Em meu lugar, em meu lugar
Estavam linhas que eu não podia mudar
Eu estava perdido, sim
Eu estava perdido, estava perdido
Cruzei linhas que não deveria ter cruzado
(In my place – Coldplay)
1. Balda
(depois do último dia)
Prendi a respiração e olhei para o horizonte. Meus olhos iam muito, muito além, mas era o que eu focava naquele instante. Eu sentia falta dele. Eu não queria ter ido embora. Eu não queria nada daquilo, eu só queria... eu só queria que tudo pudesse ter sido diferente. Eu queria não precisar sofrer. Eu queria não precisar dele.
Fazia frio demais ali – era mais frio do que a pele dele, era mais frio do que eu mesma. Procurei algo nos bolsos – qualquer coisa, uma caneta, um livro, um cigarro, mas meus dedos frios só encontraram um pedaço de papel com o nome dele escrito.
Joguei o pedaço de papel e o vento o levou para longe de mim. Era frio demais. Frio como minha mania idiota de esquecer as luvas em dias úmidos, ou de esquecer tudo, menos ele. Todas as minhas manias idiotas, toda a minha vida idiota. Toda a minha vida idiota que eu passei buscando a liberdade e agora que eu a tinha, por que não estava feliz?
O hábito de servi-lo deveria ainda estar em mim. Essa podia – devia – ser a única explicação razoável.
2. Báratro
(antes do começo de tudo)
— Qual... qual o seu nome? — ele perguntou, tremendo. O rapaz a sua frente sorriu.
— Rokudo Mukuro.
Ele olhou para a esposa e depois para a destruição ao redor. Os dois ainda estavam vivos, e só porque aquele rapaz queria. E ele ainda parecia tão novo! O homem pensou que poderia morrer naquele instante, mas ao olhar para o tal de Rokudo Mukuro soube que não morreria. Ajoelhou-se e sua mulher fez o mesmo.
— Obrigado, Mukuro-sama — ele murmurou. — Como... como podemos retribuir?
Mukuro deu de ombros, lambendo um pouco de sangue dos lábios. Depois, olhou para a mulher. Ela estava grávida e ele riu.
— Vocês não acham que estão devendo uma vida a mim?
A mulher pôs a mão na barriga. A decisão estava tomada.
(o primeiro dia)
— Este é Rokudo Mukuro — o pai apontou para um homem. Moruko piscou.
— O nome dele parece com o meu...
— É um anagrama.
Ela só tinha sete anos e não sabia ainda o que era um anagrama, mas sabia que iria pesquisar depois, então apenas assentiu. Olhou para o homem a sua frente e sentiu algo na barriga – não sabia ainda, mas era medo. Muito medo. Uma parte de sua cabeça começou a apitar, como se a mandasse correr para longe de Rokudo Mukuro. Mas ela fincou os pés no chão e encarou o homem.
Ele se aproximou, sorrindo, e passou a mão na cabeça dela, num gesto teatral.
Mais tarde, na sua cama, Moruko veria o significado de anagrama e não concordaria com ele. Se anagrama era o que a relacionava àquele homem, poderia muito bem ser inferno.
(tempos depois do primeiro dia)
O corpo quase não fez barulho ao cair no chão. Moruko suspirou, arrancando a faca do peito do homem. Lançou um olhar para Mukuro, que torturava outro. Moruko começou a limpar o sangue dos braços. Mukuro aparentemente se cansara de brincar com a vítima e resolveu matá-la, espirrando sangue em todos, incluindo no rosto dela. Moruko respirou fundo, tentando se manter calma. Limpou o sangue do rosto.
— Vamos, Mukuro-sama? — perguntou. Mukuro a olhou e sorriu.
— Já está cansada, Moruko?
Há dez anos eu estou cansada, Mukuro-sama, ela pensou, mas não disse. Assentiu. Mukuro aproximou-se, com seu olhar de inferno e estendeu a mão para ela.
— Mas antes terá que dançar comigo.
Moruko já sabia que tudo ia levar àquilo, então agarrou a mão dele. Sua mão tinha sangue e as dele, enluvadas, não. Ela não o encarou, porque tinha medo. Medo dos olhos de inferno, medo do abismo daquele olhar. Medo de se perder lá e pior – gostar de ficar perdida. De certa forma, era quase obrigada a se perder. Chamava-se Kurodu Moruko porque seus pais não conseguiram agradecer com um simples obrigado – sua vida inteira fora sacrificada. Mantinha os cabelos longos por causa dele. Todos os seus atos eram ordens dele. Tudo era ele, ela não era nada sem ele. Mukuro a rodopiou e depois a puxou, encostando a boca em seu ouvido. Ele riu e não disse nada, mas ela ouviu.
Mas antes terá que fazer tudo o que eu quiser que você faça.
(um dia perdido)
Suas costas bateram na parede e ele a encarou. O maldito sorriso de demônio brincando nos lábios.
— Não vai fugir, Moruko?
Ela quis encará-lo e também quis sair correndo. Ela quis repeli-lo de alguma forma, qualquer forma, quis empurrá-lo, quis deixá-lo. Mas só pode abaixar a cabeça, submissa. Obrigada por uma promessa estúpida, por um juramento que não era seu. Seus pais deveriam estar se divertindo no Céu (ou no Inferno, quem sabe?), enquanto ela obedecia Rokudo Mukuro, presa por um laço de nó cego que ela não havia feito.
— Nunca, Mukuro-sama.
