INFERNO: CAPITOLO II
And she's buying a stairway to heaven
There's a sign on the wall but she wants to be sure
'Cause you know, sometimes words have two meanings
In the tree by the brook there's a songbird who sings
Sometimes all of our thoughts are misgiven
LED ZEPPELIN, STAIRWAY TO HEAVEN
Todos nós queremos acreditar que há alguma coisa, alguma coisa maior, nos esperando do outro lado.
Paraíso. Céu. Nirvana. Setenta e duas virgens. A próxima, e talvez menos pior, vida.
Mas sabe de uma coisa? Eu já estive do outro. Eu sei o que tem lá.
E acredite, não é o paraíso. E esta é uma verdade que eu tenho que carregar sozinha, porque nada de bom aconteceu com as poucas pessoas com as quais eu compartilhei esta pequena informação. Então algumas vezes eu tenho que fugir antes que eu faça ou diga alguma coisa que eu me arrependa depois. Ou alguma coisa ruim acontece.
Ele acontece.
Ele. A razão por eu estar no banco de couro do carro do meu primo em uma ensolarada manhã em Konoha rumo a minha nova escola enquanto Neji passa pelas ruas movimentadas da cidade em uma velocidade absurda.
Fechando os olhos e absorvendo os raios que adentravam o carro e batem no meu rosto, encosto minha cabeça no apoio do banco e mergulho em antigas memórias turvas. Ainda recordo-me da primeira vez que o tinha visto há mais de uma década atrás, entre túmulos de um cemitério numa tarde de outono em Osaka.
Com o passar dos anos aquela tarde no cemitério começou a parecer mais e mais como um sonho. E talvez tenha sido de fato apenas um sonho. Como poderia tudo aquilo ter acontecido? Era impossível.
Até que então eu morri. E percebi que aquela tarde no cemitério não tinha sido apenas um sonho como também foi simplesmente a coisa mais importante que aconteceu na minha vida.
Isso é, pelo menos até meu coração ter parado de bater.
"Vá brincar um pouco lá foram querida, " Tio Hizashi tinha me dito naquele dia. "Seu pai está ocupado agora. Eu a encontro assim que nós terminarmos aqui."
Ele e papai, que estava com uma Hanabi ainda bebê em seus braços, estavam no escritório do coveiro para assinar os últimos papeis necessários para o túmulo de mamãe. Mas na época, eu não sabia disso. Papai havia me dito que mamãe ainda estava no hospital descansando.
Lembro-me de meu pai desviando o olhar na papelada que deveria ser preenchida. Ele sorriu para mim com olhos marejados.
"Pode ir Hina-hime," ele disse. "Só fique por perto, okay?"
E eu não fui muito longe. Minha mãe havia me feito prometer sempre escutar papai antes de ter sido internada.
Naquela tarde de outono de clima ameno eu encontrei um corvo não muito longe do escritório onde eles estavam. Ele estava mancando entre os túmulos, com uma asa se arrastando atrás de si, obviamente quebrada. Eu decidi correr atrás dele numa tentativa de pegá-lo e trazê-lo para Tio Hizashi, que seria capaz de curá-lo. Meu tio sempre adorou pássaros.
Mas eu acabei piorando a situação. O pássaro entrou em pânico e tentou fugir voando para o lado de uma cripta perto, batendo contra os tijolos. E continuo assim. Quando corri ao seu lado percebi horrorizada que ele estava morto.
Naturalmente, comecei a chorar. Eu já me sentia muito triste, sentindo falta da minha mãe, e agora isso?
Foi quando um homem apareceu. Para mim, que ainda estava no jardim de infância, ele parecia incrivelmente alto, quase um gigante, mesmo depois que ele se ajoelhou ao meu lado e perguntou por que eu estava chorando.
Olhando para trás, percebo que ele era só um adolescente, dificilmente um homem. Mas por ser tão alto e estar todo vestido de preto, ele parecia muito mais velho para mim.
"E-e-eu estava t-tentando ajudar," eu disse quase incoerente entre soluços enquanto apontava para o pássaro. "Ele estava f-ferido. Mas aí eu o assustei e tudo piorou. Agora ele está morto. Foi um a-a-acidente."
"Claro que foi," ele disse, estendendo a mão para pegar o corpo inerte.
"E-e-eu não quero ir para o inferno," eu chorava.
"Mas quem disse que você vai para o inferno?", ele perguntou confuso.
"É para onde as pessoas ruins vão... Para onde assassinos vão", eu informei ele entre lágrimas. "Papai me disse."
