou vendo agora. E se antes você sofreu daquela foram, mesmo tão pequena, não quero imaginar como deve estar sendo difícil hoje.

- Então você me aceita assim? – sua voz saiu animada de mais.

- Respeito sua maneira de sentir e querer viver, mas não entendo. Você nunca demonstrou interesse por nenhuma mulher, e isso não é certo pra mim, mas não vou lhe julgar ou te repreender. – falou sinceramente.

- Não vai ficar contra mim?

- Faça o que achar melhor Lana, seja feliz, mas não sei como aceitar isso agora.

Ela começou a chorar, sentia que ia perder sua mãe, e ela não queria isso. Não queria ter que escolher, não conseguia.

- A senhora não vai me fazer escolher não é? – seu olhar ela suplicante.

Dolores parou na frente da filha, segurou seu rosto e disse.

- Prometo que se você ficar feliz, eu vou ficar também. Mesmo que talvez, não seja algo que eu vá me acostumar.

Lana abraçou a mãe e chorou, na verdade as duas choraram. Por medo, por não saber o que poderia acontecer.

Lana com medo da mãe não aceitar sua escolha, e Dolores por temer que a filha sofra.

- Você não me disse quem é. Quem é essa mulher? – falou curiosa. – Eu a conheço?

- Sim. É a Jennifer mãe. – disse de uma vez.

- Jennifer?.. Eu não...– antes que terminasse seus olhos se arregalaram e sua boca ficou entre aberta. - A Jen? Ela é a mulher que fez você...- O olhar de surpresa passou pra raiva.

Lana nem conseguia pensar direito no que a mãe deveria estar imaginando. Ela tentou conversar, explicar que Jennifer não a forçou em momento algum, como já havia comentado, mas Dolores não quis ouvir.

- Mãe, ela não tem culpa de nada! Eu quis tanto quanto ela.– dizia.

- Não quero saber, não quero saber mais nada dessa historia Lana! Não criei você assim! Mas não posso fazer nada se é esse tipo de caminho que você quer tomar. Não deixarei de te amar por isso, muito menos de ser sua mãe, mas não quero saber dessa historia.

Lana via o quanto tinha decepcionado sua mãe, mas não podia fugir do que sentia, não podia mais mentir.

- Então é assim que vai ser? Você vai fingir que não sabe de nada? E se ficarmos juntas? – perguntou triste.

- Eu não se, não consigo pensar em nada agora. Só fico procurando um momento, uma situação em eu que tenha errado. Em que momento perdi você pra isso.

- Você não errou em nada, para com isso. – pedia cansada.

- Não tem como não ter errado. Você era normal!– esbravejou.

- Normal? – riu incrédula. - E agora eu sou o que mãe? Uma aberração? Como falam que o Kevin é?! – disse com os olhos marejados.

Dolores se calou. Viu a besteira que tinha falado, não quis que a filha entendesse daquela forma. E se calando, com medo de se complicar ainda mais, fez com que Lana entendesse que era exatamente aquilo que a mãe pensava dela agora.

Pegou a bolsa sobre a cadeira do quarto e saiu. Não sabia ao certo aonde ia. Só sabia que precisava ficar sozinha.


Era incrível como a vista dos altos prédios de Nova Iorque nunca deixavam de ser espetaculares para Jennifer. A loira tinha terminado de arrumar as poucas roupas que trouxera com sigo de Chicago, no armário, e agora contemplava a vista que a janela de sua sala lhe oferecia.

- Estava querendo dar uma volta, vamos? – a voz de Sarah despertou Jennifer do transe.

- Agora? – a loira disse com preguiça.

- Você veio dormindo às três horas de vôo, não se atreva a falar que esta cansada! – meio contrariada, acabou aceitando.

As duas resolveram passear no Central Park. Sarah deixou a loira sozinha por alguns minutos para ir até uma loja de sucos, e o telefone da loira começou a tocar. Era Julia.

- Hey Juls!– disse se sentando num banco.

- Diz pra mim que você não levou a Sarah com você pra NY Jennifer! Não to acreditando nisso! – minha irmã disse quase aos berros no telefone.

