São uns olhos verdes, verdes
Que podem também brilhar
Não são de um verde embaçado
Mas verdes da cor do prado
Mas verdes da cor do mar
Mas, ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!
Como se lê num espelho
Pude ler nos olhos seus!
Os olhos mostram a alma
(Olhos verdes – Gonçalves Dias)
Dos chicletes e dos cabelos.
Ela bate o pé no chão, porque o sol está torrando sua cabeça e ela não pode sair daquele banco. Claro, ela pode, mas ela prefere ficar lá e esperar. Porque no horóscopo de hoje havia um aviso de que ela receberia a visita de um amor. E uma vidente estranha que passara correndo por ela disse que tudo iria se resolver se ela ficasse sentada naquele banco. Então Lia decidiu que obedeceria.
Lia tinha certa esperança de que fosse certo menino por quem nutria uma paixão platônica – você sabe, cabelos loiros e sedosos, meio curtos, lábios grossos e macios. Provavelmente quentes, e ela descobriria isso quando ele a tomasse pela cintura num primeiro beijo de tirar o fôlego. Ele teria um bom hálito e seria gentil. Ele a atrairia em tudo, um homem perfeito. De perfeitos olhos azuis, é claro. Azuis como o mar Mediterrâneo, azuis como o céu. Olhos azuis que olhariam dentro da sua alma.
Lia suspirou e puxou uns chicletes do bolso do casaco. Eram de menta, seu sabor preferido. Eram muito verdes. Ela abriu um e pôs na boca, no exato momento em que um garoto surgido do nada se sentou ao seu lado. Ela franziu a testa – ele tinha cabelos verdes?
Ficaram em silêncio e Lia se sentiu um pouco incomodada. E se o amor da sua vida chegasse e a visse ali, mascando chicletes ao lado de um moleque estranho? Piscou. Deveria falar alguma coisa, ao menos por educação.
— Está esperando alguém? — perguntou. Ele virou a cabeça para ela, num olhar de puro tédio. Tinha olhos verdes, verdes demais, tão verdes que doíam. Combinavam com os cabelos e os chicletes.
— Não, e você?
— De certa forma... — murmurou. — Quer chiclete?
— Pode ser — ele pegou um e pôs na boca. Era verde demais. — Qual o seu nome?
— Lia. E o seu?
— Fran.
Lia sorriu. Ele voltou a olhar para frente e ela também, esperando seu loiro de olhos azuis. Aquele Fran era verde demais.
Dos chocolates e do cinema em casa.
Era mais um dia de frustração na vida dela. Por que nunca esbarrara num homem loiro de olhos azuis? Aquele horóscopo era uma mentira e aquela vidente também. Muitas coisas eram mentirosas, aliás. Menos o seu melhor amigo, Fran. Fran, o verde; que ela conhecera numa tarde aleatória há um tempo. Quanto tempo? Deveria ser um ano, por aí. Lia não era muito de marcar o tempo.
Lia preferia comer chocolate com menta enquanto assistia algum filminho romântico de quinta categoria com seu melhor amigo. Ela, praticamente a beira das lágrimas, sorrisos nos momentos certos, acessos histéricos quando o casal parecia que não ia terminar junto no final. Ele, a cara de tédio de sempre, enquanto estendia uma mão para pegar outra barra.
— Ai, meu Deus, ai, meu Deus, ai, meu Deus... — Lia começava a ofegar, agarrando a mão de Fran e olhando para a tela com olhos arregalados de emoção. Fran se limitava em arquear as sobrancelhas: sabia que ela estava tão concentrada no beijo que se aproximava que não iria adiantar ele falar qualquer coisa. Quando enfim o moço loiro beijava a moça de cabelos castanhos, Lia soltava a mão de Fran e afundava no sofá.
— Como se você não soubesse que seria assim até o final — ele murmurou, mordendo um pedaço do chocolate. Lia o olhou, com as sobrancelhas arqueadas.
— Acontecem tantas brigas e reviravoltas no meio que eu nunca tenho certeza — Lia retrucou. — Você é que não é romântico, Fran. Fica aí, só comendo esses chocolates...
— Se você comprou, é claro que irei comê-los. São de menta, ainda por cima.
— Nosso sabor preferido — Lia riu. — Mas você não disse nada sobre ser completamente anti-romântico.
— Eu não sou anti-romântico — Fran piscou. — Mas isso que você vê nos filmes não é romance.
— O que é, então? — ela cruzou os braços. Fran ergueu as sobrancelhas e a encarou.
— Um dia você descobrirá.
Do café e do cafajeste.
Era um cara loiro de olhos azuis, e Fran não gostava dele. Lia não entendia o motivo e Fran também não se aprofundava no assunto. Nem fazia uma expressão desgostosa – afinal, ele não fazia expressão nenhuma –, mas ela simplesmente sabia. Deveria ser aquele ciuminho de melhor amigo que quer dar uma de irmão mais velho.
— Você está distraída — Fran murmurou, tomando um gole do seu café. Lia piscou.
— Ah, sim. Perdão. Eu estava pensando no...
—... Eu já sei — Fran deu de ombros. Lia mordeu o lábio.
— Por que você implica tanto com ele?
— Você não sabe?
— Se eu soubesse, não estaria perguntando, não é mesmo?
Fran tomou um gole maior do café. Lia encarou os olhos verdes. Parecia um verde meio morto, embaçado, opaco. Mas ainda assim, ela os adorava. Mesmo que nunca brilhassem. Ela pegou uma balinha de menta que os donos do café deixavam sobre a mesa. No dia anterior, comera um biscoito da sorte que dizia que ela sofreria uma decepção, mas deveria se reerguer. Lia tinha praticamente certeza absoluta que a decepção era o fato de Fran não respondê-la.