"Bem, você não é uma assassina", ele me assegurou com um pequeno sorriso. "E eu acho que você ainda tem muito tempo antes de ter que começar a se precoupar para onde vai depois de morrer."
Eu sabia que não deveria falar com estranhos, meus pais já haviam me dito isso várias vezes. Mas este estranho parecia ser uma pessoa boa e papai não estava tão longe de onde estávamos. Eu tinha certeza que estava segura com ele.
"Nós deveríamos fazer um enterro para ele?", perguntei. Eu sabia que o que era um enterro desde que presenciara o da mãe de Neji. "Quando nós morremos, somos colocados em um caixão e então enterramos em baixo da terra onde dormimos até seguirmos para um lugar melhor."
"Alguns de nós," o estranho me corrigiu um pouco secamente. "Nem todos nós. E sim, acho que você poderia colocá-lo em um caixão. Ou eu poderia traze-lo de volta. Qual você prefere? "
"Você não pode fazê-lo reviver," Eu disse, tão surpresa com a pergunta, que as minhas lágrimas foram esquecidas. Ele estava acariciando o pássaro, que estava definitivamente morto. "Ninguém pode fazer isso."
"Eu posso", disse ele. "Se você quiser".
"Oh." Minha boca formou um arco perfeito depois de sua revelação."Sim, por fa-a-vor!" Eu sussurrei, e ele passou a mão sobre o pássaro.
Um segundo depois ele retirou suas mãos do animal, que batendo suas asas, voou para o céu azul brilhante.
Fiquei tão surpresa que só pude pedi-lo para fazer isso de novo.
"Eu não posso", disse ele, levantando-se.
Eu estendi minha mão para pegar a dele e o perguntei cheia de esperança,"Mas você poderia fazer isso com minha tia? Neji ficaria tão feliz!"
Ele me respondeu com olhar triste: "Não. Sinto muito."
"Mas isso faria meu primo tão feliz! Meu tio, também. Por favor? Só vai levar um segundo - "
"Não, eu não posso", ele disse de novo se ajoelhando ao meu lado novamente. "Qual é seu nome?"
"Hina-a-ata", me ouvi gaguejando. "Mas -"
"Bem, Hinata", disse ele. Seus olhos, eu notei pela primeira vez, eram da mesma cor que o rubi do anel preferido de minha mãe. "Sua tia ficaria orgulhosa de você, mas é melhor apenas deixá-la onde ela está. Seu tio e primo não se assustariam um pouco ao vê-la se levantando e caminhando depois de já ter sido enterrada?"
Eu não tinha pensado nisso, mas ele provavelmente estava certo.
Foi quando tio Hizashi veio me procurar. O estranho das orbes vermelhas o viu. Ele tinha de tê-lo visto, pois eles trocaram um educado "boa tarde" antes dele virar-se e, depois de dizer adeus para mim, ir embora.
"Hinata", disse meu tio segurando minha mão enquanto caminhávamos em direção a saída do cemitério. "Você sabe quem era?"
"Não", eu disse. Mas logo me propus a lhe contar tudo sobre ele, inclusive sobre minha recém criada teoria que ele deveria ser uma fada ou um mago, ou uma criatura tão mágica quanto, pois ele tinha o dom de curar os mortos.
"Uma fada...E o que você achou do seu novo amigo?" Ele perguntou-me quando cheguei ao fim de minha narração ofegante.
"E-eu... eu não sei", respondi, perplexa com a pergunta. Ele tinha feito um pássaro morto voltar à vida! Mas ele também havia se recusado a fazer o mesmo por minha tia...
Meu tio sorriu pela primeira vez durante todo o dia e em muito tempo.
"Ah. Mas quem sabe um dia você terá a oportunidade de descobrir?", disse ele enquanto chegávamos perto do carro, onde papai e Hanabi estavam à espera.
Lembrei-me de olhar para trás.
Não havia sinal do homem, apenas flores escarlates nos ramos tortuosos de uma árvore que pendiam como um dossel acima de nossas cabeças, estourando o vermelho como fogos de artifício contra o céu azul brilhante.
Mas agora, como todos com quem eu havia compartilhado sobre o que eu tinha visto quando morri – o que não foi uma luz, mas sim um homem – tio Hizashi insistiu que eu tinha imaginado a coisa toda.
*Hime: em japônes, princesa.
N/A: Ainda em choque, pessoas leram isso aqui ! Eu sei, os capítulos são minusculos e não dá pra entender muito o enredo, mas prometo que melhora! (;