- Calma mulher. Não é bem assim, ok? Ela vai embora amanhã mesmo, ela tem um trabalho pra ver por aqui, ou algo assim, não precisa se preocupar. – disse acalmando-a.

- Não preciso? Não preciso?! Você vai pra NY sozinha com a Sarah, que esta de quatro por você, e diz que não preciso me preocupar? Jennifer ela é minha amiga e a conheço muito bem! Ela ta querendo alguma coisa.

- E se ela conseguir? To cansada Julia, é um saco você se importar com alguém que parece não se importar com você! Isso cansa!

- Você disse que primeiro ia se resolver com a Lana e depois tentaria algo. Então cumpra a sua palavra, pra não se arrepender depois! – e desligou o telefone.

Jennifer sabia que Julia estava certa, sabia que não deveria ter deixado Sarah ir com ela até NY, mas na hora não pensou muito no assunto, apenas concordou. Sarah voltou da loja e as duas ficaram conversando aleatoriamente sobre varias coisas até o por do sol sumir.

- Ta tudo bem? Você parece distante. – Sarah me perguntou quando voltávamos pro hotel.

- Não é nada.– sorri torto.

- Você se arrependeu de eu ter vindo com você né? Da pra ver no seu rosto. – ela disse sem graça.

- Não é isso Sarah, veja, não quero que isso aparente algo que não é, entende? Apenas te trouxe como uma amiga gosto de ter você por perto. Sabe que preciso me resolver.

- Não sou ingênua Jennifer, não achei que tinha aceitado minha companhia por querer algo a mais, não sou criança, sei bem quem você quer ao seu lado desse jeito. – disse um tanto irritada.

- Desculpe, só não queria passar uma impressão errada.

- Ta tudo bem, e não se preocupe, amanhã mesmo vou embora. – disse de forma suave, mas seca.

Fizemos o resto do caminho em silêncio, quando chegamos, ela foi direto pro quarto de hospedes e se trancou lá, não interferi, ela queria ficar sozinha. Arrumei algumas coisas na cozinha, liguei pra um restaurante encomendando uma comida japonesa e fui tomar banho.

Durante o ato, fiquei pensando no que Julia havia me falado, ou melhor, relembrado. E resolvi esclarecer essa história na mesma hora.

Peguei o celular e disquei pro número já tão conhecido pela minha cabeça.

Chamou uma, duas, três, quatro, cinco, seis e ...

- Alô? – a voz rouca de Lana soou do outro lado.

- Oi, sou eu, Jennifer.– disse calma.

- Hey, não vi seu nome na tela, desculpe. – ela respondeu, e notei certo sofrimento em sua voz.

- Sem problema, como vai? E as férias?

- Ta tudo certo.– respondeu limitada.

Algo estava errado.

- Você não parece muito convencida disso. – tentei brincar.

- O que aconteceu? Porque me ligou? – ela foi direto ao ponto.

- Queria saber de você. Somos amigas não somos? – ri sem graça.

- É, somos. – respondeu. – Estou indo, não posso dizer que vou maravilhosamente bem, porque mentiria, mas estou bem na medida do possível. E você? Ainda em Chicago?

- Não mais, estou em NY agora. Daqui vou voltar pra Vancouver. E você?

- Estou em NY também, vim ver minha irmã e minha mãe.

- Quero ver você. Você pode me ver?

- É muito bom escutar sua voz Jen.. – ela disse tentando mudar de assunto

- Quero ver você, Lana!

- Não posso.

- Preciso ver você, por favor! – implorei.

- Não sei se seria uma boa ideia. Sabe que não é muito seguro ficarmos sozinhas né. – riu de forma estranha.

- Só quero conversar, não faremos nada, mesmo que sintamos vontade. – disse por fim.

Escutei a respiração dela desacelerar, e acelerar por quase cinco minutos. Quando achei que ela iria desligar, ela disse.

- Me encontra amanhã à tarde, estou no Langhan Place na Quinta Avenida, quarto 863. – e desligou.