— Se você não sabe, não serei eu a contar.
E tinha razão, afinal. Com um pouco de raiva, colocou um dinheiro sobre a mesa e levantou-se, preparando-se para sair. No mesmo instante, via pela janela de vidro um homem loiro beijando uma mulher qualquer de cabelos castanhos. Quase sorriu, se não conhecesse tão bem aquele rosto. Tornou a se sentar.
— Está vendo? — Fran murmurou, antes de tocar o ombro dela de um modo que tencionava ser carinhoso.
Da caixinha e da criança.
— VOCÊ! — Lia gritou, ao ver a vidente que previra sua sorte há tanto tempo. A mulher virou-se e franziu o cenho. Quando Lia estava perto o suficiente, pareceu reconhecê-la e sorriu.
— Teve sua surpresa inesperada?
— Não! Aliás, eu arranjei um melhor amigo, mas tirando isso, minha vida romântica ainda não está dando certo!
— Não? — a mulher perguntou com o cenho franzido. — Deixe-me ler a sua mão, então — puxou a mão de Lia e a ergueu até a altura dos olhos. Ficou muito tempo em silêncio, parecendo ver além do que poderia ser visto e por fim, franziu o cenho de novo. — Como assim não? Está bem óbvio para mim. Não está para você?
— Não! O que é?
A mulher sorriu de forma misteriosa.
— Está bem na sua cara, senhorita. Está mais que óbvio. Só você não vê. Deve olhar além do que vê, aliás. Deve olhar além dos...
—... Isso não é uma fala de O Rei Leão?
A vidente piscou inúmeras vezes, como pega de surpresa. Então, tossiu.
— Quer ou não saber do seu futuro? — indagou, ainda segurando a mão de Lia, que assentiu com convicção. — Como eu dizia, deve olhar além da sua busca incessante pelo azul. Há outra cor que pode não parecer mais bonita, mas no seu caso é. Há uma oportunidade, portas abertas para você. Escancaradas, na verdade. E você deve estar só se negando a entrar... É uma caixinha, senhorita. Uma caixinha aberta que você, criança tola, ainda não olhou dentro. E é outra criança que te espera do lado de dentro, uma criança que ainda está aprendendo a lidar com sentimentos, mas que tem mais conhecimento sobre eles do que você. É isso — e começou a se afastar. Lia abriu a boca.
— Não pode ser mais direta?! — gritou. Porque tinha achado que tinha entendido, mas preferia pensar que era algo completamente diferente. A vidente se virou.
— Acho que você sabe, mas se faz tanta questão... — riu. — Você ama o seu melhor amigo.
O pior nem havia sido isso. O pior havia sido perceber que a vidente havia lhe roubado todo o dinheiro e que Lia nem havia percebido.
Dos complexos e das chances.
Era o sétimo bombom de menta que ela colocava na boca em cinco minutos. Começou a mastigá-lo. Lia batia o pé no chão. Então, tudo bem. Ela sabia daquilo mesmo. Era mais que óbvio. Por que era tão difícil admitir? Parecia com um enredo clichê de filme. Um enredo extremamente clichê. Mas ela gostava de enredos clichês, não gostava? Gostava. Então pronto. Não tinha problema nenhum gostar do melhor amigo. Amar o melhor amigo.
Fran, o verde. Como poderia ter sido tão idiota? Não só de negar isso por tanto tempo, mas também por ter buscado conforto em olhos azuis quando queria olhos verdes. Sabia que queria. Era algo complexo demais, o coração humano.
Mas era a chance dela, certo? Era a chance dela. Chance de ir com a cara e a coragem falar com Fran. Pronto, era simples. Era só isso. Não era? Não podia ser tão complexo, afinal de contas. Fran via as coisas de jeitos mais simples. Pelo menos era o que ela achava.
Da cadência e da conversa.
Toc toc toc, faziam os passos dela no piso de madeira. A respiração de Fran era baixa, mas quase audível naquele silêncio. Queria que ele fosse quebrado logo, mas deveria deixar Lia falar. Ela não lidava muito bem com o desconhecido.
— Acho que... acho que gosto de você. E que a vidente estava certa e o horóscopo também. Ah, deuses. Eu gosto de você. Eu gosto de você.
— Finalmente — Fran murmurou. Os barulhos dos sapatos pararam no chão e Lia o olhou. Deveria haver mais sons lá, mas estava tudo quieto demais. Pelo menos do lado de fora, pois do lado de dentro ambos tinham medo que os corações pudessem ser escutados.
— E agora? — ela murmurou. Fran se permitiu dar um sorrisinho. Lia viu os olhos e cabelos e todo o resto verde se aproximar. O verde dos olhos parecia brilhar e ela sentiu como se pudesse ver tudo através deles.
— Agora é como nos seus filmes de quinta — ele disse.
Gosto de menta. Bem que seu horóscopo tinha dito que a cor do dia era verde.
N/A: Coração, perdoe-me. Eu gosto muito de psicológico para conseguir investir só nos fatos. Acho que essa fic nem vai te agradar, sei lá, mas eu espero que goste. Eu passei a semana inteira – sério, a fucking semana inteira – querendo vir no computador escrever a fic. Na minha cabeça, ela era muito legal. Espero que na sua também seja. Aliás, esse poema é meu preferido do Gonçalves Dias. Um dia alguém faz uma Poeticamente Falando para mim, hahaha. Enfim. Aproveite (ou não). Mas dá um desconto, né. Foi a primeira vez que eu escrevi com o Fran e ele é meio difícil.