Mukuro colocou um dedo abaixo do queixo dela e ergueu o rosto de Moruko. Ela engoliu em seco, os óculos deslizando para a ponta do nariz. Seu coração quase saiu do peito quando encarou os olhos bicolores. Mukuro encostou a boca no pescoço dela e Moruko sentiu o sorriso que ele dava sobre sua veia pulsante.
— Pode correr, se quiser — ele sussurrou. Moruko tentou mexer as pernas, mas elas não saiam do lugar. Moruko não se mexeu.
Tinha caído no abismo, e gostara de lá.
(o que acontece depois da perdição)
Sua cabeça estava pesada e ela abriu os olhos bem devagar. Sentia sono demais. Tateou o criado-mudo, atrás dos óculos. Quando os encontrou e puxou, outra coisa veio junto. Uma luva.
Moruko soltou um palavrão e uma risada ecoou à suas costas.
3. Bibelô
(semanas antes do último dia)
Eu aprendi que a mente humana é algo frágil. Eu aprendi isso sendo usada e consumida pouco a pouco por ele, eu aprendi isso com os dedos dele apertando minha cintura, aprendi isso com os cabelos dele fazendo cócegas no meu corpo, aprendi isso com a boca dele beijando a minha. Eu aprendi coisas demais com ele, mais coisas do que eu gostaria. Eu aprendi que não existe liberdade nesse mundo – pelo menos, não liberdade para mim. Eu aprendi coisas que não queria ter aprendido.
Não queria mais ouvir sua voz me ordenando cada passo, ou me dando ordens e dizendo que eu poderia desobedecê-las, sabendo que eu não as desobedeceria. Eu estava ficando fraca, eu estava definhando. Eu queria minha liberdade – e eu o queria. Mas a minha libertação e ele não poderiam conviver no mesmo espaço.
Por que amá-lo em meio a todo o ódio? Como consegui tamanha proeza? Amar alguém que deveria ser odiado até o último fio de cabelo. Amar alguém que eu temia mais do que qualquer coisa. Talvez ele tivesse me ordenado que eu o amasse. Em algum momento, enquanto eu dormia, a ideia entraria apenas no meu inconsciente. Deveria ter sido algo assim...
Eu não poderia amá-lo por vontade própria. Não podia amar alguém que me obrigara a acabar a vida de outras pessoas. Não podia amar alguém que acabara a minha vida. Não podia amar um abismo.
A mente humana é algo muito frágil.
(dias antes do último dia)
Eu preciso fugir. Eu preciso sair daqui. Eu não quero ouvir os passos dele no corredor. E seu chamado, obrigando-me a parar.
— Moruko... — e logo eu sinto seus braços enlaçando minha cintura. — Pode fugir se quiser.
Mas ele sabe que eu nunca fugirei.
(penúltimo dia)
— Fale, Moruko — ele ordena, com seu sorriso de demônio. Está sentado, com a cabeça apoiada na mão enluvada. Tão calmo. Tão mau. Ele sabe, ele quer, ele pode. — Fale um segredo seu para mim.
Mordo meus lábios e ajeito meus óculos. Tento controlar a raiva e respiro fundo. Devo obedecer. Devo abaixar minha cabeça, por mais que eu queira matá-lo.
— Não tenho segredos com você, Mukuro-sama — murmuro. Mukuro ri. Levanta-se, anda até mim. Solta o meu cabelo, que se espalha como uma cascata. Ele prefere assim. Enfia a mão entre os fios e ergue meu rosto. Seus olhos infernais faíscam para mim e eu me sinto frágil demais.
— Você me ama, Moruko?
Pisco diversas vezes e abro a boca, tentando falar qualquer coisa. Ele só acha divertido demais. Aproxima a boca do meu ouvido.
— Eu te amo. Fuja.
E dessa vez, eu corri.
(último dia)
A porta aberta.
Uma só ordem: corra.
Liberdade.
4. Buquê
(um dia perdido depois do último dia)
Moruko sorriu ao chegar a casa. Um apartamento pequeno, mas seu. Tudo lá era seu. A vida era sua. Tentou ignorar a falta que sentia de qualquer coisa (qualquer alguém) e foi até a cozinha, preparar um café.
— Moruko.
Olhos de abismo, voz de veludo. Um sorriso nos lábios. Ela, com medo. Com olhos arregalados. Ele a estendeu um buquê. Flores brancas. Crisântemos. Moruko pegou o buquê mecanicamente, ainda o encarando. Mukuro soltou uma risada.
— Nunca me respondeu.
— Não preciso mais.
— Verdade. Vai fugir?
Moruko andou até a porta e a abriu. Não precisava mais daquilo. Precisava de liberdade. Mukuro deu de ombros e caminhou calmamente até ela. Afagou sua bochecha.
— Fugirá para sempre, então.
— Vá embora.
— Eu ainda a amo.
A porta fechada. Moruko a esmurrou.
— Eu também te amo, Mukuro-sama.
— Eu ouvi.
Moruko sorriu. Liberdade.
— Eu sei.
N/A: Baixinha, você sabe que eu te ás, balda é mania/hábito. Báratro é inferno/abismo. Bibelô é algo frágil. Então. É, Teddy, eu estava escrevendo. Acontece que eu tinha aquela primeira parte da fic (o "depois do último dia") pronto há um tempão, e hoje abri pensando o que diabos eu poderia fazer com aquilo. E saiu essa fic. Que eu adorei, mesmo, haha. Sei lá, acho que você vai ficar insatisfeita pela crueldade ou algo assim... mas eu gostei. Enfim. Novamente, os títulos dos capítulos são para zoar.