Não sei bem porque, mas depois disso, não conseguia tirar o sorriso de boba dos meus lábios. Fiquei mais um tempo na banheira e depois fui ao meu quarto colocar uma roupa. Vesti um short branco justo, uma blusa preta sem mangas um pouco larga e fui pra cozinha.

- A comida acabou de chegar. – Sarah disse abrindo as embalagens e separando cada tipo de comido em três pratos.

- Não escutei, estava no banho.– sorri. – Está com uma cara ótima.– disse me aproximando.

Ela não disse nada. Coloquei a mesa pra nós duas e logo nos sentamos para comer.

- Sarah, não quero que fique chateada comigo, não quis ser rude. - ela suspirou.

- Eu sei Jen, só não quero que pense que apenas vim porque queria algo. Vim porque amanhã tenho um compromisso, e porque queria sua companhia. Mas sei qual é o meu lugar. – ela disse sem me olhar.

- Desculpa se ofendi você. E não fale desse jeito, como se fosse uma qualquer.– disse pegando na mão dela. – Fiquei realmente feliz que tenha vindo. De verdade! – sorri e ela me encarou com um sorriso e voltamos a comer.

Na manhã seguinte, levantei um pouco mais cedo do que o costume. Acho que a ansiosidade de ver Lana me tirou o sono. Sarah já havia arrumado as poucas coisas que trouxera, e agora estava tomando banho. Me senti incomodada por ter deixado ela desconfortável com os meus comentários ontem, mas no fundo, algo me dizia que ela não viera sem alguma intenção aqui. Pelo menos não depois do que Julia me falou.

Ela não demorou a apareceu na sala trajando um vestido coral totalmente justo ao corpo. E um tanto curto. Não vou negar, me senti um pouco incomodada.

- Bom, acho que é isso. – ela disse encarando os saltos brancos que calçava. – Sei que daqui, você volta direto pra Vancouver. Então, quando aparecer em Chicago, me liga, ou me liga qualquer dia.. – ela começou a se embolar.

Fui até ela e segurei suas mãos.

- O que eu disse foi de verdade Sarah! Independente do que acontecer comigo e com a Lana, quero você na minha vida, afinal, você já me ajudou muito, e gosto de você.

Ela sorriu fraco e me abraçou. Por mais que não quisesse por ela em segunda opção, ou algo do tipo, preferia ser sincera com ela, e ficava feliz por ela compreender. Fui até a porta do elevador com ela e ficamos abraçadas. Sem dizer nada.

- Bom, qualquer coisa me liga, e se cuida em. – disse quando o elevador chegou. – Você e o Leon.

- Pode deixar, mas vou esperar você me ligar. – ela sorriu e colocou a mala dentro do elevador.

Quando me preparei pra sair do caminho e esperar ela entrar, ela me surpreendeu selando nossos lábios.

- Sarah... – disse tentando em afastar.

- Por favor, apenas me de um beijo. – ela disse mordendo meu lábio inferior e cravando as unhas no meu pescoço.– Por favor..

Passei meu braço em volta de sua cintura e a beijei. Não me senti culpada ou qualquer coisa do gênero, era um beijo de despedida, um beijo de carinho, não um beijo de amor. Sarah prendeu os braços envolta do meu pescoço e sua boca devorava e buscava minha língua com desespero. E não me fiz de rogada. Dei exatamente o que ela buscava, o que ela queria. Ficamos quase cinco minutos nos beijando no meio da porta do elevador, impedindo a mesma de fechar.

- Preciso ir. – ela disse beijando meu pescoço e mordendo ele logo em seguida.

- É melhor. – ri e beijei seus lábios carinhosamente. – Se cuida ruivinha.

Ela sorriu lindamente, beijou meu rosto dizendo obrigada, e entrou no elevador.

AVISOS!

Eu não tinha intenção nenhuma de postar hoje, não estou nos meus melhores dias (2014 conseguiu me fazer de otária como nenhum outro ano, só rindo), mas acho que fazer algumas pessoas felizes já vale de algo, né? Bom, desculpa pela demora, não deu mesmo pra postar antes do dia 24, mas esse fica como meu presente de natal atrasado!

Bom é isso gente, Feliz 2015 :)